“Suzie Q”: 65 anos do maior soco da história do boxe

Há 65 anos, Rocky Marciano se tornava o segundo campeão mundial dos pesos pesados a conquistar o cinturão invicto. Na ocasião, ele executou o que é considerado o mais violento soco da história do boxe.

“Para quem estava ao lado do ringue, o som (da pancada) foi descrito como aterrorizante. Não era o barulho de luvas se chocando contra a carne. Rocky tinha acertado algo sólido, o osso maxilar. Aquilo foi mais forte do que qualquer pessoa jamais atingira alguém”.

A terça-feira de 23 de setembro de 1952 entrou para a história do boxe. Naquela noite, o Estádio Municipal da Filadélfia recebeu 50 mil torcedores para acompanhar a segunda defesa do cinturão mundial dos pesos pesados do campeão Jersey Joe Walcott contra o invicto desafiante Rocky Marciano.

O duelo entrou para os anais da nobre arte não só por ter sido premiado como a luta do ano pela Ring Magazine. Não só por ter sido apontado pela mesma publicação como a 16ª melhor disputa de cinturão da história. O que faz aquele combate ser lembrado até hoje, 65 anos depois, é a execução mais violenta da “Suzie Q”, apelido que Marciano deu não só ao seu cruzado de direita em particular, mas às suas combinações em geral.

A “Suzie Q” original foi uma homenagem que Lil’ Hardin Armstrong, esposa do lendário trompetista e cantor Louis Armstrong, fez a Suzie Jane Quealy. A música “Doin’ the Suzie Q” fazia menção a uma dança que passou a ser utilizada no jazz e na salsa, quando as pessoas balançavam os braços aleatoriamente (peço perdão pela minha ignorância em descrever tais movimentos; o mais perto de dança que eu consigo executar é o boxe). “Fazer o Suzie Q” foi como Hardin se referiu aos movimentos de Suzie Jane.

A esta altura, você não desistiu de ler este texto, mas provavelmente está se perguntando o que diabos uma dança que eu descrevi toscamente tem a ver com Rocky Marciano. A explicação é mais uma das coisas maravilhosas que o esporte produz de tempos em tempos, quando alguém que parece fadado ao fracasso se torna um dos maiores de todos os tempos.

Rocco Francis Marchegiano, americanizado para Rocky Marciano, nasceu em Brockton, Massachussetts, em 1º de setembro de 1923, filho de imigrantes italianos. O garoto sempre gostou de esportes e fez de tudo para se tornar atleta. Integrou os times de beisebol e futebol americano da Brockton High School, mas foi expulso do primeiro por ter jogado por outro time (disputou um campeonato pela equipe da igreja) e do segundo por ser pereba. Em paralelo, praticava levantamento de peso improvisado em casa. Ele passou a fazer alguns trabalhos braçais e, quando trabalhava na fábrica de sapatos que também empregava seu pai, meteu a mão na cara de um sujeito no meio do expediente. Alguém percebeu que ele era forte e que poderia ter sucesso no boxe. Gênio.

A vida de Rocky tampouco foi fácil na nobre arte. Ele tinha retrospecto amador de 9-4 quando resolveu se profissionalizar em definitivo. Marciano era um peso pesado pequeno, leve, lento e desajeitado. Neste ponto, o técnico Charley Goldman teve papel fundamental em sua vida. Goldman percebeu que o pupilo tinha uma cabeça de concreto e uma paixão rara pelo boxe. Então o treinador desenvolveu um estilo que tirava o máximo do mínimo. Foi como no filme “Rocky Balboa”, quando Tony “Duke” Evers chegou à conclusão que Balboa não tinha condições de lutar de modo clássico e mandou a lendária “Let’s start building some hurting bombs” (vamos construir algumas bombas para machucar), fazendo com que a potência exercesse o protagonismo da técnica – o mesmo trabalho que Goldman fez com Marciano. Aliás, as diversas semelhanças entre Balboa e Marciano estão longe de serem meras coincidências ou se restringirem aos apelidos de Rocco e Robert.

O estilo de Marciano não era o ideal para o boxe amador, mais técnico. Era moldado para as duras batalhas do profissionalismo. Ele iniciou a carreira profissional com 16 nocautes seguidos, nove no primeiro assalto, até chegar à decisão pela primeira vez. O modo desajeitadão de avançar e socar virou uma máquina de destruição. Seus braços fluíam em trajetórias que jamais fariam parte de manuais de boxe. Rocky socava de modo meio tosco, parecia que estava dançando a “Suzie Q”. Enquanto o queixo de granito segurava a onda das inúmeras brechas que Marciano dava – ele usava muitas vezes a parte de cima da testa, uma das regiões mais duras do corpo, para bloquear os golpes dos oponentes -, a “Suzie Q” estirava corpos pelo chão.

Em sua 25ª luta, Marciano nocauteou Carmine Vingo numa batalha violenta e o adversário acabou no hospital, em coma. Vingo sobreviveu, mas teve paralisia no lado esquerdo e nunca mais lutou novamente. Dois anos depois, com 37-0 e 32 nocautes, Rocky enfrentou, contra sua vontade, o seu maior ídolo. Joe Louis teve a infeliz ideia de voltar aos ringues para levantar dinheiro e livrar sua situação falimentar.

Repare no vídeo abaixo como os braços de Marciano fluem como na “Suzie Q”. Quando retornou ao vestiário, depois de massacrar seu herói, Rocky chorou.

A vitória sobre Louis transformou o “Blockbuster de Brockton” em sucesso definitivo. Depois de nocautear o grande Harry “Kid” Matthews, Rocky finalmente recebeu a chance de disputar o cinturão mundial. Ele tinha retrospecto de 42-0 (37 nocautes) quando conquistou o posto de desafiante de Arnold Raymond Cream, mais conhecido por Jersey Joe Walcott, que tinha 38 anos na ocasião. Walcott havia se tornado um ano antes o mais velho a conquistar o cinturão do peso pesado, feito superado apenas por George Foreman, em 1994.

A diferença técnica entre ambos era considerável. “Marciano é um amador”, disse Walcott na coletiva antes da luta. “Se eu perder, mereço ter meu nome retirado dos livros de história”.

Contra Walcott, Rocky pesou ínfimos 84 quilos. No entanto, a potência de seus golpes e a capacidade de encaixar socos e seguir avançando deram o favoritismo a Marciano nas casas de apostas na ordem de 9 para 5. Mesmo tecnicamente superior, o campeão levantava dúvidas nos especialistas por, aos 38 anos, talvez não suportar a volúpia do desafiante, nove anos mais jovem.

Isso pareceu um erro quando a luta começou. Logo no primeiro assalto, Marciano sentiu o gosto amargo de beijar a lona pela primeira vez na carreira. Joe cumpria o prometido ao fazer Marciano parecer um amador. O desafiante encurralava o campeão nas cordas, mas errava uma quantidade imensa de socos, facilmente desviados por Walcott. Mesmo bem mais velho, Joe não parecia cansar. A diminuição do ritmo das ações foi uma estratégia do veterano para reduzir o ímpeto de Marciano.

No sexto assalto, um choque de cabeças abriu um corte no supercílio de Walcott e praticamente fechou o olho de Marciano. “Estou com um problema nos meus olhos, não consigo enxergar”, disse Rocky a seu treinador no final do sétimo round. Nesta situação, Marciano errava muitos ataques e permitia que Walcott contragolpeasse com perigo.

Após o 12º, o campeão só precisava suportar mais nove minutos. As coisas estavam difíceis para o desafiante. Mais técnico e de movimentação mais dinâmica, Walcott vencia nas papeletas oficiais por considerável margem – Zach Clayton marcava 8-4, Pete Tomasco tinha 7-5 e o árbitro central Charley Daggert anotava 7-4 e um assalto empatado. Mesmo se Marciano vencesse os três rounds restantes, ele não tiraria o cinturão do rival. Rocky tinha que resolver a parada antes do fim do tempo regulamentar. Porém, como proceder diante do primeiro sujeito que o mandou a knockdown? Parecia que a “Suzie Q” havia conhecido seu limite.

Marciano levantou do banquinho para o 13º assalto e saiu como uma bala ao encontro de Walcott no centro do ringue. Por 30 segundos, o desafiante caçou o campeão, que circulava para evitar as pancadas de Marciano. Nenhum golpe atingiu o alvo. Foi quando Walcott andou para trás em linha reta e chegou nas cordas, com Marciano à sua frente. Joe preparou uma direita. Simultaneamente, Rocky fez o mesmo. O cruzado de Marciano percorreu mais rápido uma distância mais curta e explodiu com um impacto estrondoso. Inacreditável como um soco executado tão de perto pudesse causar tamanho estrago. A “Suzie Q” havia operado mais uma mágica.

Apesar de não ser um boxeador tecnicamente polido, Marciano executou a “Suzie Q” com perfeição neste combate. O jab de esquerda, que pareceu ter sido lançado de qualquer jeito, serviu para fazer o corpo de Rocky avançar, abrindo a base necessária nas pernas. O quadril ficou alinhado com o punho direito e o peso do corpo recaiu sobre a perna dianteira. Uma rápida rotação do pé direito iniciou a geração de potência, que aumentou com o giro do quadril, do ombro e terminou no punho do pugilista, com o soco executado com a parte frontal da mão, os nós dos dedos, no queixo de Walcott. Esta é exatamente a descrição da forma mais pura de um soco acertando um dos pontos de desligamento do corpo humano.

A “Suzie Q” deixou Walcott com um braço pendurado numa corda, totalmente estático. Uma visão assustadora. O juizão ainda se deu ao trabalho de contar até dez, como se não tivesse ficado claro para qualquer um que Walcott não se levantaria nem se Daggert contasse até mil.