Por Alexandre Matos | 12/11/2012 22:18

O dia 12 de novembro de 1993 entrou para a história do esporte, apesar de poucos acreditarem nisso naquela época. Há exatos 19 anos nascia o Ultimate Fighting Championship, evento criado por Rorion Gracie em conjunto com Art Davie para definir quem era o melhor artista marcial do mundo.

O evento inaugural atraiu 2.800 pessoas à McNichols Sports Arena, ginásio localizado na cidade de Denver, Colorado, com capacidade para 17 mil espectadores. As lutas foram televisionadas em sistema de pay-per-view, com 86.592 pacotes vendidos.

Ninguém da equipe de transmissão dos primórdios faz parte hoje em dia do UFC. Os narradores e comentaristas do UFC 1 foram o campeão mundial de full contact Bill Wallace, o ex-jogador de futebol americano (um dos melhores da história) Jim Brown e a cinco vezes campeã mundial de kickboxing Kathy Long. Brian Kilmeade era o responsável pelas entrevistas pós-luta e Rich “G-man” Goins era o announcer.

Formato do UFC 1

Oito lutadores de diversas artes marciais foram dispostos numa chave eliminatória. Todas as lutas foram disputadas na mesma noite, o que significa que os finalistas lutaram três vezes. Os combates já eram realizados no hoje mundialmente famoso octógono. Segundo Rorion Gracie, diversas arenas foram cogitadas, inclusive uma cercada por um fosso com jacarés, como nos antigos castelos feudais. A intenção era que ninguém pudesse fugir. Não havia limite de peso, de tempo e as regras eram praticamente vale-tudo: só não era permitido morder e acertar o olho com um dedo. O resto – inclusive golpes contra a região genital – valia. Os trajes eram liberados: Royce lutou de quimono e Jimmerson usou luva de boxe (em apenas uma mão).

A fase de quartas-de-final reuniu o holandês lutador de savate Gegard Gordeau, o havaiano praticante de sumô Teila Tuli, os kickboxers americanos Kevin Rosier e Patrick Smith, o karateca americano Zane Frazier, o boxeador americano Art Jimmerson, o praticante de shootfighting Ken Shamrock e o lutador de jiu-jítsu Royce Gracie, irmão mais novo de Rorion, escolhido a dedo para provar ao mundo a superioridade da arte suave em relação aos demais estilos de luta.

Dois brasileiros foram os primeiros árbitros do UFC. O faixa-vermelha de Helio Gracie João Alberto Barreto, um dos nomes mais importantes da história do jiu-jítsu, fez companhia ao delegado da Polícia Militar do Rio de Janeiro Helio Vigio, de mesma graduação, na mediação dos combates. Eles eram dois dos instrutores originais da lendária Gracie Humaitá, junto com Carlson e Robson Gracie.

Quartas-de-final do UFC 1

A primeira luta televisionada da história do UFC foi disputada por Gordeau (1,95m e 98 quilos) e Tuli (1,88m e 186 quilos). O combate foi rapidamente resolvido. Depois de alguns segundos de estudo, Tuli avançou no clássico ataque do sumô. Muito mais ágil, Gordeau encaixou um uppercut e saiu da frente da locomotiva humana, que bateu na grade e caiu. O holandês então aplicou um chutaço no rosto do oponente ajoelhado. Um dente de Tuli voou e o árbitro encerrou o combate aos 26 segundos.

Rosier e Frazier subiram ao octógono em seguida para fazer a luta mais longa do UFC 1. Mal o gongo soou e Rosier saiu como um louco para cima do oponente. Atravessou o cage, pegou Frazier e disparou toda sorte de golpes, até mesmo cotoveladas na cervical. Frazier se levantou e acertou um joelhaço na genitália do oponente. Agarrando Roseier pelos cabelos, Frazier disparou joelhadas e uppers no clinch. Os lutadores trocavam socos no precursor do dirty boxing quando o gorducho Rosier cansou e levou a luta para o chão. Frazier tentou um estrangulamento bizarro e também cansou. Vendo que estavam ambos se arrastando, Rosier juntou o último gás, mandou o oponente à lona com um cascudo e seis socos na nuca, fechando o caixão com dois violentos pisões na cabeça de Frazier. A equipe de Frazier jogou a toalha aos 4min20s de luta.

No meio do famoso trenzinho dos Gracie, Royce fez a terceira luta da noite contra Jimmerson. Enquanto o brasileiro subiu ao octógono de quimono, o americano usava calçados de boxe e luva apenas na mão esquerda. Com 81 quilos, Royce era o mais leve da competição – a intenção de Rorion era mostrar que mesmo um pequeno homem podia vencer usando apenas o jiu-jítsu. Com seu tradicional pisão no joelho, Royce manteve Jimmerson afastado e conseguiu derrubá-lo com um double-leg. Gracie caiu de guarda passada, montou e estrangulou o oponente com facilidade. A luta durou 2min18s.

Fechando a primeira fase, Shamrock enfrentou Smith. Ken não quis saber de conversa e rapidamente grudou no oponente, derrubando-o e caindo por cima. Na primeira brecha que teve, Shamrock agarrou a perna direita de Smith e, no melhor estilo Toquinho, finalizou a luta com uma chave de calcanhar em 1min49s.

Semifinais do UFC 1

Na primeira semifinal, Gordeau encarou o cansado Rosier, que novamente partiu para cima com a guarda aberta e chutes baixos desajeitados. Não demorou muito para o holandês levar o americano para a grade com combinação de jab-direto-chute baixo. Gordeau lançou socos contra o oponente caído e encerrou a disputa com um violento pisão no fígado. Gordeau cravou sua passagem à final em apenas 59 segundos.

Na outra semi, Royce também não teve trabalho para vencer, mas o MMA (ainda chamado de vale tudo à época) viu pela primeira vez um ato de safadeza. Assim que a luta começou, Gracie mergulhou nas pernas de Shamrock. O americano defendeu com um sprawl, os lutadores se engalfinharam e Royce puxou o oponente para a guarda, batendo com o calcanhar no rim de Ken. Quando o brasileiro passou para as costas e encaixou um mata-leão, Shamrock bateu em desespero. Apesar dos protestos de Royce, o árbitro Helio Vigio não viu e mandou a luta seguir. Foi quando Royce reclamou com Ken e o fez admitir que havia desistido. Vigio então decretou Gracie vencedor aos 57 segundos de combate.

Final do UFC 1: Royce Gracie vs Gerard Gordeau

Gordeau chegou à final depois de lutar por 1 minuto e 25 segundos somando as duas fases anteriores, menos da metade do tempo gasto por Gracie para se classificar à decisão. A primeira edição do UFC era decidida pelo confronto de estilos que virou clássico entre um grappler e um striker.

O pisão no joelho de Royce foi a senha para entrar nas pernas de Gordeau. O brasileiro tentou derrubar com um osoto otoshi, mas o holandês se segurou na grade e não foi ao chão. Gracie insistiu, levou o oponente ao solo com um osoto gari, montou, pegou as costas e encaixou o mata-leão. Gordeau bateu no chão, desistindo. Royce, lembrando do problema com Shamrock na luta anterior, não aliviou o estrangulamento. Desesperado, o holandês deu os tapinhas no braço do brasileiro, que só soltou quando o árbitro intercedeu. Gordeau sucumbiu em um minuto e 44 segundos de luta.

Com a vitória, Royce tornou-se campeão do primeiro torneio do UFC. Ele recebeu um cheque de 50 mil dólares pelo título e começou ali a mudar a história das artes marciais. As academias de jiu-jítsu passaram a receber cada vez mais alunos em várias partes do mundo. Muitas pessoas, inclusive vários profissionais bem sucedidos do MMA atual, começaram a praticar algum tipo de luta incentivado pelo pequeno brasileiro que levou cinco minutos para dar cabo de três adversários bem maiores e mais pesados do que ele.