Top 10 do Futuro: Peso Leve

É preciso coragem para fazer uma lista de futuros top 10 na categoria mais aguerrida do MMA mundial. Como não somos de fugir de dificuldades, o Top 10 do Futuro do peso leve traz mais opções do que as demais divisões.

Antes de começar a discussão, é sempre bom reforçar: o peso leve é, por larga margem, a mais dura e competitiva divisão do MMA mundial. Exatamente por abranger o padrão físico masculino mais comum, a categoria tira qualidade da quantidade. Ainda que os galos e penas estejam muito reforçados e os meios-médios mantenham a qualidade histórica, não tem como competir com uma divisão em que o vigésimo pode vencer o primeiro sem precisar de um golpe de sorte ou um dia especial.

LEIA MAIS Top 10 do Futuro: Peso Palha
Top 10 do Futuro: Peso Mosca Masculino

Tamanhos equilíbrio e renovação fazem da missão de apontar futuros top 10 no peso leve algo que pode dar com os burros n’água por completo. Os leitores podem muito bem olhar para as nossas escolhas e falar: “É, esses caras realmente serão top 10” e, com o passar do tempo, nenhum deles alcançar o patamar. Vejam vocês a dureza que Francisco Massaranduba precisou passar para chegar ao top 15 e bastou uma derrota para afastá-lo da lista. É tanta gente chegando, tanta gente vencendo oponentes mais bem ranqueados, que a lista dos pesos leves vive sofrendo mudanças.

LEIA MAIS Top 10 do Futuro: Peso Galo Masculino
Top 10 do Futuro: Peso Galo Feminino

A disputa no peso leve é tão selvagem que a lista de pré-candidatos foi a maior de todas e mesmo assim foi difícil escolher três. Neste artigo, vocês verão que há mais menções honrosas do que em qualquer outra categoria. Mesmo apontando seis, ao invés de quatro, corremos o risco de errar retumbantemente e passar de bestiais a bestas. Ainda assim, o MMA Brasil não é de correr de dificuldades e dá a cara a tapa.

LEIA MAIS Top 10 do Futuro: Peso Pena Masculino

Gregor Gillespie

Quem é: campeão da Divisão I da NCAA, All-American nos quatro anos em que disputou o circuito, campeão do Ring of Combat, grande celeiro de talentos do UFC. O currículo de Gregor Gillespie impõe respeito. Para piorar (para os adversários), ele vem evoluindo bem nas vertentes que não a luta agarrada – já até deixou rastros no UFC.

O que fez no UFC: a estreia de Gillespie foi no mais hostil dos territórios do MMA: o Brasil contra um brasileiro. Gregor teve sólida atuação contra o vencedor do TUF Brasil 4 Glaico França. Em seguida, precisou de 20 segundos para mandar Andrew Holbrook para a vala. Mas foi a atuação mais recente que chamou atenção. No meio de um show de domínio e agressividade nas quedas e ground and pound, Gillespie mostrou que encara um quebra-pau animado com a mesma desenvoltura que domina oponentes no chão.

Porque será um top 10: ter um estilo que lembra o de Chris Weidman já seria credencial suficiente, ainda que lhe falte a desenvoltura do ex-campeão dos médios no jiu-jítsu. Porém, Gillespie produz mais potência e atua com firmeza em todas as fases do jogo. Com mais experiência e, por conseguinte, diminuindo alguns problemas defensivos, Gillespie é candidato a top 5, com potencial de desafiante.

Islam Makhachev

Quem é: campeão mundial, europeu e tetra russo de sambô de combate, o daguestani Islam Makhachev é cria de Abdulmanap Nurmagomedov e amigo de infância de seu filho Khabib Nurmagomedov. Quando ambos estavam militando no forte cenário regional russo, Islam inclusive era tido como melhor do que Khabib.

O que fez no UFC: Makhachev foi surpreendido logo em sua segunda luta no UFC, quando acabou nocauteado por Adriano Martins, no UFC 192. No entanto, o russo se mostrou recuperado da zebra exibindo um belo repertório na luta agarrada contra Chris Wade e passando o carro no sempre duro Nik Lentz. De volta aos trilhos, a expectativa é que Makhachev cumpra com o que dele se esperava.

Porque será um top 10: embora não tenha se desenvolvido no wrestling como Khabib – mas quem o fez em todo o peso leve mundial? – Makhachev tem um kickboxing mais agressivo que o do amigo, além de um jiu-jítsu ofensivo e oportunista. E, mesmo sem ser um Khabib, o wrestling de Islam merece bastante respeito, como o de qualquer competidor que saia do norte do Cáucaso, basta ver o que ele fez com Nik Lentz, dominando o americano do modo que o próprio Lentz se acostumou a fazer.

Drakkar Klose

Quem é: wrestler oriundo da North Idaho College, por onde também passaram Kelvin Gastelum, Bryan Caraway e Josh Thomson, Drakkar Klose é mais um produto que carrega o clássico estilo da MMA Lab, unindo o folkstyle wrestling com o kickboxing. Klose é um atleta forte e resistente, que consegue acelerar e atuar em todas as distâncias, mas mostra capacidade de pressionar a concorrência na grade.

O que fez no UFC: Klose estreou no UFC como substituto de última hora de Devin Powell, que havia chamado a atenção de Dana White na websérie “Lookin’ For a Fight”. Mesmo fora do alcance dos holofotes, Klose não mostrou nenhum respeito pelo oponente e passou o carro. Em seguida, novamente como azarão, pegou o violento e hypado Marc Diakiese. Usando o mesmo jogo que fez a fama do parceiro de treinos Ben Henderson, Drakkar venceu com venenosos chutes baixos, pressão no clinch e quedas.

Porque será um top 10: wrestling de pressão e quedas, kickboxing agressivo, grappling defensivo decente, muita dignidade para levar porrada na cara de olhos abertos e a crença que o trabalho árduo renderá frutos mesmo contra oposição tecnicamente mais qualificada é um belo conjunto para avançar na selva do peso leve.

Menção Honrosa: Mairbek Taisumov

Quem é: apesar de estar radicado na Áustria há um tempo, Mairbek Taisumov tem origem no nascedouro de gente bruta do sudoeste da Rússia – no caso dele, na Chechênia. Versatilidade é seu nome. O começo foi no wrestling, mas Taisumov chama atenção mesmo é no striking de golpes rápidos e chutes de toda sorte.

O que fez no UFC: Taisumov é outro integrante desta lista que parou num brasileiro em sua segunda luta no octógono. Depois de ser travado no jogo sufocante de Michel Trator, “Beckan” emendou cinco vitórias seguidas, todas por nocaute e as três últimas bonificadas como um dos melhores desempenhos da noite. A última vítima foi Felipe Silva, vitimado por uma direita violenta disparada enquanto Taisumov recuava.

Porque será um top 10: talento nunca faltou a Taisumov. Ele precisava de consistência em suas atuações, mostrar que seu enorme talento ofensivo também se reflete no sistema defensivo. Falta um teste contra um grappler consistente, talvez contra Beneil Dariush ou Nik Lentz, que tiveram lutas canceladas contra Taisumov. Com 29 anos, ele precisa se adiantar para aproveitar o auge físico.

Menção Honrosa: Lando Vannata

Quem é: um dos principais prospectos saídos da Jackson-Wink MMA nos últimos tempos, Lando Vannata começou a chamar atenção ao aplicar duas surras na RFA e chegar ao posto de desafiante do peso pena. Wrestler que disputou a Divisão I da NCAA pela University of Tennessee e faixa-roxa de jiu-jítsu, Vannata tem na habilidade da luta em pé seu principal foco de atuação, com movimentação dinâmica e e combinações técnicas, versáteis e oportunistas, com um manancial espetacular de chutes.

O que fez no UFC: Vannata assinou contrato para lutar poucos dias depois contra o embalado Tony Ferguson e apresentou o terror a “El Cucuy”, mandando-o a knockdown duas vezes antes de sucumbir ao esperado cansaço. Em seguida, levou o hype à estratosfera ao aplicar um dos nocautes mais sensacionais dos últimos tempos em John Makdessi, com um chute alto rodado. No terceiro e último compromisso, teve seus vários problemas defensivos expostos na derrota para David Teymur, que estava na pré-lista deste projeto.

Porque será um top 10: prever o futuro de Vannata é muito complexo. Ofensivamente, o americano tem o pacote quase perfeito, faltando apenas confiar mais nas quedas que ele sabe aplicar bem. Porém, Lando é quase uma tragédia no ponto de vista defensivo. Ele faz a alegria da garotada se defendendo de guarda baixa, confiando em movimentação de cabeça e jogo de pernas. Como ele não é um Floyd Mayweather ou Guillermo Rigondeaux, acaba ficando exposto mais do que deveria. Como ainda é jovem (25 anos) e está sob a tutela de um dos maiores gênios estratégicos da história do MMA, a expectativa é que alguém bote juízo na cabeça de Vannata antes que ele se torne vítima de seu próprio estilo.

Menção Honrosa: Jake Matthews

Quem é: surgido no TUF Nations como o mais jovem competidor da história do reality show e integrado ao elenco oficial do UFC como o mais novo de todos, Jake Matthews era um menino que treinava no quintal de casa guiado pelo pai e com o irmão como parceiro de sparring. A situação melhorou, ele hoje é faixa-preta de Carlos Português, campeão australiano de wrestling, mas ainda carece de estrutura.

O que fez no UFC: apesar de só ter 23 anos, Matthews já tem sete lutas no UFC, com quatro vitórias e três reveses. Ele superou três oponentes das castas mais baixas (Vagner Ceará, Dashon Johnson e Akbarh Arreola) e caiu diante dos melhores que enfrentou (James Vick e o atual desafiante do cinturão interino Kevin Lee). Sua melhor vitória foi contra o bom, mas inconstante, Johnny Case. Porém, a derrota na última luta para o esforçado Andrew Holbrook, por mais contestável que tenha sido o resultado, ligou o sinal de alerta.

Porque será um top 10: assim como Vannata, é difícil prever o futuro de Matthews, mas por outro motivo. Ele já mostrou desenvoltura ofensivas nos quatro ramos principais do MMA (troca de golpes em pé, clinch, luta agarrada no solo e preparo atlético), mas ainda possui latentes problemas de transição e de sistema defensivo. Uma mudança definitiva para uma equipe de ponta americana pode desabrochar o potencial enorme do “Garoto Celta” e colocá-lo em condições de disputar de igual para igual com os melhores da divisão mais forte do MMA mundial. Caso insista em continuar em casa, poderá perder o bonde da evolução e parar no tempo.