Por Alexandre Matos | 10/07/2015 00:33

O UFC 189, que recebeu a maior carga promocional da história da organização, sofreu um duro baque com a lesão na costela de José Aldo, pela quinta vez obrigado a deixar uma luta no UFC. Porém, a empresa agiu rápido para manter o interesse do público escalando Chad Mendes contra Conor McGregor para a disputa do cinturão interino dos penas.

A luta principal não é a única atração do forte card principal que será disputado na MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas. Outro combate valendo título traz a primeira defesa do campeão dos meios-médios Robbie Lawler. O desafiante será um velho conhecido, o canadense Rory MacDonald, derrotado no primeiro confronto entre ambos, em 2013.

Pela mesma categoria da luta principal, Dennis Bermudez e Jeremy Stephens tentam se recuperar de olho no top 5. Pela mesma categoria da luta coprincipal, o craque Gunnar Nelson encara o violento nocauteador Brandon Thatch. Abrindo a porção principal do evento, o jovem fenômeno Thomas Almeida bate de frente com o veterano Brad Pickett.

O UFC 189 terá transmissão ao vivo e na íntegra pelo canal Combate. O card preliminar está marcado para começar às 20:00h, enquanto o principal vai ao ar a partir de 23:00h, sempre pelo horário oficial de Brasília.

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Cinturão Interino Peso Pena: #1 Chad Mendes (EUA) vs. #3 Conor McGregor (IRL)

Chad Mendes

Chad Mendes

Houve quem reclamasse da escolha por Mendes (17-2 no MMA, 8-2 no UFC) para a disputa do cinturão interino. Porém, não há como negar o mérito do americano. Enquanto Frankie Edgar precisou de cinco rounds para bater o número 4 do ranking da categoria de baixo, Chad levou menos de três minutos para obliterar o número 4 de sua divisão, pouco mais de cinco meses depois de entregar a Aldo a maior guerra de sua vida.

Os fãs que acompanham as categorias mais leves viram a sacodida que Duane Ludwig deu no pouco mais de um ano em que ficou como técnico do Team Alpha Male. Ele transformou um bando de wrestlers em trocadores de elite. Ao lado de TJ Dillashaw, quem mais se beneficiou da mudança foi Mendes. O vice-campeão da Divisão I da NCAA pela California Polytechnic State University hoje usa o wrestling de elite como ferramenta adicional a um kickboxing de excelente movimentação tanto lateral quanto de diminuição de distância. Mendes gera enorme potência em seus socos, ataca muito bem o corpo, chuta com mais intensidade e troca a base constantemente para confundir os adversários, atuando bem inclusive como canhoto.

Conor McGregor

Conor McGregor

Adenor Tite diria que McGregor (17-2 no MMA, 5-0 no UFC) fala muito. Ele fala mesmo, mas bate muito também. Ainda não apareceu alguém para lhe dar algum tipo de trabalho, nem mesmo Max Holloway, quando o irlandês lutou por mais de 10 minutos com um joelho estourado. Nas últimas duas apresentações, Conor mandou Dustin Poirier para a categoria de cima e liquidou Dennis Siver, em janeiro.

Campeão do Cage Warriors em duas categorias diferentes (pena e leve), McGregor fundamenta seu jogo na troca de golpes em pé, num ritmo verdadeiramente intenso. A tradicional escola irlandesa de boxe era o carro-chefe, mas os tempos na SBG Ireland com Gunnar Nelson fizeram dele um carateca respeitável. Conor aproveita magistralmente sua imensa envergadura (1,88m, 20 centímetros maior que a de Mendes) para controlar a distância com jabs que parecem britadeira que abrem espaço para combinações de toda sorte. Quando o direto de esquerda entra limpo, normalmente é fim de linha para a concorrência. Além da enorme pressão dos punhos, Conor é um hábil chutador que usa esta ferramenta para punir quem tenta se proteger dos golpes retos. Ele já mostrou que sabe derrubar e controlar a luta por cima com um violento ground and pound e passagens de guarda, mas isso seria uma surpresa enorme neste sábado.

Chad Mendes vs Conor McGregor odds - BestFightOdds

Numa análise rápida e rasa, cada um tem um caminho claro a seguir: Conor deve manter a luta na longa distância, lançando golpes em profusão até achar espaço para o direto de canhota; Mendes vai tentar encurtar para derrubar, cair por cima e metralhar no ground and pound.

O que torna este combate interessante é o fato de Mendes poder deixar a tática acima para segundo plano. Provavelmente o ex-desafiante tentará transformar a luta numa pancadaria na curta distância, situação em que vai diminuir o poder dos golpes de McGregor e ampliar o seu. Caso encontre dificuldades, o que é bem possível, ele pode testar a desconhecida defesa de quedas do irlandês (nem tanto assim, pois até Dennis Siver o derrubou).

A promoção do evento foi feita em torno de Conor McGregor. O UFC gostaria muito de tê-lo numa disputa contra Aldo, assim como muitos fãs e provavelmente até o próprio campeão, de olho nos milhões do pay-per-view. Porém, mesmo com pouco tempo de preparação, Mendes pode ser um desafio grande para o astro europeu. Contra as probabilidades, a aposta é que o trabalho físico constante dos Alpha Male sirva para manter Chad ativo durante o combate e lhe garanta uma dura vitória na decisão, com margem de 48-47.

Cinturão Peso Meio-Médio: C Robbie Lawler (EUA) vs. #2 Rory MacDonald (CAN)

Robbie Lawler

Robbie Lawler

O conto de fadas da recuperação da carreira de Lawler (25-10 no MMA, 10-4 no UFC) chegou ao gran finale em dezembro, quando ele tomou o cinturão de Johny Hendricks em luta muito apertada, em que a maioria dos analistas inclusive viram vitória do ex-campeão. Isso não tira o brilho (e o mérito) de um sujeito que chegou desacreditado no UFC, mas venceu seis de sete lutas, inclusive do adversário deste sábado.

Como vimos no Raio-X para esta luta, Lawler largou mão de procurar arrancar a cabeça dos oponentes para se tornar um kickboxer frio, muito técnico e ainda mais perigoso. Ele é essencialmente um contragolpeador, mas também é perigoso quando toma a iniciativa e pressiona os oponentes. Qualquer golpe que saia dali, seja soco, cotovelada, joelhada ou chute, chega no oponente com más intenções. A defesa de quedas provavelmente voltará a ser um problema nesta luta, mas sua guarda vem evoluindo a ponto de tirá-lo debaixo de MacDonald caso seja necessário.

Rory MacDonald

Rory MacDonald

A derrota para Lawler, em novembro de 2013, foi daquelas educativas. MacDonald (18-2, 9-2 UFC) sempre foi muito talentoso, mas nem sempre atuava na intensidade que os fãs gostariam. Depois do revés, no entanto, o jovem astro canadense foi dominante nas vitórias contra Demian Maia, Tyron Woodley e Tarec Saffiedine, finalmente valorizando toda a expectativa que jogaram sobre seus ombros.

O “Red King” é a visão do futuro no MMA, um sujeito muito bom em todos os ramos do jogo mesmo sem ter base anterior em modalidade de combate. Como kickboxer, Rory costuma ditar o ritmo dos combates e usa ataques diversos para manter os oponentes em posição defensiva. Suas quedas são igualmente poderosas, seja em ataques de perna, cinturadas ou knee taps e o ground and pound é muito violento. O problema (e sempre há um problema) é o fato de o canadense às vezes deixar o volume ofensivo cair, o que é um perigo constante contra um matador como Lawler.

Robbie Lawler vs Rory Macdonald odds - BestFightOdds

MacDonald tem em seu córner um dos maiores estrategistas do MMA mundial, que provavelmente mapeou todos os erros cometidos pelo pupilo no encontro entre ambos. Isso significa que trocar pancadas no pocket, como Lawler adora, será evitado a todo custo. Rory terá que tomar a iniciativa desde o começo, sem diminuição abrupta de rendimento, variando os ataques para não deixar o campeão marcar seu tempo. Eventualmente, quedas providenciais podem quebrar o ritmo de Robbie.

Como um duelo de cinco rounds privilegia o estilo do desafiante, que cresce conforme o tempo passa, a expectativa é que o cinturão volte para o Canadá, onde descansou por sete anos na casa de Georges St. Pierre, outro mentor de MacDonald.

Peso Pena: #8 Dennis Bermudez (EUA) vs. #11 Jeremy Stephens (EUA)

Dennis Bermudez

Dennis Bermudez

Houve um tempo em que Bermudez (14-4 no MMA, 7-2 no UFC) tinha a maior sequência de vitórias da categoria, maior que a de José Aldo. Dentre os sete oponentes batidos desde a derrota na final do TUF 14, os prospectos Max Holloway e Jimy Hettes, além do veterano Clay Guida. Na hora do passo definitivo para entrar na elite da categoria e se postar como candidato a desafiante, foi atropelado e finalizado por Ricardo Lamas em pouco mais de três minutos.

Dennis melhorou bastante desde o TUF. Ele era um wrestler com bom poder de nocaute, mas que tinha mais vontade do que técnica, o que acabava fazendo com que ele lançasse muitos socos no vento. Hoje, o wrestling segue de alto nível, tanto no clinch quanto nas quedas; os punhos continuam pesados e a disposição ainda é elevada. A evolução tornou Bermudez um lutador que imprime um ritmo difícil de lidar e diminuiu a incidência de golpes desperdiçados com boas combinações de socos e chutes. Pelo lado negativo, ele ainda tem a defesa de golpes esburacada, o que será um perigo constante no sábado.

Jeremy Stephens

Jeremy Stephens

Mudar de categoria deu um sopro de esperança na carreira de Stephens (23-11 no MMA, 10-10 no UFC), que esteve numa fase tão ruim que até chegou a ser preso no dia de uma luta. O nocauteador passou por três oponentes, com direito a mandar Rony Jason para a vala na primeira viagem do UFC a Goiânia, porém tombou na hora da verdade, quando o nível de competição subiu. As derrotas para Cub Swanson e Charles do Bronx até eram esperadas, mas Stephens não mostrou competitividade e ficou num limbo na divisão.

Stephens é um lutador à moda antiga, de poder de nocaute bem acima da média da divisão, dono de chutes violentos e um uppercut que derruba cavalo (e campeão da categoria de cima). Desde que foi treinar com Eric Del Fierro na Alliance MMA, passou a combinar melhor os golpes, aumentando o volume lançado, mas ainda se ressente um pouco de maior habilidade na hora de atacar em movimentação, situação que poderia ser de grande valia contra alguém com ritmo intenso como Bermudez. Na luta agarrada, Jeremy executa quedas honestamente, é fisicamente forte para incomodar na disputa de pegada no clinch e tem um ground and pound agressivo, mas a defesa de quedas ainda sucumbe perante oponentes insistentes.

Dennis Bermudez vs Jeremy Stephens odds - BestFightOdds

Embora não tenha completado ainda 30 anos, Stephens já fez mais lutas do que aniversários e parece estar sentindo os anos de batalha. Contra um sujeito que imprime um ritmo muito forte como Bermudez, é um convite para ser sugado para o olho do furacão. Por outro lado, a defesa vazada de Dennis pode ser explorada pelas bombas de Jeremy. Entre as duas hipóteses, a aposta é que Bermudez vença por decisão.

Peso Meio-Médio: #15 Gunnar Nelson (ISL) vs. Brandon Thatch (EUA)

Gunnar Nelson

Gunnar Nelson

Invicto na carreira, Nelson (13-1-1 no MMA, 4-1 no UFC) vinha subindo calmamente a escada dos meios-médios, desfilando talento, quando foi lançado a um teste divisor de águas. Contra Rick Story, o islandês encontrou enorme dificuldade para lidar com a pujança física do americano e não se recuperou de um knockdown sofrido na parte inicial da luta. Mostrou coração, mas também que talvez devesse descer de peso. O duelo deste sábado provavelmente será essencial para esta decisão.

Faixa preta de jiu-jítsu forjado por Renzo Gracie e condecorado na mesma graduação no caratê guju-ryu, Gunni mistura com muita naturalidade a movimentação incomum e os golpes rápidos e certeiros da arte do Sr. Miyagi com a desenvoltura no chão e mortalidade da arte desenvolvida pela família de Renzo. Desde que passou a treinar com o técnico de Conor McGregor, John Kavanagh, Nelson passou a dar mais ênfase à luta em pé. Contra os oponentes de qualidade mais baixa, deu certo. Porém, quando encontrou problemas com o jogo físico de Story, não foi capaz de mudar de nível.

Brandon Thatch

Brandon Thatch

Duas lutas, três minutos somados. Este foi o trabalho que Thatch (11-2 no MMA, 2-1 no UFC) teve no UFC para seguir com sua senda de destruição que vinha do Ring of Fire e da RFA. Porém, ele passou por uma provação semelhante à de Nelson, mas, ao invés de ser no campo físico, foi no técnico. Thatch encheu os olhos dos fãs quando se impôs fisicamente diante de Ben Henderson, mas acabou pego por um surpreendente mata-leão no quarto assalto.

Uma rápida olhada pelo cartel de Thatch dá uma boa noção de quem se trata. Todas as onze vitórias aconteceram no primeiro round, oito delas pela via rápida dolorosa e mais três mata-leões, inclusive o que rendeu a coroa da RFA contra o ex-UFC Mike Rhodes. “Rukus” é um dos sujeitos mais agressivos do MMA mundial em qualquer categoria, capaz de combinar golpes do muay thai com grande precisão, alto volume e muita potência. A movimentação fluida ajuda muito a construir o estilo que, especialmente no primeiro assalto, é muito difícil de lidar.

Brandon Thatch vs Gunnar Nelson odds - BestFightOdds

Para azar de Nelson, Thatch é muito maior, mais forte e mais agressivo que Story. Ainda que a torcida sempre seja para a técnica sobrepujar a força, a falta de pressão e de intensidade no jogo de Nelson tornam sua missão muito complicada. A previsão é que Brandon consiga o nocaute na primeira metade da luta e a torcida é para que este resultado implique na mudança de categoria do islandês.

Peso Galo: #15 FLY Brad Pickett (ING) vs. #14 Thomas Almeida (BRA)

Brad Pickett

Brad Pickett

Se Pickett (24-10 no MMA, 4-5 no UFC) tivesse feito a migração para peso mosca quando era mais jovem, fatalmente teria tido mais sucesso. Porém, a categoria não existia no UFC e ele teve que encarar a missão com quase 35 anos. Resultado: venceu, mas levou um sufoco federal de Neil Seery, que estreava de última hora, e perdeu para Ian McCall e Chico Camus sem mostrar competitividade contra o primeiro e superado em sua especialidade pelo segundo.

Com o apelido de “One Punch”, Pickett apareceu como um representante do boxe inglês. Ele realmente tem bom nível na nobre arte, apesar de não apresentar há um bom tempo o poder de nocaute em um único golpe que seu apelido indica. O que tem salvado sua pele ultimamente é o wrestling, o ground and pound e o controle posicional por cima. Foi assim que ele se safou da derrota quando o negócio contra Seery ficou ruim no boxe. Contra McCall, um wrestler mais gabaritado, a tática não funcionou e a luta foi pelo ralo. Para o bem de sua saúde, é bom que volte a funcionar no sábado.

Thomas Almeida

Thomas Almeida

Desde que chegou ao UFC, Thominhas (18-0 no MMA, 2-0 no UFC) fez o que mais sabe: bater em gente. Na estreia, em Uberlândia, no ano passado, ele espancou Tim Gorman, mas pela primeira vez na carreira teve que ouvir a leitura das papeletas dos juízes. Na luta seguinte, Yves Jabouin não mostrou a mesma capacidade de absorver castigo e foi violentamente nocauteado em pouco mais de quatro minutos – foi a 14ª vitória pela via rápida dolorosa na carreira do jovem paulista.

O muay thai é a principal ferramenta deste prospecto muito agressivo e inteligente. Thomas tem preferência pela troca de golpes na curta distância, de onde até uma cotovelada em pé manda gente para a vala, mas ele é um perigo do mesmo nível lutando de longe, quando usa seu jogo de pernas fluido e lança combinações de jabs, diretos, ganchos, joelhadas e chutes com ritmo e precisão difíceis de lidar. Para piorar a situação dos adversários, ele tem muito sangue frio para sair de situações adversas – como sua defesa na troca de golpes ainda é um tanto vulnerável, ele acaba atraindo os oponentes para uma armadilha.

Na luta agarrada, Almeida treina wrestling com o campeão paulista William Naim e jiu-jítsu com Marcos Barbosinha, um dos principais professores do estado. Como resultado, o lutador mostra o mesmo instinto matador no chão e, se não defende todas as quedas, sabe quicar e voltar em pé rapidamente.

Brad Pickett vs Thomas Almeida odds - BestFightOdds

Alguns acham que as odds estão exageradas a favor do brasileiro, mas nem estão. Provavelmente Pickett não tenha o nível de wrestling para manter Thomas de costas para o chão por muito tempo. Em pé, não tem mais vitalidade para encarar um tiroteio contra o garoto. Uma queda até pode entrar, mas Thomas não deverá demorar a ficar de pé para nocautear ainda no primeiro round.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.