Suspensão de 5 anos a Nick Diaz pelo antidoping no UFC 183 pode significar fim de carreira

Por Alexandre Matos | 14/09/2015 21:16

Nick Diaz sofreu um duro golpe nesta segunda-feira mesmo sem ter lutado. Em audiência realizada na sede da Comissão Atlética de Nevada (NAC), o meio-médio do UFC recebeu suspensão de cinco anos por ter falhado no exame antidoping do UFC 183, quando foi derrotado Anderson Silva (que também caiu no antidoping). Além do gancho, o californiano terá que pagar multa de US$150 mil, cerca de 30% de sua bolsa oficial.

Na ocasião, Diaz testou positivo para maconha no exame realizado após o evento, no dia 31 de janeiro. A substância é proibida para o período de competição, que vai de 24 horas antes da luta até 12 horas depois. Como esta foi a terceira vez que o atleta foi pego no estado de Nevada, a NAC definiu unanimemente pela pena gigantesca. Diaz já havia caído nos antidopings do UFC 143, em 2012, e do PRIDE 33, em 2007. A primeira suspensão foi de seis meses, enquanto a reinciência custou um ano ao ex-campeão do Strikeforce. O lutador tem permissão de uso medicinal da maconha na Califórnia, mas não incluiu na documentação médica do UFC 183 uma solicitação para este fim.

A punição aplicada a Diaz é exagerada mesmo sob a luz da nova política antidoping da NAC, muito mais severa que a atual, que está prevista para começar a ser aplicada a partir de outubro de 2015. Nas novas diretrizes, um lutador pego pela primeira vez com maconha em competição receberá 18 meses de suspensão e 30% a 40% de multa na bolsa. A segunda ocorrência causará 24 meses e 40-50% de multa. A terceira, caso de Diaz, provocará 36 meses de suspensão e 60-75% de multa. A quarta ofensa banirá o lutador e cobrará multa no valor integral da bolsa. Ou seja, a decisão da NAC desta segunda-feira não tem aval sequer das novas diretrizes que ainda nem estão em vigor.

A decisão da NAC toma contornos de abuso de autoridade quando se observa o que aconteceu na audiência. Quando foi questionado pelos comissários, Diaz primeiramente respondeu: “Respeitosamente, não vou responder nada”. Os comissários insistiram com perguntas e o lutador respondeu apenas com “Quinta emenda”, referindo-se à emenda constitucional americana que, dentre outras coisas, dá a um réu o direito de permanecer calado. Isso pode ter deixado os comissários irritados.

Nick Diaz chegou a se deitar durante a luta contra Anderson Silva, no UFC 183 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Nick Diaz chegou a se deitar durante a luta contra Anderson Silva, no UFC 183 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC)

Pat Lundvall chegou a pleitear banimento do esporte e a maior multa possível, argumentando que o lutador “apresenta padrão de ostentar provocativamente os requerimentos da comissão”. Já o chairman Francisco Aguilar disse que a suspensão não poderia ser menor que cinco anos. Skip Avansino ponderou que isso praticamente seria o fim da carreira do lutador, que tem 32 anos. Anthony Marnell também se mostrou hesitante em aplicar punição tão drástica para uso de maconha. Porém, ambos acabaram cedendo.

Francisco Aguilar:

“Se isso fosse apenas um caso de marijuana, acho que teria o menor final para mim. Isso não é apenas um caso de marijuana. Acho que este é um caso de completa falta de respeito para com o esporte. É uma falha de ser franco, de cooperar para fazer deste esporte algo melhor, é uma falta de respeito com as regras, que eu acho que fere outros atletas da mesma maneira. Veja, eu não tenho nenhum ego nesta comissão. Alguns podem pensar que sim, mas não tenho. É que nós temos que fazer nosso trabalho de regulador e isso não é apenas um caso de marijuana.”

Após a sentença ter sido divulgada, o advogado do lutador, Lucas Middlebrook, disse que “certamente vai apelar da decisão” e que a NAC teria agido por vingança pessoal e que Diaz não poderia ser punido por exigir um direito constitucional. Se a suspensão for mantida, Diaz só poderá solicitar nova licença para lutar em 31 de janeiro de 2020, já que a punição é retroativa ao dia do exame. Ele terá 36 anos na época. É difícil acreditar que ele voltará a lutar depois de tanto tempo suspenso e de já ter anunciado a aposentadoria, decisão que foi revogada em favor de enfrentar Anderson.

A situação ainda ganha novos contornos absurdos quando levantou-se na audiência a questão dos exames realizados e dos laboratórios envolvidos. Diaz foi submetido a três exames no dia do evento e todos passariam pelo padrão da WADA (Agência Mundial Antidoping), entidade que é seguida pela NAC. Dois dos exames foram enviados ao SMRTL (Sports Medicine Research and Testing Laboratory) e o terceiro foi para o laboratório Quest Diagnostics. Somente este último voltou positivo. Detalhe: apenas o SMRTL é credenciado pela WADA. Segundo uma testemunha médica da defesa, com ampla experiência em exames antidoping, havia inconsistências no exame da Quest. A testemunha disse que, se fosse o responsável pelo teste, teria considerado apenas o do SMRTL.

Pat Lundvall disse que os exames da Quest são mais sofisticados do que os do SMRTL, ainda que a WADA só credencie o segundo. Cabe lembrar que a Quest inocentou Cung Le no polêmico confronto contra Michael Bisping, quando o americano de origem vietnamita se apresentou com um físico que lembrava mais o de um fisiculturista do que o de um lutador de MMA.

Jake Shields se safa e Rousimar Toquinho tem audiência adiada pela confusão no WSOF 22

Na mesma sessão da NAC, Jake Shields foi julgado pelos acontecimentos do WSOF 22, que aconteceu no dia 1º de agosto. Na ocasião, Shields aplicou um soco em Rousimar Toquinho após ter sido finalizado pelo brasileiro. A ação foi uma represália pelo comportamento controverso do brasileiro, que cansou de atingir os olhos do americano com dedadas, além de (novamente) ter segurado demais a finalização.

Shields foi sentenciado a 50 horas de serviço comunitário num período de seis meses. Ele não pegou suspensão, mas terá que arcar com os custos administrativos da audiência desta segunda. O lutador teve sua pena amenizada por ter admitido o erro e solicitou leniência por conta das faltas de Toquinho – Shields disse que teve problemas no ombro e cotovelo pelo fato de o oponente ter segurado a kimura por muito tempo após o americano desistir. Lundvall entendeu que o soco foi “praticamente um movimento involuntário neste tipo de circunstância”.

Pela mesma ocorrência, Toquinho seria julgado nesta segunda, mas solicitou adiamento. De acordo com o empresário Alex Davis, a esposa do lutador está grávida. Sua audiência foi adiada para outubro.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.