Por Edição MMA Brasil | 05/10/2018 10:46

Depois de quase dois anos sem aparecer pelo MMA, a maior estrela do mundo está de volta para realizar o duelo mais aguardado da atualidade. Só por este enredo, o UFC 229, que será realizado neste sábado, na T-Mobile Arena, em Las Vegas, já seria suficiente para causar comoção no mundo do MMA. Mas temos mais histórias acontecendo além da disputa do cinturão que lidera o evento.

O ex-campeão de duas categorias, Conor McGregor, e o atual dono da coroa do peso leve, Khabib Nurmagomedov, dividirão o octógono para tirar a limpo quem detém o direito de propriedade sobre o cinturão da categoria. Pela mesma divisão, Tony Ferguson, dono de incrível sequência invicta, busca recuperar o tempo perdido para as lesões contra o antigo ocupante do trono Anthony Pettis.

Abrindo o card principal, Michelle Waterson e Felice Herrig prometem uma luta anárquica por um lugar na elite do peso palha feminino. Quando as meninas terminarem sua jornada, será a vez dos brutamontes Derrick Lewis e Alexander Volkov disputarem uma possível eliminatória entre os pesados. Antes, na divisão imediatamente abaixo, Ovince St. Preux tentará deter o crescimento de Dominick Reyes.

O canal Combate inicia a transmissão ao vivo de todas as lutas do UFC 229 às 19h:10h. Especificamente, o card principal tem seu início previsto para às 23:00h, sempre pelo horário de Brasília.

Cinturão Peso Leve: (C) Khabib Nurmagomedov (RUS) vs. #1 Conor McGregor (IRL)

Por Alexandre Matos

Khabib Nurmagomedov

Demorou um tempo, mas finalmente se materializou a imagem ao lado, de Nurmagomedov (26-0 no MMA, 10-0 no UFC) com o cinturão do peso leve do UFC. Depois de lutar contra lesões que o afastaram por dois anos do octógono e deixaram a impressão que ele nunca voltaria, Khabib tirou a ferrugem contra o recém-chegado Darrel Horcher e depois fez o que mais sabe: moeu carne humana. Ele não tomou conhecimento de Michael Johnson, Edson Barboza e Al Iaquinta, estabelecendo o recorde de mais rounds vencidos consecutivamente na história do UFC. No último combate, saiu com o cinturão, que ficara vago depois de o UFC destronar McGregor.

Como visto na coluna Choque de Titãs, Nurmagomedov centra seu jogo no wrestling e na busca implacável de arrastar o rival para o solo e espancá-lo por ali. As quedas saem das maneiras mais diversas possíveis e são muito difíceis de serem defendidas, pelo modo com que o russo emenda uma tentativa na outra sem precisar voltar à posição ereta. Khabib melhorou sensivelmente o aspecto técnico na troca de golpes em pé, chegou a se dar o luxo de trocar com Iaquinta, mas muito dificilmente isso será uma opção neste sábado, a não ser pelo intuito único de encurtar a distância.

Conor McGregor

Nas únicas vezes que McGregor (21-3 no MMA, 9-1 no UFC) esteve no córner azul no UFC, derruboi José Aldo e Eddie Alvarêz para conquistar seus cinturões na maior organização do MMA mundial. No meio delas, ficou milionário em duas lutas contra Nate Diaz, no peso meio-médio, antes de se tornar o primeiro na história do UFC a ostentar cinturões em duas categorias simultaneamente. Isso aconteceu há um ano e 11 meses. Após o UFC 205, McGregor ficou ainda mais milionário ao abocanhar o segundo maior pay-per-view da história do boxe, no nonsense contra o aposentado Floyd Mayweather.

Ao contrário do atual campeão, o desafiante tem no striking sua mola-mestra. Com um jogo de pernas lindamente fluido (para o MMA), McGregor é um striker mortal sem precisar jogar golpes em alto volume ou sequer dar forte utilização aos jabs – o trabalho deste golpe é realizado pela movimentação e pela falsa base do caratê (saiba mais na coluna Choque de Titãs). Quando ele tem a vantagem no alcance, o que será o caso deste combate de sábado, Conor consegue uma hora ou outra encurralar o oponente e deixá-lo dentro do frame de ataque, entre seus dois pés, à mercê do direto de esquerda, que costuma bater para derrubar. Na luta agarrada, ele já mostrou qualidade ofensiva e muitos problemas defensivos. Somado à dificuldade de evitar o cansaço, tem-se um quadro bastante perigoso para enfrentar alguém como Nurmagomedov.

Conor McGregor vs Khabib Nurmagomedov odds - BestFightOdds
 

Quando somamos virtudes e deficiências de ambos, chegamos ao favoritismo de Khabib nas casas de apostas. O resultado é o wrestler mais feroz do MMA mundial diante de um sujeito com imensas dificuldades de defender queda e trabalhar na guarda. Na teoria rasa, seria um jogo de gato e rato, com o campeão perseguindo o desafiante até jogá-lo no chão e acabar com seu gás e sua raça no ground and pound. Porém, a realidade não será assim tão simples.

A mesma soma de qualidades e defeitos mostra um russo que se expõe, especialmente nos começos de trocas de golpes, contra um irlandês que é especialista em encontrar botões liga-desliga na cabeça de seres humanos. Basta um descuido de Nurmagomedov para McGregor voltar para Dublin com o cinturão que lhe foi tirado depois da baderna de Nova York, no começo do ano.

Este cenário fará com que Khabib tenha que atuar com atenção máxima em todos os milésimos que estiver de pé, o que é bastante desgastante. E fará com que McGregor tenha que se movimentar incessantemente para não ser abalroado, o que também é desgastante, ainda mais para um camarada que apresentou problemas graves de manutenção da condição cardiorrespiratória.

Sem nunca desprezar a capacidade fora do normal que Conor tem de deitar gente, a aposta é que Khabib aumentará a taxa de corpos derrubados, massacrará o irlandês no solo e conseguirá a interrupção por nocaute técnico no quarto round.

Peso Leve: #2 Tony Ferguson (EUA) vs. #8 Anthony Pettis (EUA)

Por Pedro Carneiro

Tony Ferguson

Tony Ferguson (23-3 no MMA, 13-1 no UFC) é um dos melhores exemplos de desenvolvimento técnico no MMA. Revelado pelo TUF 13, sempre foi um lutador com boxe ajustado e wrestling sólido. Com o tempo, aumentou a pressão ofensiva, o volume de golpes na curta distância e desenvolveu um bom arsenal de submissões. Passou a se defender melhor no chão e ameaçar os oponentes com uma guarda bem ativa. Se ainda dá espaços na luta em pé, principalmente no início das lutas, compensa com ritmo intenso e crescente, que o torna um verdadeiro pesadelo para seus oponentes.

O retrospecto recente é o de um furacão, mesmo em uma divisão onde uma sequência de vitórias é um feito enorme. São 10 vitórias seguidas, desde a derrota para Michael Johnson no já distante ano de 2012. Dentre os notáveis no currículo do El Cucuy, estão nomes como Edson Barboza, Rafael dos Anjos e a vitória mais recente contra Kevin Lee.

Anthony Pettis

Se falávamos de evolução, temos aqui um caso na direção oposta. Anthony Pettis (21-7 no MMA e 8-6 no UFC) é (ou foi) um lutador imprevisível, talentoso e genial, porém a derrota para Rafael dos Anjos criou uma espantosa queda de rendimento. A genialidade e o senso de oportunidade que capitalizava todo e qualquer erro do adversário foram ficando cada vez mais raros Aquele atleta de grande potencial de entretenimento agora parece muito cauteloso e burocrático, mesmo nas vitórias. Se Apollo Creed estivesse entre nós, com certeza diagnosticaria o ex-campeão dos leves com uma perda repentina do eye of the tiger.

Showtime (?) Pettis vem de uma gangorra de resultados nas últimas quatro lutas e uma breve passagem pela categoria dos penas. As vitórias foram sobre Charles do Bronx, Jim Miller e Michael Chiesa, em contraste com as derrotas para Max Holloway e Dustin Porier.

Anthony Pettis vs Tony Ferguson odds - BestFightOdds
 

Seria incrível se o antigo Pettis voltasse para um combate repleto de imprevisibilidade e dinamismo.  Os dois trocariam muita pancada em pé e seria daquelas lutas empolgantes inclusive no solo.

Todavia, Anthony não vive a melhor fase da carreira há algum tempo. Ele ataca basicamente com chutes, usando pouco as mãos. O problema disso contra um adversário como Ferguson é que fica mais fácil marcar o tempo e o ritmo de chutes do que de socos, facilitando o jogo de pressão e alto volume do oponente. As últimas lutas do Showtime deixaram nítida a sua dificuldade quando pressionado. Sem muita resposta, o cenário mais provável é que ainda que Pettis possa suportar castigo, em algum momento Tony liquide a fatura.

Peso Meio-Pesado: #7 Ovince St. Preux (HAI) vs. #12 Dominick Reyes (EUA)

Por Diego Tintin

Ovince Saint-Preux (23-11 no MMA, 11-6 no UFC) se mantém relevante nesta desenganada divisão mesmo após algumas atuações decepcionantes. Surgiu como promessa no Strikeforce e conquistou seu espaço no UFC batendo em atletas medíocres ou veteranos em decadência. Quando o sarrafo foi colocado mais alto, o haitiano sucumbiu diante de gente mais talentosa, como quando teve a chance de disputar o cinturão interino contra Jon Jones, que voltava de suspensão e o venceu, mesmo com uma atuação deprimente.

A maior qualidade de Saint-Preux é seu atleticismo, muito acima da média entre os meios-pesados. Como na sua vida universitária se dedicava ao futebol americano, falta-lhe uma base mais sólida em alguma modalidade de combate. OSP sempre parece agir pelo instinto e capacidade de improvisação. É nítido que carece de um domínio teórico maior dos aspectos de luta em combates mais importantes, contra a elite. Pelo menos é criativo, tanto na luta em pé quanto na agarrada – é especialista no von flue choke – e aproveita dessa imprevisibilidade para conseguir vitórias pontuais que o mantém com algum cartaz e sempre dentro do ranking. Além disso, possui grande poder de definição com socos, chutes e submissões.

Dominick Reyes (9-0 no MMA, 3-0 no UFC) é uma das esperanças de renovação na divisão dos meios-pesados e chegou à organização com o pé na porta. A estreia não durou nem meio minuto, com Joachim Christensen caindo pulverizado. Em seguida, lidou bem com a luta agarrada de Jeremy Kimball e um mata-leão decidiu a parada. O terceiro combate foi contra o decente Jared Cannonier e mais uma vez Reyes nocauteou, mostrando muita virtude na luta em pé. Seguindo uma escalada bem definida, Reyes tem a chance de enfrentar o top10 Saint-Preux no teste mais duro de sua carreira.

O porte físico de Reyes impressiona e lembra um pouco Alexander Gustafsson: alto, esguio e ágil em comparação com a média da divisão. O “Devastador” só passou de 4 minutos de luta uma vez, portanto, apesar de aparentemente não ficar devendo no condicionamento, seu desempenho em uma luta longa ainda é um mistério.
No aspecto técnico, Dominick tem as mãos velozes, chuta bem o corpo e as pernas adversárias. Ainda oferece brechas defensivas flagrantes, talvez fruto da inexperiência em alto nível. Participou sem grande destaque do cenário de wrestling universitário, o que o ajuda a evitar as quedas, embora a concorrência até o momento tenha sido pouco ameaçadora.

Dominick Reyes vs Ovince Saint Preux odds - BestFightOdds
 

Este duelo está com toda a cara de troca de guarda na categoria. Mais técnico e ágil, Reyes deve manter a característica de partir com agressividade para tentar uma interrupção precoce. OSP é malandro e ficará à espreita, no aguardo de um vacilo do prospecto para surpreendê-lo. Nosso palpite aqui é que Dominick segure a onda neste desafio importante e consiga uma paralisação em seu favor antes da primeira buzina soar.

Peso Pesado: #2 Derrick Lewis (EUA) vs. #5 Alexander Volkov (RUS)

Por Idonaldo Filho

Mestre em fazer lutas ruins, porém divertidas, Derrick Lewis (20-5 no MMA, 11-3 no UFC) é uma figura excêntrica. Transborda grosseria tanto no octógono, quanto em entrevistas que sempre contam com alguma pérola. Lewis é atualmente o segundo (isso mesmo) colocado no ranking oficial do UFC e conseguiu essa posição em um constrangedor confronto de encaradas contra Francis Ngannou. Ele saiu vitorioso por provavelmente ter conseguido um soco ou dois a mais que o adversário, que não deve ter soltado nenhum. Antes disso, ele passou aperto contra Marcin Tybura, mas soltou um cascudo na têmpora do adversário e saiu com a vitória no apagar das luzes.

Lewis notavelmente é um lutador pesado, que tem força demais, contudo, velocidade e gás de menos. A Besta Negra, quando não está buscando arrancar a cabeça do adversário com golpes únicos porém poderosos, tenta grampear o adversário na grade, para conseguir quedar e bater em cima. Como é muito grande, uma vez por cima, dificilmente oponentes mais limitados conseguem sair de lá. Tem um ground and pound bastante potente, arma interessante quando em vantagem no solo.

Lewis vem há algum tempo falando sobre problemas crônicos nas suas costas, inclusive essas dores o fizeram anunciar a aposentadoria, mas logo voltou atrás. Lewis também já apresentou problemas com condicionamento, isso aliado à pouca técnica o torna uma presa fácil quando em posição de desvantagem na luta de solo.

A categoria dos pesados está com o cenário da próxima disputa de cinturão ainda confuso. Mas Alexander Volkov (30-6 no MMA, 4-0 no UFC) certamente merece uma chance pelo título. O ex-campeão do Bellator, do alto de seus mais de dois metros de altura e envergadura, vem de uma senhora vitória contra Fabrício Werdum, quando mostrou evolução técnica e atlética interessantes. Como só faz 30 anos no final do mês, o tempo também está muito favorável para Volkov virar um legítimo desafiante em breve.

O russo sabe muito bem usar sua estatura privilegiada, domina a arte do jab (raro no peso pesado, isso é bom detalhar) e também é bom chutando. Alex é dotado de potência nos golpes, com alta taxa de nocautes, já que tem 20 das 30 vitórias pela via rápida. O chão que já foi muito ruim e sempre explorado, mostrou melhoras, principalmente no aspecto defensivo contra Fabrício Werdum. Ele ainda pode melhorar sua defesa de quedas, o que é complicado tendo em vista ele ser um sujeito alto e meio magricela. No clinch ele gosta de utilizar joelhadas, fazendo bom uso de suas pernas compridas. Ofensivamente, Volkov é um cara muito perigoso, e seguramente um dos melhores strikers da categoria e, se for fazer umas visitinhas no Daguestão para aprender wrestling, tende a ficar melhor ainda.

Alexander Volkov vs Derrick Lewis odds - BestFightOdds
 

É um perigo para Lewis encarar em pé um cara tão perigoso na troca de golpes, que tem ótima envergadura e duas pernas gigantes. O americano nunca foi um lutador móvel e sempre preferiu lutar mais na curta distância. Para uma vitória de Lewis, ele tem que conseguir aproximar e levar Volkov pro chão na força bruta. Correrá o risco de levar um triângulo, mas pode ter uma possibilidade de chegar ao nocaute técnico. Para o russo é mais fácil, basta fazer o seu jogo regular, trocando na longa distância, para conseguir uma vitória na decisão unânime dos juízes, que é a nossa aposta.

Peso Palha: #8 Michelle Waterson (EUA) vs. #9 Felice Herrig (EUA)

Por Diego Tintin

Michelle Waterson (15-6 no MMA, 3-2 no UFC) é um daqueles exemplos de aproveitar a chance de integrar o elenco da maior organização de MMA do mundo, mesmo que isso custe lutar fora de sua divisão de peso mais apropriada. Recém derrotada por Hérica Tibúrcio, que lhe tirou o cinturão peso átomo do Invicta FC, Michelle chegou com certa moral no evento ainda assim. Depois de vencer a já famosa Paige VanZant, transitou na elite da divisão, porém acabou sucumbindo diante da atual campeã Rose Namajunas e da experiente Tecia Torres. Fez as pazes com a vitória no último mês de abril, quando venceu Cortney Casey em luta bem acirrada.

Embora seu apelido seja algo como “Gata do Caratê” e ostente a faixa-preta nesta arte marcial, Waterson tem um jogo interessante na luta agarrada. Sabe se aproximar com disposição e causa problemas até para concorrência qualificada na luta de solo. Em pé, a bela estadunidense até tem talento, mas lhe falta tamanho e potência.

Depois de um início difícil, Felice Herrig (14-7 no MMA, 5-2 no UFC) chegou a um momento em que lembra a boa lutadora que fez carreira no Bellator e XFC.  Venceu bons nomes como Alexa Grasso, Cortney Casey e Justine Kish, mas assim como Waterson, não ultrapassou o sarrafo quando ele foi posto mais alto. Sofreu com VanZant e deu trabalho para Karolina Kowalkiewicz, mas ainda não conquistou uma vitória que a leve para o nível de cima da divisão.

Felice costuma apresentar agressividade, principalmente na sua busca por encurtar a distância com o objetivo de levar a luta para o chão. Tem um bom clinch e inteligência para mesclar golpes curtos com aplicação de força isométrica. Não é ruim na luta em pé, suas mãos são precisas, mas falta um pouco de velocidade e sincronia de movimentos. Sua força física e bom condicionamento garante um ritmo difícil de acompanhar, outra virtude desta valorosa lutadora.

Felice Herrig vs Michelle Waterson odds - BestFightOdds
 

Um dos duelos mais interessantes e equilibrados da noite, com promessa de intensidade e entrega por três assaltos. Herrig é mais forte, porém menos ágil e técnica. Waterson deve evitar um confronto mais físico, pelo menos no round inicial, de modo a preservar suas energias. Enquanto para Felice, o contrário deve ser interessante, ela deve buscar o duelo na grade para cansar os braços da oponente e deixar a luta mais a seu feitio. Com duas meninas de muito coração e coragem em ação, a promessa é de luta empolgante e o palpite é uma decisão em favor de Michelle.

O MMA Brasil é um site com artigos opinativos e analíticos sobre esportes de combate em geral, especialmente sobre MMA (Mixed Martial Arts).