Por Rafael Oreiro | 17/12/2018 13:22

Há pouco mais de uma semana, o carioca Thiago Marreta surpreendeu e conseguiu uma ótima vitória sobre Jimi Manuwa, no UFC 231, dando um baita pontapé na porta da categoria dos meios-pesados. Antes ainda indeciso sobre sua decisão de subir do peso médio – principalmente pela questão da diferença física – Marreta assumiu uma estratégia bem arriscada desde o começo do combate, buscando trocar porrada freneticamente com um conhecido nocauteador. Ao final, foi Thiago quem conseguiu um brutal nocaute no segundo assalto, impressionando os fãs e colocando-o entre os dez melhores da categoria na mais recente atualização do ranking oficial do UFC.

Este mesmo caminho foi recentemente trilhado por Anthony Smith, que subiu dos médios depois da derrota para o próprio Marreta, em fevereiro. A seguir, o “Lionheart” conquistou vitórias seguidas sobre os ex-campeões Rashad Evans e Maurício Shogun, entrando também no top 10 do meio-pesado. Logo após, a inesperada vitória sobre o recente desafiante ao cinturão Volkan Oezdemir colocou Smith como (cruzes!) o terceiro mais bem ranqueado na divisão.

Anthony Smith após vitória sobre Volkan Oezdemir no UFC Moncton

Anthony Smith após vitória sobre Volkan Oezdemir no UFC Moncton

As mudanças de categoria bem sucedidas de Thiago Marreta e Anthony Smith fizeram emergir uma questão nas cabeças dos fãs: por que outros lutadores mais bem colocados do peso médio, mas que ficaram com futuro incerto na categoria, não seguem o mesmo caminho? Afinal, se Smith – que era absolutamente ninguém na divisão de baixo – obteve sucesso, por que um ex-campeão como Chris Weidman não teria?

É verdade que os casos de Marreta e Smith abriram um ótimo precedente para a migração do peso médio para o meio-pesado, mas é importante diferenciar o caso destes para nomes como Weidman, Yoel Romero e Luke Rockhold, lutadores que normalmente são pedidos na categoria de cima pelos fãs.

Há algum tempo considerada a melhor divisão do UFC, os meios-pesados vivem uma época de vacas magras, com lutadores de qualidade contestável figurando no top 15. Smith e Marreta entram numa leva de lutadores que pode muito bem se aproveitar desta situação para ganhar a relevância que não obtinha na categoria de baixo. Fortalecendo-se, melhorando a capacidade física ao cortar menos peso e levando vantagem na velocidade, é muito possível se derrotar nomes envelhecidos ou de qualidade duvidosa como Shogun, Gian Villante e Ovince St. Preux, por exemplo. Porém, a conversa provavelmente continuará diferente quando se for encarar oposição de maior qualidade.

Por outro lado, Romero e companhia chegariam na categoria até 93 quilos já como lutadores de elite, ficando basicamente a uma luta ou até disputando diretamente cinturão dos meios-pesados. É aí que – deixando por enquanto as necessidades físicas deles de lado – fica a grande dúvida de se é realmente benéfico fazer a mudança: até que ponto eles realmente ficariam mais perto de um cinturão na categoria de cima?

O título dos meios-pesados, que por enquanto ainda pertence a Daniel Cormier, mudará de mãos no próximo dia 29, quando Jon Jones e Alexander Gustafsson fizerem a revanche há tanto tempo esperada. Já que Cormier nunca mais deve se submeter ao exaustivo corte de peso para atingir 93 quilos, Jones e Gustafsson devem se manter como os dois principais lutadores da divisão por algum tempo – isso se o americano não vencer a disputa e tentar voos mais altos no peso pesado. Então, a decisão de qual campeão seria mais vencível entre Robert Whittaker e o vencedor de Gustafsson-Jones dependerá bastante de como “Bones” voltará depois de mais uma grande polêmica em sua carreira.

Jon Jones e Alexander Gustafsson se encaram em coletiva para o UFC 232

Jon Jones e Alexander Gustafsson se encaram em coletiva para o UFC 232

Trazendo a condição física em questão, o caso de Romero seria, atualmente, o mais pertinente. O cubano perdeu duas disputas pelo cinturão dos médios recentemente, sofrendo bastante nos cortes de peso para bater 84 quilos. Romero já foi inclusive especulado para uma disputa de título interino, que poderia ter acontecido ainda em 2018, enfrentando Gustafsson no UFC 230, mas a ideia parece não ter ido para frente. Ainda assim, também pode se fazer o caso de que o “Soldado do Deus” não está tão afastado assim de duelar novamente com Whittaker, já que os dois combates que fez contra o atual campeão dos médios foram das melhores lutas por título dos últimos tempos.

Enquanto isso, Weidman e Rockhold não mostraram até hoje a mesma dificuldade de Romero para bater o peso limite dos médios e ainda conseguiriam continuar na categoria por mais tempo. Porém, com o reforço físico que fariam para lutar na divisão dos meios-pesados, eles poderiam melhorar na resistência a golpes e no condicionamento, ajudando a criar uma nova fase em suas carreiras.

No entanto, o corpo de Rockhold é o que tem mais potencial para render como meio-pesado. Com 1,91m de altura e ganhando massa muscular, Luke poderia disputar de igual para igual em tamanho tanto contra Jones quanto contra Gustafsson. Já Weidman, sete centímetros mais baixo que o sueco e com quinze centímetros a menos de envergadura que o americano, poderia ter uma desvantagem física grande num duelo contra qualquer um dos dois. Apesar da menor chance de sucesso, como sua capacidade física atual provavelmente não permitirá uma corrida pelo título dos médios, seria bom para o ex-campeão fazer pelo menos um teste nos 93 quilos.

Chris Weidman e Luke Rockhold lado a lado em ensaio fotográfico

Chris Weidman e Luke Rockhold lado a lado em ensaio fotográfico

É bom lembrar que não existe nenhuma confirmação de mudança de categoria de nenhum dos três lutadores citados anteriormente. Todos estão atualmente sem luta marcada e devem ter seus futuros decididos no começo do ano que vem. É provável que passem a pensar em subida de peso após observar seus desempenhos em seus próximos compromissos.

Uma eventual mudança dos três para o meio-pesado, entretanto, deve ocorrer em algum momento nos próximos anos. Com isso e o envelhecimento de lutadores como Ronaldo Jacaré e Anderson Silva, a renovação do peso médio provavelmente não dará conta de habitar o top 10 com lutadores do mesmo nível dos integrantes anteriores, podendo trazer nomes eventuais de atletas como Brad Tavares e Elias Theodorou. Aí, quando a categoria estiver nesta situação, provavelmente teremos um gancho para um texto similar a este, mas falando da possível mudança de peso de alguns meios-médios para fazer companhia a Whittaker e Kelvin Gastelum na divisão de cima.