Seis momentos inesquecíveis do Strikeforce

Seis momentos inesquecíveis do Strikeforce
MMA

Ídolos construídos, lendas derrubadas, nocautes sensacionais, viradas improváveis marcaram a história do Strikeforce. Confira esta lista de seis momentos inesquecíveis do evento que chegou ao fim no último sábado.

Uma história chegou ao fim no último sábado. Uma história de emoções, sangue, suor e sucesso. O canto do cisne do Strikeforce vai deixar saudade.

Ídolos foram criados, outros ruíram, futuras estrelas passaram por lá. Viradas espetaculares, nocautes sensacionais, submissões históricas. O evento que nasceu regional, no norte da Califórnia, só com o kickboxing, morreu global, plenamente integrado ao esporte mais multidisciplinar da atualidade.

Foi no Strikeforce que Cain Velasquez fez sua primeira luta de MMA profissional. Foi lá que Fedor Emelianenko e Dan Henderson protestaram contra o monopólio do UFC. Foi também onde Frank Shamrock pendurou as luvas, Nick Diaz virou ídolo e Fabricio Werdum entrou para a história.

O Strikeforce vai deixar saudade. Para retomar grandes lembranças, deixo uma lista com alguns momentos memoráveis da história da organização. Não são os momentos mais importantes, nem os mais famosos. São apenas algumas recordações que me vêm à cabeça quando lembro do Strikeforce.

Fedor Emelianenko vs Fabricio Werdum: a queda do mito

Fabricio Werdum encaixa o histórico triângulo em Fedor Emelianenko (Foto: Mike Colón)

Fabricio Werdum encaixa o histórico triângulo em Fedor Emelianenko (Foto: Mike Colón)

Daria para fazer um artigo só com as lutas de Fedor no Strikeforce, uma vez que todas tiveram algo de especial. Mas fiquemos com a mais relevante delas, com a maior vitória da história do MMA.

Fedor chegou àquele combate de junho de 2010 ostentando incrível invencibilidade de dez anos. No período ele dominou a categoria dos pesos-pesados no PRIDE, bateu cinco campeões do UFC, alguns mais de uma vez, e venceu a melhor luta da década, a guerra contra Mirko Cro Cop em 2005, com ambos em seus auges técnicos.

Werdum vivia momento bem diferente. Um ano e meio antes, fora nocauteado por uma então jovem promessa, Junior Cigano, que iniciava sua carreira no UFC. De um passo do title shot, Werdum teve uma proposta de redução salarial, não aceitou, saiu do UFC e foi reconstruir a carreira.

O russo era favorito na ordem de 5 para 1 nas casas de apostas. Pensando em evitar o sufoco passado na estreia no Strikeforce contra Brett Rogers, Emelianenko tentou decidir a parada logo no começo da luta. Acertou uma direita que nem pegou em cheio. Werdum aproveitou e simulou um knockdown como estratégia para atrair o oponente para sua guarda. A princípio, não parecia ser uma ideia inteligente.

Em sua carreira, Fedor passara vários minutos batendo no ground and pound dentro de guardas como a de Rodrigo Minotauro. Ele não titubeou e mergulhou sobre Werdum. Rápido, o gaúcho encaixou um triângulo, passou para uma chave de braço e fez o que poucos acreditavam: obrigou Fedor a bater. Assistindo pela transmissão da HBO Plus, fiquei uns bons minutos em choque. A careca do Último Imperador, bastante vermelha, era sinal que o estrangulamento estava perfeitamente encaixado.

Gina Carano vs Cristiane Cyborg: o nascimento do MMA feminino

Cristiane Cyborg maltratou Gina Carano no Strikeforce (Foto: Esther Lin/Strikeforce)

Cris Cyborg maltratou Carano no Strikeforce (Foto: Esther Lin/Strikeforce)

O ano de 2012 foi inesquecível para o MMA feminino. Ronda Rousey conquistou o cinturão do Strikeforce, tornou-se celebridade e convenceu Dana White a inaugurar uma categoria de mulheres no UFC. Mas esta história começou três anos antes, com outras protagonistas.

Gina Carano foi considerada o primeiro rosto do MMA feminino. A bela morena chegou a ser apontada como uma das cinco mulheres mais influentes do mundo em 2008, mesmo ano que ela foi a terceira pessoa mais pesquisada no Yahoo e a com o crescimento mais rápido no Google.

Quando o Strikeforce colocou em jogo pela primeira vez o cinturão feminino da categoria até 145 libras (66 quilos, na época chamada peso médio), a adversária de Carano foi a brasileira Cristiane Cyborg. Com uma aparência mais bruta – e um estilo de luta também – Cyborg era a antítese de Carano.

O duelo foi vendido pelo canal americano Showtime como a disputa entre a bela e a fera. Pela primeira vez na história do MMA, uma luta feminina encabeçava um card de uma organização de ponta, apesar de outras duas lutas válidas por cinturões masculinos terem sido disputadas, uma delas entre Renato Babalu e Gegard Mousasi, a outra de Gilbert Melendez.

A luta em si não foi exatamente inesquecível. Cyborg caçou Carano implacavelmente e aplicou uma surra durante o primeiro round, obrigando o árbitro a decretar o nocaute técnico no último segundo da parcial. Apesar da unilateralidade do combate, todo o hype criado foi histórico – ao final da luta, Carano e Cyborg lideravam os trending topics mundiais no Twitter.

Scott Smith vs Cung Le: a última virada do rei do impossível

Scott Smith aplicou sua última virada sobre Cung Le no Strikeforce (Foto: Dave Mandel/Sherdog.com)

Scott Smith aplicou sua última virada sobre Cung Le no Strikeforce (Foto: Dave Mandel/Sherdog.com)

Viradas são acontecimentos sensacionais. Quando um lutador dado como praticamente nocauteado consegue reverter um combate e vencer, a sensação de superação é única. Scott Smith escreveria sozinho um capítulo do livro das grandes viradas do MMA.

A última delas aconteceu no Strikeforce. Em dezembro de 2009, Smith foi escalado como adversário de Cung Le, que abdicara do cinturão mais de um ano e meio antes para se dedicar à carreira de ator. Le estava invicto e era a principal estrela do Strikeforce na ocasião.

Smith sempre foi mais conhecido pelos enormes poder de nocaute e força de vontade do que pela técnica. Ao contrário, Le encantava os fãs com os plásticos chutes importados do kung fu. No combate, o que se viu foi um verdadeiro passeio do vietnamita, que lançava toda sorte de chutes no rival. O primeiro round acabou com um 10-8 claro a favor de Le e o segundo ia no mesmo caminho se o oriental não começasse a mostrar sinais de cansaço.

O atropelamento continuou no terceiro, com Le abusando dos golpes no corpo. Quando o fim parecia próximo, Smith tirou da cartola um gancho de esquerda curto e seco. O golpe pegou em cheio e mandou Le a knockdown. O vietnamita se levantou, mas o americano estava decidido a dar cabo dele. Smith apertou Le contra a grade, que caiu e teve que ser salvo por “Big” John McCarthy.

Depois desta luta, Smith entrou mais quatro vezes no cage hexagonal do Strikeforce. Perdeu todas, mesmo após baixar para meio-médio, e foi surrado por Le na revanche imediata.

Robbie Lawler vs Melvin Manhoef: one punch power

Este combate não reuniu nenhum campeão, herói ou ídolo. A luta juntou no cage dois dos maiores nocauteadores de todos os tempos. Nestes termos, o que se esperava era uma noite curta. E foi o que aconteceu, mas de modo mais sensacional do que o previsto.

O duelo durou pouco mais de três minutos. Durante 99,9% do tempo, o kickboxer holandês Melvin Manhoef espancou o americano Robbie Lawler, que não mostrara nada do apelido “Implacável” – Lawler não conectou um único golpe até o momento decisivo.

A situação ficou mais crítica quando Robbie pareceu ter sofrido uma séria contusão na perna direita. Pelo que estava acontecendo no cage, ele seria nocauteado em pouco tempo. Manhoef disparou um chutaço na perna machucada do rival. Como retorno, Lawler soltou um hail mary no mais absoluto desespero, sem nem olhar para frente. A violentíssima direita explodiu contra o queixo de Manhoef. Um segundo soco passou no vento e o terceiro novamente encontrou o alvo, mas já era desnecessário. Melvin caiu apagado, nas profundezas da vala.

Strikeforce Nashville: a noite das zebras

Jake Shields surpreendeu o mundo ao bater Dan Henderson (Foto: Esther Lin/Strikeforce)

Jake Shields surpreendeu o mundo ao bater Dan Henderson (Foto: Esther Lin/Strikeforce)

Outro acontecimento muito popular, não só no MMA como em qualquer esporte, é a zebra. Ver um azarão bater um favorito deixa os fãs extasiados. Quando três o fazem numa mesma noite, então…

O Strikeforce Nashville teve três disputas de cinturão e a estreia de uma lenda do MMA. Nas três disputas, o lutador menos famoso venceu. O primeiro foi “King” Mo Lawal, que usou seu wrestling de alto nível para limitar as ações de Gegard Mousasi e tomar do armênio o cinturão dos meio-pesados.

Em seguida foi a vez do peso leve Gilbert Melendez, que enfrentou o ídolo japonês Shinya Aoki. Apesar de ter leve favoritismo nas casas de apostas, muito pela dificuldade de adaptação do oponente, a vitória de Melendez surpreendeu pela enorme facilidade com que foi conquistada. Também usando o jogo de quedas e sufocamento contra a grade, “El Niño” venceu os cinco rounds da disputa.

A luta principal marcou a estreia de Dan Henderson. O veterano, que não chegara a um acordo financeiro com o UFC, mudou de casa e já estreou disputando o cinturão peso médio que estava com Jake Shields. O campeão era o azarão da ordem de 4 para 1.

Hendo lutou o primeiro round justificando a diferença nas casas de apostas e aplicou uma sonora surra em Shields, chegando perto de nocauteá-lo. O esforço parece ter minado a resistência do veterano, que viu seu rendimento despencar a partir do segundo round. Shields se aproveitou e, surpreendendo a todos, usou o wrestling contra o ex-wrestler olímpico, pontuou no ground and pound e manteve o título.

Após o combate, Jason “Mayhem” Miller protagonizou mais um de seus papelões. O encrenqueiro invadiu o cage durante a entrevista de Shields e, ao vivo, meteu-se no meio perguntando quando ele teria sua revanche (Mayhem fora derrotado por Shields na luta anterior, quando o segundo ficou com o cinturão vago por Cung Le). Companheiros de equipe de Shields, os irmãos Nate e Nick Diaz, junto com Gilbert Melendez, partiram para as vias de fato.

Cung Le vs Frank Shamrock: outra lenda cai

Cung Le aplica um chute que quebra o braço de Frank Shamrock (Foto: Tom Casino/EliteXC)

Cung Le aplica um chute que quebra o braço de Frank Shamrock (Foto: Tom Casino/EliteXC)

Uma das melhores lutas do ano de 2008 coroou Le no Strikeforce. O vietnamita, que fizera toda sua curta carreira no MMA lutando pela organização, finalmente alcançava o cinturão dos pesos médios.

Le e Frank Shamrock eram os principais nomes do Strikeforce na época. Ambos eram de San Jose, Califórnia, cidade que recebeu o evento. Ambos chegaram inclusive a treinar juntos. Shamrock estava praticamente invicto nas quatorze lutas anteriores em onze anos (uma desclassificação contra Renzo Gracie manchou seu cartel), inclusive cinco no UFC que lhe renderam o cinturão dos meio-pesados. Le era a estrela do sanshou que migrara para o MMA.

O combate foi insano e Le mostrou que Shamrock era mortal. Os lutadores saíram na porrada violentamente por três rounds. No final do terceiro, Le acertou um chutaço que teria endereço certo no queixo de Shamrock. Para evitar ser nocauteado, o americano bloqueou o golpe com o braço. O impacto foi tão grande que o chute quebrou o antebraço de Frank ao meio (conforme palavras do próprio Le, que vira a radiografia do local).

Shamrock ainda queria voltar para o quarto round, mas as dores eram intensas. Ele então não conseguiu ir adiante e o árbitro decretou nocaute técnico. A imagem de um monstro como Frank deixando o cage com o braço para cima, imóvel, foi chocante. Naquela época, dizia-se que Le era o principal striker da categoria dos médios no mundo, atrás apenas de Anderson Silva.

  • Excelente artigo!

    Acompanhei pouco do Strikeforce, mas pelo menos um desses momentos, acompanhei ao vivo: “Robbie Lawler vs Melvin Manhoef”. A imagem postada, mostra bem como foi a luta, a perna de Lawler indo LÁ EM CIMA com os fortes chutes, foi muito surreal esta luta.

    E quando aos outros relatos, demais! Dá vontade de correr atrás desses materiais. Tributo merecido para este ótimo evento! Não deixará tantas saudades como o Pride, mas com certeza não será esquecido de forma alguma! Principalmente pela postura de grandes nomes que não se “renderam” ao UFC e mostraram que MMA vai além do Ultimate Fighting Championship.

  • Na época da luta contra o Werdum, o Fedor ainda tinha aquele hype de invencível, e realmente foi muito estranho ver ele perdendo, como você bem disse, foi um choque.

  • Edson

    Eu falei a seguinte frase para o meu Pai no dia em que o Werdum ganhou pro Fedor.
    – Pai o Werdum levou toda a sorte do Brasil, portanto não existe mais a possibilidade de ganharmos a Copa do Mundo.
    E deu no que deu kkkkkkkkkkkk perdemos com um gol azarento, e pra piorar eu estava torcendo pro Fedor.
    Da pra acrescentar um sétimo momento? rsrsr escolhendo a luta do Cormier vs Pezao ou Cormier vc Babyface em ambas fiquei muito surpreso.
    Alexandre, você poderia aproveitar o embalo e fazer para o Pride e Boxe? sei que ambos seriam gigantes, mas… rsrsrsr
    Ótima matéria!!

    • Rafa FriAll

      Uma luta que me marcou tb foi Nick Diaz x Paul Daley, que round sensacional foi aquilo.

      • Rafael M

        Essa luta tb me marcou. Foi sensacional!!

    • Por agora não tem a menor condição de me focar em PRIDE e boxe. Estamos na semana de UFC no Brasil e da estreia da nova temporada do Bellator com um ótimo card. Mas a sugestão está anotada.

  • Rafa FriAll

    O sentimento que eu tive com a derrota do Fedor foi o mesmo que a perda de um parente, fiquei parado em frente ao computador sem reação. Nunca antes em nenhum outro esporte individual eu senti essa sensação, Fedor era uma figura que estava acima do esporte, acima dos treinos, do fisico de tudo. Via ele como um semi-deus, é até estranho tentar explicar.

    • Pra muita gente o Fedor tinha esta representatividade mesmo.

  • Suruhito

    Nunca tive este endeusamento pelo Fedor (mas compreendo perfeitamente quem o tem) e não vi a luta ao vivo, mas no dia seguinte, quando fui ler, confesso que fiquei meio desconcertado, sem saber se eu estava realmente acordado ou dormindo (foi a primeira coisa que fiz quando acordei). Ainda mais da forma como foi, pois quando é um pombo-sem-asa é mais fácil assimilar.

  • Rafael M

    Falando de brasileiros, acho q o jacaré fica como principal nome nosso no strikeforce. E a edição que ele e o feijão foram campeões foi bacana e surpreendente, pq jacaré venceu trocando toda a luta e o feijão nao foi quedado pelo king mo. Apesar do maior momento de um brasileiro ter sido o triângulo do werdum.
    Acho q ronda e tate tb tem q ser lembrado como marco do mma feminino. Qual luta foi mais importante pra historia do mma feminino, cyborg e carano ou ronda e tate?

    • As duas lutas foram muito importantes. O MMA feminino seria bem diferente se não tivesse acontecido antes Carano-Cyborg.

  • Fernando Torres

    Sem duvidas o momento mais inesquecivel do Strikeforce foi quando o Werdum finalizo o até então invencível Fedor, lembro que assisti esse evento na HBO ao vivo e não acreditei no que vi, sério eu sou muito fã do Fedor foi uma das piores sensações que ja tive foi a derrota que mais me marcou :/

    PS: ja que citaram pra fazer uma homenagem aos momentos marcantes do Pride, sugiro também que seria legal fazer ao K-1 também, sinto muitas saudades da época do ouro do K-1

    Acho que a luta Nick Diaz vs Paul Daley merecia ser lembrada tambem
    Ótimo tópico, parabéns

    • Vários outros momentos mereciam ser lembrados. Como eu disse no texto, não fiz uma lista dos melhores momentos, nem dos únicos. Foram só os momentos que me deixaram lembrança mais imediata.

      • Fernando Torres

        Certo Alexandre, cheguei agora de uma festa, to muito bebado mas me diz uma coisa, oq achou da idéia de um top10 do K-1?? acho que ia ser maneiro!!!
        descula algum erro de potuguess mas meu estado nao é dos melhores!!!
        Ab raçooo

  • Janse Romero

    Uma bela matéria !!! muito legal ler isso !! parabéns mais uma vez !!!