Por Edição MMA Brasil | 27/02/2019 23:41

Está pensando em se esbaldar na ~folia do Carnaval? Recomendamos dar uma trégua no sábado à noite. A qualidade do UFC 235, que acontece na T-Mobile Arena, em Las Vegas, está tão alta que o card preliminar é melhor que muito principal promovido pelo UFC.

Para se ter uma ideia, a preliminar mais importante envolve um sexto colocado no ranking contra um potencial candidato ao cinturão no futuro: Jeremy Stephens tem a ingrata missão de embarreirar o crescimento de Zabit Magomedsharipov.

Antes deles, a nova sensação brasileira Johnny Walker, 15º dos meios-pesados, retorna quatro semanas após a última apresentação para encarar o letão naturalizado canadense Misha Cirkunov, número 12 da classificação. Este combate sucederá o encontro entre Cody Stamman e Alejandro Pérez, respectivamente os números 11 e 12 do ranking do peso galo. Fechando a nossa prévia, Diego Sanchez enfrenta Mickey Gall num interessante duelo de gerações.

Peso Pena: #6 Jeremy Stephens (EUA) vs. #13 Zabit Magomedsharipov (RUS)

Por Alexandre Matos

Com cinco derrotas em sete lutas, a vida parecia madrasta de Stephens (28-15 no MMA, 15-14 no UFC). Foi quando ele apareceu com um jogo repaginado e conseguiu três importantes e improváveis vitórias, batendo o ex-campeão do Strikeforce Gilbert Melendez, o talentoso nocauteador Doo Ho Choi e o empolgado Josh Emmett. O UFC então o colocou numa provável eliminatória contra José Aldo, mas o brasileiro tratou logo ali de voltar aos tempos de matador, nocauteando o americano no primeiro assalto.

Antes da recente boa fase, Stephens era provavelmente o dono da pancada mais dura do peso pena, mas vinha se movimentando cada vez mais pesadamente, plantado, com pouca mobilidade. Isso dificultava a tarefa de combinar golpes, de se defender e de tentar alguma imprevisibilidade. Do nada, Jeremy apareceu bailando como um boxeador (ok, exagerei), conectando belos combos e confundindo os adversários. Chegou a ter uma recaída contra o sul-coreano, mas conseguiu arrumar a trajetória em pleno voo para chegar ao nocaute. Contra Aldo foi questão mesmo de diferença de talento.

Desde um torneio no antigo ACB até o nocaute brutal em Valdines Silva, Magomedsharipov (16-1 no MMA, 4-0 no UFC) vem sendo alertado aqui no MMA Brasil como uma joia rara. Contratado pelo UFC, venceu de maneira dominante e esbanjando talento os quatro oponentes que cruzaram seu caminho. Foram três bônus nas três primeiras e, logo na que aplicou uma finalização sensacional, viu a grana extra ir para bolsos alheios. De qualquer maneira, agora ele se coloca apto a invadir a elite da divisão, que é uma das mais encardidas do UFC.

Zabit é a essência do lutador moderno, aquele que navega entre todos os ramos do jogo com desenvoltura de especialista. Como a maioria dos meninos no Daguestão, ele começou no wrestling, mas logo também se dedicou ao sandá, arte chinesa oriunda do kung fu. Além de ser muito bom trocando e derrubando, ele inventou também de tirar finalizações da cartola. Fisicamente, parece um magrila, mas trata-se de um sujeito fisicamente muito forte. Não bastasse todo o talento, Magomedsharipov desenvolve o jogo nas mãos de gente como Ricardo Cachorrão, Mark Henry e Frankie Edgar. O resultado é um dos lutadores mais imprevisíveis já vistos no MMA.

Jeremy Stephens vs Zabit Magomedsharipov odds - BestFightOdds
 

Apesar do enorme favoritismo dado ao russo, justificado pela diferença de talento, este combate terá um quê de mistério. De vez em quando, Zabit apresenta queda de rendimento que o faz baixar muito o volume de golpes e até a movimentação. Numa dessas, a bigorna que Stephens carrega nas extremidades dos braços podem mandá-lo para as profundezas da vala.

Feita essa ressalva, o mais provável é que Stephens leve um vareio. Mesmo a versão móvel do americano não será páreo para impedir os ataques que saem de toda sorte de ângulos, inclusive de caminhadas na grade, do russo. Zabit terá ainda a seu favor as quedas e uma vantagem gigante no solo. Uma vitória por submissão é um resultado provável, mas a aposta aqui fica numa decisão muito larga a favor de Magomedsharipov.

Peso Meio-Pesado: #12 Misha Cirkunov (LAT) vs. #15 Johnny Walker (BRA)

Por Pedro Carneiro

O cidadão do mundo, nascido na Letônia, residente no Canadá e de etnicidade russa, Cirkunov (14-4 no MMA, 5-2 no UFC) apareceu na categoria dos meios-pesados com uma trinca de finalizações e despertou brevemente o sentimento de que a terraplanagem realizada na divisão poderia ter acabado e teríamos a renovação desejada. Ele nocauteou Daniel Jolly e finalizou Alex Nicholson, Ion Cutelaba e a também promossa Nikita Krylov. Quando parecia pronto para alçar voos mais altos, foi duramente nocauteado por Volkan Oezdemir e por Glover Teixeira. A recuperação veio no último compromisso, quando finalizou o simpático Patrick Cummins, em outubro do ano passado.

Cirkunov é um wrestler eficiente, que usa o jogo de quedas para colocar em prática o jiu-jitsu de bom nível. As finalizações são eficientes e agudas, capitalizadas pela fluência na qual transita pelas posições e pela força física que mantém os oponentes com as costas no chão. Entretanto, a obstinação em derrubar os adversários mais resistentes às vezes acaba tornando-o previsível, mas também é um artificio tático para esconder as dificuldades na luta em pé e a lentidão na movimentação e aproximação.

Em uma rápida ascensão, Johnny Walker (16-3 no MMA, 2-0 no UFC) chegou no UFC criando expectativas. Brincalhão e com um certo carisma, Johnny se tornou conhecido e, com apenas duas lutas na maior organização do MMA no mundo, conseguiu uma renovação de contrato, o que pode indicar que o UFC está disposto a investir no carioca.

Fruto da versão brasileira do novo reality show da empresa, o Contender Series, Walker adquiriu o novo emprego vencendo de modo impositivo o ex-UFC Henrique Frankenstein. Debutou oficialmente no UFC Buenos Aires com vitória sobre Khalil Rountree e, com apenas 15 segundos, providenciou o encontro entre Justin Ledet e o nocaute, no UFC Fight Night 144, há quatro semanas.

O garoto com nome de uísque escocês usa muito bem a longa distância, se aproveitando da altura (1,96m) e da envergadura (2,06m) para controlar o espaço e investir em golpes fortes e plásticos, com o intuito de surpreender e nocautear. Dentro dessa caixa de ferramentas, encontramos socos e chutes giratórios, chutes altos, joelhadas voadoras e socos de ângulos nada convencionais. No entanto, Walker apresenta problemas defensivos na parte em pé, que são intensificados por uma atitude muitas vezes imprudente. O jogo de chão também não é dos melhores, embora ele use bem o ground and pound. O condicionamento físico ainda precisa melhorar.

Johnny Walker vs Misha Cirkunov odds - BestFightOdds
 

O confronto de estilos é bem evidente aqui. Cirkunov tem wrestling e força física para derrubar o brasileiro e implementar o jiu-jitsu, explorando assim as principais dificuldades de Johnny para conseguir uma finalização ou uma vitória na margem de segurança na decisão dos juízes. Já Walker tem força e qualidade nos punhos e pés para explorar os buracos defensivos que o letão tem no striking e conseguir um nocaute no primeiro round.

O cenário vai depender da disposição de Misha em se aventurar na troca de sopapos com o carioca, já que é difícil imaginar que ele não consiga derrubar quando for necessário. Se a troca acontecer, as chances de Johnny nocautear crescem exponencialmente. Outro ponto a se destacar é o modo inconsequente que Walker luta, o que pode ser um tiro no próprio pé contra alguém que tem força para conseguir um improvável nocaute, daqueles que se aproveitam do excesso de confiança de atletas ainda em fase de amadurecimento. Dentre todos esses cenários apresentados, a aposta é de que o wrestling e jiu-jitsu farão a diferença para que Cirkunov saia vitorioso.

Peso Galo: #11 Cody Stamman (EUA) vs. #12 Alejandro Pérez (MEX)

Por Bruno Costa

Stamann (17-2 no MMA, 3-1 no UFC) chegou à organização conquistando boas vitórias e teve rápida evolução no nível de adversários enfrentados, passando pelo super prospecto Tom Duquesnoy e pelo veterano Bryan Caraway. Em seguida, saiu derrotado pela primeira vez no octógono em seu último desafio, contra outro excelente valor da categoria dos galos, Aljamain Sterling.

Um wrestler muito forte e atlético, Stamann se utiliza do conjunto de habilidades para levar a luta no ritmo e ambiente em que se sente mais confortável. Neste cenário, exercer pressão sobre o adversário contra a grade parece a especialidade da casa. Quando decide pelo jogo de quedas, o americano tem bom controle posicional e ground and pound potente. Evolução no grappling ofensivo e defensivo seria de boa valia para Stamman variar com mais segurança as ações ao longo da luta. Experiência no octógono só será adquirida ao longo do tempo. Deste modo, ele deve melhorar na consciência sobre o nível de energia gasta ao longo dos rounds, poupando-a e distribuindo melhor durante os minutos.

Alejandro Perez (21-6-1 no MMA, 7-1-1 no UFC) sempre demonstrou ser um sujeito muito duro, de excelente ritmo e preparo físico acima do normal. Contudo, até iniciar sua corrida no UFC, demonstrava ser um lutador muito cru tecnicamente, previsível e inconsistente, com dificuldades de implementar o jogo a que recorre atualmente, baseado em pressão constante.

O queixo resistente é parte importante da defesa do “Turbo”, que melhorou nos últimos anos o volume de golpes com os quais ataca os adversários. Em diversos momentos, mesmo sem ser um especialista técnico, o mexicano consegue quedas para assegurar vantagem na pontuação e tem se defendido melhor no jogo de solo – registre-se que, falando em pontuação, vale dizer que a série positiva de Perez contou com boa parcela de ajuda de juízes, que garantiram trunfos e empate questionáveis ao latino-americano em duelos equilibrados contra Eddie Wineland, Andre Soukhamthath e Albert Morales.

Alejandro Perez vs Cody Stamann odds - BestFightOdds
 

Embora Stamann tenha aceitado o duelo com pouco tempo de preparação, parece o favorito para o duelo de sábado. É o detentor da vantagem no wrestling e parece capaz de, utilizando potência nos contragolpes, diminuir o ritmo que Perez gosta de impor aos combates para sentir mais confortável. A aposta é que Stamman leve pequena vantagem na troca de golpes e consiga quedas em momentos pontuais para sair vitorioso numa decisão apertada.

Peso Meio-Médio: Diego Sanchez (EUA) vs. Mickey Gall (EUA)

Por Idonaldo Filho

Cerca de 15 anos atrás, o UFC estreou o reality show The Ultimate Fighter. Na primeira temporada, entre os pesos médios, um lutador que estava invicto em onze combates saiu vitorioso. Foi assim que Sanchez (28-11 no MMA, 17-11 no UFC) entrou na maior organização do MMA mundial. O homem de vários apelidos entregou inúmeras guerras e lutas com resultados controversos em sua extensa e digna carreira. Atualmente, teima em não parar, tendo em vista que está visivelmente frágil e decadente, uma sombra do que já foi um dia. Diego vem de vitória sobre o horrível e já demitido Craig White, mas antes foi cruelmente nocauteado por Matt Brown e Al Iaquinta, oponentes os quais ele só foi casado por causa de seu nome e não pelos resultados recentes.

O ex-desafiante do cinturão dos leves é mais um dentre os inúmeros que criaram paixão pela pancadaria. Sanchez, em seu auge, contava com um queixo sensacional, que era frequentemente testado pela defesa ruim. Contava também com sua origem no wrestling, sem falar no jiu-jítsu, além de aplicar pressão constante. Agora praticamente só sobrou a arte suave, que, como bem mostrado em sua luta contra o perigoso Marcin Held, é de excelente nível defensivo e capaz de frustrar gente de alto nível. Seu queixo apodreceu de forma triste e Diego não parece mais absorver golpes decentes. Neste fim de carreira, se transformou num grinder, coisa inimaginável se formos lembrar do brigador de enorme coração de alguns anos atrás.

Vamos falar a verdade: Mickey Gall (5-1 no MMA, 4-1 no UFC), se não fosse o acaso, não estaria no UFC, embora tenha se mostrado uma surpresa. Pupilo de Jim Miller, ele poderia ter duas lutas a menos em seu cartel como profissional, já que entrou no UFC como candidato a oponente de CM Punk – a quem ele derrotou sem dó nenhuma – e conquistou uma finalização contra o fotógrafo Michael Jackson, derrotando dois caras que não chegam nem perto de serem lutadores. Mas as vitórias contra George Sullivan e, principalmente, Sage Northcutt animaram e mostram que Gall não é de todo ruim, mesmo sem ter expectativas futuras de entrar no ranking.

Com carreira no MMA amador e faixa marrom de jiu-jítsu, Gall é unidimensional, mas é razoavelmente bom no que faz. Em pé, não ousa muito e faz o básico para levar o oponente ao solo – o wrestling é explosivo, mas não é dos melhores. Quando consegue chegar no solo, ele trabalha bem as transições e aplica bom ground and pound, mas tem foco maior em buscar as costas do oponente para aplicar um mata-leão, que é sua marca registrada, responsável por todas as cinco vitórias no MMA. Na derrota contra Randy Brown, ele mostrou confiança, mas falhas demais e inteligência de menos, chegando ao ponto de puxar o oponente para a guarda, coisa que nem os melhores faixas-pretas costumam fazer no MMA.

Diego Sanchez vs Mickey Gall odds - BestFightOdds
 

Mickey Gall é um achado porque, queira ou não, foi contratado pelo UFC com cartel de 1-0 – a probabilidade de um lutador desconhecido e com uma luta apenas na carreira chegar e já conseguir vitórias contra profissionais no UFC é muito pequena. Ele terá a vantagem da idade e muita vantagem física, mas, incrivelmente, talvez a melhor tática para Mickey seja trocar socos e torcer para acertar algum no combalido queixo de Diego.

O problema é que Sanchez é ótimo no ponto que Gall é bom e, embora muito provavelmente deva entregar quedas por estar fisicamente em desvantagem, por ser muito mais experiente, certamente ele não vai aceitar ficar por baixo e deve conseguir se defender bem e frustrar o rival no chão, raspando, passando guarda e amarrando o combate até vencer na decisão dos juízes.