Toalha da discórdia

Por Marcos Luca Valentim | 07/02/2018 22:56

“Se você tivesse uma chance? Uma oportunidade para ter tudo o que você sempre quis. Um momento. Você pegaria? Ou deixaria escapar?”

Os primeiros versos de “Lose Yourself”, música vencedora do Oscar em 2003, não só falam do início da trajetória do rapper Eminem, como também me servem de trampolim para o assunto que ouso mergulhar a seguir.

Desde as primeiras horas de domingo (4), pedras dos mais distintos tamanhos e pesos têm sido atiradas no tema “Valentina Shevchenko vs. Priscila Pedrita“. Os motivos são variados, mas todos óbvios: casamento da luta (teve luta?); interrupção tardia do árbitro (Mario Yamasaki mais judiado do que sanitário de churrascaria rodízio); córner não ter jogado a toalha; equipe e atleta terem aceitado a peleja.

Como muito já foi dito acerca dos dois primeiros pontos nos dias seguintes ao UFC Belém, vou me ater aos dois últimos objetos. E é chegada a hora de rever “Lose Yourself”.

Como a maioria sabe, Priscila foi escalada para fazer sua estreia no UFC contra Lauren Murphy, em dezembro do ano passado, mas problemas com o visto forçaram a atleta da PRVT a desistir do combate e deixar o UFC na mão. Assim, equipe e lutadora ficaram sem muito poder de barganha quando a organização jogou o nome de Valentina na mesa. Tiveram que entubar o que foi, provavelmente, a estreia mais aterrorizante com a qual um lutador já se deparou. Carne de pescoço. Encardida. Um passo rumo ao cemitério ou à improvável glória.

Mas se você tivesse uma chance? Uma oportunidade para ter tudo o que você sempre quis. Um momento. Você pegaria? Ou deixaria escapar?

Pois é.

Pedrita, que já venceu o soturno submundo das drogas e viu bater à porta a chance da sua vida, caiu pra dentro. Afinal, vai que recusa o confronto e é cortada do UFC sem nem mesmo lutar? Carlos Boi está aí para provar que isso é possível.

Então, acredito que não há muito para onde fugir aqui: Pedrita aceitou porque, além de ser valente, sabe que esse raio poderia não voltar a cair. Viu a chance e agarrou. Simples.

Jogar ou não jogar: eis a questão

Permitam-me uma acelerada viagem no tempo.

UFC 128. Março de 2011. Maurício Shogun vs. Jon Jones. O curitibano da Chute Boxe, o guardião do código de honra da casca-grossagem, o porradeiro da pesada que assombrou o PRIDE. Alguém diria que esse monstro desisitiria de uma luta por causa de pancada?

É bem verdade que Herb Dean interrompeu o passeio de Jones milésimos antes de Shogun dar os três tapinhas, mas ali, naquele momento, o mundo viu um dos maiores guerreiros do esporte suplicar, em silêncio, que não aguentava mais.

É bem verdade também que ouvi dizer, anos mais tarde, que Mauricio sofreu traumatismo craniano após aquela surra, mas isso é azo pra outro papo.

Poderia falar de David Branch e Joanna Jedrzejczyk, que também “pediram altos” da brincadeira contra Luke Rockhold e Rose Namajunas, respectivamente (Joanna deu os tapinhas pouco antes da interrupção do árbitro, mas Branch sinalizou a desistência para que o terceiro homem pudesse encerrar o castigo). No entanto, o exemplo de Shogun é mais simbólico para o meu argumento.

É batido o axioma de que o córner conhece seu atleta como ninguém. Então, como alguém alheio a essa relação pode exigir que se jogue a toalha? Será que alguma alma no córner cogitou jogar a toalha na luta do irmão do Murilo Ninja?

Por favor, né…

Paige VanZant quebrou – vou repetir: QUEBROU – o braço na derrota para Jessica-Rose Clark, no mês passado, e contou isso ao córner no intervalo entre rounds. A resposta? “Ok”. Isso mesmo. Um simples “ok” do treinador, que cagou e se limitou a passar instruções para o assalto final.

Ora, por que não parou a luta, se a guria acabara de informar sobre a lesão? Dois motivos.

Primeiro: àquela altura ainda não se sabia que ela havia quebrado o braço – afinal, imagina-se que sofrer algo do gênero impossibilite que você movimente o membro, e Paige, que ganhou um grauzinho na faixa de casca-grossagem naquela noite, nem fazia expressão de dor. Segundo: o cara conhece a atleta que tem. Tanto que a jovem venceu o terceiro round, apesar do revés nas papeletas dos juízes.

Sei que nós, da imprensa, prezamos pela informação, e alguns têm a função de emitir opinião, mas é complicado demais intervir numa relação tão pessoal e única que é atleta + treinador.

A galera das antigas, por exemplo, é veementemente contrária a jogar a toalha. Em off, quatro consgrados líderes de academia contaram a um camarada meu que jamais jogariam a toalha se fossem o Gilliard Paraná, treinador e córner da Priscila Pedrita. “Enquanto houver água no fundo do poço, há esperança”, foi a frase de um deles.

Por outro lado, Rafael dos Anjos e Cub Swanson se mostraram a favor da jogada de toalha imediatamente após o término do atropelo de Valentina. Os dois batem na tecla de que o MMA deveria aderir à concepção do boxe, em que é corriqueira a interrupção do duelo por parte do córner.

Complicado.

Obviamente, o treinador não quer o mal do seu atleta. Mas até que ponto a cega confiança na vitória vale o sacrifício da carcaça?

Certa vez, “Big” John McCarthy relembrou um causo, ocorrido nos primórdios do vale-tudo. Reza a lenda que, ao fim do UFC 2, o então árbitro caminhou até Rorion Gracie, o pai do Ultimate Fighting Championship, e foi enfático.

“Os caras do córner não param a luta, mesmo quando eu peço. Alguém vai sair daqui seriamente machucado, porque a maioria não sabe se defender como o seu irmão (Royce Gracie), e as regras não permitem que eu pare a luta.”

Foi então que, a partir do UFC 3, os árbitros conquistaram o poder de interromper o combate. E o resto virou história.

No caso da Pedrita, acredito cegamente que o Paraná a conhece muito bem, mas ela não havia sido testada a ponto de o mestre saber que a pupila tinha condições de levar o castigo que levou. Priscila não havia estado em situação semelhante numa luta, e duvido muito que alguém no treino passe o carro nela daquela forma – não que a Jessica Bate-Estaca não tenha condições, mas um treino não chega a esse grau de brutalidade.

Então, acho que só a partir de agora, o Gilliard pode ter a plena noção de quem é Priscila Pedrita: uma guerreira de um coração gigantesco. E essa é a diferença com Shogun, já consagrado e exposto a situações de extrema dificuldade. O córner sabia exatamente o que ele poderia dar ou não dentro do octógono e, por isso, tamanha surpresa quando ele deu os três tapinhas.

Evolução x tradição é um confronto que afeta diversos esportes, não só o MMA. Vemos o futebol capengando na tecnologia, por exemplo, em relação a árbitros de vídeo, chips na bola etc. Mas enquanto a polêmica se restringir à relação interpessoal, córner x atleta, eu prefiro julgar caso a caso.

Nem toda Pedrita é Shogun.