UFC 232 é transferido para a Califórnia após NSAC revogar licença de Jon Jones

Por Idonaldo Filho | 24/12/2018 00:52

Mais uma vez Jon Jones é o vetor de uma nova confusão que está causando uma grande dor de cabeça ao UFC. Desta vez, o problema afetou o evento do próximo sábado, onde o ex-campeão dos meios-pesados disputará o título vago da categoria contra Alexander Gustafsson no UFC 232, que estava programado para ocorrer em Las Vegas a até poucas horas atrás.

Na noite deste domingo, Dana White anunciou durante o SportsCenter da ESPN que o UFC 232 não irá acontecer mais na principal casa da organização como se esperava, sendo transferido para Los Angeles. A decisão foi tomada abruptamente pois Jon Jones teve uma irregularidade acusada em um teste antidoping pela USADA, que detectou uma quantia extremamente pequena (de 60 picogramas,  unidade equivalente a 10−12 gramas) de turinabol, esteroide anabolizante derivado da testosterona e do clostebol. Esta é a mesma substância encontrada nos exames realizados por Jon Jones após a vitória contra Daniel Cormier no UFC 214, que ocasionou a sua suspensão de 15 meses pela agência antidoping.

Entretanto, peritos esclareceram que a situação não se trata de uma reutilização do anabolizante, mas sim de resíduo restante do caso de 2017 já citado, pois a substância demoraria cerca de 18 meses para abandonar completamente o corpo do lutador. Além disso, tal substância em quantidade tão ínfima não afetaria o desempenho do atleta no combate.

Em razão disso, a USADA teria decidido não punir Jones. Porém, a NSAC (Comissão Atlética de Nevada), por sua vez, entendeu ser mais prudente não autorizar o atleta a lutar, pois não teria tempo suficiente para analisar o caso antes da realização do evento. Daí a rápida ação da direção do evento de tentar transferir o evento para Inglewood, na California.

O principal motivo de escolha do local é que a CSAC (Comissão Atlética da Califórnia) conhece particularmente o caso, já que o UFC 214 –  card no qual Jon Jones caiu no antidoping por turinabol – foi realizado sob sua sanção. Inclusive, Jon Jones já está com a licença regularizada com a comissão e autorizado a lutar na Califórnia, já tendo passado em um teste de urina realizado pela CSAC, o qual não detectou nenhuma irregularidade.

Por fim, a NSAC, através de seu diretor executivo Bob Bennett, informou que irá realizar uma audiência em janeiro para discutir todo o caso.

O que deve ser pontuado aqui é que, mais uma vez, o UFC toma uma decisão muito mais voltada para o lado comercial, tal qual em outros momentos de sua história recente, privilegiando lutadores que tem condições de trazer mais lucros para a empresa. Isto porque a luta entre Jones e Gustafsson, sem dúvida, renderá ótima venda de pacotes de pay-per-view, não só por envolver o retorno de um dos maiores lutadores de todos os tempos, mas também por se tratar especificamente da revanche com o sueco, desafiante que deu mais trabalho para Bones dentro do octógono. Além disso, em tempos de números baixos nas vendas, Jon surge como um bom vendedor de lutas.

É importante ressaltar que, confirmadas todas as informações até aqui divulgadas, devemos supor por enquanto que Jones esteja isento de culpa neste caso, uma vez que o atleta se apresentou para quatro testes desde sua liberação para a luta e – aparentemente – não cometeu nenhuma infração novamente, tendo sido pego com resquícios de um caso para o qual ele já cumpriu punição. Por mais que se possa questionar a decisão da Comissão Atlética de Nevada, ou até mesmo os protocolos de testes utilizados pela USADA  – que só verificou os resquícios no último dos quatro testes – o maior transtorno será causado pela decisão de última hora tomada pela direção do evento.

A tomada de mais uma decisão com cunho estritamente comercial acaba indo contra o interesse de inúmeros fãs que compraram ingressos, sejam aqueles locais de Las Vegas ou uma série de turistas com viagem marcada para assistir o evento, que será um dos maiores do ano. Imagine um fã de MMA do Brasil, que comprou passagem para poder assistir um evento do UFC em terras estrangeiras pela primeira vez e, chegando em Las Vegas, acaba descobrindo que Dana White e sua trupe tiraram o card de lá por que Jon Jones não poderia lutar… Frustrante, para dizer o mínimo.

Além dos fãs, diversos lutadores também já estavam em Las Vegas, e terão que mudar toda a programação dos próximos dias – dificultando inclusive seus cronogramas para corte de peso durante as festas natalinas. Além disso, aqueles que ainda não chegaram à Nevada aparentemente terão que ir para lá primeiro, para todos os atletas serem transportados juntos para Los Angeles. Inclusive, conforme informação da ESPN, os lutadores ficaram sabendo da realocação pelas redes sociais, sem comunicação oficial do UFC.

Enfim, uma decisão mais razoável talvez seria passar a luta para outro evento futuro. Mesmo considerando que a maior parte do público adquiriu ingressos e PPVs para ver Jon Jones, o impacto direto seria de menor, tendo em vista que o combate de campeãs entre Cris Cyborg e Amanda Nunes ainda é uma luta robusta para liderar um grande card. Assim, diminuiriam os problemas operacionais e logísticos que envolvem uma mudança de um evento de última hora de Las Vegas para a California, sejam para o público, para o evento ou para os atletas.

Todo esse imbróglio ainda deverá gerar muita repercussão nos próximos dias mas, se é possível tirar uma conclusão das atitudes tomadas pela direção do UFC nas últimas horas é que, colocar a luta principal do evento à frente dos interesses do público e do restante dos atletas, pode acarretar uma série de consequências danosas à organização, seja do ponto de vista financeiro ou do dano imaterial à marca.