UFC 203: Miocic vs. Overeem – Prévia do Card Principal

Disputa do cinturão dos pesados, tentativa de recuperação do campeão deposto, estreia de um astro do telecatch, prospectos visando o top 5 nos pesos galo masculino e palha feminino. Tem de quase tudo no UFC 203 deste sábado.

O ano de 2016 tem sido mágico para os moradores de Cleveland. No primeiro semestre, a lendária maldição de falta de grandes títulos, que perdurava há mais de meio século, ruiu duplamente. O Cleveland Cavaliers finalmente conquistou o título da NBA, em junho. No mês anterior, Stipe Miocic quebrou a sina ao levar para a cidade o cinturão dos pesados do UFC. Neste sábado, na Quicken Loans Arena, casa do Cavs, a cidade recebe seu primeiro evento do UFC quando o filho nobre defenderá a coroa diante de Alistair Overeem, no UFC 203.

A luta principal é a maior dentre várias atrações do evento. Ainda pela categoria dos grandalhões, o gaúcho Fabricio Werdum concede revanche ao havaiano Travis Browne, no primeiro passo para tentar recuperar o que Miocic lhe tirou.

Antes, o antigo superastro da luta encenada CM Punk encara seu primeiro desafio de verdade contra o pós-calouro Mickey Gall. Pelo peso galo, Urijah Faber tenta frear o crescimento de Jimmie Rivera. Abrindo o card principal, Jéssica Bate-Estaca faz sua segunda luta no peso palha contra a escocesa Joanne Calderwood.

Como de costume, o canal Combate fará a transmissão ao vivo e na íntegra do UFC 203. A preliminar inicial está marcada para começar às 19:30h, enquanto o card principal deve ir ao ar a partir das 23:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

Cinturão Peso Pesado: C Stipe Miocic (EUA) vs. #3 Alistair Overeem (HOL)

Stipe Miocic

Stipe Miocic

Quase ninguém mais lembra que Miocic foi nocauteado por Stefan Struve. O americano, que sempre foi considerado um forte prospecto, manteve-se firme e amargou apenas mais uma derrota, para Junior Cigano, mas não sem dar um grande trabalho para o ex-campeão. Depois do segundo revés, aplicou uma histórica sova em Mark Hunt, nocauteou Andrei Arlovski em menos de um minuto e conquistou o cinturão nocauteando Werdum diante de quase 45 mil alucinados brasileiros, que silenciaram a Arena Atlético Paranaense, em maio.

Dono de um estilo que une a base do MMA americano, somando boxe (ele foi campeão amador) com o wrestling, modalidade em que competiu na Divisão I da NCAA, Miocic apostou no caminho evolutivo de melhorar suas virtudes ao invés de se tornar um lutador completo. Dificilmente nós o vemos soltar muitos chutes e, no chão, seu intuito é o de controlar posicionalmente e bater bastante, num ground and pound opressor. A falta de variedade poderia ser um problema, mas não só as habilidades nos pontos fortes de Stipe são reais como seu preparo atlético muito acima da média faz dele um perigo na divisão e não à toa lhe rendeu o cinturão.

Alistair Overeem

Alistair Overeem

Uma vez chamado de embuste aqui mesmo neste site, Overeem deu a volta por cima e finalmente conquistou o posto de desafiante do UFC sem precisar de favor dos matchmakers. Depois de ser nocauteado três vezes em quatro combates, ele venceu o quarteto seguinte, devolvendo a trinca de vitórias pela via rápida dolorosa. Melhor do que isso, nenhum dos quatro (Struve, Roy Nelson, Cigano ou Arlovski) ofereceram resistência.

O chute alto voador que mandou o bielorrusso para a vala lembrou seus velhos tempos. Tecnicamente falando, Overeem é um dos lutadores com o pacote mais completo da divisão. Ele se notabilizou pelo striking, por vir da escola holandesa de kickboxing, por ter conquistado o título mundial do K-1. No entanto, trata-se de um sujeito muito bom de quedas, que soube adaptar o wrestling ao judô que começou a aprender aos 15 anos. No chão, é técnico e oportunista a ponto de ter conquistado mais vitórias por submissão do que por nocaute (19 x 18) na carreira. O grande problema, mais conhecido do que o papa, é o queixo de vidro. É verdade que Greg Jackson tem feito um trabalho tático brilhante para esconder esse defeito, mas ainda é uma preocupação contra um matador como Miocic.

Alistair Overeem vs Stipe Miocic odds - BestFightOdds

A adaptação que Jackson fez no jogo de Overeem foi o de transformá-lo de volta num lutador mais móvel, no lugar daquele que gostava muito do thai clinch e dos ataques na curta distância. Para conquistar o cinturão, Overeem terá que se movimentar muito, batendo e saindo a fim de não parar diante de Miocic. Deu certo contra Junior Cigano, mas o momento do brasileiro na ocasião era sombra do que vive o americano hoje.

Overeem é capaz? Sem dúvida. E como tem potência e precisão suficientes, o fim pode chegar a qualquer momento. Porém, o contrário também é válido e a aposta recai na maior possibilidade de Miocic transformar o duelo num confronto de alto volume de golpes lançados, o que lhe favorece por larga margem. Vamos aqui de Stipe por nocaute.

Peso Pesado: #1 Fabrício Werdum (BRA) vs. #7 Travis Browne (EUA)

Fabricio Werdum

Fabricio Werdum

A série de seis vitórias que fizeram de Werdum o número um do mundo na categoria dos grandalhões ruiu de modo avassalador. Diante de mais de 40 mil fanáticos torcedores, no primeiro evento realizado em estádio de futebol no Brasil, o gaúcho se empolgou demais e se abriu demais diante de Miocic. Como resultado, acabou nocauteado pela segunda vez na vida (a primeira foi contra Cigano, na estreia do catarinense no UFC) e viu o americano levar o cinturão embora do país.

A história do campeão mundial de jiu-jítsu e campeão do ADCC transformado num kickboxer de elite dentre os pesados já é bastante conhecida, fruto do trabalho magistral do técnico Rafael Cordeiro, que o recebeu na Kings MMA há mais de cinco anos, quando ele ainda estava no Strikeforce. Esta mudança teve papel fundamental no caminho que levou Werdum ao cinturão. Antes, todos sabiam que tinham que evitar o chão a qualquer custo. Hoje, são poucos os que ficam confortáveis em pé com ele, que passou a mostrar um belo trabalho de chutes, de combinações de socos e thai clinch sufocante. Para piorar, Fabricio fica cada vez mais confortável em pé por saber que sempre terá o jiu-jítsu como arma. Ou seja, o que era a única saída virou uma válvula de escape das mais poderosas.

Travis Browne

Travis Browne

Uma vez tido como promessa na categoria, com apenas uma derrota em oito apresentações no UFC, Browne se aproximou da chance de disputar o título. Mais precisamente, foi colocado numa eliminatória em abril de 2014 diante exatamente de Werdum. Sem se incomodar com a potência do havaiano, o brasileiro foi bem mais ágil e mais técnico, vencendo categoricamente por decisão e lançando o “Hapa” numa gangorra de resultados que perdura até hoje. Na última luta, Browne teve a infeliz tarefa de receber um faminto Cain Velasquez em busca de recuperação. O resultado foi um óbvio espancamento.

Gigante mesmo numa categoria de gigantes, com 2,01m de altura, muito forte e atlético, Browne se tornou um kickboxer perigoso nas mãos de Greg Jackson. Quando tinha o controle das ações, ele sabia combinar golpes e era violentamente perigoso na curta distância, especialmente com aquelas cotoveladas dos infernos, seja no clinch na grade ou no ground and pound. Quando trocou de academia e passou a treinar com Edmond Tarverdyan, na Glendale Training Center, Travis trocou o kickboxing pelo boxe, tornando-se menos versátil e mais previsível. Essa situação lhe deixou mais vulnerável, já que nunca foi um cara que primou pela capacidade de absorção de golpes ou de lidar com oponentes agressivos.

Fabricio Werdum vs Travis Browne odds - BestFightOdds

Será que Werdum voltará a se expor como fez contra Miocic? Acho quase impossível. Se fizer, voltará a ser nocauteado neste sábado. No entanto, acredito que viveremos uma reedição do UFC On FOX 11, com Werdum conduzindo as ações na troca de golpes em pé sem expor o queixo e pontuando com golpes seguidos, fazendo com que Browne atue na defensiva. Nesta situação, o havaiano perde muito de seu poder de fogo. Werdum por decisão é a aposta.

Peso Meio-Médio: Phil “CM Punk” Brooks (EUA) vs. Mickey Gall (EUA)

CM Punk

CM Punk

De acordo com a Wikipedia, Punk foi campeão (risos) dos pesos pesados (risos) da WWE (risos) em três oportunidades, além de ter conquistado diversos outros títulos em organizações menores do cenário do telecatch que eu não fazia a menor ideia que existiam. Trata-se de um dos grandes ícones das lutas encenadas, um sujeito de enorme popularidade nos Estados Unidos, o que se justifica com a vasta lista de conquistas (risos) que ele teve na carreira de duelos roteirizados.

Quando se decidiu por mudar a rota profissional e se enveredar por tomar soco na cara à vera, Punk buscou uma academia de respeito. Ele se juntou a Roufusport, onde treina com gente do naipe de Anthony Pettis e Ben Askren, sob a tutela do ex-campeão de kickboxing Duke Roufus. Isso significa que não faltou escola de striking e de wrestling para o americano, mas, pelo que andei vendo em alguns vídeos, ele deve ter matado várias aulas. Mesmo com mais de um ano treinando com alguns dos melhores do mundo e com alguma base no jiu-jítsu, Punk ainda mostra dificuldade com a mecânica básica de um soco (pisar forte no tablado para fazer barulho não vai ajudá-lo muito). Para piorar sua situação, ele traz inúmeras lesões dos tempos do telecatch e já não deve mostrar a capacidade física que um dia já teve. Mas o mais grave de tudo é: como ele vai reagir ao tomar a primeira porrada numa luta de verdade? Treino é treino, luta é luta.

Mickey Gall

Mickey Gall

Encontrado numa edição da websérie que Dana White grava com o ex-campeão Matt Serra em busca de novos talentos, Gall chegou ao UFC com apenas uma luta nas costas. No UFC Fight Night 82, se meteu numa eliminatória para encarar Punk contra o estreante Michael Jackson e precisou de apenas 45 segundos para conseguir a vaga. Antes, levou meio round para pegar um sujeito no circuito regional, também via mata-leão.

Somando suas quatro lutas documentadas, Gall venceu três delas no mata-leão e uma por decisão. Porém, o que deu para perceber até o momento é que se trata de um lutador que aposta mais no kickboxing do que na luta agarrada, apesar de ter conquistado alguns títulos na NAGA e na Grapplers Quest, duas respeitadas entidades americanas de grappling, e de ser faixa-marrom de jiu-jítsu e apenas kruang azul no muay thai. Mickey é um lutador muito agressivo, de mentalidade ofensiva, ainda que mostre inúmeras falhas em seu jogo, o que é nada menos do que natural dada à inexperiência no MMA. Assim como Punk, Gall também se cercou de bons treinadores e parceiros na AMA Fight Club, onde é guiado pelo técnico Mike Constantino, pelo ex-campeão mundial de muay thai Kaensak Sor Ploenjit, além do peso leve do UFC Jim Miller.

Cm Punk vs Mickey Gall odds - BestFightOdds

Alguns podem comparar Punk com Brock Lesnar, que veio do telecatch para conquistar o cinturão do UFC. Não caia nessa esparrela. Além de lutar numa categoria bem menos acirrada que a dos meios-médios, Lesnar era um atleta de verdade antes das lutas armadas, com um retrospecto fantástico no wrestling universitário, enquanto Punk nunca lutou na vida.

Como vai pegar um garoto inexperiente e menos afeito à grandiosidade de megaeventos, Punk até pode surpreender. Porém, é bem difícil de apostar nisso. Eu vou na segurança de Gall, lutador de verdade, por nocaute no primeiro round.

Peso Galo: #2 Urijah Faber (EUA) vs. #13 Jimmie Rivera (EUA)

Urijah Faber

Urijah Faber

Os resultados mostram que a carreira de Faber está chegando ao fim. Aos 37 anos, deixou há tempos o posto de mais dominante peso pena da história. Como peso galo, ele ainda mostrou capacidade, mas as derrotas unilaterais nas disputas de título contra Dominick Cruz e Renan Barão o colocam numa situação de porteiro da elite, atrás de Cruz, TJ Dillashaw e talvez até de Raphael Assunção. Mesmo o sensacional retrospecto de nunca ter perdido na vida uma luta que não valesse título caiu diante de Frankie Edgar, há pouco mais de um ano.

Numa categoria em que a média de idade dos oponentes é de quase 10 anos a menos, Faber vai mostrando sinais de cansaço. O lutador que sempre foi conhecido pelo boxe rápido, wrestling explosivo e jiu-jítsu matador está cada vez mais lento, menos explosivo, o que limita muito o jogo que ele tornou famoso no Team Alpha Male. Seu overhand de direita ainda merece respeito e, embora não tenha mais capacidade de derrubar alguém como Cruz ou TJ, pode ser uma treta para prospectos como o adversário deste sábado.

Jimmie Rivera

Jimmie Rivera

Desde que chegou ao UFC, apenas há 14 meses, Rivera vem chamando a atenção do peso galo. Ele estreou com um nocaute brutal sobre Marcus Brimage, superou Pedro Munhoz numa batalha acirrada em território hostil e virou para cima do experimentado Iuri Marajó, as duas últimas por decisão, método que lhe rendeu 13 de suas 19 vitórias.

Assim como Miocic, “El Terror” é o clássico lutador da escola americana de MMA, que junta o boxe ao wrestling. E, também como o campeão dos pesados, o lutador de 27 anos faz com muita habilidade os dois papeis, apesar de ter começado no kickboxing com Tiger Schulmann aos 13 anos e de não ter experiência em competições à vera de wrestling. Sua defesa de quedas muito forte, baseada no senso de equilíbrio, possibilita que ele defina onde as lutas terão sequência. Assim, Rivera assume o papel de contragolpeador, unindo potência com precisão, sempre trabalhando com combinações que levam pânico na curta distância, seja pelos punhos rápidos ou quedas igualmente explosivas. Ele ainda tem um sistema defensivo muito bom em pé, dinâmico e rápido, além de respeitável capacidade de encaixar golpes.

Jimmie Rivera vs Urijah Faber odds - BestFightOdds

O melhor caminho para Faber vencer é levar Rivera para o chão e finalizá-lo. Porém, isso é bem menos provável hoje em dia do que já foi em passado não muito remoto. Jimmie tem a capacidade de negar as tentativas de queda do California Kid, bem como o de não ficar em desvantagem no clinch. Em pé, a vantagem de Rivera é considerável, especialmente depois que Faber largou o estilo dinâmico que Duane Ludwig estava inserindo na equipe e voltou a ser o sujeito que troca muita base apenas com o intuito de acertar uma pedrada. Conduzindo as ações no boxe, mesclando com chutes baixos, a expectativa é que Rivera mantenha Faber em posição defensiva até a leitura das papeletas a seu favor.

Peso Palha Feminino: #6 Jéssica “Bate-Estaca” Andrade (BRA) vs. #7 Joanne Calderwood (ESC)

Jessica "Bate-Estaca" Andrade

Jessica Andrade

Baixar de categoria parece que foi uma excelente decisão para Jessica. Como peso galo, os resultados já estavam irregulares quando o nível da concorrência subiu e ela ficou com uma vitória em três lutas depois da trinca de triunfos consecutivos. No peso palha, a estreia aconteceu contra a ex-desafiante Jessica Penne. A brasileira levou ainda menos tempo do que a campeã Joanna Jedrzejczyk para liquidar com a adversária no segundo round.

Não só a vitória no peso palha foi importante, mas como ela aconteceu. Jessica se mostrou muito forte para a categoria e ainda capaz de imprimir muita pressão sem que o corte de peso cobrasse o preço. Isso significa que ela está agora na divisão correta e que tem boas chances de se meter entre as melhores. Além do muay thai potente e de alto volume, Bate-Estaca tem boas quedas e algum senso de oportunismo no chão, embora ainda apresente falhas defensivas na luta agarrada que lhe renderam derrotas no octógono. A desvantagem física que Liz Carmouche lhe impôs agora está ao lado da paranaense.

Joanne Calderwood

Joanne Calderwood

Uma das favoritas a chegar à disputa do cinturão no peso palha, Calderwood se recuperou bem da surpreendente derrota para Maryna Moroz. Contra Cortney Case, novamente a escocesa sofreu no começo da luta, mas mostrou coração gigante para conseguir a virada. Em seguida, no maior desafio da carreira, contra a ex-desafiante Valérie Létorneau, na casa da adversária, JoJo anotou um nocaute no terceiro round.

Primeira lutadora profissional de MMA da Escócia, Calderwood foi multicampeã de muay thai, esporte que começou a praticar aos 13 anos e se profissionalizou aos 18. Como resultado de sua origem, há pontos fortes e problemas. Ela controla bem a distância e sabe a hora de ser agressiva ou comedida, embora demore muito a impor ritmo. Quando atua de longe, manda socos em linha combinados com chutes frontais, baixos ou no corpo. Na curta, gosta de punir as oponentes no thai clinch. Porém, ainda mostra dificuldades defensivas por se manter muito ereta, deixando mais área para ser atingida. JoJo é agressiva no chão e tem boa defesa de quedas, mas comete alguns erros graves no jiu-jítsu defensivo.

Jessica Andrade vs Joanne Calderwood odds - BestFightOdds

Aqui temos um belo confronto de estilos entre strikers muito diferentes. Para Jessica, o melhor é fazer a luta descambar para a pancadaria, situação em que ela é capaz de lançar um alto volume de golpes, fazendo com que as adversárias não consigam responder. Para JoJo, a luta cadenciada é a opção mais viável.

Na teoria, Calderwood tem a vantagem não só da técnica, mas do alcance – mesmo como peso palha, Jessica não ficou muito grande e JoJo fez a primeira luta de peso mosca feminino no UFC em sua última aparição. O que pode representar problema para a escocesa é a mania de começar as lutas devagar, exatamente o oposto da brasileira. Ou seja, Calderwood pode ser sugada para o olho do furacão quando menos esperar e ficar sem ter como sair dali. Jessica já mostrou poder de fogo para capitalizar uma oportunidade encontrada, mas Joanne já provou que aguenta o tranco e tem ferramentas para frear o ímpeto da brasileira e vencer por decisão.