Por Diego Tintin | 19/03/2020 09:58

Listas, rankings e comparações fazem parte dos fetiches dos amantes de esportes desde sempre. E estamos aqui para alimentar algumas destas intermináveis discussões. Em três textos, apresentaremos os eleitos pela equipe do MMA Brasil para o top 3 de cada uma das onze divisões mais interessantes do MMA mundial.

Em tempo: cada um dos integrantes da banca pôde utilizar seus próprios critérios. Entretanto, foi solicitado que a votação levasse em conta os três melhores lutadores de cada categoria, focando em critérios esportivos, tanto em qualidade técnica e atlética, quanto no legado construído dentro dos ringues e octógonos.

Veja aqui a parte 1 deste especial.

Nesta segunda parte, quatro divisões serão abordadas: justamente as quatro mais leves que existem na maior organização do mundo. Mesmo com uma estreia mais tardia no UFC, em períodos em que a nata de algumas destas divisões esteve em eventos como PRIDE, WEC e Tachi Palace Fights, todos os eleitos nesta etapa tiveram seu auge exatamente dentro do famoso octógono.

PESO-MOSCA

Joseph Benavidez

Joseph Benavidez

Títulos importantes: nenhum

Cartel (março/2020): 28-6

Então uma força de muito respeito no peso galo, quando o UFC decidiu inaugurar a divisão dos moscas, Joseph Benavidez virou o principal favorito ao cinturão inaugural. Esbarrou duas vezes em Demetrious Johnson, mas a longa e vitoriosa carreira seguiu em frente. No seu caderno de glórias constam vitórias sobre Henry Cejudo, Ian McCall, Jussier Formiga (duas vezes), Miguel Torres e Ali Bagautinov.

Benavidez é um lutador versátil, que tem facilidade para transicionar entre a troca de golpes e a luta agarrada. Poder de nocaute elevado para a divisão, uma guilhotina poderosa e ótimo preparo físico complementam o pacote que lhe valeu unanimidade em nossa eleição.

Henry Cejudo

Títulos importantes: UFC peso-mosca (uma defesa) e peso-galo

Cartel (março/2020): 15-2

Fazer história é com Henry Cejudo. Para começar, inspirado no irmão Angel, começou a treinar wrestling e se transformou no mais jovem americano campeão olímpico da modalidade. No MMA, a carreira foi meteórica e após algumas dores de aprendizagem, acabou com o maior reinado da história do UFC, ao tomar o cinturão de Demetrious Johnson. A última (por enquanto) façanha histórica foi acumular o cinturão dos moscas com o dos galos, ao nocautear Marlon Moraes. De quebra, venceu o então campeão da divisão de cima TJ Dillashaw, que desafiou sua coroa do peso-mosca.

Não é necessário dizer que a luta olímpica de Cejudo é do mais alto nível que o MMA já viu. Mas, para tantas conquistas, o “Mensageiro” desenvolveu um excelente jogo de mãos, inteligência tática e uma mistura de raça com condicionamento muito acima da média. Este dínamo cada vez mais impressionante também obteve todos os dezessete votos em nossa enquete.

Demetrious Johnson

Demetrious Johnson

Títulos importantes: UFC (onze defesas)

Cartel (março/2020): 30-3-1

Demetrious Johnson, até certo ponto da carreira, era considerado um bom lutador, porém, poucos apostavam que poderia ser campeão do UFC um dia. Em uma evolução incrível, além da sorte da divisão dos moscas coincidir com o momento que entrava em seu auge técnico, o Super-Mouse se transformou no mais dominante campeão da história da organização. Depois de vencer nomes como Joseph Benavidez (duas vezes), John Dodson (também duas vezes), Henry Cejudo, Ian McCall, Kyoji Horiguchi, Johnson foi finalmente derrotado na revanche contra Cejudo, em luta histórica e muito equilibrada.

Por conta de alguns milhões de dólares motivos contratuais, Demetrious foi para o asiático evento One FC, onde enfrenta lutadores que estão longe de seu nível técnico e aparenta um certo relaxamento em suas exibições. Somente com aumento do patamar na concorrência poderíamos rever aquele lutador versátil, inteligente e de técnica e condicionamento exuberantes. Merecidamente, Johnson foi outro a conquistar unanimidade do nosso corpo de jurados.

 

PESO-GALO

Renan Barão

Títulos importantes: UFC (três defesas)

Cartel (março/2020): 34-9

Esqueçam o atual estado melancólico da carreira. Renan Barão já foi muito bom. Na verdade, o potiguar era um lutador empolgante, oportunista e garantia de lutas espetaculares. O aluno de Jair Lourenço e Dedé Pederneiras aproveitou o vácuo deixado pelas lesões de Dominick Cruz e chegou a ensaiar uma dinastia na divisão. As vitórias sobre Urijah Faber (duas vezes), Michael McDonald, Scott Jorgensen e Brad Pickett foram as suas melhores, neste momento em que chegou a ficar invicto por 32 lutas.

No seu pequeno reinado, Barão apresentava mãos hábeis, qualidade nos chutes e joelhadas, ótima defesa de quedas e jogo de solo afiado. Pecava um pouco defensivamente, com alguns sustos mesmo antes da derrota histórica para TJ Dilashaw, que o jogou em um abismo do qual não conseguiu mais sair, principalmente após a revanche. Mesmo com o declínio acentuado, Renan garantiu esta vaga em disputa muito acirrada, com sete de dezessete votos possíveis.

TJ Dillashaw

Títulos importantes: UFC (três defesas)

Cartel (março/2020): 16-4

TJ Dillashaw alcançou o auge ao demolir o reinado de Renan Barão, maltratando o brasileiro nas duas vezes em que se enfrentaram. Outro “freguês” do californiano foi seu ex-parceiro de treinos e hoje desafeto Cody Garbrandt, também derrotado em duas ocasiões. Além deles, TJ obteve vitórias notáveis sobre os sólidos brasileiros Raphael Assunção e John Lineker.

Pouca gente conseguiu aliar técnica com velocidade tão bem no MMA como fez Dillashaw. Muito preciso, principalmente em contragolpes, apresenta um poder de nocaute surpreendente para alguém de seu tamanho. Um ponto muito problemático é que o excelente lutador vive dentro de polêmicas. Desde as inofensivas, como a acusação de traição ao Time AlphaMale, que o forjou como lutador de MMA, até às mais graves e indesculpáveis, como a falha no teste antidoping, após a derrota para Henry Cejudo, quando desafiou o cinturão do peso-mosca. Dillashaw obteve quinze de dezessete votos.

Dominick Cruz

Dominick Cruz

Títulos importantes: WEC (duas defesas) e UFC (cinco defesas)

Cartel (março/2020): 22-2

O mais assustador em Dominick Cruz não é o que ele poderia ter sido caso não sofresse com lesões que limaram sete dos seus quatorze anos como lutador profissional. O mais impressionante é o que ele ainda assim conseguiu ser no MMA. Com os melhores anos da carreira prejudicados, Cruz foi campeão dominante de WEC e UFC, com dez vitórias totais em lutas por cinturão. Para se ter uma ideia, o recordista Jon Jones tem quatorze. Entre suas vítimas, nomes como Urijah Faber e Joseph Benavidez (duas vezes cada), Brian Bowles, Demetrious Johnson e TJ Dillashaw.

Dominick revolucionou o peso galo com uma movimentação extra-classe, muito talento na luta em pé e agarrada, além de qualidade nas transições. O sistema defensivo melhorou a cada apresentação e o condicionamento nunca o deixou na mão mesmo após longos intervalos longe dos octógonos. O maior peso galo de todos os tempos conquistou todos os votos do nosso colégio eleitoral.

Menções: Urijah Faber, Miguel Ángel Torres, Henry Cejudo

 

PESO-PENA

Max Holloway

Títulos importantes: UFC (três defesas)

Cartel (março/2020): 21-5

Dono de uma assombrosa sequência de quatorze vitórias seguidas nesta ferrenha divisão, Max Holloway alcançou o trono ao interromper o segundo reinado de José Aldo, em pleno Rio de Janeiro. Com atuações empolgantes e de vitórias inquestionáveis, chegou a disputar o cinturão interino do peso leve, mas sucumbiu diante de Dustin Poirier. Após defender a coroa contra outro histórico peso pena, Frankie Edgar, Max acabou sendo deposto do cargo pelo ascendente astro Alexander Volkanovski, em dezembro passado.

Um dos preferidos dos fãs, o “Abençoado” é um dos melhores e mais confiantes strikers que o MMA já viu. Max costuma iniciar suas lutas dosando as energias e buscando entender melhor como o adversário se movimenta e, depois de mapear estas ações, imprimir um alto volume, em ritmo crescente e aterrorizante. Com ótima movimentação, altura e envergadura para a categoria, Holloway segue sendo um dos lutadores mais divertidos de se assistir.

Conor McGregor

Conor McGregor

Títulos importantes: UFC peso-pena e peso leve)

Cartel (março/2020): 22-4

De um promissor peso pena europeu ao primeiro campeão do UFC em duas divisões simultaneamente e maior fenômeno midiático que o esporte já viu. A trajetória do lutador Conor McGregor é muito influenciada pela entidade Conor McGregor, porém, não podemos esquecer que o primeiro é um dos melhores do mundo naquilo que faz. Enfileirou gente graúda, como Max Holloway, Dustin Poirier, Chad Mendes e acabou com um reinado de quase uma década de José Aldo, precisando de apenas 13 segundos para mandar o grande campeão à lona.

O cara dos belos ternos, empresário do ramo de bebidas alcoólicas e língua super afiada, precisa de armas diferentes quando as portas do octógono se fecham. Lá dentro, Conor faz uso de um jogo de pernas inteligente e preciso, muita habilidade no boxe, kickboxe e caratê, além de um poder de nocaute imenso em proporção ao seu tamanho. Além disso, é criativo, mentalmente poderoso, capaz de desestabilizar seus oponentes e obstinado. Inclusive a ponto de conseguir uma milionária luta de boxe contra um dos maiores astros da história do esporte mundial em um inimaginável duelo contra Floyd Mayweather.

José Aldo

Títulos importantes: UFC (sete defesas) e WEC (duas defesas)

Cartel (março/2020): 28-6

José Aldo foi o dono do peso-pena nos quatro primeiros anos da divisão no UFC. Caiu diante de Conor McGregor, mas teve forças para reconquistar o cinturão, posteriormente perdido para o outro integrante deste pódio, Max Holloway. Entre suas vitórias mais notáveis, estão as duas sobre Frankie Edgar, as duas sobre Chad Mendes, Kenny Florian e Urijah Faber.

Embora tenha começado no jiu-jitsu, foi o muay thai de chutes poderosos, golpes velozes e criativos que alçaram Aldo ao estrelato. A defesa de quedas impecável e o poder de nocaute afiado completam o pacote que garantiu ao brasileiro, assim como os seus dois colegas deste topo, unanimidade em nossa votação.

 

PESO-LEVE

Frankie Edgar

Títulos importantes: UFC (três defesas)

Cartel (março/2020): 23-8-1

Pouco cotado para ser campeão e considerado um lutador pouco empolgante, Frankie Edgar teve uma ascensão fugaz até tomar o cinturão do então dominante BJ Penn e confirmar a conquista na revanche. Mesmo pequeno para a divisão, manteve o título em dois épicos duelos contra Gray Maynard, marcando seu nome como um lutador que se recupera de águas muito profundas e cravando duas candidatas a lutas do ano. Duas derrotas controversas para Ben Henderson fizeram com que Frankie mudasse para o peso-pena e se mantivesse como um lutador de elite por muitos anos.

Edgar tem como marca registrada o bom jogo de boxe, com movimentação ininterrupta e consagrou o ato de entrar no alcance do oponente, golpear e sair em alta velocidade. Outras características marcantes são seu nariz sempre sangrando e a resistência que tem pouco paralelo no MMA. Aquele cara pouco interessante virou o jogo e passou a ser um dos mais queridos e respeitados lutadores. “A Resposta” garantiu quatorze votos em nossa eleição.

BJ Penn

Títulos importantes: UFC peso leve (três defesas) e peso meio-médio

Cartel (março/2020): 16-14-2

Esqueçam o lamentável fim de carreira. BJ Penn foi um lutador de excelente nível técnico. Criativo, oportunista, inteligente. Depois de surgir como um fenômeno no UFC e ficar a um empate do cinturão peso leve, o Prodígio foi tomar a coroa do meio-médio de Matt Hughes e a deixou para assinar com os japoneses do K-1. Por lá, chegou a fazer luta de peso aberto contra Lyoto Machida, mas voltou para ganhar e reter o cinturão do peso leve, batendo nomes como Sean Sherk, Kenny Florian e Diego Sanchez. Depois de perder o título e a revanche para Frankie Edgar, o havaiano jamais voltou a ser um lutador de elite, chegando a acumular sete derrotas seguidas e contra oponentes cada vez piores.

Primeiro norte-americano campeão mundial de jiu-jítsu na faixa preta, BJ desenvolveu também um boxe muito técnico e fez das duas artes, a suave e a nobre, seu carro-chefe de habilidades no MMA. Além de técnico, foi um lutador empolgante, carismático e virou também um sucesso de público, sendo uma das mais importantes atrações comerciais de sua época. Em nosso sufrágio, o Baby Jay recebeu quinze votos, de dezessete possíveis.

Khabib Nurmagomedov

Khabib Nurmagomedov

Títulos importantes: UFC (duas defesas)

Cartel (março/2020): 28-0

Khabib Nurmagomedov é tão dominante em seus combates, tão absoluto desde a primeira luta que fez no UFC, que há quem acredite que o russo só não é o detentor da coroa de melhor lutador da história porque vive se machucando e acaba lutando poucas vezes. Exagero ou não, dá para se contar nos dedos de uma só mão a quantidade de momentos difíceis que Nurmagomedov passou no octógono. E isso, mesmo lutando contra gente do porte de Rafael dos Anjos, Edson Barboza, Al Iaquinta, Conor McGregor e Dustin Poirier.

De fato, é assustadora a combinação de imposição física, wrestling de elite, resistência e força mental que o daguestani traz à mesa, cada vez que Bruce Buffer o anuncia. Não podemos ainda descartar o seu poder de fogo com os punhos, ainda que a técnica seja rudimentar e a capacidade de apertar pescoços alheios. Diante de tal assombração, não é surpreendente que Khabib tenha conquistado a unanimidade nesta nossa enquete.

Menções: Eddie Alvarez, Ben Henderson e Connor McGregor