The Ultimate Business: Bolsa-Ingresso

No meio da grave crise que assola o país, a prática de pagar bolsas de lutadores em ingressos toma conta do MMA brasileiro. Será que essa é a melhor solução?

Como todos sabem, o MMA nacional infelizmente tem diversos problemas. Um dos principais é o valor baixo das bolsas recebidas pelos lutadores que sobem aos cages nas cinco regiões do país. Nas maiores organizações, os principais lutadores raramente passam da marca dos R$2000 por luta – normalmente ficam com salários na casa do salário mínimo brasileiro.

A situação em eventos recém-criados e de menor porte é pior ainda. Sem grandes recursos e com enorme dificuldade de angariar patrocínios, as organizações acabam pagando valores miseráveis para lutadores, o que gera desânimo nos novatos que pretendem viver do esporte.

Com a crise financeira que abalou o país, o interesse em anunciar marcas nos eventos de MMA diminuiu. Este cenário cortou boa parte da folha salarial dos eventos. Como resultado, as organizações têm feito cada vez menos edições e outras acabaram desaparecendo do mapa. Para minimizar os danos, as organizações que sobreviveram adotaram como estratégia dar uma certa quantidade de ingressos aos atletas. Conforme eles forem vendendo, o valor é revertido em 50% para o lutador e 50% para o evento. Sim, isso conta na bolsa que o atleta recebe para lutar.

Leonardo Pateira, presidente do Imperium MMA:

Infelizmente acho indispensável para que se consiga ter eventos frequentes no Brasil. É uma forma de o promotor ter menos risco e, ao mesmo tempo, encher a casa. Obviamente não é o cenário ideal, mas é uma das formas viáveis para fazer girar o esporte no país. Se não for assim, não teremos muitos eventos e, consequentemente, não teremos novos atletas. Existe o lado que prejudica o atleta, é claro, como ele ganhar 20 ingressos para vender. Porém, desses 20, tem a mãe, esposa, irmão e etc., o que já diminui a quantidade de ingressos dele e aumenta o valor a receber. É óbvio que cada um vai puxar para o seu lado. Já vi muito atleta que reclamava de receber em ingresso e depois que virou promotor de eventos, passou a usar a prática. Assim como já vi promotor de evento que pagava em ingresso virar empresário de atleta e reclamar que recebeu proposta da mesma forma.

Mais uma vez, INFELIZMENTE nosso esporte ainda está muito pouco desenvolvido e se cada um não se sacrificar um pouquinho (eventos e atletas), serem mais maleáveis, uma hora vai rachar e quebrar.

Na teoria, o “bolsa-ingresso” teria tudo para dar certo, pois o evento consegue lucro e enche o ginásio, enquanto o lutador recebe um dinheiro decente para praticar sua profissão e ter torcida a seu favor. Porém, na prática, não é bem assim que acontece. Os lutadores alegam que não são obrigados a vender ingressos porque gastam a maioria do seu tempo treinando e cortando o peso, o que os impossibilita de fazer as vendas. Outro argumento usado pelos lutadores é que o dono do evento precisa ter dinheiro para pagar todo mundo que for trabalhar.

Fabiano Winiarski, peso leve da Killer Bees:

Sinceramente, como atleta, acho desrespeitoso. O atleta, seja ele iniciante ou não, tem como objetivo LUTAR. Precisa treinar, se alimentar e descansar focado no que ele busca. Lutador brasileiro passa muito perrengue, um deles é ter que ser VENDEDOR de ingresso. E muitas vezes ele vende o ingresso com valor abaixo do que é o proposto pelo evento, só para poder levantar uns trocados da sua “BOLSA”. Por outro lado, vemos gente séria e sem muito recurso tentando fazer a coisa acontecer, e aí há que se colocar na balança. O que não deveria acontecer é evento maior e com melhores condições financeiras fazer esse tipo de negociata.

Em um mundo ideal, os promotores deveriam bancar o evento com dinheiro procedente de seus próprios recursos, mas, se isso acontecesse, não teríamos eventos de MMA aqui no Brasil. Vivemos uma situação em que os promotores não estão com R$50 mil em mãos para bancar os gastos de uma edição e por isso apostam nesse tipo de parceira com os lutadores, que deveria beneficiar a todos. Porém, os atletas não costumam ajudar na hora das vendas.

Leandro Higo, ex-TUF Brasil 4:

Eu entendo que o mercado não está lá essas coisas, mas às vezes os caras têm que se preocupar mais em vender ingresso do que na luta. Isso atrapalha a preparação e afeta o rendimento. Acontece muito aqui, alguns amigos meus ficam naquela, com medo de não vender todos os ingressos. Todo mundo sabe a realidade dos atletas aqui no Brasil, principalmente pra esse lado aqui do Nordeste.

Um lutador que não consegue vender uma quantia de 20 ou 30 ingressos acaba se prejudicando. Se poucos atletas venderem, o evento ficará vazio e eles perderão visibilidade do público. Ao comprar ingresso de um lutador que é seu amigo ou seu parente, você também tem a oportunidade de assistir a outros atletas, que podem se tornar conhecidos do público e atrair patrocínios.

Lucas Lutkus, vice-presidente do Aspera FC:

Eu sou totalmente a favor da venda de ingresso no Brasil hoje, principalmente para eventos emergentes. É muito difícil conseguir patrocínio. O custo de um grande evento sai por 50 ou 60 mil. Como você vai conseguir isso no Brasil? Nem futebol na Série B, que é bem mais assistido do que MMA no país, consegue isso. É uma boa para o atleta. O evento consegue ser mais ativo e o atleta pode lutar mais. Isso acontece mais no Brasil e nos eventos menores nos Estados Unidos, que servem de degrau na carreira do atleta. Se não rolasse bolsa em ingresso, não teríamos metade dos eventos no Brasil por ano. No Aspera, fazemos 12 eventos por ano. Se pagar bolsa só em dinheiro, faríamos um.

Ainda tem o lado do desconhecimento. Lutador acha que promotor está enchendo os bolsos vendendo ingresso. Quem dera! Dos promotores que eu converso, estão todos se fodendo. Eu, Marcelo Brigadeiro, Stefano Sartori, estamos todos perdendo. O pessoal do Thunder Fight, com uma equipe grande, está empatando. Assim como os atletas reclamam que pagam para lutar, os promotores pagam para fazer evento – e ainda sair mal falado pelos atletas. Aqui não é UFC, ninguém aqui ganha milhões por evento ou vai vender a empresa por bilhões. Para ficar um mês sem dormir e ainda ser xingado, prefiro não mais fazer evento e me dedicar apenas à função de manager. Parei de ter prejuízo.

E você? O que acha da estratégia da bolsa paga em ingressos?

  • Bruno Fares

    A coluna vive! Que homem!

    Em breve um comentário mais completo.

  • James sousa

    bom assunto , bom ter a coluna de volta ,na teoria eu achei uma boa solução ,não sei se na praticar tem dado certo essa ideia

  • Marcos E

    Esse assunto é muito bizarro. Não sabia que isso acontecia nesse modelo de venda de ingressos. Acho que mais grave do que isso acontecer, é o clima de “ah, aqui no Brasil é assim mesmo. Todo mundo faz…”. Quais são as alternativas? Como evitar que o lutador saia correndo atrás da venda? Como promover melhos os lutadores aqui no solo nacional?

    • Gabriel Carvalho II

      Acho que a melhor alternativa para evitar que o lutador saia vendendo ingresso é o promotor ter o dinheiro suficiente pra poder bancar todos os custos do evento. Pra colocar o pessoal dentro do ginásio, precisam investir na promoção nas redes sociais ou parceiros para poder anunciar o evento na cidade.

      • Marcos E

        Sim. Se o evento tiver uma postura filosófica de jamais utilizar-se da bolsa ingresso, provavelmente procurará alternativas de promoção que agradem os melhores lutadores. Eu tenho uma proposta: por que não um crowd funding para fazer um evento que coloque os lutadores nacionais em ascensão? Um evento bancado antecipadamente pelos fãs. Será que vira?

        • Gabriel Carvalho II

          Acho que dificilmente daria certo. Se promotor não consegue bancar evento, imagina fã.

          • Marcos E

            Bom, em tese, normalmente o dinheiro já vem daqueles que compram o ingresso e daqueles que compram os payperviews, não é? Imaginamos que são pessoas que já gostam do esporte. O interessante do crowd funding é apenas antecipar o processo, levantando o dinheiro do evento primeiro a partir dos fãs e, uma vez tendo o dinheiro, aí sim viabilizar o evento. O pessoal que paga X, vai ter acesso ao evento pela internet. O pessoal que paga X + Y terá acesso às cadeiras piores do evento. Quem pagar X + Y + Z terá acesso às melhores cadeiras do evento, mais os vídeos. Quem pagar X + Y + Z + @ terá acesso ao setor de imprensa do evento e às melhores cadeiras. Caso não se junte a quantidade mínima de dinheiro para o evento acontecer, o fã que investiu o dinheiro recebe a grana de volta e o evento não acontece. Os fãs já estariam comprando antecipadamente o ingresso, mas caso o evento não vire, ele recebe o dinheiro de volta. Com um bom card, com uma boa promoção e uma boa ação nas redes sociais, pode ser que dê certo. (Pode ser! ahahaha alguém teria que tentar) Antecipando o valor do evento a partir do fã, o risco não cai na mão do promotor.

  • Bruno Moraes da Costa

    Oubi o Bubba Jenkins falar num podcast que ele, no Bellator, ainda ganha parte dos bilhetes que consegue vender. No BELLATOR! Aliás, o Coker desde a época do Strikeforce coloca vários lutadores da região do evento pra conseguir vender mais tickets da arena.

    Ia dizer que é uma pena que o esporte não tenha alcançado um nível que permita pagar bem a todos os lutadores (e é uma pena mesmo), mas até no futebol, que é o esporte mais popular do país, a maioria dos atletas recebe salários vergonhosos e fica a maior parte do ano sem emprego.

    Parabéns pela coluna e pelas aspas arrancadas dessa galera, deve ser quase constrangedor falar sobre esse assunto.

    • Gabriel Carvalho II

      É lamentável que isso ocorra dentro do MMA americano, que normalmente deveria servir de exemplo. Minha esperança é que o esporte cresça em um nível em que lutador não seja obrigado a ter que fazer isso.

    • Colocar lutadores da região num card pra vender mais na arena até o UFC faz.

      • Bruno Moraes da Costa

        Verdade, me expressei mal. Queria dizer que lutadores mesmo que de nível “duvidoso”…