Por Alexandre Matos | 12/11/2013 23:16

UFC-20-Anos

No primeiro artigo da série dos 20 anos do UFC, apresentamos aqueles que seriam apontados pelo MMA Brasil como os lutadores de cada um dos anos da primeira década de existência da organização. Assim, tentamos também contar um pouco da história através de uma linha do tempo, aproveitando para trazer à tona importantes nomes que ficaram esquecidos no tempo.

Na presente matéria, continuamos a lista com os destaques da segunda década que se encerra exatamente hoje, 12 de novembro de 2013, dia que o UFC comemora 20 anos de sua primeira edição. Voltamos a lembrar que vale o mesmo critério de não repetir nomes em anos distintos, não só entre os dez abaixo, mas também entre os dez anteriores. Ou seja, no fim, teremos produzido uma lista com 20 lutadores diferentes.

Exatamente por conta da regra explicada acima, haverá discordância, gente que preferirá lutador A no lugar do B. Isso é normal, já esperamos por isso e inclusive contamos com sua contribuição na caixinha de comentários. Mesmo daqueles que deixarem a torcida falar mais alto que a razão. E como a lista abaixo está fresca na memória da maioria…

2004: BJ Penn

BJ PennO havaiano BJ Penn é um dos atletas com maior talento natural que o MMA já viu – se não for o maior. Por conta disso, o Prodígio arrumou uma leva de fãs ao redor do mundo. Mas há uma outra qualidade que realmente arrebatou uma horda de adoradores: Penn parece que sempre colocou os desafios acima de qualquer coisa, o famoso “luto com quem for, quando for, onde for”.

BJ estreou no MMA diretamente no UFC, em 2001, depois de se tornar o primeiro estrangeiro campeão mundial de jiu-jítsu na faixa preta. Após falhar duas vezes na tentativa de conquistar o cinturão dos leves, ele simplesmente meteu o pé da organização. Assinou com o K-1 e finalizou Takanori Gomi, que viria a ser, nos anos seguintes, sua sombra oriental. Então chegou o ano de 2004.

Naquela temporada, Penn fez três lutas, apenas uma no UFC. Mas não foi uma qualquer. Campeão da categoria de cima, Matt Hughes estava invicto há 13 lutas e havia varrido a divisão dos meios-médios no UFC quando recebeu BJ como novo desafiante. O campeão riu da possibilidade de ser derrotado por um sujeito tão menor e que jamais havia lutado na categoria. Pois, no final do primeiro round, o Prodígio estava nas costas do superastro, fazendo-o desistir num mata-leão. Pronto, em sua nona luta profissional, BJ finalizou o mais dominante campeão que o UFC já vira até então, que tinha quase 40 lutas nas costas. Só fez uma luta no UFC em 2004, mas foi o suficiente para cravar seu nome na história.

Finalmente de posse do cinturão do UFC, o que fez Penn? Colocou a relíquia em jogo, certo? Não. Abriu mão do título, meteu o pé de novo e voltou para o K-1. Venceu o ex-campeão mundial de muay thai Duane Ludwig e – acredite! – encarou Lyoto Machida numa luta em que o havaiano era uma bolota de 85 quilos, quase 20 a menos que o brasileiro.

2005: Chuck Liddell

Pôster de Chuck LiddellOutro caso de fácil escolha. O ano de 2005 marcou a grande virada do UFC rumo a escapar da falência e se tornar a maior organização de MMA do mundo. O responsável foi o sucesso do reality show The Ultimate Fighter, lançado naquele ano.

O UFC escolheu Chuck Liddell e Randy Couture para liderar as duas equipes da primeira temporada do TUF. Eles já haviam se encontrado dois anos antes e desempenharam papel fundamental no começo da exposição do UFC no mainstream. A final do TUF superou todas as expectativas de audiência e fez crescer muito a expectativa para o confronto dos técnicos, que valeria o cinturão de Couture, uma semana depois. O UFC 52 bateu recordes de renda e venda de pay-per-view e testemunhou Liddell fazer mais uma vítima com sua marca registrada, uma direita em contragolpe que fez Randy desabar nocauteado.

Principal garoto-propaganda do UFC, Liddell defendeu o cinturão ainda em 2005. O adversário foi Jeremy Horn, o homem que lhe infligiu a primeira derrota. O Iceman teve mais uma de suas atuações características, com forte defesa de quedas e contra-ataques mortais, mandou Horn à lona em algumas ocasiões e venceu por nocaute técnico no quarto round.

2006: Georges St. Pierre

O campeão meio-médio do UFC Georges St. PierreCom a queda do nome que vem a seguir, Georges St-Pierre passou a ser o campeão mais dominante do MMA atual. Invicto desde 2007, GSP conquistou feitos de sobra para classificá-lo como um dos maiores lutadores de todos os tempos. Mas por que ele está listado um ano antes?

St. Pierre estreou no UFC aos 22 anos, com 4-0 no cartel. Ganhou duas lutas e foi jogado aos leões. Ao leão, especificamente. Em sua terceira apresentação na organização, disputou o cinturão contra o então avassalador Matt Hughes. O canadense fez uma luta dura, mas acabou batendo em uma chave de braço no último segundo do primeiro round.

De volta à sala de aula, “Rush” enfileirou quatro oponentes e foi escalado para uma eliminatória para o título. O adversário? O ex-campeão BJ Penn, que retornava ao UFC depois de sua passagem pelo K-1. Em março de 2006, GSP venceu em luta dura e se tornou desafiante número um, recebendo a chance de vingar a única derrota de sua carreira.

Em novembro de 2006, no UFC 65, St. Pierre aplicou uma sonora surra em Hughes. O americano escapou de ser nocauteado no primeiro round, quando foi salvo pelo seu enorme coração. Mas não teve jeito no segundo. GSP gingou para um lado e fez o olhar de Hughes desviar. Assim, largou a canela no pé do escutador do algoz e o mandou a knockdown. O ground and pound parecia largar toda a raiva contida na derrota de dois anos antes. Aos 25 anos, Georges St. Pierre já era um monstro.

2007: Anderson Silva

Anderson SilvaEsqueça sua raiva de um Anderson Silva cheio de marra, desrespeitoso e, agora, sem cinturão. Nem sempre isso foi verdade. Para construir o maior reinado que o octógono já viu, o Spider deitou muita gente. Em 2007, a junção de seriedade, agressividade e precisão fizeram o recém coroado campeão mostrar que o title shot depois de uma luta não fora precipitado.

A primeira defesa de Anderson aconteceu em fevereiro de 2007. Na verdade não aconteceu porque Travis Lutter, que se tornou desafiante por ter vencido o TUF 4, cometeu o papelão de não bater o peso numa disputa de cinturão. Ainda assim o combate aconteceu, mas em três rounds e sem valer a coroa. Foi a primeira vez que o UFC viu o poder da guarda de Anderson. O brasileiro travou o faixa preta de jiu-jítsu num triângulo e enterrou a cabeça do “Serial Killer” com cotoveladas. Lutter desistiu no meio do segundo round.

Anderson voltou ao octógono no fim de semana da comemoração da independência americana para encarar Nate Marquardt, que vinha de seis vitórias seguidas. Muitos achavam que o Spider não daria conta do versátil jogo de chão do experiente oponente. Anderson não deu a mínima e nocauteou Marquardt ainda no round inicial.

Faltava um passo para confirmar o brasileiro como o melhor peso médio do mundo. Era a revanche com o ex-campeão Franklin, que aconteceu em outubro na cidade natal do americano. Para mostrar que a primeira luta não foi obra do acaso, Anderson moeu o nariz do ex-professor de matemática com joelhadas dentro de um thai clinch assombroso. Estava definitivamente coroado o maior gênio do MMA.

2008: Brock Lesnar

Brock-LesnarUm dos mais controversos personagens da história do MMA, Brock Lesnar teve uma carreira curta no MMA, mas marcou seu nome na história, especialmente no ano de sua estreia.

Wrestler de sucesso na carreira universitária, campeão da Divisão I da NCAA, Lesnar estreou no UFC em março de 2008 com apenas uma luta de experiência no MMA. De cara bateu de frente com o talentoso ex-campeão Frank Mir. O gigante deixou uma péssima impressão. Em apenas 90 segundos, Brock conseguiu perder um ponto por golpear a nuca de Mir e ainda viu o americano finalizá-lo com uma chave de joelho. A partir daí, o sujeito chocou o mundo.

Lesnar voltou à academia, recrutou treinadores e parceiros de sparring de nível e deu duro por cinco meses. Voltou em agosto e passou como uma locomotiva desgovernada sobre o experiente Heath Herring. Nos primeiros segundos, largou sua mão tamanho 4XL na cara do oponente, que foi a knockdown de cambalhota, rolando quase o octógono inteiro. Dali para diante, quedas e um ground and pound assombroso fizeram o Cavalo Louco do Texas parecer um boneco de trapo.

Por conta da imensa popularidade trazida dos tempos de WWE, Lesnar foi catapultado ao posto de desafiante de Randy Couture, deixando a comunidade do MMA irada pela furada de fila descabida. Em sua quarta luta profissional, Lesnar acabou com a raça do veterano ídolo, usando as armas que fizeram fama do Natural, o clinch e o ground and pound.

No ano seguinte, Lesnar liderou o histórico UFC 100, quando espancou de modo extra-terrestre seu nêmesis Frank Mir, mostrando que já dominava a arte de passar a guarda e travar o mais talentoso faixa preta da divisão dos pesados. Para azar do gorila albino, uma diverticulite reincidente quase tirou sua vida e fez com que sua carreira nunca mais fosse a mesma, chegando ao fim com uma derrota triste para Alistair Overeem, quando parecia um rascunho do tiranossauro que chegou a fazer o mundo pensar que “nanicos” de 1,90m e 110 quilos nunca mais teriam chance na categoria.

2009: Lyoto Machida

Lyoto MachidaPoucos lutadores podem se gabar de um ano inesquecível. Lyoto Machida teve um desses em 2009, quando venceu três oponentes do primeiro time dos meios-pesados e acabou o ano campeão invicto.

No fim de semana do Super Bowl, Machida e Thiago Silva, ambos com 13-0 na carreira, disputaram extra-oficialmente o posto de desafiante número 1. Em uma atuação de gala, Lyoto só faltou dar olé no paulista e o nocauteou no último segundo do primeiro round.

Em maio, no evento do Memorial Day, a sonhada chance pelo cinturão. Em uma performance ainda melhor que a de quatro meses antes, Machida nocauteou violentamente Rashad Evans e fez o americano virar meme na internet caído por cima dos joelhos e os olhos revirados.

Para fechar o ano, o melhor meio-pesado da história até aquele momento. Maurício Shogun foi o primeiro desafiante. Eles lutaram em outubro, no UFC 104. Numa batalha cerebral e altamente equilibrada, Machida tornou-se o primeiro campeão dos meios-pesados a defender o título desde Quinton Jackson, em 2007.

2010: Frankie Edgar

Frankie-EdgarQuando o pequenino Frank Edgar conquistou o posto de desafiante dos leves, no fim de 2009, ninguém deu a mínima. Afinal, não havia nenhuma possibilidade de o pupilo de Renzo Gracie destronar BJ Penn, que aterrorizava a categoria desde 2007. Mas o garoto de Toms River queria mostrar o valor de seu apelido.

“A Resposta” era azarão da ordem de 8 para 1 nas casas de apostas. Eles se enfrentaram em abril de 2010, na luta coprincipal do UFC 112, em Abu Dhabi, no famigerado evento de Anderson contra Demian Maia. Dando mais uma prova de seu boxe de elite, jogo de pernas mais ágil da divisão e coração de leão, Edgar entrou e saiu do raio de ação de BJ por 25 minutos, levando uma controversa decisão unânime e o cinturão para New Jersey. Frank foi o segundo lutador a bater Penn como peso leve (Jens Pulver foi o primeiro).

Por conta da polêmica do resultado e pelo respeito ao reinado de Penn, uma revanche imediata foi concedida ao Prodigy. Então, para não deixar nenhuma dúvida, Edgar inseriu as quedas e o controle posicional no repertório da luta anterior. Em agosto de 2010, no UFC 118, Frankie venceu todos os rounds com imensa autoridade e se tornou o segundo lutador a vencer BJ duas vezes (o primeiro foi GSP).

2011: Jon Jones

2011: O ano dos sonhos de Jon JonesRoyce Gracie, no primeiro ano, não foi a única escolha óbvia desta lista. Em 2011, Jon Jones teve a sequência mais forte que um lutador já viu nos tempos pós-Regras Unificadas de Conduta do MMA.

Já tido como um jovem fenômeno, Jonny Bones começou o ano finalizando Ryan Bader em fevereiro, no UFC 126. Ainda dentro do octógono, ele foi informado que substituiria seu amigo e parceiro de treinos Rashad Evans na disputa do cinturão de Shogun. O problema: a luta seria dali a 40 dias.

Problema nada. Na maior atuação de sua carreira, Jones ofereceu ao curitibano uma surra histórica, que só não bate de frente com as duas traulitadas de Cain Velasquez em Junior Cigano porque Shogun desistiu no terceiro round.

Era hora de descansar e curtir o cinturão. Nem pensar. Jonny tinha um Bentley para pagar e encarou Rampage em setembro. Mesmo mostrando-se na melhor forma física em muito tempo, Jackson não deu jogo para o garoto e foi finalizado no quarto round.

Agora sim, tempo de pegar onda no Taiti. Ainda não. Em dezembro, Bones encarou Machida, chegou a ter algum trabalho, mas colocou seu cotovelo para jogo, abriu uma lanha na testa do brasileiro e o apagou numa guilhotina em pé. A cena de Lyoto caindo como um saco de batatas vazio chocou muita gente e firmou a posição de Jones como o cara a ser batido no MMA mundial.

2012: Cain Velasquez

Cain VelasquezQuando conquistou o cinturão em 2010, aniquilando Lesnar, Cain Velasquez era tido como uma máquina de destruição com tanque de gás infinito. Mas seu mundo caiu em 69 segundos, logo na primeira defesa, ao dividir o octógono contra alguém do naipe de Junior Cigano sem estar totalmente recuperado de uma cirurgia delicada no ombro.

Para recuperar o prestígio, nada como um 2012 redentor. Comendo pelas beiradas, em maio, Velasquez afogou Antonio Pezão em seu próprio sangue em três minutos e pouco de um ground and pound devastador. A vitória valeu o posto de desafiante e a revanche contra o catarinense, que havia dizimado Frank Mir no mesmo dia.

Velasquez e Cigano voltaram a se encontrar em dezembro do ano passado, na luta principal do card de fim de ano, o UFC 155. Depois de um início nervoso, telegrafando tentativas de queda, o americano mudou a luta quando acertou um petardo no campeão e o fez perder o rumo de casa. A partir dali, uma das maiores surras que o UFC já testemunhou numa disputa de cinturão. Velasquez tornou-se o primeiro a aplicar um triple-double (três dígitos de golpes contundentes e dois de quedas) numa única luta, ao cravar 111 golpes e 11 quedas no brasileiro.

Apenas para não deixar dúvida, Velasquez voltou a dizimar Pezão e aplicou uma sova ainda maior em Cigano em 2013. Ele seria o lutador do ano seguinte, não tivesse acontecido algo de proporções bíblicas no último mês de julho.

2013: Chris Weidman

UFC on Fuel TV: Munoz v WeidmanComo ser o lutador do ano com apenas uma luta no ano? Simples, nocauteando o maior de todos os tempos. Ladies and gentlemen, meet Chris Weidman.

Conheça Chris Weidman é engraçado. Até parece que alguém esqueceu do nova-iorquino que chocou o planeta no dia 6 de julho de 2013. Apesar de representar perigo real e imediato a Anderson Silva, poucos levavam o All American a sério. No Brasil, raros – inclusive o Spider, pelo visto.

Numa das lutas mais faladas da história, Weidman derrubou Silva, largou um plantadão no meio da lata do campeão no ground and pound, tentou uma chave de calcanhar e, blasfêmia!, encarou o semideus na troca de golpes. Meio desajeitado, meio raivoso, Weidman completou uma sequência de quatro socos com um gancho de esquerda de manual, encontrando o queixo de Anderson sem escalas. O brasileiro caiu de olho virado e também virou meme.

Acusado de todo tipo de absurdos, desde sorte até ter comprado a luta, Weidman agora se prepara para um desafio ainda maior que o do UFC 162. No dia 28 de dezembro, ele terá pela frente novamente Anderson Silva. Desta vez, sem gracinhas por parte do superastro brasileiro.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.