Por Edição MMA Brasil | 04/07/2019 12:00

Sempre marcada por receber cards recheados, chegamos a International Fight Week de 2019, que será encabeçada pela realização do UFC 239, na T-Mobile Arena, em Las Vegas. Como usual, este evento não terá confrontos interessantes exclusivamente em sua porção principal, com o card preliminar trazendo confrontos importantes e com grande potencial de entretenimento – apesar da menor quantidade de nomes conhecidos se comparado com outros anos.

Liderando as preliminares, veremos o retorno do ex-desafiante ao cinturão dos leves Gilbert Melendez, que fará sua segunda incursão ao peso pena buscando encerrar sua seca de vitórias, que em breve fará aniversário de seis anos. Para isso, terá pela frente o prospecto britânico Arnold Allen, que terá em Melendez o principal desafio de sua carreira até agora, e que pode lhe credenciar a entrar no top 15 da divisão em caso de vitória.

Mais cedo, veremos um duelo entre duas ranqueadas no peso palha, com Cláudia Gadelha tentando demonstrar que ainda é uma lutadora de elite da categoria ao enfrentar a sempre resiliente Randa Markos. Ainda, para serem feitas análises, foi escolhido um possível quebra-pau entre os pesos galos Alejandro Pérez e Yadong Song, além do confronto entre Edmen Shahbazyan e Jack Marshman na categoria dos médios.

Sem prévias, ficaram o confronto entre os galos Marlon Vera e Nohelin Hernandez – estreante que entrou de última hora no lugar de Sean O’Malley -, a segunda aparição do promissor peso meio-médio Ismail Naurdiev no octógono, desta vez para enfrentar Chance Rencountre e, abrindo a noite, um combate entre Pannie Kianzad e Julia Avila nos galos femininos.

Peso Pena: Gilbert Melendez (EUA) vs. Arnold Allen (ING)

Por Rodrigo Rojas

O veteraníssimo Gilbert Melendez (22-7 no MMA, 1-5 no UFC) já passou pelas maiores organizações do MMA mundial: Pride, Shooto, WEC e Strikeforce, sagrando-se campeão dos pesos leve nas últimas duas. Com vitórias sobre nomes como Josh Thomson, Shinya Aoki e Clay Guida, ele chegou ao UFC como um dos melhores do mundo na categoria até 70kg, recebendo imediatamente um title shot contra Ben Henderson.

Na disputa pelo título, manteve o alto nível, perdendo uma decisão muito contestada para o então campeão. Depois disso, vitória em uma das melhores lutas da história, contra Diego Sanchez, e nova chance pelo cinturão, dessa vez contra Anthony Pettis. Depois de perder para Pettis, acumulou mais duas derrotas contra grandes nomes entre os pesos leve, além de ser obrigado a passar um ano parado após uma suspensão por doping, até que decidiu se aventurar entre os penas. Novamente foi mal sucedido, tendo sido dominado por Jeremy Stephens, em setembro de 2017.

O retrospecto recente e o cartel de 1-5 no UFC, com a única vitória sendo em 2013, não representam o grande lutador que Gilbert já foi. O “El Niño” que conquistou o cinturão do Strikeforce duas vezes contava com um wrestling acima da média, acompanhado de um ground and pound feroz e um boxe excelente – apesar do jogo em pé limitado -, desenvolvido ao lado dos irmãos Diaz na Cesar Gracie Jiu-Jítsu. Tudo isso unido à capacidade de misturar as ações quando necessário. No auge, o condicionamento físico foi impecável, assim como a resistência característica dos lutadores da sua academia. Prova disso é o fato de só ter perdido por interrupção uma vez em suas quase 30 lutas profissionais. Melendez sofreu em suas últimas derrotas quando enfrentou kickboxers superiores e mais versáteis, capazes de se movimentar lateralmente. Foi especialmente punido contra adversários que utilizaram chutes nas pernas, como Edson Barboza e Jeremy Stephens, que quase aleijaram o californiano.

Arnold Allen (14-1 no MMA, 5-0 no UFC) chegou no UFC em 2014 como um prospecto de elite entre os pesos pena. O próprio corpo vem sendo o maior adversário do britânico invicto no UFC até hoje: as lesões só permitiram que ele fizesse uma luta por ano desde a estreia. Quanto às vitórias, destaque para o duelo entre prospectos contra Makwan Amirkhani, quando superou o finlandês por decisão dividida; e para a virada contra Mads Burnell, quando estava sendo dominado pelo wrestling do dinamarquês, até que achou um belo estrangulamento frontal nos minutos finais da luta.

Allen é um dos grandes representantes da nova geração do MMA. Sendo treinado direto na mistura de artes marciais, não carrega vícios de outras modalidades e conta com um jogo bastante completo. O jogo em pé é bem desenvolvido – com boas combinações de socos retos e chutes na distância, além de alguns uppercuts e cotoveladas no pocket– especialmente nos aspectos ofensivos, já que a parte defensiva ainda conta com muitas brechas, algo normal para um garoto de 25 anos. As finalizações são afiadas e oportunistas, e ele consegue algumas quedas – principalmente do clinch – tendo alguma habilidade trabalhando por cima. Porém, o grappling defensivo ainda é o calcanhar de aquiles do jovem: ele sofreu muito com as quedas de Mads Burnell e de Amirkhani, apesar de os ter vencido.

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A história desse confronto envolve, claramente, a vitalidade de Allen contra o estado decrépito de Melendez. O “El Niño” que venceu Josh Thomson usaria a pressão para jantar Allen tanto no boxe quanto no wrestling, e dificilmente daria alguma chance para o adversário. Entretanto, a realidade é muito distinta. O Gilbert de hoje é um ex-lutador em atividade, e não parece ter mais a habilidade de imprimir a pressão que marcou sua carreira. Além disso, ele não luta desde 2017, quando foi triturado por Stephens. Portanto, o que devemos ver é Arnold usando a movimentação e os chutes para controlar a distância, eventualmente se desvencilhando do jogo de grade do adversário para vencer uma decisão em três rounds.

Peso Palha: #5 Cláudia Gadelha (BRA) vs. #14 Randa Markos (CAN)

Por Gustavo Lima

Hoje quinta colocada no ranking do disputado peso palha, Cláudia Gadelha (16-4 MMA, 5-4 UFC) tem passado por uma onda de resultados e atuações irregulares nos últimos tempos. Se por volta de três anos atrás a potiguar desfrutava do status consensual de segunda melhor atleta da divisão, somente desbancada pela então campeã dominante Joanna Jedrzejczyk, as derrotas para Jéssica Andrade e Nina Ansaroff diminuíram consideravelmente as expectativas sobre a brasileira na divisão.

Outro ponto que levanta reflexões no histórico recente de Cláudia, além das últimas duas derrotas – para grandes adversárias, inclusive -, foram algumas atuações muito abaixo do esperado em combates ganhos pela brasileira. Com a finalização no primeiro round sobre Karolina Kowalkiewicz sendo um contraponto, os triunfos protocolares e pouco empolgantes sobre Cortney Casey e Claudia Esparza (este por decisão dividida) contribuíram posteriormente para questionamentos sobre uma possível supervalorização de uma atleta que, outrora, chegou a ser vista como o mais próximo de uma lutadora completa na divisão, carente do que deveriam ser alguns ajustes pontuais.

Em meio a um período de mudança para os EUA e situação incerta em relação a seu camp por volta de dois anos atrás, Gadelha parece até mesmo ter involuído em alguns aspectos defensivos de seu striking e wrestling, enquanto o maior de seus problemas anteriormente – o cardio – não apresentou grandes evoluções.

Enquanto isso, embora Randa Markos (9-6-1 MMA, 5-5-1 UFC) apresente cartel levemente similar ao de Gadelha dentro do UFC, ela teve dificuldades em se estabilizar na companhia nos seus primeiros passos. Em seus primeiros oito duelos, a ruiva intercalou vitórias e derrotas de forma padronizada, sempre estando longe de alcançar o pelotão de frente, mas nunca correndo risco real de ser cortada pela organização.

No último mês de setembro, o padrão foi quebrado em um empate da canadense com Marina Rodriguez aqui em São Paulo, resultado que precedeu vitória sobre Angela Hill em maio deste ano. A dificuldade de anotar dois triunfos consecutivos ao longo da carreira UFC impediu que Markos tivesse a oportunidade de encarar atletas mais gabaritadas na divisão, embora uma mistura de boas atuações e algumas derrotas contestadas lhe tivessem garantido uma espécie de status de “porteira de meio-de-tabela” no ranking da categoria.

Gadelha arrisca sua posição à mesa da elite da divisão contra a número 14 do ranking e o ponto que torna esse combate mais interessante é a maturação técnica que Randa Markos tem demonstrado, algo que parece ir na contramão do retrospecto recente da brasileira. Embora não tenha um estilo de luta muito empolgante ou vistoso, Markos tem sido cada vez mais eficiente, especialmente com seu jogo de wrestling e controle posicional.

Claudinha, com mais recursos no geral e mais potência nas mãos, é favorita neste duelo, mas precisa tomar algumas medidas cautelares para minimizar as chances de se complicar na consistência pragmática que a canadense traz em seu jogo. A brasileira é uma atleta completa que, em tese, tem qualidade para adaptar seu jogo dependendo das principais valências da adversária. Contra Nina Ansaroff, striker praticamente de DNA, Claudia não conseguiu se impor e acabou sendo derrotada por decisão unânime. Agora, lhe vem um desafio hipoteticamente oposto ao anterior: uma grappler que não é nenhum bicho-papão (*cof cof Tatiana Suarez cof cof*), confronto no qual o uso eficiente da trocação (e do wrestling defensivo) podem garantir a Gadelha uma vitória sem passar por grandes apuros.

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Não é como se Claudia fosse também completamente nula na luta agarrada, longe disso, mas um plano de luta ineficiente ou mal-executado pela brasileira pode facilitar o caminho das pedras para que Markos consiga impor seu jogo e se coloque em situação favorável – especialmente na última parcial. O suor que Carla Esparza deu em Gadelha demonstra que existe um caminho plausível, através do wrestling, para que a ruiva engate sua primeira sequência de vitórias no UFC, especialmente caso a adversária deste sábado resolva esvaziar seu tanque fazendo jogo de isometria e empregando força desnecessária para exercer sua defesa de quedas. Caminho plausível, entretanto, não tão provável. Favoritismo moderado para Claudinha, com algumas ressalvas.

Peso Galo: #14 Alejandro Pérez (MEX) vs. Yadong Song (CHN)

Por Alexandre Matos

Vencedor da primeira temporada do TUF América Latina no peso galo, Alejandro Pérez (21-7-1 no MMA, 7-2-1 no UFC) chegou ao fim de 2018 com um retrospecto sensacional, com seis vitórias e um empate desde a derrota para Patrick Williams, em seu país natal. Já inserido no ranking da categoria, ele tinha um compromisso com Cody Stamman em busca do top 10, mas acabou derrotado por decisão, em março.

Profissional desde os 16 anos, o “Turbo” mexicano deixou de ser um sujeito cru e taticamente confuso para se tornar um lutador perigoso desde que passou a integrar a American Kickboxing Academy por causa da proximidade com Cain Velasquez, seu técnico no reality show. Pérez se especializou nos contragolpes e, com um preparo físico acima da média, consegue muito rapidamente sair da inércia para a explosão de golpes. A técnica ainda carece de maior atenção, mas ele tem o diferencial de conseguir raciocinar debaixo de tiroteio. Na parte defensiva, Stamman mostrou que alguém com wrestling de bom nível consegue derrubá-lo e mantê-lo no chão, diminuindo seu ímpeto ofensivo.

Com passagens pelos pesos leve e pena, Yadong Song (13-3 no MMA, 3-0 no UFC) vem fazendo barulho entre os galos. O jovem chinês venceu os três combates que fez em um ano, incluindo uma bela sova de cotoveladas em Felipe Sertanejo. Neste sábado, fará sua primeira luta no Ocidente, depois de ter disputado dois eventos do UFC na China e um em Singapura. Não faz muito tempo que a China era motivo de chacota no MMA. Em sete anos, o país mais populoso do mundo tem uma desafiante de cinturão em Weili Zhang. Song é um candidato a se tornar o segundo em algum tempo.

Aos 21 anos, profissional desde os 15, ele já cedo fez o correto caminho rumo a uma equipe americana – em seu caso, o Team Alpha Male, na Califórnia. Sob o comando de Urijah Faber, o jovem oriundo do sandá vai aos poucos adicionando conhecimento tático em seu jogo tradicional de pressão bastante elevada. Sob movimentação constante, Song controla bem a distância, com um serviço providencial de socos em linha e alguns chutes em bom tempo. O pessoal da Alpha Male está melhorando sua defesa de quedas e o jogo de clinch, que pode desempenhar papel importante neste sábado.

Alejandro Perez vs Song Yadong odds - BestFightOdds
 

Sabe aquela pancadaria honesta, franca, como se não houvesse amanhã? É bem provável que Pérez e Song protagonizem uma dessas.

Na disputa de pressão contra pressão, provavelmente Song deve vir com uma estratégia para operar nas duas extremidades da distância, ora apostando em jabs e diretos, ora encurralando o mexicano na grade e o lançando ao chão. Neste ínterim, espere que Alex invada o raio de ação do chinês para forçá-lo a trocar enlouquecidamente. A aposta é numa vitória por decisão de Yadong Song.

Peso Médio: Edmen Shahbazyan (EUA) vs. Jack Marshman (WAL)

Por Idonaldo Filho

Contratado por via do Contender Series, Edmen Shahbazyan(9-0 no MMA, 2-0 no UFC) vem sendo tratado com carinho pelo UFC em seus casamentos de luta com razão, por ser um atleta de apenas 21 anos que é bastante promissor. O descendente de armênios treina com Edmond Tarvedyan em Glendale, sendo agenciado por Ronda Rousey, e tem atualmente duas vitórias na organização, a primeira em um chato duelo contra Darren Stewart e a segunda em um rápido nocaute sobre Charles Byrd, com cotoveladas no clinch.

Peso médio de boa estatura, Shahbazyan é um atleta versátil. Ao ser contratado, era esperado um lutador que busca o nocaute a qualquer custo, mas logo em sua estreia ele demonstrou que sabe muito bem misturar suas valências, usando um wrestling agressivo e pressão constante para conseguir a vitória sobre um perigoso Darren Stewart. Além da trocação poderosa, mas que ainda carece de técnica, Edmen mostrou que sabe atacar no clinch, mesmo em posições complicadas. Como esperado de um atleta jovem, ele ainda é imaturo defensivamente e não sabe muito bem dosar seu gás, mas coração certamente não falta ao americano, e isso foi confirmado em sua primeira luta na organização.

Jack Marshman (23-8 no MMA, 3-3 no UFC) é um veterano do MMA britânico e, que em sua passagem no UFC, acrescenta pouco a categoria em sentido esportivo, mas muito em entretenimento aos fãs. Anteriormente dividindo seu tempo como lutador com o trabalho no exército, Marshman chegou a infringir ordens de seus superiores ao aceitar o combate contra John Phillips de última hora em março, mas saiu vitorioso – em luta polêmica – e agora irá se desvincular do trabalho, focando somente no UFC. Irregular em seus resultados, ao sair vitorioso em seu último combate ele encerrou uma sequência negativa de duas derrotas e assegurou sua permanência na organização.

Outro lutador de coração enorme, o resiliente galês é acima de tudo um brawler, que aplica seu boxe de preferência na curta distância e adora trocar sopapos sem observar a técnica e a defesa, buscando acertar o oponente com golpes de muita potência. Ele chegou a mandar Thiago Marreta – hoje desafiante ao cinturão dos meios-pesados – a knockdown quando se enfrentaram em 2017. O jogo de chão é o calcanhar de aquiles de Marshman, uma vez que o galês é ruim defendendo quedas e não oferece muitos obstáculos no solo, sendo presa fácil para competidores mais preparados nessa área.

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Para Shahbazyan, este é um duelo parecido com o que foi sua estreia, tendo pela frente um nocauteador unidimensional e que oferece bastante perigo em pé. Para Marshman, a estratégia deverá ser entrar na distância e tentar levar o duelo para a trocação franca. Porém, acredito que Edmen será inteligente e levará o galês para o chão, conquistando lá uma finalização ou um nocaute técnico, sendo mais provável o último.