Por Edição MMA Brasil | 07/09/2018 11:42

Quatro anos e meio depois de sediar uma inesquecível disputa do cinturão dos meios-médios, a American Airlines Center, em Dallas, volta a abrigar um confronto pelo mesmo título, agora no UFC 228.

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Puxando o card principal, Tyron Woodley parte para a quarta defesa da coroa dos meios-médios. O oponente será o britânico Darren Till, que ganhou a chance de presente, assim como aconteceu com o próprio Woodley.

Outra disputa de cinturão traz o retorno de Nicco Montaño, a menos festejada campeã do UFC. Ela colocará o título do peso mosca em jogo contra Valentina Shevchenko, apontada por muitos como eventual campeã desde que a divisão foi anunciada.

Um dos mais fortes prospectos a terem surgido no UFC em anos estará em ação no UFC 228. Zabit Magomedsharipov vai encarar Brandon Davis, que já parte para a quarta luta em 2018. Antes deles, Jessica Andrade e Karolina Kowalkiewicz disputam uma provável eliminatória no peso palha. Abrindo a programação principal, Abdul Razak Alhassan e Niko Price entram pela cota de pancadaria.

Os fãs terão uma noite longa com as 14 lutas do UFC 228, que terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. A abertura das atividades está marcada para às 19:00h, enquanto o card principal deve ir ao ar a partir de 23:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Meio-Médio: (C) Tyron Woodley (EUA) vs. #2 Darren Till (ING)

Por Alexandre Matos

Parece que o encanto que atingiu Tyron Woodley (18-3-1 no MMA, 8-2-1 no UFC) na migração do Strikeforce para o UFC terminou. Com uma personalidade pouco atrativa fora do octógono, o americano voltou a ser o lutador enfadonho dos tempos da extinta organização. Exceção feita ao nocaute aplicado em Robbie Lawler, quando conquistou o cinturão há dois anos, Woodley tem tido muita dificuldade para empolgar os fãs. Pelo menos tem sido eficiente ao defender a coroa contra Demian Maia e duas vezes contra Stephen Thompson.

O que havia tornado Woodley mais empolgante foi a descoberta do poder de seus punhos. Ele deixou de ser um wrestler que só fazia colar oponente na grade para virar um nocauteador feroz. O vareio sofrido contra Rory MacDonald foi a exceção de um caminho que contou até com superioridade no striking diante de Carlos Condit – Tyron mostrou capacidade de chutar a ponto de lesionar o joelho do oponente. Os oponentes ficam preocupados em serem atingidoa por um soco violento ou uma queda que precederá um ground and pound poderoso. Porém, Woodley tem sido mais econômico do que nunca nos últimos compromissos. Neste sábado, isso pode custar caro.

Darren Till

Quando o UFC percebeu que Darren Till (17-0-1 no MMA, 5-0-1 no UFC) poderia ocupar o lugar do veterano Michael Bisping no coração dos fãs britânicos, o jovem pegou um belo atalho. Com três vitórias e um empate contra concorrência da parte de baixo da divisão, Darren foi catapultado para uma luta principal contra Donald Cerrone. O nocaute brutal no primeiro round o levou a uma eliminatória contra o ex-desafiante Thompson, na segunda luta principal consecutiva. O “Gorila” venceu, não convenceu, mas ganhou a chance de presente depois que o campeão interino Colby Covington se lesionou.

Apesar de ter passado muitos anos sob a tutelagem de Marcelo Brigadeiro, que lhe ensinou os segredos da luta livre esportiva, Till tem no boxe a sua principal ferramenta tanto ofensiva quanto defensiva. Ele tem notável talento para combinar socos e agressividade para encurralar e nocautear. Darren também tem um jogo de quedas subestimado, mas que será praticamente inviável diante da quase inviolável defesa de quedas do campeão. Por este motivo, o sufocante ground and pound do rapaz de Liverpool dificilmente será visto em Dallas.

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Trocar socos pode ser uma furada para o campeão em qualquer cenário que isso ocorra. Se ele reduzir a intensidade das ações, como odiosamente fez contra Maia e Thompson, provavelmente ele será superado pela melhor técnica de Till. Se resolver sair para a pancadaria, pode acordar com a lanterninha do médico no olho ao não conseguir superar a diferença de envergadura a favor do desafiante. T-Wood tem capacidade de nocautear qualquer ser humano que bata 77 quilos e isso nunca pode ser desprezado, mas é um cenário um pouco menos favorável a ele.

Botar o wrestling para jogo, por outro lado, é um caminho aberto para Woodley trilhar em busca da quarta defesa consecutiva. Till defende bem quedas, mas seria uma surpresa se ele suportar 25 minutos de pressão de um wrestler do naipe técnico e físico do campeão. Manter o “Gorila” de costas para o chão é o super trunfo de Woodley.

Em resumo: se o Woodley que nocauteou Lawler encarar o Till que nocauteou Cerrone, o cinturão deverá mudar de mãos. Mas se o Woodley que chateou o mundo contra Thompson, Maia e no Strikeforce encontrar o sonolento Till das vitórias sobre o mesmo Thompson e Jessin Ayari, o cinturão permanecerá na Roufusport. No entanto, a minha aposta é um mix: Woodley vai usar o wrestling para conter a agressividade de Till e se aproveitar do brutal corte de peso que o desafiante sofre. Deve dar certo por dois rounds. Se Darren morrer no gás, Woodley por decisão. Se sobrar energia ao inglês, Till por nocaute no terceiro.

Cinturão Peso Mosca Feminino: (C) Nicco Montaño (EUA) vs. #1 Valentina Shevchenko (KGZ)

Por Diego Tintin

Nicco Montano

Nicco Montaño (4-2 no MMA, 1-0 no UFC) aproveitou a chance proporcionada pelo TUF 26 e sagrou-se a primeira campeã da história do peso mosca feminino da maior organização do mundo. Pouco cotada na fase pré-programa, Nicco eliminou uma das favoritas, Lauren Murphy, logo na estreia e embalou na competição. Passou por Montana De La Rosa num combate sangrento e com autoridade pela experiente Barb Honchak, sempre por decisão, garantindo a vaga na final.

A oponente na decisão que valeu o cinturão inaugural seria Sijara Eubanks, mas uma contusão pôs a velha de guerra Roxanne Modafferi no caminho da moça do Arizona. Numa luta animada, Montaño se impôs e anotou seu nome na história da organização, concluindo uma bonita história de superação em meio a um início de carreira irregular e problemas físicos persistentes que a atormentam desde que começou a lutar profissionalmente.

A campeã se destacou no TUF por apresentar um jogo em pé sólido, defensivamente seguro e de boa técnica e aproximação. Um pouco menos desenvolvido, o jogo de solo é mais focado no básico, com menos momentos de domínio, mas a mesma tranquilidade ao se defender. Dá pra afirmar que a americana faz um feijão-com-arroz bem acabado, embora isso não signifique que seus combates sejam monótonos. A valentia e bom preparo físico garantem a diversão para o público e devem valer uma produtiva carreira no UFC.

Valentina Shevchenko

Valentina Shevchenko (15-3 no MMA, 3-2 no UFC) é um desafio espinhoso para qualquer lutadora de MMA da atualidade. Ela chegou no UFC como peso galo, vencendo a veterana Sarah Kaufman em decisão dividida. Depois, um duelo encardido contra Amanda Nunes, no qual a quirguiz naturalizada peruana foi ao inferno no início da luta, mas mostrou resiliência e ficou muito perto de virar o placar. Após este revés, o importante triunfo sobre a estrela Holly Holm, num duelo do mais alto nível do kickboxing mundial dentro do octógono.

Ao derrotar a sensação Juliana Peña com atuação de gala, Vale desafiou o cinturão da velha conhecida Amanda. Desta vez, os juízes tiveram uma missão complicada por conta de uma luta muito parelha em cinco rounds. Decepcionada ao perder por tão pouco, migrou para o peso mosca e aplicou uma surra constrangedora na novata Priscila Cachoeira em um casamento de luta absurdo.

As credenciais da “Bullet” na luta em pé são de impressionar: mestre internacional e campeã mundial de muay thai, faixa preta segundo dan de taekwondo, mais de 60 lutas profissionais entre boxe e kickboxing com apenas duas derrotas e vitórias em várias etapas do K-1. Para completar, treinos de qualidade: tem outra campeã mundial de muay thai na família, a irmã Antonina, revelação do Contender Series que fará em breve sua estreia oficial no UFC. A especialidade da casa são os contragolpes em alta velocidade e uma resistência acima da média. A melhora na luta agarrada é perceptível, já conseguindo quedas, submissões e um ground and pound do mais respeitável.

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A questionável ideia do UFC de premiar a vencedora do TUF 26 com o título da divisão proporcionou esta glória no currículo de Nicco, uma valorosa atleta que conquistou o respeito dos fãs com seu trabalho. Isto posto, a diferença de qualidade neste combate é muito grande e Valentina vai conquistar o ouro, que tem boas chances de estabelecer moradia em sua cintura. Apostamos em interrupção antes da metade do tempo previsto.

Peso Pena: #15 Zabit Magomedsharipov (RUS) vs. Brandon Davis (EUA)

Por Pedro Carneiro

Zabit Magomedsharipov

Quando o MMA Brasil aponta alguém no projeto Top 10 do futuro, é porque ali há um talento diferenciado que deve ser observado com toda a atenção. Sendo assim, é bom deixar claro que Zabit Magomedsharipov (15-1 no MMA, 3-0 no UFC) é o mais talentoso dentre os atletas promissores do plantel do UFC. O russo deixou bem claro com três vitórias dominantes sobre Mike Santiago, Sheymon Moraes e Kyle Bochniak.

A técnica apurada é o seu maior destaque, independentemente do ramo da luta envolvido. A troca de golpes é fluida, com golpes lançados como manda o manual, advinda de anos de pratica e títulos de wushu, complementados com boxe e kickboxing. Zabit é um lutador esguio, o que lhe permite um bom controle de distância, uso eficaz de golpes retos e uma potência incomum para um lutador com o seu tipo físico. A luta agarrada é claustrofóbica para os oponentes, com um jogo de pressão nas quedas, ground and pound atroz e jiu-jítsu que capitaliza qualquer brecha apresentada.

Brandon Davis

Atleta oriundo do Dana White’s Tuesday Night Contender Series, Brandon Davis (9-4 no MMA, 1-2 no UFC) é um lutador que possui dois lados de uma mesma moeda. Uma das faces apresenta um muay thai agressivo, uso efetivo de golpes longos em alto volume, um ímpeto de sempre buscar o combate e andar para frente, um wrestling razoável e um ground and pound de respeito. Já a outra face é marcada por vários buracos na defesa de golpes e um wrestling defensivo ruim.

Substituindo Yair Rodriguez, que se lesionou no final de agosto, e com uma vitória sobre Steven Peterson entre duas derrotas contra Kyle Bochniak e Enrique Barzola, ambas por decisão unânime (resultado de todos os combates de Davis no UFC), o americano sofre ainda a pressão de lutar com um cartel negativo na empresa, em uma luta com pouco tempo de preparo e contra um candidato a gênio. Não é à toa que as casas de apostas estão tão pessimistas com o americano neste sábado.

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É difícil imaginar um cenário no qual Magomedsharipov não vença com relativa tranquilidade. O daguestani é melhor em todos os aspectos da luta e, salvo a possibilidade de ter perdido a motivação pela troca do oponente, a chance de haver um vareio é alta. O mais provável é que Zabit controle o ímpeto de Davis na disputa da distância e use o seu wrestling impositivo para terminar a luta através de uma finalização no segundo round, talvez até antes.

Peso Palha: #2 Jessica Andrade (BRA) vs. #4 Karolina Kowalkiewicz (POL)

Por Thiago Kuhl

Jessica Andrade

Após perder de forma inapelável para a ex-campeã Joanna Jedrzejczyk, Jéssica Andrade (18-6 no MMA, 9-4 no UFC) se restabeleceu no top 3 do peso palha com duas vitórias, contra sua compatriota Claudinha Gadelha, de forma dominante, e contra Tecia Torres, não sem antes passar alguma dificuldade no início do combate. A posição favorável no topo do ranking, que poderia render uma disputa de título imediata, não a impediu de se manter ativa (e receber mais uma bolsa) aceitando uma luta bastante complicada contra outra ex-desafiante.

Produto da Paraná Vale Tudo, Jéssica se tornou uma lutadora realmente competitiva quando deixou a larga diferença de peso que tinha em relação às outras meninas do peso galo e pode imprimir um estilo de jogo bastante ofensivo, de alta potência e com ritmo alucinante. O sistema ofensivo hiper agressivo, entretanto, não conseguiu dar conta de lutadoras que tenham condição de bater andando para trás – Bate-Estaca sofreu muito em sua tentativa de tomar o cinturão de Joanna e no primeiro round contra Tecia, muito pela forma atabalhoada de aproximação utilizada.

Condecorada no muay thai, a polonesa Karolina Kowalkievicz (12-2 no MMA, 5-2 no UFC) também teve sua chance pelo cinturão contra Joanna, quando deu trabalho para a ex-campeã e quase encerrou a luta no quarto round, mas não conseguiu se tornar a segunda polonesa campeã do maior evento do mundo. Em seguida, Karolina ainda perdeu mais uma luta, para Claudinha, voltando bastante na fila por uma segunda chance. Duas vitórias contra lutadoras de menor nível (Jodie Esquibel e Felice Herrig) colocaram-na em condições de disputar um lugar no topo da divisão, agora sem sua compatriota detendo o cinturão.

A polonesa menos famosa do UFC tem um jogo de clinch muito poderoso, com boas joelhadas e cotoveladas, mas também com habilidade para bater recuando, o que pode ser um ótimo ativo na luta de sábado. Para Karolina, ficar na mais curta distância contra Bate-Estaca deve ser uma estratégia pontual, utilizada apenas para causar dano – neste cenário, uma vitória pode ocorrer apenas se ela conseguir manter a distância e evitar as aproximações da brasileira causando dano. Por outro lado, contra Claudinha, Karol mostrou muita dificuldade em manter uma boa grappler na distância e acabou finalizada sem dificuldade.

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A questão é simples: Jéssica vai conseguir encurtar e colocar pressão antes de sofrer muito dano? Tomemos os exemplos contra Tecia e Joanna: ex-campeã dominou a luta com tranquilidade; Torres teve sucesso por pouco mais de cinco minutos. Podemos dizer que Kowalkievicz esta entre as duas num ranking de qualidade.

Isto posto, acredito que Jéssica conseguirá em algum momento encurtar, o que será suficiente para conseguir uma interrupção na parte final da luta.

Peso Meio-Médio: Abdul Razak Al-Hassan (GHA) vs. Niko Price (EUA)

Por Matheus Costa

Em duelos de técnica contra grosseria, nem sempre o resultado lógico acontece no esporte mais imprevisível do mundo. Entretanto, há motivos suficientes para não acreditar numa zebra entre Niko Price e Abdul Razak Al-Hassan.

O africano é o tipo do trocador ignorante. Ele realmente não possui muitos pontos técnicos e sua trocação é bem brutal e grosseira. Abdul Razak Al-Hassan (9-1 no MMA, 3-1 no UFC) adora colocar seu jogo de pressão em prática e atuar na curta distância, aplicando socos como se não houvesse amanhã, pouco dotado de técnica. Sua defesa de quedas é praticamente inexistente e seu chão é nulo, apesar da origem no judô. Estas dificuldades, quando exploradas, trazem enormes problemas para o primeiro ganês da história do UFC.

Niko Price (12-1 no MMA, 4-1 no UFC) tem todas as armas necessárias para vencer o africano. Em pé, o “Híbrido” possui base no muay thai e aplica com maestria golpes na longa distância com bastante potência. No chão, Price mostra um jiu-jítsu bem afiado e com criatividade na hora de buscar as finalizações. O americano não possui um bom controle posicional no chão e tem buracos defensivos em todas as áreas, mas isso não deve ser suficiente para lhe render problemas.

O que me faz gostar bastante desse duelo é a alta capacidade de ambos fazerem lutas divertidas. Enquanto Alhassan vem de dois nocautes no primeiro round consecutivos, contra Sabah Homasi, Price vem de um dos nocautes mais bizarros da história do MMA, detonando Randy Brown estando de costas no chão com marretadas na têmpora do jamaicano. Bizarramente lindo.

Abdul Razak Alhassan vs Niko Price odds - BestFightOdds
 

Price é o favorito para ampliar seu retrospecto para cinco vitórias em seis lutas no UFC. A chance de Razak é encurtar a distância e usar sua brutalidade, mas acho que o muay thai de Price é bom o suficiente para impedir isso. Entretanto, acho que o americano deverá usar seu jogo de chão e finalizar o ganês no segundo round.

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