Por Edição MMA Brasil | 07/06/2019 01:10

Em um evento cujo card preliminar supera vários Fight Nights, imagine seu principal. O United Center, ginásio que viu o maior jogador da história do basquete enfileirar títulos pelo Chicago Bulls, será palco do UFC 238, que será liderado por duas disputas de título.

Depois da deposição de TJ Dillashaw, o cinturão dos galos ficou vago. O UFC então escalou o desafiante número um, Marlon Moraes, para encarar o campeão da divisão de baixo, Henry Cejudo, que nocauteou Dillashaw em janeiro. O outro título em jogo será o de Valentina Shevchenko, que faz a primeira defesa da coroa do peso mosca contra Jessica Eye, que praticamente ressuscitou na nova categoria.

Os confrontos por cinturão serão antecedidas por dois duelos com potencial para disputar o posto de luta do ano. Pelo peso leve, o ex-campeão interino Tony Ferguson enfrenta Donald Cerrone. Antes, um quebra-pau épico é esperado para o encontro do jovem Petr Yan com Jimmie Rivera, pelo peso galo. Os pesados abrem a transmissão em pay-per-view com Tai Tuivasa batendo de frente com Blagoy Ivanov.

O UFC 238 terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O card preliminar está marcado para começar às 19:15h, enquanto o principal deve ir ao ar às 23:00h, sempre pelo horário de Brasília.

Cinturão Peso Galo: C FLW Henry Cejudo (EUA) vs. #1 Marlon Moraes (BRA)

Por Alexandre Matos

A primeira corrida de Henry Cejudo (14-2 no MMA, 8-2 no UFC) rumo ao título dos moscas esbarrou na fase mítica de Demetrious Johnson. A segunda começou mal, com uma derrota controversa para Joseph Benavidez. Contudo, terminou de modo épico, quando acabou com o maior reinado da história do UFC e facilitou a saída de Johnson rumo ao ONE Championship. Em seguida, recebeu a visita de TJ Dillashaw e o nocauteou em reles meio minuto.

Único campeão do UFC e olímpico da história, Cejudo tem base mais do que explorada no wrestling estilo livre. Ele executa double legs tão bem que derrubou Johnson quatro vezes nos dois encontros. Tem capacidade de migrar entre o clinch e o single leg sem perder a pegada e mostra bom controle posicional, embora possa melhorar neste aspecto no MMA. Se não bastasse a habilidade muito acima da média na luta olímpica, Henry ainda mostra um híbrido entre muay thai e caratê, que desenvolveu nas visitas à Tailândia e na Pitbull Brothers. A capacidade de retaliação no contragolpe foi fundamental, juntamente com o wrestling, para a conquista do cinturão.

O percurso de Marlon Moraes (22-5-1 no MMA, 4-1 no UFC) até esta disputa do maior título do MMA mundial também começou mal. Ele esbarrou numa polêmica derrota para Raphael Assunção, no Rio de Janeiro, e conquistou uma vitória apertada contra John Dodson. No entanto, o que veio pela frente foi épico: dois nocautes monstruosos, um via joelhada e outro com chute alto, despachando Aljamain Sterling e Jimmie Rivera em 67 e 33 segundos, respectivamente. O posto de desafiante veio na redenção contra Assunção, finalizado em pouco mais de meio round depois de um knockdown robusto.

Marlon fez fama no MMA com um muay thai hiper agressivo e de muita potência. Seus chutes baixos destroem bases de equilíbrio e os altos promovem encontros de pessoas com o sete-pele. O uso dos punhos aumentou um pouco desde os tempos de WSOF, mas ainda há espaço para melhorar a precisão. O faixa-preta de Ricardo Cachorrão também tem quedas decentes e é oportunista no chão. Ou seja, o striker unidimensional virou um lutador que navega em todas as áreas do MMA.

Henry Cejudo vs Marlon Moraes odds - BestFightOdds

Cejudo passou o primeiro terço da carreira como peso galo e tinha certa dificuldade de bater o limite do mosca, então ele deve reagir bem ao aumento de peso. Caso contrário, Marlon terá uma vantagem muito importante se o excesso minar o condicionamento do americano.

Se o confronto acontecesse entre o wrestler unidimensional contra o striker unidimensional, a aposta recairia em Marlon pela enorme capacidade de deitar corpos somada à defesa mediana de Cejudo. Com a melhoria de ambos, o cenário muda para um panorama mais equilibrado.

Como Marlon não é um lutador de imprimir alto volume de golpes, Cejudo terá tempo de armar entradas de queda para manter no chão o risco de ser nocauteado. Trocar pau em pé não deve ser uma saída para o americano. Como o jogo de pernas do “Mensageiro” melhorou muito, ele poderá circular bastante, atuando como contragolpeador, evitando os momentos de explosão do oponente, em busca da abertura para a queda, ganhando rounds assim. Porém, a concentração terá que ser enorme, pois Marlon pode dar cabo dele rapidamente.

Temos duas possibilidades de aposta: Marlon por nocaute no primeiro assalto ou Cejudo por decisão.

Cinturão Peso Mosca: C Valentina Shevchenko (KGZ) vs. #1 Jessica Eye (EUA)

Por Diego Tintin

Valentina Shevchenko (16-3 no MMA, 5-2 no UFC) representa uma das mais duras batalhas que alguém pode encarar no MMA atual. Já na sua segunda aparição no octógono, sofreu uma dolorosa derrota para Amanda Nunes, em luta que esteve perto de virar após início difícil. Depois deste revés, considerada uma zebra, conquistou uma grande vitória contra a ex-campeã Holly Holm. Em seguida, barrou o crescimento de Julianna Peña, com mais uma atuação de gala.

A loirinha teve nova chance pelo cinturão do peso galo contra a atual campeã Amanda. Ao fim de cinco duros rounds, viu uma decisão apertada em favor da Leoa. A quirguiz naturalizada peruana então desceu uma divisão e destruiu a estreante Priscila Cachoeira em casamento de luta inexplicável, lutando no Brasil, vizinho à sua pátria adotiva. Em seguida, pegou sua freguesa de luxo, a lendária Joanna Jedrzejczyk, e conquistou um triunfo impressionante, garantindo o título que estava sem dona no peso mosca.

O currículo e o repertório da “Bullet” na luta em pé são impressionantes: mestre internacional e campeã mundial de muay thai e taekwondo, mais de 60 lutas profissionais entre boxe e kickboxing, com apenas duas derrotas e vitórias em várias etapas do K-1. As especialidades da casa são os contragolpes em alta velocidade, além de resistência e condicionamento acima da média. A luta agarrada ainda não é de elite, mas já não é mais um ponto fraco e, diante de oponentes não especialistas, pode ser considerada uma verdadeira ameaça.

Em um certo momento, Jessica Eye (14-6 no MMA, 4-5 no UFC) acumulava quatro derrotas consecutivas na organização e parecia que seu futuro seria fora do principal evento do mundo. Hoje, depois de migrar do peso galo para o mosca, vem de três vitórias seguidas e está escalada em uma luta por cinturão. Afinal de contas, qual destas Jessicas é a verdadeira?

A resposta é um meio-termo desses extremos. A fase ruim aconteceu por motivos que vão além de sua capacidade técnica, uma vez que teve problemas com a qualidade das adversárias (Julianna Peña, Sara McMann e Miesha Tate) e até uma decisão controversa por parte dos jurados (Bethe Correia). Outras decisões duvidosas, porém, fizeram parte de sua sequência positiva, contra Kalindra Faria e Katlyn Chookagian.

Na nova divisão, Jessica pôde mostrar melhor o boxe bem ajustado que só tinha aparecido nas distantes vitórias sobre Leslie Smith e Sarah Kaufman (transformada em no contest por uso de maconha). O bom volume ofensivo não encontra equivalência no âmbito defensivo, pois a americana fica exposta ao atacar um tom acima do recomendável e de forma desorganizada. O grappling até funciona contra concorrência mais frágil, o que definitivamente não é o caso de Valentina. O condicionamento físico é acima da média e costuma ser o suficiente, embora ainda não tenha sido testado em cinco rounds.

Jessica Eye vs Valentina Shevchenko odds - BestFightOdds

O esforço travado por Eye, desde sair de uma lutadora prestes a perder o emprego, até se tornar desafiante, é louvável e virou uma história bonita de superação. Contudo, esta trajetória deve parar por aqui, porque a diferença de nível neste duelo é formidável.

Shevchenko pode suplantar a americana fazendo bom uso de seus contra-ataques, explorando as investidas descuidadas de Jessica. Ou até mesmo levando a luta para o solo e gastando seu emergente ground and pound, cada vez mais poderoso e violento. Imagino que a fatura esteja liquidada antes dos rounds de campeonato.

Peso Leve: #2 Tony Ferguson (EUA) vs. #4 Donald Cerrone (EUA)

Por Alexandre Matos

Tem sido uma campanha memorável para Tony Ferguson (24-3 no MMA, 14-2 no UFC). Já se foram 11 vitórias consecutivas, a maior sequência da história do peso leve, empatado com Khabib Nurmagomedov. Nas últimas sete, ele abocanhou sete bônus. Nas últimas cinco, quatro foram por interrupção. No duelo mais recente, dez minutos de um quebra-pau antológico contra Anthony Pettis, que não voltou para o último round.

Aquele boxer-wrestler pouco imaginativo que venceu o TUF 13 e perdeu para Michael Johnson não existe mais. Ferguson se tornou um lutador versátil, que vence praticamente todos os scrambles e que imprime um ritmo de socos e chutes dos mais absurdos que o MMA já viu, tudo isso debaixo de uma capacidade ímpar de receber castigo e continuar andando para a frente. Na verdade, Ferguson se alimenta de sangue. A cada melado que escorre de sua cara, o nível de psicopatia do cidadão aumenta. Lutar com ele é mais do que tudo um esforço físico e mental hercúleo.

Falou em bônus, falou em Donald Cerrone (36-11 no MMA, 23-8 no UFC). Aliás, o que não lhe faltam são marcas. Maior quantidade de vitórias na história do UFC (23), maior quantidade de bônus (17), interrupções (16) e knockdowns (20). Desde que voltou ao peso leve, após passagem mediana pelos meios-médios, o “Cowboy” reencontrou as excelentes atuações e as vitórias, quebrando o hype de Alexander Hernandez e batendo Al Iaquinta no modo clássico Cerrone, aumentando vertiginosamente o volume conforme a luta progredia.

Kickboxer muito talentoso e versátil, capaz de nocautear com qualquer tipo de chute ou de soco. Jiu-jiteiro de mão cheia, de guarda ativa e ótima capacidade de capitalizar as oportunidades. Até mesmo o wrestling, que era meio sem-vergonha, melhorou na passagem pelo meio-médio e segue firme. Para completar, o velho problema de começar devagar praticamente não existe mais. No lado ofensivo, o veterano Cerrone está no ótimo nível de sempre. Defensivamente, no entanto, há buracos para todos os lados. Para piorar, persiste a antiga dificuldade de suportar pressão – neste sábado, isso será um problema gigantesco.

Donald Cerrone vs Tony Ferguson odds - BestFightOdds

Este é um combate curioso. Promete uma pancadaria épica, mas as muitas variantes levam quase sempre ao mesmo vencedor.

Cerrone melhorou na questão dos começos lentos e pode aprontar algo no início da luta, mas a capacidade de encaixe de Ferguson é absurda. Pior, Ferguson costuma avançar para cima de quem lhe agride num volume sufocante. A vantagem na envergadura que o “Cowboy” costuma ter não acontecerá agora e se embolar com Ferguson na luta agarrada nunca é boa ideia. O que sobra é a agressividade patológica de Tony, um cenário que ao longo do tempo se provou o principal calo no jogo de Cerrone.

Tony Ferguson por finalização no terceiro assalto. Dois bônus para ele e um para Cerrone.

Peso Galo: #7 Jimmie Rivera (EUA) vs. #9 Petr Yan (RUS)

Por João Gabriel Gelli

Depois de montar uma bela sequência de cinco vitórias para iniciar sua carreira no UFC, Jimmie Rivera (22-3 no MMA, 6-2 no UFC) não se encontra no melhor momento. Ele saiu vitorioso em uma boa dose de lutas duras, com vitórias sobre os brasileiros Iuri Marajó, Pedro Munhoz e Thomas Almeida. No entanto, viu sua série de quase dez anos sem derrotas cair ao ser nocauteado em cerca de 30 segundos por um espetacular chute de Marlon Moraes. Rivera se recuperou em um triunfo burocrático contra John Dodson, mas acabou superado por Aljamain Sterling na última aparição.

Rivera se notabilizou por ter o estilo clássico de sua equipe, o Team Tiger Schulmann. Dessa forma, apresenta um boxe ajustado, com o qual tenta impor a luta na curta distância. Ali, costuma ter vantagem graças ao fato de possuir mãos rápidas e um bom tempo de reação. Além disso, combina estes fatores com uma defesa de quedas de bastante qualidade e um wrestling ofensivo razoável. Por outro lado, a defesa de golpes em pé ainda deixa a desejar e tornou muitas de suas lutas mais parelhas do que deveriam.

Um dos lutadores mais empolgantes do cenário regional até o momento de sua contratação pelo UFC, Petr Yan (12-1 no MMA, 4-0 no UFC) chegou como uma promessa de muito valor para o peso galo. Com credenciais de duas vezes campeão da categoria no ACB e uma das melhores lutas de 2016 no currículo, Yan está em ascensão meteórica no UFC. Em pouco menos de um ano já fez quatro combates, subindo de nível gradativamente ao nocautear Teruto Ishihara e Douglas D’Silva, espancar Jin Soo Son e superar John Dodson de maneira clara. Agora, fará sua estreia nos Estados Unidos.

Quando se tenta categorizar Yan, o melhor molde possível é o de um lutador de ação ultra atlético. Ele apresenta um ótimo volume de golpes e, assim como o adversário de sábado, prefere a curta distância. Ele exibe um ótimo trabalho de pés para se aproximar e exercer pressão em seus oponentes. Embora tenha preferência pela luta em pé, também tem algumas qualidades no wrestling e pode fazer estragos no clinch. Defensivamente, ainda é um tanto esburacado e pode dar brechas na trocação, apesar de estar melhorando nisso, e faz um bom trabalho ao escapar de quedas, normalmente por ser muito rápido para levantar.

Jimmie Rivera vs Petr Yan odds - BestFightOdds

Como se tratam de dois lutadores que gostam de pressionar e lutar muito próximos de seus adversários, é esperado que os dois se encontrem no centro do octógono e troquem sopapos de forma ininterrupta. O fato de Yan apresentar um arsenal mais versátil e ser melhor justamente na zona de conforto de Rivera pode tornar esta uma noite longa para o americano. Some a isso o fato de Yan ter a vantagem no atleticismo e tem-se a receita para uma vitória por decisão ou até um nocaute tardio a favor do russo.

Peso Pesado: #11 Tai Tuivasa (AUS) vs. #13 Blagoy Ivanov (BUL)

Por Rodrigo Rojas

Aos 24 anos, Tai Tuivasa (8-1 no MMA; 3-1 no UFC) chegou como um muito necessário sopro de renovação na combalida categoria dos pesados, ao nocautear Rashad Coulter com uma joelhada voadora no primeiro round.

Nas lutas seguintes, passou por Cyril Asker, por nocaute técnico, e pelo velho de guerra Andrei Arlovski, por decisão unânime. O choque de realidade veio no último combate, contra o ex-campeão Júnior Cigano, em que acabou derrotado no segundo round.

Muito jovem e atlético para a divisão, “Bam bam” é um striker surpreendentemente móvel para um sujeito de mais de 120kg. O tamanho é traduzido principalmente em potentes chutes baixos e ganchos de encontro. O australiano é bom tanto trocando no pocket quanto no clinch, onde solta violentas cotoveladas e tem facilidade para controlar os adversários, por conta da grande força física. No chão, mostrou-se totalmente leigo, tanto por cima quanto por baixo, utilizando-se apenas do tamanho para tentar quedas ou levantar-se, sem nenhuma menção de avançar posições, buscar finalizações ou trabalhar o ground and pound.

O condicionamento também não é dos melhores, mas nada de anormal para a categoria que habita. Outro dos trunfos de Tuivasa é sua enorme capacidade de absorção de golpes, apesar da falta de técnica em sua defesa.

Blagoy Ivanov (17-2 no MMA; 1-1 no UFC) tem uma história interessante nos esportes de combate. O veterano, que foi campeão do WSOF e chegou à final de um torneio do Bellator, passou quase dois anos afastado dos octógonos após ser esfaqueado e quase morrer em uma briga de bar. No UFC, chegou com moral, enfrentando Júnior Cigano logo de cara, quando acabou derrotado por decisão unânime. Na última aparição, venceu Ben Rothwell em uma clássica luta modorrenta entre pesos pesados.

“Baga” tem uma longo histórico no grappling, com origem no sambo, esporte em que foi campeão mundial e chegou a vencer o lendário Fedor Emelianenko. Além disso, o búlgaro é faixa preta e já competiu no judô. Porém, ele parece ter esquecido isso nas últimas lutas, em que apostou em sua trocação rudimentar, porém potente e razoavelmente efetiva, especialmente nos contragolpes. Em pé, ele movimenta-se bastante, enquanto tenta lançar alguns jabs ou ganchos quando o oponente invade sua distância. No clinch, Ivanov tem, como esperado, belas quedas, mas não as tem demonstrado ultimamente. O jogo no chão já foi bastante efetivo, com um ground and pound potente e finalizações grosseiras.

Blagoy Ivanov vs Tai Tuivasa odds - BestFightOdds

Blagoy tem as habilidades para encurtar, derrubar, e fazer o que quiser no chão. Porém, o búlgaro parece ter esquecido essa faceta do seu jogo há anos. Assim, o mais provável é que a luta transcorra em pé, onde Tuivasa tem alguma vantagem. O australiano deve dominar o centro do octógono, marcando o adversário com seus poderosos chutes baixos, levando a melhor nas trocas no pocket e, eventualmente, encurtando para o clinch, evitando as possíveis tentativas de quedas do adversário. É possível que Tai encontre um nocaute com algum golpe limpo, porém, o cenário mais provável é uma vitória por decisão unânime do jovem australiano, já que Ivanov é bastante resistente para a divisão.