Por Edição MMA Brasil | 09/05/2019 22:07

Em mais um evento realizado no Brasil, o UFC retorna ao Rio de Janeiro para realizar o UFC 237 diretamente da Jeunesse Arena. E por mais que o card principal do evento esteja recheado de nomes famosos, a porção preliminar não fica para trás, com nomes carimbados no país.

O veteraníssimo Rogério Minotouro retorna para enfrentar Ryan Spann pelos meios-pesados, Thiago Moisés tenta vencer a primeira na organização contra Kurt Holobaugh, Bethe Correia tem missão complicada de enfrentar Irene Aldana, os brasileiros Warlley Alves e Serginho Moraes se enfrentam pelos meios-médios e, por fim, o lendário BJ Penn lutará pela primeira vez no Brasil ao enfrentar o veterano Clay Guida.

Peso Meio-Pesado: Rogério Minotouro (BRA) vs. Ryan Spann (EUA)

Por Gustavo Lima

Além da amarga sensação inicial de que o UFC tem depositado uma confiança excessiva no nome de veteranos quando se trata de Brasil, o duelo principal que encerra a parcela preliminar do card do UFC 237 não desperta nenhuma empolgação no fã de MMA. Com exceção do fã mais casual que talvez possa se empolgar pra ver o lendário Rogério Minotouro (23-8 no MMA, 6-5 no UFC) em ação, esse combate não traz nenhum grande chamariz que faça jus ao posto que ocupa.

O “Lil’ Nog”, atualmente com 42 anos de idade (um dos atletas mais velhos no plantel da companhia e o segundo brasileiro, atrás apenas de Anderson Silva), passa a impressão de estar no canto do cisne há, no mínimo, 5 anos. Sua última vitória sobre alguém relevante foi contra Rashad Evans, no mês de fevereiro de 2013.

Desde então, são cinco duelos realizados e um período de mais de um ano de hiato entre 2016 e 2018 – passando por lesões e uma violação da USADA por suplemento contaminado. As atuações nesse período não só passaram longe de encher os olhos, mas também causaram a impressão de que foram gradativamente embicando pra baixo em uma análise qualitativa mediante o avanço do tempo. A última derrota para Ryan Bader deu o mapa da mina para wrestlers fortes e com jogo característico de controle de chão, enquanto sua última vitória (Sam Alvey no UFN: Marreta vs. Anders) mostrou que, o outrora refinado boxe, já não é mais o mesmo.

Ao mesmo tempo em que o rendimento só tende a diminuir e agora em proporção cada vez mais exponencial, Minoto rechaça a aposentadoria em grande parte das vezes que é questionado sobre. Sob a ótica de quem está do lado de cá da jaula, por mais que seja incômodo “empurrar” uma lenda para pendurar as luvas, é impossível não sentir que Nogueira já deixou tudo o que podia lá em cima e não tem mais nada a conquistar ou provar. Após anos de pancadaria e um marca indelével na história do MMA junto a uma geração que revolucionou o esporte nos idos de 2000, é quase um consenso que Antônio Rogério deveria preservar sua saúde e ajudar as artes marciais em nosso país trabalhando nos bastidores, por toda a experiência que possui e a força que seu nome sempre terá por todos os serviços prestados ao esporte ao soar do gongo através dos quase 20 anos de carreira.

Se Ryan Spann (15-5 no MMA, 1-0 no UFC) ainda não tem o status de grande promessa ou apresenta background técnico louvável em nenhum dos aspectos de seu jogo, o ex-campeão do LFA e duas vezes participante do Contender Series abre como franco favorito frente ao veterano brasileiro. Se apresentando como um striker forte e esguio (cerca de 8 cm a mais de altura e 15 de envergadura em relação a Minoto) que possui um jiu-jítsu perigoso na manga (10 vitórias por finalização dentre suas 15), dificilmente conseguimos vislumbrar cenário onde o garotão de 27 anos não supere em aspectos técnicos e, posteriormente, físicos. Se o melhor caminho para o atleta da casa seria encurtar a distância e eventualmente grampear o “Superman” no dirty boxing, a disparidade de condição física entre ambos nos leva a acreditar que isso definitivamente não acontecerá. Isso nos leva de volta para as inferências feitas nos primeiros parágrafos.

Spann pode se beneficiar por usar o posto que essa luta ocupa e o nome forte que Lil’ Nog possui, mas a verdade é que o veterano não é mais métrica para avaliar tecnicamente um nome em ascensão que busca se destacar na carente categoria dos meios-pesados. É bom pontuar que, na estreia contra KLB, o americano foi derrubado diversas vezes e deixou no ar questionamentos sobre como seria seu desempenho contra um wrestler mais técnico e mais “carrapato” em termos de controle posicional, isso abriria precedente pra um casamento muito mais valioso para a categoria e para o desenvolvimento de Ryan como um todo.

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A conclusão, todavia, é de que Ryan Spann deve sair com o braço levantado do cage no sábado, com alguma incerteza sobre qual o grau de resistência que o brasileiro deverá apresentar. No caso de um atropelo ou de um domínio total de quinze minutos, nosso Minotouro deveria, com carinho, repensar a permanência neste esporte tão desgastante e ingrato.

Peso Leve: Thiago Moisés (BRA) vs. Kurt Holobaugh (EUA)

Por Rodrigo Rojas

Campeão mundial de jiu-jítsu na faixa azul e ex-campeão do RFA, Thiago Moisés (11-3 no MMA; 0-1 no UFC) já foi considerado um bom prospecto brasileiro na categoria mais disputada do MMA.

Envolvido com artes marciais desde muito cedo, o paulista conquistou a vaga no UFC com um belo nocaute no Contender Series Brasil. Na estreia, foi dominado pelo wrestling e controle posicional do experiente Beneil Dariush em uma atuação bastante decepcionante, em que não mostrou ter nenhuma resposta para as ofensivas do adversário.

Além do excelente jiu-jítsu como ponto forte, Moisés conta com um kickboxing agressivo e de bom nível – apesar da movimentação plantada e pouco efetiva – ensinado pelo pai, que é faixa preta na modalidade. Ele utiliza principalmente cruzados e ganchos na curta distância, aliados aos potentes chutes em todos os níveis. Thiago treina na American Top Team e, apesar de muito jovem, tem experiência inclusive em lutas de cinco rounds, em que provou ter bom condicionamento físico. Ainda que seja talentoso e tenha bom potencial, o brasileiro chegou ao UFC muito cedo e ainda tem muito a evoluir até poder bater os melhores lutadores da categoria.

Assim como seu adversário de sábado, Kurt Holobaugh (17-6 no MMA; 0-3 no UFC) busca a primeira vitória na maior organização do mundo após aparecer no Contender Series. Na ocasião, o americano teve uma bela atuação contra Matt Bessette, nocauteando no primeiro round. Porém, viu o resultado virar um no contest após ser suspenso por utilizar reidratação intravenosa.

O veterano de 32 anos já passou por organizações como o Strikeforce e o Titan FC, onde conquistou cinturões em duas categorias diferentes com vitórias sobre Gesias Cavalcante e Desmond Green. Holobaugh inclusive já esteve no UFC antes, perdendo para Steven Siler em 2013. Na passagem mais recente, perdeu para Raoni Barcelos em uma luta muito dura e chegou perto de nocautear Shane Burgos, antes de ser pego em uma chave de braço justa na guarda.

Voltando aos pesos leves após fazer suas duas lutas no UFC entre os penas, Kurt tem uma boa trocação marcada principalmente pela agressividade, alto volume e pressão, ainda que não muito alinhada. Seus melhores momentos são na troca franca de golpes no pocket, onde ele tem facilidade em achar o queixo do oponente e se defende relativamente bem. O jiu-jítsu, sua arte marcial de origem, é bastante sólido e lhe rendeu a maior parte das vitórias na carreira, mas não deve causar maiores problemas para Moisés. Por conta do estilo agressivo, seu condicionamento pode falhar em lutas mais longas – como evidenciado no duelo contra Raoni Barcelos – assim como o grappling defensivo, que conta com uma defesa de quedas bastante vazada e muitas posições perdidas no chão.

Kurt Holobaugh vs Thiago Moises odds - BestFightOdds

O confronto tem tudo para ser bastante divertido. Os dois são trocadores agressivos e não tão técnicos, o que tornará as trocas de golpes uma loteria. Porém, o americano deve se sair melhor nesse quesito. Ainda assim, a luta deve acabar no chão em algum momento. Nessa área, o brasileiro é mais técnico e tem maior bagagem, apesar de ter sido controlado por Dariush. As ações devem ser equilibradas em pé, e Moisés deve levar a melhor na luta agarrada. Assim, a aposta, sem muita certeza, é em uma vitória do brasileiro, finalizando ou na decisão.

Peso Galo: #10 Irene Aldana (MEX) vs. #12 Bethe Correia (BRA)

Por Bruno Costa

Irene Aldana (9-4 no MMA, 2-2 no UFC) tenta engrenar de vez chegando à terceira vitória consecutiva depois de um início complicado na organização, quando cercada de alguma expectativa acabou derrotada por Leslie Smith e Katlyn Chookagian.

Uma lutadora de boa envergadura e com predileção pela luta em pé, a mexicana é uma boxeadora competente, de bom ritmo e mãos pesadas para a categoria, mas que deixa um pouco a desejar no quesito velocidade. A defesa de quedas ainda necessita de melhoras, e a falta de confiança nessa área parece afetar também a capacidade em trocar golpes com as adversárias de bom wrestling ofensivo – por vezes, mesmo sendo mais qualificada, a mexicana se preocupa excessivamente com o perigo de ser colocada de costas para o solo e se defende com menos cuidado do que o necessário.

Nos últimos combates teve sucesso em impedir a luta de solo de Talita Bernardo, dominando a luta na trocação, e demonstrou calma e competência para lidar com a velocidade e intensidade de Lucie Pudilová, fazendo ajustes nos rounds finais para vencer uma dura oponente.

A veterana Bethe Correia (10-3-1 no MMA, 4-3-1 no UFC), primeira brasileira a disputar o título do peso galo, tem atravessado um momento conturbado desde a oportunidade em que desafiou Ronda Rousey. Voltando de uma complicada lesão de deslocamento de retina, que impediu sua liberação médica para competir no UFC 227, tenta retomar o caminho das vitórias após ser brutalmente nocauteada por Holly Holm em junho de 2017.

As vitórias definitivas e convincentes no octógono aconteceram num longínquo começo de campanha no UFC, numa categoria ainda em estágio inicial de desenvolvimento e contra oponentes de nível muito inferior às adversárias integrantes do ranking atual.

Bethe é uma lutadora que prefere levar a luta com baixo volume de golpes trocados, tentando apostar em contra-ataques potentes e pesados chutes baixos para pontuar na luta em pé. O jogo de quedas e domínio posicional visto no início de caminhada da paraibana não se sustentou contra competição de boa qualidade. O jogo de clinch se baseia mais na força do que na técnica, o que acaba por tornar um tanto quanto previsível o leque de opções ofensivas de Correia.

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Para sair vencedora no sábado, Bethe precisa definir e executar um plano de jogo à perfeição. Como utiliza com mais frequência e competência que a adversária os chutes baixos, poderia se utilizar dessa arma para desestabilizar a base de Aldana e misturar aos fortes overhands de contragolpes e tentativas de quedas para preocupar a mexicana, mesmo que a falta de explosão e agilidade prejudiquem a missão. Para Aldana, é necessário trabalhar com inteligência, se valendo da vantagem de técnica e de envergadura, imprimindo alto volume no boxe para causar desconforto na brasileira, com cuidados defensivos para não se expor desnecessariamente, sendo este o cenário mais provável, fazendo com que Aldana saia vitoriosa pela decisão dos juízes laterais.

Peso Leve: BJ Penn (EUA) vs. Clay Guida (EUA)

Por Diego Tintin

Quem vê BJ Penn (16-13-2 no MMA, 12-12-2 no UFC) lutar nos últimos anos, talvez não imagine que este foi um dos mais talentosos campeões que o MMA já viu. O “Prodígio” conquistou o cinturão do UFC em duas divisões de peso (leve e meio-médio), fez história contra nomes como Georges-St-Pierre, Matt Hughes, Renzo Gracie, Takanori Gomi, entre muitos outros. Mas a realidade atual nos apresenta um camarada que insiste em subir no octógono sem ter condições para isso. O resultado é um constrangimento contínuo, que só aumenta cada vez que BJ é derrotado por oponentes que nem veriam a cor da bola nos seus bons tempos.

Na década passada, o havaiano era veloz, técnico e oportunista na luta em pé, mesmo enfrentando na maioria das vezes lutadores maiores e mais fortes. No solo, era uma referência entre os pesos mais leves, além de apresentar defesa de quedas imponente e criatividade marcante. Todavia, tudo isso faz parte de um passado cada vez mais distante. Hoje em dia, o ex-campeão parece um espectador leigo atirado por engano para dentro da jaula para enfrentar lutadores profissionais. Sem esboçar reação, foi espancado sistematicamente ou finalizado vergonhosamente nas últimas seis lutas. Um dos preferidos dos fãs, Baby Jay atualmente só consegue oferecer doses cavalares de tristeza e agonia, por conta da inexplicável teimosia em evitar a necessária hora de parar.

Clay Guida (34-18 no MMA, 14-12 no UFC) não é nenhuma jovem promessa do MMA, mas tem pelo menos o mérito de não estar passando tanta vergonha quanto seu oponente deste sábado. Incansável na sua melhor forma, o “Carpinteiro” enfileirava bônus atrás de bônus, lutando de maneira inconsistente, mas sempre com uma intensidade admirável. A certa altura, o declínio físico tirou o que Guida tinha de melhor, deixando apenas um wrestler burocrático e bastante pragmático no seu lugar.

Guida passou uma temporada no peso pena, onde sucumbiu diante de adversários do primeiro escalão. Resolveu voltar a sua divisão de origem e, com casamentos de lutas mais coerentes, voltou a se apresentar de forma digna, vencendo veteranos como Joe Lauzon e Erik Koch em combates divertidos. Na última aparição, virou estatística ao ser mais uma vítima das submissões de Charles Du Bronx. Para dar a volta por cima, recebeu a chance de encarar outro veterano, desta vez em um combate nonsense no litoral do Rio de Janeiro.

B.J. Penn vs Clay Guida odds - BestFightOdds
A menos que aconteça algo incomum com Guida, como uma lesão ou disfunções de órgãos ou tecidos, BJ Penn vai colecionar mais uma apresentação vexatória e oferecer uma vitória fácil para o Carpinteiro, que ao menos consegue se portar como algo que lembre um atleta profissional.

Peso Meio-Médio: Warlley Alves (BRA) vs. Serginho Moraes (BRA)

Por Matheus Costa

Warlley Alves (12-3 no MMA, 6-3 no UFC) terá uma luta bastante importante para se recuperar na divisão de até 77kg. Mineiro radicado no Rio de Janeiro, o campeão do TUF Brasil 2 precisa mostrar qual será o seu teto em uma das melhores divisões do UFC, já que sua sequência de dois triunfos foi interrompida ao ser nocauteado por James Krause no UFC Fight Night 135 em 2018.

Conhecido por sua luta em pé, Warlley se destaca muito mais pelo poder de nocaute do que pela técnica de seus golpes, que não é muito acentuada. Ele aplica boas combinações de muay thai com um dirty boxing eficiente, sempre buscando o clinch e a curta distância para impor seu ritmo no jogo. Entretanto, um de seus maiores problemas é o preparo físico, que sempre lhe deixa na mão e suporta o estilo explosivo do lutador, basicamente fazendo com que Warlley fique cansado a partir do segundo round. Ele possui um jogo de luta agarrada decente, com especialidade na guilhotina, mas seu jogo de chão deve ser evitado ao máximo nessa luta.

Por outro lado, Serginho Moraes (14-4-1 no UFC, 8-3-1 no UFC) também vive a mesma situação na organização, afinal, ele precisa provar qual é o seu teto na divisão. O atleta vivia numa sequência de duas vitórias na carreira, mas acabou sendo dominado por Anthony Rocco Martin em março por decisão unânime. Após dois meses, o atleta retorna ao Brasil para tentar retornar ao caminho das vitórias.

Campeão mundial de jiu-jítsu, Serginho é um lutador unilateral, totalmente dependente do seu jogo de chão. Sua luta em pé não é nada demais e acaba sendo um grande empecilho para que ele alce voos maiores na divisão. O jogo de quedas do brasileiro acaba não sendo tão bom quanto deveria, mas o wrestling do atleta evoluiu de algumas lutas para cá, tornando mais fácil a vida do lutador na hora de implementar o seu jogo.

Sergio Moraes vs Warlley Alves odds - BestFightOdds

É a luta clássica entre um striker e um grappler. Na disputa entre os dois, vejo vantagem para Warlley, que deve controlar a luta em pé na distância. Entretanto, o grande ponto da luta é o preparo físico de Warlley, que se apresentar a mesma condição de outras lutas, deve ser uma bela porta de entrada para Serginho virar a luta. Por isso, aposto na vitória de Sergio Moraes por decisão, em uma luta que não deve ser nada empolgante e sim burocrática.