The man who sold the world

Conor McGregor derrubou Brock Lesnar do posto de maior vendedor de pay-per-view da história do MMA depois de colocar o UFC 202 e o UFC 196 na frente do evento centenário liderado pelo peso pesado. Qual o limite do irlandês?

Who knows? Not me. We never lost control. You’re face to face with the Man Who Sold the World.

Onde você estava no dia 20 de agosto de 2016?

O penúltimo dia dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foi também histórico para o MMA. No dia 20 do mês passado aconteceu o UFC 202, primeiro evento realizado já sob controle total da WME-IMG, holding que pagou US$4 bilhões para tirar o UFC da Zuffa.

Além de estrear o terceiro dono majoritário diferente da organização, o UFC 202 entra para a história por outro fator econômico. De acordo com o jornalista Dave Meltzer, que é a principal referência sobre audiência de TV nos Estados Unidos em relação ao MMA, estimativas apontam para o evento ter batido o recorde de venda de pay-per-view que perdurava desde o UFC 100, em julho de 2009. Os cerca de 1,65 milhão de pacotes vendidos fazem do UFC 202 o evento que mais faturou na história do sistema de pay-per-view nos Estados Unidos, fora o boxe. Contando a nobre arte, apenas cinco eventos venderam mais que o UFC 202: três lutas de Floyd Mayweather Jr e duas de Mike Tyson.

UFC 202: Diaz vs. McGregor 2 - Prévia das Principais Lutas

O mais curioso dessa história toda é que, em sua apuração, Meltzer também foi informado que o UFC 100 agora é o terceiro evento mais vendido no pay-per-view. Além do UFC 202, o card centenário foi batido pelo UFC 196, que ficou acima da marca de 1,6 milhão do UFC 100 e abaixo do 1,65 do 202. Ou seja, os dois eventos mais rentáveis da história do UFC aconteceram em 2016.

O top 5 dos eventos mais vendidos no sistema de pay-per-view americano agora conta com o UFC 202 em primeiro, UFC 196 em segundo, UFC 100 em terceiro, UFC 194 em quarto e UFC 200 em quinto. Notou alguma semelhança em três dos cinco?

Conor McGregor derrubou Brock Lesnar do trono de maior vendedor da história do MMA. O irlandês liderou três dos cinco maiores cards da história, os dois primeiros e o quarto. Até ele aparecer, este era o retrospecto do gorila albino, que tinha encabeçado o UFC 100, o UFC 116 e o UFC 121 no top 5. Juntando o top 10, os três mais vendidos de McGregor superam dois dos três de Lesnar. E o recorde de Brock agora está atrás de dois eventos de Conor, o homem que vende o mundo, gostem dele vocês ou não.

Aliás, não gostar dele é preponderante para tornar McGregor esse fenômeno. Lesnar tinha o histórico como estrela da WWE quando migrou para o MMA. Ou seja, ele já trouxe uma leva de fãs e outra horda de detratores loucos para vê-lo apanhar num combate de verdade. McGregor era um ilustre desconhecido quando chegou ao UFC, fora uma aparição num minidocumentário da MTV britânica intitulado “The Rise Of Conor McGregor”. Pouco tempo antes de estrear no octógono, McGregor estava no programa de bem-estar social do governo da Irlanda e recebia €188 por semana. Ao abocanhar US$60 mil por um dos bônus de desempenho na primeira luta, McGregor disse:

“Acabei de chegar aqui e fiquei sabendo que vou ganhar 60 mil dólares. Estou pensando em como vou gastar isso. Talvez um carro e algumas roupas. Ainda na semana passada eu estava ligado ao serviço de bem-estar social do governo. Eu não tinha porra de dinheiro antes desta luta. Recebia 188 euros por semana do serviço de bem-estar social e agora aqui estou com um bônus de 60 mil, além do meu próprio pagamento. Eu não sei que porra está acontecendo, pra ser honesto.”

Hoje ele sabe muito bem que porra está acontecendo. Sem ter a fama pregressa de Lesnar, McGregor incorporou uma persona semelhante à que transformou Floyd Mayweather Jr no esportista mais bem pago de todos os tempos. Dono de pensamento rápido, língua furiosa, provocações incessantes, momentos de ostentação nas redes sociais e um estilo implacável no octógono, Conor não só acelerou seu caminho ao estrelato, mas também à disputa do cinturão. Com o nocaute em 13 segundos sobre José Aldo, ele confirmou que o peso pena agora era o McGregorweight (peso McGregor, como ele dissera antes de vencer Dennis Siver). E o dinheiro passou a entrar como cachoeira.

Os perrengues que passou contra Chad Mendes e nas duas lutas contra Nate Diaz humanizaram Conor McGregor, que venceu por nocaute quase todas as suas lutas no UFC. De olho nos milhões que sobram também para seus adversários (Diaz recebeu a terceira maior bolsa garantida da história do UFC na revanche com o irlandês), formou-se uma fila de gente que quer enfrentá-lo, que conta até com uma lamentável cavada de Anderson Silva. Todos querem lutar com McGregor. Porém, e se ele perder mais uma vez, o que acontecerá com a nova galinha dos ovos de ouro do UFC?

Esta foi uma pergunta feita por um de nossos colaboradores no grupo do WhatsApp. Minha resposta foi rápida naquele dia e segue a mesma hoje: nada acontecerá com o poder de venda de McGregor em caso de derrota. É só analisar quem está à frente dele na lista das maiores vendagens da história.

Tyson tem uma luta na quarta e uma na quinta colocação do top 5 histórico. As duas aconteceram depois da derrota para Evander Holyfield. Uma delas foi a revanche imediata, que obviamente venderia muito. A outra aconteceu cinco anos depois, quando Iron Mike já estava na draga e muito provavelmente seria espancado por Lennox Lewis, como de fato foi.

Já Mayweather nunca havia vendido um milhão de pacotes quando estabeleceu o recorde mundial, em 2007, contra Oscar de la Hoya. Na ocasião, o astro era o Golden Boy. O negócio é que De La Hoya já estava na decadente na época da luta. Para se ter uma ideia, o recorde de vendas de Oscar havia sido estabelecido em 1999, contra Felix Trinidad. A luta contra De La Hoya funcionou como uma passagem de guarda e transformou Mayweather no homem que todos amam odiar, enchendo os cofres do sujeito que mudou o apelido de “Pretty Boy” para “Money”. Óbvio.

Conor McGregor tem 28 anos e, se nenhuma tragédia acontecer e os severos cortes de peso para o limite do pena acabarem, terá mais pelo menos quatro anos em alto nível. Como o cidadão tem feito três lutas por ano, são mais doze oportunidades de perturbar adversários, provocar torcedores e encher a burra de grana. E ele está em viés de alta, não só financeira, mas também tecnicamente. Eddie Alvarez está na fila, assim como Rafael dos Anjos e, claro, Nate Diaz, já que a disputa pessoal entre eles está empatada e são as duas maiores vendagens da história do MMA.

Portanto, se havia alguma dúvida, eu praticamente sepultei a minha: nós veremos McGregor-Diaz 3.

  • Rafael Fiori

    Eu me rendi, Connor é fenomenal. Só não é do tamanho de Floyd por conta que MMA é menor que boxe. Torço para que consiga cortar o peso mais uma vez e de a revanche ao Aldo. Não seria estrondoso nas vendas, mas elevaria mais o nome dele.

    • A luta do Conor contra o Aldo foi o quarto evento mais vendido da história. A revanche pode vender ainda mais.

      • Anderson Cachapuz

        Eu não me surpreenderia se inclusive batesse McGregor vs Diaz 2….

  • Lero

    Ainda assim, acho que a Ronda é um maior ativo para o UFC como lutadora, e a Paigesinha pode chegar ser também se continuar sua evolução (acredito que ela só vai fazer lutas principais daqui na frente). Conor é ótimo para exprimir dinheiro dos fãs de MMA, mas a Ronda é quem abre o esporte para as pessoas do comum. Pessoas do comum não compram PPV de 50-60 dólares, mas ajudam a virar o esporte algo mainstream.
    De qualquer jeito o que tem feito o Conor é muito sinistro. colocando o MMA nos Estados Unidos quase no mesmo patamar de fama e grana que o boxe. Você mesmo falou, o Mayweather só virou famoso em verdade depois da luta contra de la Hoya. Mas o Conor tem o carisma e o anti-carisma para fazer isso sem ayuda. Sim, o Nate foi um baita boost para as vendas, mas acredito que el poderia chegar nesse patamar sem o Nate.
    Um cara assim em verdade é especial. não é todo dia que vem a o mundo um personagem assim. Os novos donos do UFC agradecem.
    Não vejo tão maluca agora uma luta do notório contra o Money (Mayeather, não Mendes)… Que tal eles lutarem nas regras do K1?

    • Gabriel Carvalho II

      Acho que a Ronda tem bastante influência por causa do machismo. A Amanda Nunes pode ganhar as próximas cinco lutas em 30 segundos e mesmo assim não vai ter o mesmo impacto da Ronda.

    • A Ronda tem mais entrada no mainstream mesmo, muito pelo que o Biel falou aí embaixo.

      Continuo achando bem maluca e improvável uma luta do McGregor com o Mayweather.

  • Cássio Rafael Guimarães Nascim

    Perfeito Texto.

  • Marcio Rodrigues

    Toda torcida do mundo pro Alvarez.
    O Kavanagh ja disse que o plano é ganhar o cinturão e fazer a primeira defesa contra o Diaz em Dublin (o que será que conteceria em caso de vitória do Diaz?). O cara ja ferrou a divisão dos penas e pode ferrar a dos leves, uma das mais legais do UFC.
    Não sou contra money fights, só acho foda quando elas envolvem o cinturão.

    • Por que ele ferrou a dos penas?

      • Marcio Rodrigues

        Quanto tempo o cinturão linear vai ficar parado?
        O cara já fez duas “super lutas” e nada de defender ou largar a cinta. Fez dois lutadores como Aldo e Edgar lutarem por um interino sem sentido. É provavelmente vai lutar com Alvarez sem precisar abdicar do título.
        Isso pra mim é um desmerecimento muito grande com os lutadores e a categoria dos penas.

        • Anderson Cachapuz

          Tudo bem que o que o Dana White fala não se escreve… mas ele mesmo já falou que ou o McGregor volta pra defender seu título nos penas, ou o interino vira linear…

          Eu, particularmente, acho que ele caga pra isso… e não vai voltar… vai atrás da cinta dos leves…
          Até porque ele ganha dinheiro pra caralho com ou sem cinta… então acaba nem fazendo a diferença….

          E ele virar campeão dos leves é tudo que o Aldo precisa pra pedir pra subir e fazer a revanche sem precisar abdicar do título dos penas…. já tem precedentes abertos…

  • Franklin Stein

    Mais massa ainda (pra gente que gosta do esporte) é que o McGregor proporciona excelentes lutas, longe de ser só pose e trash talk. É nítido que o cara é obcecado por lutas (ele fica assistindo a luta de terceiros no UFC como se fosse o treinador dos caras, ou como se estivesse estudando um futuro adversário) e está evoluindo, fechando brechas etc. Resta saber se a cabeça vai aguentar tudo isso, parece que sim. As lutas contra o Nate com certeza fizeram dele um lutador melhor. Quero mais é que ele continue embolando as categorias mesmo.

    • Paulo Josué Lemos Alves

      Sim, ele topa desafios! isso o torna maior. É um verdadeiro bálsamo até para fãs hardcore que nem nós, que tanto penamos com as conversas fiadas de Anderson Silva, GSP e cia.
      Ele iria pegar o Rafael, campeão da categoria de cima! A luta caiu em qualidade, vindo a ser o Nate, não por culpa dele. E no fim o duelo com Nate se revelou o mais rentável da história. Tem estrela esse irlandês.

    • Bem observado.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Ou seja, isso confirma definitivamente que o público que sustenta o MMA é o público leigo.
    Basta ver a disparidade técnica do UFC 100 para o 202, chega a ser constrangedor.
    Isso não provoca a tentação, do evento cada vez mais focar o show em detrimento do esporte?
    Para Conor, apenas palmas, que sujeito! Meu maior respeito é por ele não ser apenas midiático, é excelente lutador. Aliás Brock também é/foi bom lutador, Floyd nem se fala, Tyson nem tanto. Isso prova que o público leigo também tem sua parcela de apreciar técnica? Ou nada a ver?
    Mas também não teria como um saco de pancadas se promover a esse patamar, talvez esteja aí uma possível resposta.

    • Não entendi a parte da disparidade técnica entre o UFC 100 e o 200. Foram dois eventos fodas.

      • Paulo Josué Lemos Alves

        UFC 202, não 200, acabei errando.

  • Gabriel Fareli

    Até a luta contra o Mendes, eu era adepto da opinião “Combate”, de que o Irlandês era só um “bobo da corte”, um fanfarrão, mas depois me rendi. O cara é diferenciado, tanto na luta como no trash talking, e acho que não é nenhum exagero dizer que ele mudou o jogo, mudou até a forma de os lutadores em geral venderem suas lutas e no modo de agir dos mesmos.
    E acho que ele continuará quebrando mais alguns recordes dentro do Ultimate.

  • Anderson Cachapuz

    Os Diaz vão se aposentar só com essas 3 lutas….. já terão dinheiro pra suas próximas gerações…. hdauehudhaeuhudae

    O cara é um mito!! Tiro o chapéu pra ele….

    O Pior de tudo é saber que o Aldo tinha potencial técnico pra fazer o mesmo, mas não tem a cabeça boa… senão já estaria rico também!!

    Aldo se quiser ganhar dinheiro pra garantir a aposentadoria tem que provocar e chamar o McGregor até encher o saco de todo mundo…. e até correr atrás dele nos leves se for preciso… dizer que vai espancar o cara, que vai mostrar que os 13 segundos foram um acidente de percurso… que ele que é o melhor de todos os tempos e o caralho a 4….

    Aliás…. me passa o telefone do Dedé aí, Alexandre… vou ligar pra oferecer uma consultoria de trash talking pra eles! :p

  • Fred Barros

    A revanche contra o Aldo irá acontecer mais cedo ou mais tarde, é inevitável.
    Os 13 segundos servem de argumento tanto para os que acreditam que “não houve luta” tanto para os que acham que o Aldo não é páreo para o Irlandês.
    Eu particularmente, sempre fui fã do McGregor, tanto pela qualidade e estilo dentro do octógono quanto por sua inteligência fora de série e insana habilidade retórica.
    Já o Aldo se prova superior aos seus adversários desde o antigo WEC (vide a excelente performance vs Edgard – um dos melhores de todos os tempos – na segunda luta entre eles), enfileirando lutadores renomados há anos. Apesar de não cativar fora do ringue.
    Portanto, se essa revanche não vir a acontecer, sempre existirá na memória do fã hardcore de MMA a dúvida sobre o argumento “dos 13 segundos” e uma página em branco no legado de ambas as lendas.