Por Idonaldo Filho | 05/03/2019 14:42

Na história do MMA, desde o início – antes mesmo de o UFC nascer – a prática de torneios existiu. Fosse envolvendo quatro, oito ou até mais lutadores numa chave, ora acontecendo todos os confrontos no mesmo dia ou com lutas realizadas em eventos separados, é fato que esta sempre foi uma forma divertida e prática para divulgar os eventos e premiar campeões. Ultimamente, os torneios parecem estar voltando com cada vez mais força em várias promoções ao redor do globo.

A estreia do UFC aconteceu em Denver, no Colorado, e o argumento era de um evento que convocasse diversos lutadores representando artes marciais singulares e que esses lutadores disputassem combates entre si na mesma noite para provar qual era o melhor estilo de luta. Na ocasião, Royce Gracie e o jiu-jítsu saíram vitoriosos. O PRIDE FC também abusou do formato, proporcionando momentos lendários para o esporte com seus GP’s. Na história mais recente, também podemos relembrar os constantes torneios que o Bellator MMA e o Strikeforce realizaram, inclusive desde o início de suas trajetórias.

No presente, o formato mais excêntrico que temos é o da PFL. A organização originou-se da antiga WSOF, que fechou as portas e deu lugar a uma promoção diferente, que, embora mantenha boa parte da antiga administração, se sustenta agora com formato de temporadas. No ano de 2018, aconteceu a primeira temporada, com os lutadores obtendo pontuações por vencerem os confrontos e conseguirem interrupções durante a fase classificatória, proporcionando combates divertidos e zebras, em eventos que garantiam o entretenimento de quem assistia.

O modelo foi um sucesso entre os fãs hardcores, embora tenha fracassado com o público médio – que é o que realmente importa -, com poucos ingressos vendidos e audiência baixa. A presença do empresário de lutadores Ali Abdelaziz nos bastidores e o fato de ele ser ex-matchmaker da WSOF também é um pouco assustador e leva a pensar que existe parcialidade na escolha de casamentos, principalmente se levarmos em conta que alguns vencedores da temporada passada são empresariados por ele.

Na Ásia, o ONE Championship assinou com grandes nomes da história do MMA como os ex-campeões do UFC Eddie Alvarez e Demetrious Johnson. Logo após firmar contrato com ambos, a promoção já tratou de anunciar torneios que estão acontecendo com as estrelas envolvidas, enfrentando alguns dos principais nomes da região que estão no plantel do ONE. Futuramente, a entidade quer partir para a realização de torneios de kickboxing, de modo inteligente e que faz sentido com a expansão mundial e com a ampliação de artes marciais cobertas por eles.

O One Championship assinou com grandes nomes para estrelar seus torneios

Outras organizações menores também utilizam torneios por diversos motivos e de diversas formas, seja para definir desafiantes ou até mesmo campeões. O Invicta FC recentemente realizou um torneio de quatro lutadoras no peso mosca, com a presença de ex-lutadoras do UFC como DeAnna Bennett e Milana Dudieva. Em uma noite aconteceram as semifinais e, num evento futuro, a final. O Berkut Young Eagles, evento especializado em prospectos locais que é de propriedade do ACA (antigo ACB), faz torneios em todas as categorias masculinas para definir os seus campeões, que acabam se afirmando como bons lutadores e são pinçados pelas organizações russas maiores, especialmente pelo próprio ACA.

O Combate Americas também colocou em prática o formato e premiou o vencedor com US$100.000 e um grande troféu. A organização latina realizou a Copa Combate 2018, em dezembro, um torneio divertido que foi disputado no peso pena e vencido pelo americano Andrés Quintana, com a presença de atletas dos Estados Unidos, México, Espanha, Chile, Peru, Argentina, Colômbia e Porto Rico. O GP foi realizado em uma só noite, em lutas de apenas um round.

Já o ROAD FC, na Coreia do Sul, ousou e decidiu premiar com um milhão de dólares o vencedor de seu torneio. O evento demorou, mas finalmente terá o seu desfecho. A final, que foi definida em março de 2018, aconteceu há duas semanas, entre o primo de Khabib Nurmagomedov, Shamil Zavurov, e o francês Mansar Barnaoui, que se sagrou campeão com uma joelhada voadora. Já outro torneio realizado pelo ROAD, no peso absoluto e envolvendo lutadores famosos como Gilbert Yvel e Mighty Mo, até o momento segue nebulosamente sem desfecho.

A bola da vez é o Bellator, que insiste com força no esquema de grand prix. O retorno dos torneios na organização tem o aval dos fãs e gera muita curiosidade, além de interesse pelos confrontos de lutadores que por muito tempo eram protegidos pelo matchmaker, como Neiman Gracie e Michael Page, por exemplo. Já encerrado, o torneio dos pesados, vencido por Ryan Bader, contou com nomes importantes da história do MMA, como Fedor Emelianenko, e foi divertido principalmente pela corrida do russo até a final, passando por cima de Frank Mir e Chael Sonnen.

Já o torneio dos meios-médios agrada pela competitividade, já que os melhores nomes da organização estão se enfrentando e acontece a curiosa prática do cinturão, que pertence ao canadense Rory MacDonald, estar sempre em disputa a cada vez que o campeão luta no torneio. Caso MacDonald perca, o lutador que assegurou o cinturão o defenderá na fase posterior. Empolgado, o presidente Scott Coker recentemente anunciou que agora irá realizar um torneio no peso pena, que contará com 16 lutadores e terá início no mês de outubro.

O formato como um todo é bastante popular e didático. Sempre que um torneio é realizado com bons nomes do MMA regional, devemos prestar atenção principalmente pela possibilidade de zebras e de confrontos eletrizantes. O fato de não se ter um padrão definido pelas organizações torna a ideia interessante, já que cada uma se organiza de maneira diferente e adiciona elementos curiosos para deixar o seu formato mais original.

No entanto, há alguns pontos contra. As principais comissões atléticas, ao menos nos Estados Unidos, permitem um tempo máximo de 25 minutos de luta de um atleta por noite, o que limita a realização de torneios que acontecem em uma única data. A PFL teve problemas com isso e decepcionou bastante com um critério tosco de passar de fase quem venceu o primeiro assalto em lutas de dois rounds, mesmo mantendo a luta como empate no cartel. Além disso, lesões são frequentes graças ao curto período entre combates, muitas vezes provocando mudanças de oponentes repentinas, fazendo com que o plantel do início do torneio se torne completamente outro no final.

Ainda assim, acho que a prática deve ser incentivada cada vez mais. Os melhores sempre devem enfrentar os melhores, pois a competitividade move o esporte e atrai fãs se for bem divulgada e trabalhada. Dificilmente o UFC irá retornar ao formato, mas talvez isso não cause maiores transtornos. Os torneios geralmente interessam aos lutadores e a premiação de alguns gera inclusive o êxodo do UFC, como vimos acontecer com Rashid Magomedov, top 15 da maior organização do MMA mundial que decidiu não renovar para assinar com a PFL. Se de alguma forma isso incomoda o líder do mercado e inova em um mercado tão conservador como o de artes marciais mistas, é ótimo que continue assim.