Por Edição MMA Brasil | 19/01/2018 11:52

Já no segundo evento de 2018, a maior organização do MMA mundial aposta numa escalação de peso. O UFC 220, que acontece neste sábado no TD Garden, casa do maior campeão da NBA, o Boston Celtics, marca a primeira vez em quase dez anos que os cinturões das duas categorias mais pesadas estarão em jogo na mesma noite.

O campeão dos pesados será a principal atração. Stipe Miocic tenta quebrar o recorde de defesas consecutivas do cinturão mais antigo do MMA. Seu oponente será a aterrorizante máquina de destruição camaronesa Francis Ngannou. Já na luta coprincipal, Daniel Cormier faz a primeira defesa desde que foi recolocado no trono dos meios-pesados contra o surpreendente suíço Volkan Oezdemir.

Integrante do projeto Top 10 do Futuro no peso pena, Shane Burgos encara o talentoso local Calvin Kattar. Antes, o empolgante Gian Villante terá a dura missão de fazer Francimar Bodão trabalhar. Abrindo o card principal, Thomas Almeida e Rob Font prometem tiroteio pesado.

O UFC 220 será transmitido ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O primeiro duelo preliminar está marcado para iniciar às 21:30h, enquanto a porção principal deve ir ao ar a partir de 01:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Pesado: C Stipe Miocic (EUA) vs. #1 Francis Ngannou (CAM)

Por Alexandre Matos

Stipe Miocic

O cinturão dos pesados do UFC nunca foi defendido com sucesso por três vezes consecutivas. Os recordistas, com duas defesas, são Randy Couture, Tim Sylvia, Brock Lesnar, Cain Velasquez e Miocic (17-2 no MMA, 11-2 no UFC). Desde que conquistou o título calando 40 mil vozes na Arena Atlético Paranaense que torciam por Fabricio Werdum, o americano aplicou dois fortes nocautes. As vítimas foram Alistair Overeem, no UFC 203, e Junior Cigano, no UFC 211.

O descendente de croatas tem levado a escola americana de MMA do boxe com wrestling a um belo nível de evolução. Miocic cada vez mais exibe um jogo de pernas fluido, constante e rápido para a categoria. Na atual fase, que é quase mágica, o campeão bate para machucar de qualquer posição que atacar, mesmo se estiver recuando e com o centro de gravidade deslocado como contra Werdum. Para piorar a situação da concorrência, Stipe sempre deixa os rivais na dúvida da hora em que vai tentar uma queda, movimento que ele consegue esconder muito bem. Tirando a derrota para Cigano e a vitória sobre Roy Nelson, Miocic apresenta taxa de 75% de acerto nas quedas e um trabalho de controle posicional e ground and pound absolutamente assombroso.

Francis Ngannou

Das ruas para a disputa do cinturão mais importante do MMA mundial. Literalmente. A história de Ngannou (11-1 no MMA, 6-0 no UFC) daria um filme que já teria um tremendo roteiro mesmo antes deste sábado. Em seis apresentações no UFC, o camaronês nocauteou cinco pobres diabos. Na única vez que não venceu pela via rápida dolorosa (que com ele é mais doloroso que o normal), Ngannou aplicou uma kimura tão bruta que chegou a dar pena de Anthony Hamilton.

Você pode concordar que o comentarista Joe Rogan é exagerado, mas ele tem razão quando berra que Ngannou é um sujeito assustador. O elemento estabeleceu o recorde de potência de soco medido pelos laboratórios do UFC Performance Institute, onde treina atualmente. Se isso não te amedronta, reveja o nocaute sobre Overeem e o sobre Luis Henrique KLB. Francis é um boxeador mais ágil e móvel do que sua estrutura de 1,93m e 119kg poderia supor. Ele começou a treinar tarde (21 anos), ainda em Camarões, antes de morar nas ruas de Paris tentando carreira profissional. Hoje, Ngannou mostra uma capacidade incrível de gerar potência no uppercut mesmo se estiver desequilibrado.

Francis Ngannou vs Stipe Miocic odds - BestFightOdds
 

Enfrentar Ngannou é uma missão para os nervos, pois basta um mínimo erro para ele acabar com a sua raça. Nunca o chavão “se a mão entrar…” teve tanto sentido como nas lutas da sensação africana. Se a mão de Ngannou entrar, é bom ter certeza que o plano funerário está em dia.

Como evitar ser atingido pelas bigornas assassinas do camaronês? Movimentação. Muita. Mesclada com volume de golpes. Quem é o peso pesado mais indicado na atualidade para esta missão? Miocic, sem dúvida. Desde os primeiros movimentos do combate, o campeão não poderá parar diante do desafiante em hipótese alguma. Se quiser entrar em queda, certifique-se de fazer o ataque de pernas baixo e muito rapidamente.

O queixo de Ngannou nunca foi testado de verdade como será neste sábado. Já o de Miocic já foi reprovado antes. Em 25 minutos de luta, é difícil imaginar que o gigante camaronês não vai encontrar a mandíbula do americano pelo menos uma vez – e é por isso que as odds estão ao lado do desafiante. No entanto, vou contra a maré e apostar na primeira vez que o cinturão dos pesados será defendido três vezes seguidas. Miocic por nocaute técnico no terceiro assalto é a aposta.

Cinturão Peso Meio-Pesado: C Daniel Cormier (EUA) vs. #2 Volkan Oezdemir (SUI)

Por Alexandre Matos

Daniel Cormier

Não é muito fácil a vida de Cormier (19-0 contra a rapa, 0-1(1NC) contra Jon Jones, 8-1(1NC) no UFC). Um dos melhores lutadores da história do MMA peso por peso deu o azar de surgir na mesma época e categoria do maior de todos. Apesar de ter entregado duas lutas duras a Jones, perdeu ambas, ainda que a segunda tenha sido revertida por mais um doping do complicado ex-campeão. O fato de não vencer Jones faz com que muitos desmereçam DC, não importando que ele enfileirou gente como Anthony Johnson duas vezes, Alexander Gustafsson, os restos de Anderson Silva e Dan Henderson, além de uma penca de pesados de elite.

Cormier é um dos gigantes da história por ser muito bom em todos os aspectos ofensivos do jogo e dar poucas brechas defensivas – a bica na pança é um problema que, aos 38 anos, parece que nunca será resolvido. O MMA viu raros aplicarem o wrestling como ele, dono de um controle posicional monstruoso, tempo de queda fantástico, transições rápidas e mortal quando pega as costas. As quedas são um espetáculo à parte. Cormier já ergueu Jones no ombro antes de cravá-lo no chão, fez o mesmo com o gigantesco Josh Barnett e transformou Hendo num saco de batatas. Para agravar (a vida dos oponentes), o campeão desenvolveu um excelente kickboxing e tem potência, coragem e queixo para trocar pau com quem for na situação que for, mesmo que seja um coice de Rumble Johnson, uma joelhada de Gustafsson ou uma série de uppercuts de Jones.

Volkan Oezdemir

Poucos prêmios são tão merecidos como o de revelação do ano para Oezdemir (15-1 no MMA, 3-0 no UFC). O sujeito estreou no UFC há 11 meses tendo feito apenas uma luta em dois anos e meio. No octógono, enfrentou top 10 nas três vezes que subiu no octógono. Na primeira, bateu Ovince St. Preux numa luta tecnicamente problemática. Em seguida, levou 28 segundos para nocautear Misha Cirkunov e 42 para dar cabo de Jimi Manuwa. Mostrando uma marra tão grande quanto justificada, o suíço, que lutou duas vezes no sul da Bahia no começo da carreira, se tornou uma estrela em ascensão ainda com um ar de mistério.

Oezdemir tem no kickboxing, treinado por Henri Hooft, sua principal arma. Ele varia bem os ataques com punhos e canelas, mostra um poder de definição muito elevado, mas muitas vezes não deixa o cérebro oxigenar e acaba tomando decisões afobadas, o que pode ser a receita para o desastre no sábado. Oezdemir atua bem no clinch, mas esta também não parece ser uma estratégia inteligente para o combate. A defesa de quedas é boa, mas não o suficiente para lidar com o wrestling de Cormier e o jiu-jítsu defensivo já o deixou na mão.

Daniel Cormier vs Volkan Oezdemir odds - BestFightOdds
 

Como adiantado um parágrafo acima, Oezdemir terá uma missão espinhosa. Trocar pressão no clinch com Cormier parece uma decisão estúpida. Botar o americano para baixo é muito difícil. Porém, a estrela do suíço é forte, assim como sua pancada. Se Cormier bobear na curta distância, pode tombar, ainda que seu queixo seja bastante mais duro que os de Cirkunov e Manuwa.

Volkan precisa imprimir um ritmo ofensivo forte, variando os ataques contra a cabeça e o corpo de Cormier, mas sem se aproximar tanto, a não ser que apareça a oportunidade de definir a parada. No entanto, assim como Ngannou precisa de pouco para dar cabo de uma luta, Daniel também precisa de uma oportunidade para grudar no desafiante, jogá-lo no chão, desgastá-lo no ground and pound e controle posicional para finalizá-lo ainda na primeira metade da luta.

Peso Pena: Shane Burgos (EUA) vs. Calvin Kattar (EUA)

Por Diego Tintin

Shane Burgos

Shane Burgos já é bem conhecido pelos leitores mais fiéis do nosso MMA Brasil. Além de ser uma aposta do projeto Top 10 do Futuro, o peso pena concedeu uma entrevista à nossa equipe contando detalhes de sua carreira. Além disso, Burgos encarou lutadores brasileiros em duas de suas três idas ao octógono. Estreou vencendo com autoridade o duro Tiago Trator e dominou completamente o ascendente Godofredo Pepey, com direito a um inapelável 10-8 no round inicial. Entre esses dois compromissos, outra vitória animadora contra um adversário competente: nocaute e prêmio de luta da noite contra Charles Rosa.

O pupilo de Tiger Schulmann começou a carreira treinando jiu-jítsu e outras modalidades de grappling, mas é no boxe que começa a se destacar no UFC. Dono de mãos hábeis, mentalidade ofensiva e excelente condicionamento físico, imprime muita pressão, principalmente no começo de seus combates. O poder de nocaute é bom para a divisão e até agora sempre defendeu as tentativas de queda com facilidade, mesmo enfrentando três lutadores decentes, que buscaram a luta agarrada com insistência.

Calvin Kattar

Calvin Kattar estreou no UFC 214 substituindo o lesionado Doo Ho Choi e conquistou uma grande vitória contra o experiente e habilidoso Andre Fili. Mais uma vez, será o azarão neste sábado contra o embalado Burgos, mas é bom prestar atenção no já rodado Kattar que finalmente apareceu no radar, após uma carreira de quase 20 lutas.

Alto e muito forte para a divisão, o “Finalizador de Boston” costuma optar pela postura de contragolpeador e utiliza sua boa envergadura e grande potência para responder as investidas adversárias. Não tem ainda muito refinamento na trocação, mas pode trazer problemas pela velocidade e potência. Calvin tem um wrestling ofensivo razoável, embora levar a luta para o solo nunca pareça sua principal preocupação. Apresentou dificuldades no solo quando foi exposto, mas está visivelmente em evolução neste aspecto, que já foi um ponto nevrálgico de seu jogo.

Calvin Kattar vs Shane Burgos odds - BestFightOdds
 

Em franco crescimento técnico, Shane Burgos é o favorito da peleja. A previsão é de um duelo disputado sempre – ou quase sempre – em pé, com Shane tentando pressionar enquanto Kattar deve concentrar suas energias na busca de um contra-ataque definidor. Num cenário livre de surpresas ou grandes novidades, Burgos deve caminhar para uma vitória por decisão após 15 minutos animados, mas nunca esqueçamos que muito do charme do MMA vem das circunstâncias imprevisíveis.

Peso Meio-Pesado: Gian Villante (EUA) vs. Francimar Bodão (BRA)

Por Bruno Costa

Gian Villante

O empolgante e irregular Gian Villante (15-9 no MMA, 5-6 no UFC) tenta se recuperar de duas derrotas seguidas sofridas no octógono – é a primeira vez que sofre o risco da terceira derrota em sequência no UFC.

A troca de golpes de Villante se baseia primariamente no poder dos seus punhos, trabalhando em curtas combinações e violentos chutes baixos, todos lançados em volume inferior ao ideal. Já a defesa pode ser resumida basicamente como inexistente, diante da ausência de guarda e movimentação limitada que apresenta. O wrestling defensivo é competente o suficiente para suportar as investidas de adversários menos explosivos e habilidosos nas tentativas de quedas. Já o ofensivo é uma ferramenta quase nunca utilizada, e não deve ser uma opção primária contra Bodão. A grande chave para as derrotas de Villante têm sido o condicionamento físico insuficiente, que acaba naturalmente acarretando no declínio de sua técnica já não muito refinada em todas as áreas do seu jogo defensivo.

Francimar Bodão

Francimar Bodão (19-6 no MMA, 4-3 no UFC), de famosa reputação entre os fãs de MMA, tem tido trajetória inconsistente na organização, mesmo diante do baixo nível técnico de grande maioria de seus oponentes (o que é a regra na categoria dos meios-pesados atualmente, diga-se).

Assim como seu adversário, a troca de golpes do brasileiro prima pelo ritmo lento, além da falta de sequências e combinações – não é provável que se altere o cenário a essa altura do campeonato, aos 37 anos. O jogo de pernas é quase inexistente, assim como a movimentação de cabeça e tronco, tornando Bodão um alvo estático com frequência indesejada. Ele costuma utilizar overhands como forma de aproximação aos oponentes, seguido de tentativas de double leg, normalmente mal executados, diante da falta de explosão e técnica de execução. O competente jogo de chão foi visto menos do que se esperava quando chegou à organização em razão das dificuldades em levar ao solo seus oponentes – as ocasiões em que as tentativas de queda foram bem sucedidas partiram do clinch na grade ou da agressividade excessiva dos seus adversários. Ainda, por vezes Bodão fica devendo em matéria de condicionamento físico, embora sua preparação o tenha deixado menos vezes na mão do que ao seu adversário.

Francimar Barroso vs Gian Villante odds - BestFightOdds
 

No confronto de sábado, Bodão poderia optar especialmente por tentativas de pressão ao adversário (cenário que fugiria às suas características) e forçar o clinch com alguma insistência até que Villante se desgaste e passe a cometer os erros técnicos a que está acostumado nessas situações. Contudo, a aposta é que o americano consiga impedir Francimar de executar seu plano de ação, se desvencilhando do adversário e impedindo eventuais tentativas de quedas, conquistando o nocaute entre o final do primeiro round e início do segundo.

Peso Galo: #10 Thomas Almeida (BRA) vs. #14 Rob Font (EUA)

Por Rafael Oreiro

Lutador de gigante capacidade ofensiva, Thomas Almeida (22-2 no MMA, 5-2 no UFC) ainda é uma das maiores promessas brasileiras no UFC, mesmo com as recentes derrotas para Cody Garbrandt e Jimmie Rivera, que são membros do mais alto escalão do peso galo.

Porém, para alcançar este escalão mais alto, Thominhas tem muitos buracos para preencher em seu jogo, sendo o principal a sua tendência de ser facilmente acertável, aspecto que já apresentou em diversos momentos de sua passagem no UFC. Usando uma melhor movimentação, tanto de pernas quanto de cabeça, ele poderia se deixar mais seguro para usar sua capacidade destrutiva absurda, usando socos, chutes, joelhadas e cotoveladas de todos os tipos, sempre se deixando levar um pouco demais pelo tiroteio na curta distância, buscando incessantemente o nocaute. Na luta agarrada, ele demonstra ter um bom jiu-jítsu defensivo, mas ainda precisa evoluir sua defesa de quedas para lidar com os melhores wrestlers da categoria.

Rob Font

Ainda pouco reconhecido pelo público, Rob Font (14-3 no MMA, 4-2 no UFC) é um lutador de boa qualidade que está passando por baixo do radar dos fãs. Inclusive, vinha muito bem no primeiro round de sua última luta, contra Pedro Munhoz, até acabar cometendo um baita erro ao entrar desesperadamente em queda após sofrer um golpe mais forte, sendo finalizado em decorrência disso.

Font possui um boxe bem alinhado, com boa movimentação e constante uso do jab, também possuindo um baita poder de nocaute, como demonstrado no pedradão que apagou George Roop em 2014. Com background no wrestling, ele também traz qualidade em sua luta agarrada, apesar de ter demonstrado contra Pedro Munhoz que ainda precisa melhorar defensivamente.

Rob Font vs Thomas Almeida odds - BestFightOdds
 

Esta luta tem uma capacidade de porradaria altíssima, e não é por acaso que está tão equilibrada nas odds das casas de aposta. Caso os dois lutadores partam para o tiroteio, o primeiro a acertar um golpe mais preciso pode acabar conseguindo o nocaute, qualquer que seja. Porém, Thominhas tem mais experiência com este tipo de luta e Font já demonstrou dificuldades anteriormente quando foi pressionado, o que pode acabar dando uma vantagem para o brasileiro.

A estratégia de Font deve ser manter a distância, evitando a possibilidade de entrar na curta distância com Thominhas, e buscar levar a luta para o chão se surgir alguma oportunidade. Levando em conta que o brasileiro tem uma boa capacidade de defesa no chão, não acho tão provável que Font consiga segurar a luta de solo por muito tempo.

No final das contas, a vantagem e favoritismo vão para Thomas Almeida, que demonstrou até agora ter mais condições de vitória, provavelmente conseguindo um nocaute nos rounds finais. Mas não se surpreenda caso o brasileiro seja acertado por um pedradão de Rob Font na curta distância e acabe sendo nocauteado. Pelo seu estilo de luta, é um risco que é sempre alto para Thominhas.

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