Thiago Marreta fala sobre luta com Jon Jones: “Nunca imaginei chegar tão longe”

Por Gustavo Bizzo | 15/05/2019 14:29

Ex-paraquedista e criado na Cidade de Deus, Thiago Marreta, aos 35 anos, está prestes a enfrentar o maior desafio de toda sua carreira. Hoje, dezessete lutas após sua estreia no UFC, o brasileiro tem um desafio complicado pela frente: derrotar o homem que, para muitos, é o melhor lutador de MMA de todos os tempos em Jon Jones. O desafio está marcado para o UFC 239, que acontecerá no mês de julho, em Las Vegas. A oportunidade de Marreta chegou até esse ponto após uma acertada decisão de carreira, trocando os 83,9 kg pelo menos povoado reino meio-pesado. Bastaram três vitórias em sequência para ficar de cara para um gol. O único problema é que ninguém nunca derrotou o goleiro que cuida dessas traves. Não, não estou considerando a única derrota em seu cartel: primeiro, Matt Hamill venceu Bones por desqualificação, não por superá-lo; segundo, esta foi uma decisão do árbitro Steve Mazzagatti.

Em coletiva de imprensa concedida durante o UFC 237, o desafiante desabafou sobre as realizações profissionais e o ponto atual de sua carreira: “Se eu parasse hoje, estaria feliz. Tô muito feliz. Eu nunca imaginei chegar tão longe”. Enfrentar uma das lendas do esporte, segundo o próprio Marreta, não deve afetá-lo psicologicamente. “[Faz diferença] toda a experiência que tive até chegar aqui, derrotas e vitórias, já lutei em cards com lutas expressivas. Eu já tive esse sentimento também. Contra o [Gegard] Mousasi, posso falar aqui, foi uma luta que fiquei travado. É uma luta que fiquei engasgado, não fui eu, não lutei. Não é por medo, mas é por ser um cara que eu assistia lutar antes mesmo de eu começar profissionalmente. Isso não vai [mais] acontecer comigo”, garante.

Isso não quer dizer que o ex-militar não esteja fazendo o dever de casa. “A gente tá estudando ele. Eu acho ele um cara muito inteligente. Ele se adapta. Se a luta tá ruim em pé, ele vai pro chão; se tiver ruim no chão, ele vai de pé; se é ruim no meio do octógono, ele coloca o cara na grade; se é ruim na grade, ele joga no meio. Tenho que estar pronto pra tudo”, disse. O estudo feito para a próximo combate não foi uma exceção, mas um trabalho metódico que Thiago segue disciplinadamente, adaptando sua estratégia de acordo com seu próximo adversário, afinal, o homem é um ex-militar. “Cada luta é uma luta. Não posso fazer igual o que eu fiz com o [Jimi] Manuwa, porque o Jones tem mais armas e é mais talentoso; não posso esperar demais igual fiz com o [Jan] Blachowicz, porque, se eu olhar ele lutar, ele vai controlar a luta. É uma luta diferente, vou ter que me adaptar”

“Eu não sou meio-pesado igual a esses caras. Eu sou rápido e explosivo. Eu sou um médio que tá lutando de meio-pesado”

Marreta reforça também que a mudança de divisão não foi benéfica apenas pela quantidade menor de concorrência. “Eu não sou meio-pesado igual a esses caras. Eu sou rápido e explosivo. Eu sou um médio que tá lutando de meio-pesado”, explicou o atleta, indicando ganho de performance em função do corte de peso menos severo. Apesar disso, Marreta sabe que está diante de um dos maiores talentos da história do esporte — não o maior, de acordo com seu top 4 pessoal: Fedor Emelianenko, Anderson Silva, Rodrigo Minotauro e Jones, respectivamente. “A gente não vê muito fraqueza no jogo dele (…) mas a gente nunca viu ele tomando um ground and pound por cima, com mais força. Vamos ver como ele reage. Mas eu tenho que tá pronto pra tudo, ele é um cara bem completo. Tenho que fazer ele sentir mal em qualquer lugar”.

De acordo com o Marreta, a técnica e talento do próximo adversário não é a única preocupação na hora que o cage fechar. Em conversas particulares com Anthony Smith quando esteve em Las Vegas, a última vítima de Bones deu dicas sobre outros elementos do campeão. “O Smith me disse que o Jones é sujo, trapaceiro, faz coisas que o juiz não consegue ver. Bota o dedo no teu olho, usa umas coisas que não são válidas. Tenho que ficar esperto porque ele é um pouco sujo”.

“O que eu mais temo é ele fazer alguma besteira e cair a luta”

Não apenas dentro do octógono, outros tipos de trapaça não só causaram dor de cabeça para Jones, mas também levantaram dúvidas sobre suas vitórias em cima de nomes como Daniel Cormier. O fato de Bones não ser nenhum desconhecido às condenações por doping também foram levadas em consideração pelo brasileiro. “Tem que ser igual pra todo mundo. Eu fui testado 26 vezes e nunca apareceu picograma pra mim, por que aparece pra ele? Ele é extraterrestre?”, diz. Mesmo prestes a enfrentes uma lenda do talento ímpar, acusações de trapaça e doping, o maior medo do carioca é o lendário poder de Jon Jones se meter em encrencas: “O que eu mais temo é ele fazer alguma besteira e cair a luta”.

Thiago Marreta teve uma atuação muito inteligente contra Jan Blachowicz no UFC Praga

Em cima de Blachowicz, Marreta foi credenciado ao title-shot

História (quase) sendo feita

Se, de fato, quebrar a banca e fizer história em Las Vegas, além de defender o cinturão, Thiago tem planos ousados para o futuro. Questionado sobre a possibilidade de voltar aos médios, Marreta não só revelou que gostaria de ostentar dois cinturões, mas que tirá-lo de um certo nigeriano traria um gostinho mais especial para a conquista. “Eu adoraria bater no [Israel] Adesanya (…) Não acho ele um cara legal e adoraria lutar com ele. Todas as vezes que encontrei com ele, sei lá, não bateu. Foi energia que não bateu, não sei explicar. Aconteceu algo parecido comigo e com o [Michael] Bisping. Não sei dizer se ele é uma pessoa ruim, mas não fui com a cara dele”, revelou. O brasileiro provocou um pouco mais: “Como lutador ele tem seus talentos, tem dom, mas acho que ele não aguenta comigo, que bata muito forte. Na luta com Anderson deu pra ver que ele não é isso tudo. Mas isso é coisa lá pra frente”.

“Eu adoraria bater no Adesanya (…) Não acho ele um cara legal e adoraria lutar com ele”

Ainda que vença Jon Jones no UFC 239, Marreta garante que os holofotes não estarão nem perto do topo de sua lista de prioridades e brinca. “Meu plano é o seguinte: depois que eu lutar [e vencer], a primeira coisa que eu vou fazer é fugir. Vou sumir uma semana e vocês não vão me achar [risos]. Vou pra fazenda do meu empresário, vou deixar o caseiro lá na porta e ele não vai deixar vocês [jornalistas] passarem [risos]”, disse o atleta bem humorado. “Vou me esconder, sem celular, sem nada, porque eu sei que vai vir muita coisa. Depois de uma semana, eu vou voltar bem, e aí é o natural. Defender o cinturão, pensar o que a gente vai fazer pela frente”.

“Espero conseguir esse cinturão pra poder fazer mais bem, ajudar mais gente, mais jovens. Quero inspirar mais pessoas”

Dono de um projeto social que beneficia mais de 200 crianças na Cidade de Deus, seu bairro de origem no Rio de Janeiro, o carioca desabafou sobre outros pontos focais de sua vida fora do octógono. “Nunca quis ser famoso. Se eu pudesse lutar, ganhar meu dinheirinho e ajudar minha família, tava tudo bem”, disse Marreta, que falou mais sobre como gostaria de se aproveitar da condição de campeão, servindo como exemplo para mais jovens que, como ele, têm origem mais simples. “Sou abençoado por deus, por tudo que tá acontecendo na minha vida. Sou muito grato a deus. Posso não ser o cara mais talentoso, mas sou muito esforçado. Me esforço demais. Sou do princípio que, se você faz o bem, o bem volta pra gente. É isso que tem acontecido comigo. Espero conseguir esse cinturão pra poder fazer mais bem, ajudar mais gente, mais jovens. Quero inspirar mais pessoas”.