Por Edição MMA Brasil | 08/02/2019 11:26

O primeiro pay-per-view do ano no UFC acabou com poucos nomes de grande expressão em lutas que integram o card principal. A ser realizado em Melbourne, na Austrália, o UFC 234 traz um campeão local buscando manter sua coroa contra um jovem acostumado a ser azarão e um confronto muito aguardado entre um gênio do passado contra um do presente.

No duelo principal, Robert Whittaker coloca o cinturão dos médios em jogo num desafio bastante interessante. Ele vai encarar o também ex-meio-médio e também vencedor do TUF Kelvin Gastelum.

A luta que antecede a do atual campeão envolve o maior lutador da história da categoria, Anderson Silva, que volta de suspensão para encarar o seu “clone” Israel Adesanya, em mais um dos tantos possíveis momentos de passagem de bastão na história recente da organização.

Ainda no card principal, Ricky Simón enfrenta o brasileiro Rani Yahya, numa busca pela escalada no ranking dos galos. Antes deles, Montana de La Rosa e Jim Crute enfrentam Nadia Kassem e Sam Alvey, respectivamente

O UFC 234 terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O card preliminar está marcado para iniciar às 20:50h, enquanto a porção principal irá ao ar à 1:00h da manhã, sempre no horário oficial de verão de Brasília.

Cinturão Peso Médio: C Robert Whittaker (AUS) VS. #4 Kelvin Gastelum (EUA)

Por Alexandre Matos

Quando Robert Whittaker (20-4 no MMA, 11-2 no UFC) chegou à disputa do cinturão interino, o brutal nocaute sobre Ronaldo Jacaré era a maior vitória de uma carreira que não contava com muitos nomes de peso. Depois que Georges St. Pierre tirou o cinturão de Michael Bisping e deixou nas mãos do “Bobby Knuckles”, ninguém mais o questionou. O que mudou? Duas vitórias em guerras bíblicas diante de Yoel Romero, a última delas que deve ter custado alguns anos de saúde do campeão.

O bom vencedor do TUF Smashes se tornou um legítimo integrante da elite do MMA, peso por peso. Whittaker ainda usa a base no caratê e no hapkido como principal arma, mas se tornou um lutador mais versátil ofensivamente e mais sólido defensivamente. No ataque, une velocidade, volume e potência num ritmo que dificulta o trabalho de contragolpes dos oponentes. Ele ainda vem investindo pesado no wrestling, embora Romero não fosse um rival para se testar no fundamento. Na defesa, ergueu uma fortaleza para evitar ser derrubado e, quando acertado no striking, conta com um coração do tamanho do mundo.

Outro que aproveitou o “atalho Jacaré” para chegar à disputa do cinturão foi Kelvin Gastelum (15-3 no MMA, 10-3 no UFC). O vencedor do TUF 17 teve muito mais trabalho que Whittaker para bater o brasileiro. Duas lutas antes, havia levado um sacode de Chris Weidman e visto o atropelamento sobre Vitor Belfort virar luta sem resultado por causa de doping. No meio, um nocaute assustador sobre o ex-campeão Michael Bisping.

Mesmo prometendo voltar ao peso meio-médio, Gastelum foi vencendo e ficando entre os médios. Na categoria de cima, preservou a enorme potência dos golpes e se tornou mais capaz de se meter em lutas fisicamente desgastantes sem se prejudicar tanto – o que é ótimo para um lutador com uma tendência de clinch e quedas. Nos últimos tempos, essa tendência tem sido substituída pelo striking de forte pressão, jogo típico do treinador Rafael Cordeiro. Com uma capacidade física otimizada pelo menor corte de peso, Gastelum tem se tornado um clássico pupilo de Cordeiro. No entanto, a derrota para Weidman deixou clara que sujeitos grandes trarão muita dificuldade para o descendente de mexicanos.

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As vitórias de Gastelum no peso médio possuem um ponto em comum: foram todas contra veteranos lentos (Jacaré, Belfort, Bisping e Tim Kennedy). Agora, ele vai encarar um camarada apenas dez meses mais velho e um dos mais velozes da divisão.

Embora eu acredite que esta luta será muito divertida, é preciso reforçar que Whittaker leva vantagem em qualquer cruzamento de estilos. Gastelum é o melhor wrestler, mas terá enorme dificuldade para manter Robert no clinch e mais ainda para derrubá-lo. Na troca de golpes, tudo o que o selvagem Bobby quer é Gastelum tentando pressioná-lo. Neste aspecto, faltará talvez coordenação para Kelvin suportar o ritmo da movimentação de Whittaker.

A aposta é um round para cada nos dois primeiros e Whittaker entrar em modo foguete no terceiro, chegando ao nocaute técnico no quarto.

Peso Médio: #6 Israel Adesanya (NIG) VS. #15 Anderson Silva (BRA)

Por Diego Tintin

Israel Adesanya (15-0 no MMA, 4-0 no UFC) é um bem-sucedido caso de transição de um atleta de ponta em uma arte marcial – o kickboxing – para o MMA. Uma estrela dos eventos King in the Ring e Glory, o nigeriano radicado na Nova Zelândia teve a prudência necessária para não queimar etapas em sua adaptação às artes marciais mistas. Começou em eventos locais na Oceania e na China até ser recrutado pelo UFC no final de 2017. Na organização estadunidense, traçou uma trajetória meteórica, com três nocautes bonificados em quatro apresentações, sempre com aumento gradual do nível dos oponentes.

Movimentação inteligente, controle total da distância, mira laser nos golpes e poder de nocaute alto. Israel parece até uma versão atualizada de C-E-R-T-O L-U-T-A-D-O-R que ditava os rumos desta divisão há alguns anos. Sua luta agarrada ainda não se mostrou tão apurada, mas é de se imaginar que está sendo trabalhada com dedicação para minimizar os riscos nesta área. Contudo, é na trocação que o africano alcança um nível que poucos alcançaram neste esporte. Socos, chutes e joelhadas brotam de todas as direções, quase sempre escondidos até o último instante ou precedidos de fintas hipnotizantes. Não a toa, 13 das 15 lutas de seu cartel perfeito terminaram pela via rápida dolorosa.

Uma das maiores estrelas da história do MMA, Anderson Silva (34-8 no MMA, 15-4 no UFC) passou por muitos momentos atribulados e controversos nos últimos cinco anos. Depois de perder a coroa dos médios para Chris Weidman e da pavorosa lesão na revanche, fez uma luta esquecível contra Nick Diaz – na qual ambos caíram no antidoping. Após suspensão, foi derrotado de forma controversa por Michael Bisping, escalado de última hora para ajudar os patrões no UFC 200 – voltando a ser derrotado, desta vez por Daniel Cormier. Há dois anos, fez as pazes com as vitórias em outra decisão contestada – desta vez a seu favor – contra Derek Brunson. Porém, um novo exame positivo para substâncias proibidas em novembro de 2017 e outra suspensão arranharam de forma ainda mais forte sua imagem construída com a vitoriosa carreira na organização.

Em seu longo reinado, o Spider era o mais criativo e habilidoso striker que o UFC já tinha visto. O estupendo controle corporal, reflexos apurados e a noção de distância inigualável faziam de suas lutas um espetáculo parecido com uma tourada. Não foram poucos os oponentes que empolgados com a guarda baixa e irritados com as provocações de Anderson, partiram com tudo e só foram saber o que aconteceu alguns segundos depois com a lanterna do médico no olho. No chão, ele consegue se defender de forma funcional, além de ser perigoso na guarda e oportunista em botes nos pescoços alheios. O ponto mais inconsistente de seu jogo sempre foi a defesa de quedas, eficiente perante ataques mais genéricos, mas acessível contra gente do porte de Chael Sonnen, Dan Henderson e Weidman. O problema aqui é o tempo, adversário cruel que diminuiu sua velocidade e seu impressionante tempo de reação, tão essenciais para o funcionamento do jogo do brasileiro.

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Não faltou coragem para o antigo ídolo, ao aceitar o duelo contra uma espécie de versão atualizada do lutador que ele próprio era em seu auge físico e técnico. Adesanya pode ainda não ser um lutador de MMA versátil e defensivamente sólido, mas o encaixe dos estilos aqui deixa a tarefa de Anderson árdua demais para seu corpo velho de guerra de 43 primaveras completas. O Spider, de tantos golpes e vitórias surpreendentes no passado teria que conseguir a maior surpresa de sua longa carreira para mudar o panorama sombrio que lhe aguarda neste encontro indigesto.

Peso Galo: #15 Rani Yahya (BRA) VS. Ricky Simón (EUA)

Por Thiago Kühl

No UFC desde o final do WEC, Rani Yahya (26-9 no MMA, 11-3 no UFC) já pode ser considerado um veterano da categoria dos galos. Vindo de três vitórias e com 7-1 nas últimas oito lutas, o brasileiro flertava com a parte alta da categoria dos galos até perder para Joe Soto, em 2017. Desde então, finalizou todos os seus adversários e conseguiu um desafio definitivo para seu momento de carreira. Aos 34 anos, ele encontra neste sábado a possibilidade de se firmar no top 15 do peso.

Rani é dos jiujiteiros mais técnicos do UFC, daqueles que conseguiram adaptar bem a arte suave para o MMA. Ele possui facilidade para encontrar brechas para as finalizações e, nos últimos tempos, tem conseguido ser mais objetivo e aproveitar melhor as brechas dadas pelos adversários. Por outro lado, o destaque imenso no jiu-jítsu dá espaço para pouco apuro técnico em outras áreas, o que cobrou o preço contra concorrência que frustre seu plano principal. A mudança para a ATT ajudou no seu amadurecimento como atleta, porém dificilmente fará com que ele faça frente à concorrência mais bem ranqueada.

Ricky Simón (14-1 no MMA, 2-0 no UFC) é mais um que conseguiu contrato com o UFC no Contender Series. Vindo de duas vitórias na organização, ele se mostrou ser muito aguerrido e explosivo em suas lutas. Mesmo que a expectativa sobre o ex-campeão do LFA não tenha se concretizado de forma muito dominante, espera-se bastante que o lutador tenha uma evolução suficiente pra cumprir, dentro do octógono, aquilo que se espera dele no momento da contratação

Wrestler de ótimo nível e explosivo por natureza, Ricky sabe fazer o jogo compatível ao seu estilo. Sem grande apuro técnico na trocação, Simón consegue fazer o suficiente para levar os adversários para dentro de seu jogo e conseguir vitórias. Seu jogo de chão é ajustado, mas não deve ser dos mais úteis no sábado, principalmente no lado defensivo. No mais, o americano tem uma capacidade física exemplar, o que pode ser o divisor de águas em uma luta que promete ser bem parelha

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Nos combates entre grapplers, sempre se espera que o wrestler não permita ao praticante do jiu-jítsu vida fácil no chão. Isso até pode ocorrer nos primeiros dois rounds desta luta, mas a ideia é que eventualmente a grande vantagem técnica do brasileiro seja ressaltada em uma finalização tardia ao seu favor. Um cenário diferente – caso Rani não consiga avançar para uma posição – seria ver uma vitória de Simón por pontos. Para não ficar sobre o muro, apostamos na primeira hipótese.

Peso Mosca: #14 Montana De La Rosa (EUA) VS. Nadia Kassem (AUS)

Por Bruno Costa

Duas vitórias sobre competição de nível duvidoso já garantiram a Montana De La Rosa (9-4 no MMA, 2-0 no UFC) um lugar no ranking do peso mosca ainda em formação. Antes de chegar à organização, a americana enfrentou as talentosas Mackenzie Dern e Cynthia Calvillo em sequência, saindo derrotada em ambas ocasiões, antes de voltar a vencer e acabar compondo elenco do TUF que inaugurou a divisão no UFC.

Montana é uma grappler de boa altura para a divisão e que possui ótimos instintos de finalização. Ela trabalha na luta em pé essencialmente com golpes retos, servindo os jabs e diretos para marcar a distância das adversárias e manter volume de ações no combate, mas deixando a desejar no jogo de pernas, agilidade e potência. A postura de luta com o queixo alto possibilita muitos contragolpes das adversárias, o que pode render problemas no combate do sábado.

 

Nadia Kassem (5-0 no MMA, 1-0 no UFC) teve carreira fulminante nos eventos regionais, conquistando nocautes no primeiro round contra adversárias de baixo nível técnico e físico em todas as suas lutas antes de chegar ao UFC. A notória diferença de força e o pequeno tempo de amostra desses combates sequer permitem uma análise mais aprofundada do que apontar o vigor físico e agressividade da australiana.

No primeiro combate no octógono, Nadia falhou miseravelmente ao tentar alcançar o limite do peso palha, e acabou por chegar com diferença abissal de tamanho conta uma já pequena Alex Chambers. Na primeira ocasião em que chegou aos três rounds completos na carreira, Kassem mostrou que precisa muito refinamento técnico. Embora seja uma chutadora potente, não consegue trabalhar o boxe sem se expor demasiadamente, dependendo do overhand de esquerda para ameaçar as adversárias. Ela se deixa encurralar com constância contra a grade e tem problemas na defesa de quedas. Até demonstrou boas tentativas de finalização partindo da guarda, mas as dificuldades aumentam com a subida no nível de competição.

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Para Montana, o caminho para a vitória é claro: controlar a distância com jabs e procurar o clinch para levar a rival ao solo e buscar uma finalização, que pela diferença de nível no grappling poderia ocorrer ainda no início do combate. Contudo, Kassem é jovem e parece ter ferramentas físicas e condições para, caso tenha evoluído tecnicamente no ano em que ficou fora do octógono, capitalizar em cima das falhas defensivas da rival, trabalhando chutes na linha de cintura e abrindo espaço para overhands potentes em busca de um nocaute técnico.

Levando em conta a amostragem e nível técnico de oposição já enfrentados na carreira, a tendência é que De La Rosa consiga executar seu plano de jogo escondendo melhor as conhecidas falhas, saindo vitoriosa com uma finalização na primeira metade do combate.

Peso Meio-Pesado: Jim Crute (AUS) VS. Sam Alvey (EUA)

Por Idonaldo Filho

Um dos poucos atletas internacionais que atuaram no Contender Series americano, Jim Crute (9-0 no MMA, 1-0 no UFC) fez a maior parte de sua carreira no Hex Fight Series, tradicional evento do cenário regional australiano. Lá, Crute assegurou sete vitórias tranquilas sobre oponentes de qualidade duvidosa e entrou no radar do UFC, que o colocou para enfrentar Chris Bichler no evento que busca revelar talentos para o líder do mercado. Contratado depois de nocautear seu oponente, ele estreou no início de dezembro do ano passado em um combate meio estranho contra o fraco Paul Craig, que acabou finalizado pelo jovem lutador.

Pupilo de Sam Greco, Crute é primordialmente um grappler que está desenvolvendo pouco a pouco sua trocação e defesa. Sendo faixa-marrom no jiu-jítsu, sua luta de solo é bastante agressiva, normalmente buscando muitas transições até chegar na montada, onde pode atacar com ground and pound ou partir para finalizações como chave de braço ou katagatame. Em pé, Jim ainda se defende muito mal e recebe boa parte dos golpes que o oponente joga – mostrando bom queixo – enquanto seus ataques ainda não possuem técnica apurada e, embora tenha potência, são previsíveis e lentos. O condicionamento físico deve ser melhor trabalhado pois Jim gasta muita energia para tentar levar a luta para sua zona de conforto, tendo em vista que o seu jogo de quedas se baseia muito na força.

É de se espantar que o UFC colocou Sam Alvey (33-11 no MMA, 10-6 no UFC) em um card principal de evento numerado – inclusive, sendo a primeira vez que o americano luta em um pay per view da organização. Embora o “Smilin” seja uma figura de grande carisma e um legítimo funcionário do evento – pegando essa luta como substituto, estando marcado para lutar duas semanas depois – ele vem de derrota, não possui grandes perspectivas de futuro e muito menos é considerado um lutador empolgante. Alvey, é bom lembrar, foi o responsável pelo retorno surpreendente de Rogério Minotouro após dois anos parado, quando acabou nocauteado pelo veterano no segundo assalto e viu ser interrompida sua sequência de duas vitórias seguidas, desde quando havia subido para a categoria dos meios-pesados.

O americano é figura carimbada no UFC, atuando quatro vezes em 2017 e mais três em 2018. Muitas vezes, isso não parece ser a ideia mais sensata, pois a falta de um camp completo parece lhe afetar, já que não mostra evolução nenhuma e sempre apresenta o mesmo pacote, baseado em muita passividade e contragolpes ocasionais com sua mão pesada. Defensivamente, Alvey também é precário e, embora já tenha demonstrado que consegue se defender razoavelmente de quedas, é um alvo fixo para adversários habilidosos no striking, pois sua mobilidade é quase inexistente. O condicionamento físico também é um ponto contra, principalmente porque Alvey não faz nada que cansaria um lutador comum em suas lutas.

Jim Crute vs Sam Alvey odds - BestFightOdds
 

A diferença de experiência é gritante neste combate. Alvey não é bom e provavelmente nunca será, mas é um lutador calmo e que já enfrentou todo tipo de oposição que se pode pensar, enquanto Crute estava acostumado com lutadores de nível baixo, e ainda é verde o suficiente para ser contragolpeado por Sam. A perspectiva é de um duelo equilibrado, no qual o australiano irá constantemente buscar o clinch para levar Alvey ao solo, mas não deverá obter sucesso e o confronto de encaradas deve prevalecer. Em luta muito chata, Sam Alvey deve vencer na decisão dos juízes.