Por Alexandre Matos | 25/10/2018 22:13

Uma notícia nada convencional caiu sobre o mundo do MMA nesta semana. A maior organização do esporte no mundo, o UFC, e a maior da Ásia, o ONE Championship, estão negociando uma troca dos contratos de seus mais talentosos lutadores. Os americanos enviariam Demetrious Johnson para o Oriente, enquanto o pessoal de Singapura mandaria Ben Askren de volta à América.

A informação foi revelada por Ariel Helwani, no site da ESPN americana. Como bem disse nosso editor João Gabriel Gelli no grupo da redação no WhatsApp, esta é a notícia mais aleatoriamente relevante que o MMA já viu.

LEIA MAIS UFC e ONE Championship negociam troca entre Demetrious Johnson e Ben Askren

A esquisitice, é bom deixar claro, é apenas em relação ao ineditismo no MMA. Troca de contrato de atletas entre equipes é uma prática comum nos esportes profissionais americanos, especialmente na NBA e na NFL. É um artifício usado quando, por exemplo, uma franquia precisa se livrar de um contrato que passou a não mais compensar quando se mede custo, duração e retorno, especialmente sob o conceito de teto salarial.

As primeiras reações foram obviamente de espanto na maioria dos fãs e dos analistas. Alguns acharam absurdo com Johnson, seja por um comportamento de desdém do UFC ou pela falta de competição do outro lado do mundo. Outros dizem que o tempo de ver Askren no UFC passou. Há quem diga que o peso-mosca podia subir de categoria no UFC e que a organização líder de mercado não deveria gastar tanto dinheiro por um lutador de 34 anos com pouco apelo popular.

Não que alguém tenha me perguntado, mas eu acho que, caso essa troca realmente se materialize, será bom negócio para todos os lados envolvidos.

ONE Championship terá um dos melhores de todos os tempos

O lado mais fácil de se perceber tendo motivo para fazer a troca é o do ONE. Aliás, foi a própria organização que deu o primeiro passo.

O ONE conseguiu sobreviver à derrocada do MMA na Ásia e hoje está consolidado no continente a ponto de ganhar inclusive o mercado japonês, que andou moribundo. Nas mãos do ONE, o esporte voltou a ser viável no continente mais populoso do mundo, onde a grana tem rolado com vontade.

Para dar o passo além, o ONE precisava de um trunfo. O UFC vai pouco à Ásia e, quando vai, leva cards chinfrins, montados muitas vezes em horários bizarros como manhãs de domingo. Já o ONE trata melhor seus conterrâneos continentais, até por conhecer melhor o mercado em que está inserido. A empresa liderada por Victor Cui consegue representar o desenvolvimento econômico dos Tigres Asiáticos com a tradição e as dificuldades financeiras do lethwei de Mianmar, tendo inclusive escalado duelos do esporte, sem luvas e valendo cabeçada, em seus eventos de MMA.

O esforço do ONE Championship passa por globalizar o Lethwei de Mianmar. Demetrious Johnson pode aumentar a credibilidade da organização (Foto: ONE Championship/Divulgação)

O esforço do ONE Championship passa por globalizar o Lethwei de Mianmar. Demetrious Johnson pode aumentar a credibilidade da organização (Foto: ONE Championship/Divulgação)

A troca é maiúscula para o ONE. Askren, melhor lutador do plantel, já tinha decidido não voltar a lutar mais na organização. Ele será substituído pelo melhor lutador peso por peso do planeta na atualidade, pelo menos entre os que nunca se enrolaram com doping. É tipo o Chelsea trocar Eden Hazard por Lionel Messi ou o New Orleans Saints liberar Drew Brees em troca de Aaron Rodgers. Com a troca, a credibilidade do ONE Championship aumenta perante um público que parece ser mais afeito ao talento do que às provocações.

Vai ser no mínimo engraçado ver Demetrious Johnson, que deveria lutar de terno cortado por Giorgio Armani, tamanha a elegância de seu jogo, envolvido com a grosseria de um tiro de meta. Ou então colocá-lo num card em Mianmar para ele enfiar aquela cabeça de todos nós em alguém.

UFC coloca mais pimenta numa divisão ardida

Não é segredo para os fãs que o UFC queria Askren faz tempo. Porém, o ex-campeão do Bellator sempre fez jogo duro, pediu os tubos e nunca fechou com Dana White. Depois de varrer o Bellator, o ex-wrestler olímpico assinou um polpudo contrato com vencimentos na casa dos sete dígitos por luta com o ONE.

Pra que o UFC queria tanto um wrestler quase unidimensional numa divisão repleta de wrestlers de grosso calibre? A resposta é simples: porque Askren não é um qualquer. Ele é uma espécie de Khabib Nurmagomedov dos meios-médios, provavelmente o mais eficaz cobertor humano do MMA.

Hoje, fora de ritmo – não luta há exatos 11 meses e não encara competição de alto nível desde 2013, quando atropelou Andrey Koreshkov e Douglas Lima -, “Funky” precisaria chegar no octógono um pouco mais por baixo, tipo como o UFC fez com Will Brooks. Entrega alguém entre o 15º e o 25º do ranking da divisão para Askren tirar a poeira da carcaça e depois joguem-o aos leões. Em ritmo de luta, Ben é capaz de vencer qualquer cidadão do top 10 do meio-médio do UFC.

O principal problema deste cenário é Tyron Woodley seguindo com o cinturão. T-Wood e Askren foram companheiros na University of Missouri e hoje dividem os treinos na Roufusport, em Milwaukee. Portanto, esqueçam uma luta entre eles. Mas já fico ouriçado pelas hipóteses de Askren enfrentar Colby Covington, Kamaru Usman, Stephen Thompson, Darren Till, Santiago Ponzinibbio ou Leon Edwards.

Demetrious Johnson pode ganhar o dinheiro que seu talento merece

Enquanto fazia história no peso mosca, quando se tornou o mais dominante campeão da história do UFC, Johnson viveu momentos de crise com a organização. Com o carisma de um chuchu, o Mighty Mouse nunca atraiu interesse público, nem mesmo quando lutou na TV aberta americana, a despeito de seu gigantesco talento. O público ocidental nunca curtiu sujeitos pequenos lutando.

Demetrious Johnson (Foto: Jeff Bottari/Getty Images)

Demetrious Johnson (Foto: Jeff Bottari/Getty Images)

Este problema não acontece na Ásia. O continente é berço de vários dos melhores lutadores das categorias mais leves em qualquer esporte de combate. No ONE, um sujeito com o talento de Johnson seria idolatrado. Sem as amarras do contrato com a Reebok e com o ONE liberado do contrato de Askren, abre-se um cenário para Johnson faturar o capilé que sempre mereceu e que jamais teria no UFC.

Ah, esqueci de um detalhe importante. O vice-presidente de operações do ONE é Matt Hume, que vem a ser o técnico, consultor e conselheiro de Johnson.

Ben Askren pode ganhar o reconhecimento que seu talento merece

Por mais que não tenha conquistado a grana que merecia e ter vendido pay-per-view a troco de pinga, Johnson não pode reclamar de reconhecimento. Ninguém quer assisti-lo, mas é quase unânime que se trata de um dos melhores que o MMA já produziu.

Askren viveu o contrário. Seu contrato com o ONE lhe rendeu uma bela bufunfa para seu neto não ter preocupação na vida. Nos tempos de auge, quando caía por cima de corpos no Bellator, Askren era considerado por muitos, inclusive por mim, o melhor peso por peso fora do UFC. Porém, para o afegão médio que sustenta o MMA, isso e nada são quase a mesma coisa.

Era difícil remover Ben Askren de cima da concorrência

Era difícil remover Ben Askren de cima da concorrência

A cada adversário batido, Ben era confrontado com comentários do tipo “queria ver contra Georges St. Pierre”, “não vence Johny Hendricks”. Muitas vezes Askren ia ao Twitter durante eventos do UFC para fazer troça dos melhores meios-médios, dizendo que venceria qualquer um. Quando assinou com o ONE, rejeitando o UFC, foi até chamado de frouxo por não se testar contra os melhores. Muito injusto para alguém com o talento de Askren.

Agora é a chance da redenção. Já está com a conta bancária cheia, então vai lá e conquista seu reconhecimento. Ou dá motivo pros haters.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.