Por Alexandre Matos | 19/07/2018 04:33

O MMA brasileiro vive um momento de dificuldade que se arrasta há alguns anos. A crise econômica, que tomou conta do país, foi o principal argumento para explicar a fase em que organizações sólidas faliram ou diminuíram sensivelmente sua atuação. O MMA não vive mais a era de ouro, mas o problema é um pouco mais sério. O sinal de alerta no MMA não acontece só no Brasil.

Sinal de alerta no MMA brasileiro

Qualquer fã de MMA um pouco mais atento ao cenário nacional já percebeu que as coisas andam mal. Durante a era de ouro do esporte, não existia um evento do Jungle Fight sem que se soubesse quando e onde aconteceria o seguinte. Uma vez por mês, o promotor Wallid Ismail montava sua estrutura nos quatro cantos do Brasil. Em 2013, o Jungle Fight 48 abriu o calendário, em 25 de janeiro, e o Jungle Fight 63 fechou, em 21 de dezembro, passando por Rio de Janeiro (capital e interior), São Paulo (capital e interior), Rio Grande do Sul, Paraná e Pará.

O número de eventos despencou em 2016 (6), chegando a apenas dois em 2017. Neste ano, a organização realizou o Jungle Fight 93, em abril, e não há previsão para a próxima edição. O WOCS, que fez nove eventos em 2013, teve dois em 2015, dois em 2016 e quatro em 2017. Realizou o terceiro deste ano no último sábado. Dentre as principais organizações nacionais, o Shooto Brasil vem mantendo uma média de um evento por mês, muito por hospedá-los na Upper Arena, no CT da Nova União, no Rio de Janeiro. Desde que o local foi inaugurado, no Shooto Brasil 74, apenas um evento de 12 não aconteceu lá. Como o presidente do Shooto Américas é André Pederneiras, líder da Nova União, trata-se uma conveniência que salva a organização.

Nem vou entrar no mérito de tentativas megalomaníacas, que pareciam oásis no deserto, mas que também não conseguiram superar as dificuldades e acabaram morrendo. São os casos do Bitetti Combat, que chegou a botar quase 10 mil pessoas no Maracanãzinho, em 2009, com provavelmente o melhor card da história do MMA nacional; o Amazon Forest Combat, que tentou seguir a linha do Bitetti Combat 4 e contou com transmissão em TV aberta; do SMASH Fight; do Mortal Kombat Championship; e do Fight2Night, empreitada recente do ator e fã de MMA Bruno Gagliasso, que também tentou seguir a linha do Bitetti 4 e do AFC. Tem ainda o Coliseu Extreme Fighting, que até nasceu com ótimas ideias, mas também não resistiu aos percalços.

Este cenário de dificuldades tem inúmeros desdobramentos, diretos e indiretos. Com menos palcos, o MMA brasileiro terá mais dificuldade de renovar seus talentos. Com menos shows, não se estabelece uma cultura do esporte, o que afeta até mesmo o líder do mercado mundial, o UFC, que chegou a fazer sete eventos no Brasil num ano e se limitou a três desde que a crise se instaurou por aqui. Até mesmo a audiência dos veículos, seja na TV, nos impressos ou na internet (situação na qual o próprio MMA Brasil se enquadra), vem caindo. Como consequência direta da falta de cultura do MMA no Brasil, os eventos nacionais são, em sua grande maioria, programas para alunos, parentes e amigos dos lutadores que estarão em ação no card.

Bruno Gagliasso não economizou em estrutura e card no Fight2Night, mas o evento não parece ter continuidade

Bruno Gagliasso não economizou em estrutura e card no Fight2Night, mas o evento não parece ter continuidade

Sinal de alerta no MMA internacional

Infelizmente a crise econômica brasileira não é a principal explicação, até porque o problema não acontece apenas no Brasil.

O MMA russo teve um crescimento exponencial durante a fase ruim do cenário brasileiro. Organizações foram criadas ou cresceram a ponto de tirar lutadores valorizados até mesmo do UFC. O ACB chegou a ser apontado pelo MMA Brasil como a terceira melhor organização do MMA mundial, atrás apenas do UFC e do Bellator. Em certo momento, deu a impressão que o crescimento poderia inclusive ameaçar a vice-liderança do Bellator se a Viacom não se mexesse. Como resultado desse crescimento, uma leva de lutadores russos invadiu o UFC (só há mais americanos e brasileiros do que russos atualmente no UFC) e hoje conta inclusive com um campeão.

O ACB continua montando cards muito fortes, em eventos muito bem estruturados dentro de uma política de expansão internacional interessante. Porém, começaram a pipocar informações de cancelamento de eventos sem maiores explicações – ACB 89 (no Chipre), 90 (Cazaquistão) e 91 (primeiro na Inglaterra, depois na Suécia), informações confirmadas por um jornalista da RT Sport, importante veículo russo. E não é só o ACB. Fabio Maldonado e Elias Silvério lutariam num evento do Fight Nights Global no Brasil, que também foi cancelado sem que a organização fornecesse motivos.

É verdade que a Rússia é um país complicado, onde eventos esportivos são realizados com dinheiro de procedência duvidosa (o que, inclusive, não é diferente no Brasil) e até ditador se mete no MMA. Então vamos falar dos Estados Unidos, nação que alavancou a popularidade do MMA e criou algumas organizações sólidas, inclusive os dois líderes do mercado global.

Não faz muito tempo que o WSOF era o terceiro maior do mundo. Faliu e foi substituído em seguida pela PFL, que nasceu cheia de expectativas, mas que dá a impressão de, mais cedo ou mais tarde, tomar o mesmo caminho da organização anterior. Fim idêntico ao Strikeforce, que iria acabar mesmo se o UFC não o comprasse, apesar de ter tido épocas de ser a segunda principal organização do mundo, em briga de foice com o Bellator.

Mesmo com várias estrelas, o Strikeforce não sobreviveu

Mesmo com várias estrelas, o Strikeforce não sobreviveu

Se aconteceu com o Strikeforce e o WSOF, imagine o que sofrem as organizações menores, tão importantes como celeiros de talento para o UFC. O Ring Of Combat, que já foi o principal dos celeiros, chegou a fazer dez eventos num ano, quando escalava Chris Weidman, Jimmie Rivera, Al Iaquinta, Gian Villante, Costas Philippou e Rafael Sapo no mesmo card. Passou a fazer quatro por ano desde 2015 – foram dois em 2018.

O Legacy FC e a RFA, que também eram importantes na revelação de valores, tiveram que se fundir para criar a LFA. O Tachi Palace Fights, que já foi a principal organização de pesos moscas do mundo antes de o UFC inaugurar a divisão, sobrevive com o cinto apertado. O XFC, que chegou a abrir escritório no Brasil no olho gordo, aplicou uns calotes e sumiu do país, isso com quase cinco anos sem fazer evento nos Estados Unidos e com uma tentativa de ressurgir no último mês de abril, na Austrália, sabe-se lá a que circunstâncias.

Nem vou falar do MMA japonês, que é pra não dar tristeza.

Felizmente existem algumas organizações que se mostram fortes em mercados específicos, como o ONE Championship, na Ásia, o Brave CF, no Oriente Médio, e o KSW, na Polônia. Porém, nenhum deles se mostrou ainda forte o suficiente para encarar o mercado global, embora os primeiros passos já tenham sido dados nesta direção.

Como solucionar o problema?

Bom, se eu tivesse uma solução para o problema, estaria implementando-a e ficando rico ao invés de estar aqui escrevendo esse troço. A ideia é tentar levantar algumas bolas para promover o debate.

O MMA até hoje luta com o problema de não ser aceito como esporte por muita gente. Portanto, a crise não será muito fácil de ser vencida. Ainda assim, há alguns pontos que podemos tocar.

No meu entendimento, os esportes em geral precisam de torneios relevantes para alavancar o interesse global e, por consequência, a audiência. O futebol tem a UEFA Champions League anualmente e a Copa do Mundo, mais importante torneio esportivo do mundo, quadrienalmente. O basquete tem o campeonato da NBA, o tênis tem os Grand Slams, o automobilismo tem o Mundial da Fórmula 1. Mesmo distantes, esses campeonatos estimulam os esportes. Eu mesmo passei um tempo esperando o NBA Action todo sábado na Band para sair e bater uma bola no Aterro do Flamengo. Quem nunca quis pegar uma raquete depois de ver Roger Federer e Rafael Nadal decidindo Wimbledon?

No MMA, esse papel cabe ao UFC. É lá que se encontra a maioria dos melhores lutadores do mundo, onde são disputadas a maioria das melhores lutas. E como o UFC lida com essa missão em comparação com outras competições de outros esportes? Não tão bem.

O UFC se esforça para levar o octógono a diversos países – já foram 23 e mais dois novos estão previstos para 2018. O UFC se esforça para ter lutadores de várias nacionalidades (atualmente são 60). Porém, o UFC tem muita dificuldade de deixar de ser uma empresa americana. Os horários dos eventos são praticamente todos em função da audiência nos Estados Unidos, tornando um martírio para europeus e alguns asiáticos acompanharem ao vivo.

Outro problema: quem aguenta ficar seis horas ininterruptas assistindo a uma competição esportiva? Eu não sou parâmetro, mas pessoas como eu e vários de vocês são exceções no cenário mundial. Raramente um esporte fica por mais de três horas em exibição. Os imensos cards de 12, 13 e até 14 lutas, cheios de intervalos, tornam-se maçantes para o fã médio, que é aquele que sustenta qualquer esporte.

Haja luta...

Haja luta…

Quando juntamos os dois problemas acima, caímos num terceiro. Neste domingo, o UFC promoverá um evento na Alemanha, em horário relativamente digno para as audiências europeias e asiáticas. Porém, qual o atrativo com Anthony Smith, Abu Azaitar, Nasrat Haqparast e Danny Roberts no card principal? Mesmo em nossa audiência muito qualificada, quem aqui sabe de quem se tratam todos eles? Pode até sair um evento sensacional, mas quem vai se interessar em assisti-lo? Não seria melhor reduzir a quantidade de lutas por evento e ter cards bem mais fortes o tempo todo?

A própria dificuldade que o UFC vem tendo com seus números de pay-per-view são um forte indicativo de que a organização falha em se postar como a competição que alavanca a audiência do MMA no mundo. Vivemos uma era altamente competitiva, com lutas inesquecíveis disputadas com frequência, mas que atingem números pífios (MCP™) nas estatísticas. E audiência baixa no UFC reflete em todos os demais eventos ao redor do mundo. Se o povo não quer ver Demetrious Johnson e Daniel Cormier, imagine o resto.

Outra: até que ponto as atividades quase circenses de promoção de luta (UFC feat. Bellator) estão sendo válidas no sentido de atrair e fidelizar novos consumidores? Uma paca de gente será atraída pela patifaria entre Brock Lesnar e Cormier, mas quantos estarão lá para assistir às revanches entre Demetrious Johnson e Henry Cejudo, TJ Dillashaw e Cody Garbrandt e Eddie Alvarez e Dustin Poirier?

Por fim, pelo menos aqui neste artigo, será que já não está na hora de as organizações, as maiores e as menores, apostarem na internet como plataforma de exibição? Se até o futebol, esporte mais arcaico entre os mais populares, já partiu para este caminho, por que não o MMA, modalidade que cresceu junto com a internet?

Responda aí na caixinha de comentários: você assistiria a eventos de MMA pela internet, em desktops/notebooks e em tablets/smartphones? Você pagaria uns 5 ou 10 reais para assistir às principais lutas de um card, depois de ter, tipo, 70% transmitido de graça?

Não precisamos de um tom apocalíptico. Vários esportes, inclusive o futebol, passaram por dificuldades parecidas com as do MMA e sobreviveram, se fortaleceram. Tenho certeza que o mesmo acontecerá com o MMA. Mas, até lá, vamos sofrer mais um bocadinho. O sinal de alerta no MMA está ligado.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.