Se wrestling fosse fácil, se chamaria jiu-jítsu

Por Pedro Carneiro | 28/11/2014 23:33

O ano era 1993. No mês de novembro, Royce Gracie chocava o planeta e apresentava aos fãs de luta o jiu-jítsu, uma arte marcial que possibilitava um lutador pequeno e magro vencer adversários muito mais fortes em combates de vale tudo. Com a criação do UFC, a família Gracie provava ao mundo da luta que, isoladamente, o jiu-jítsu era a arte marcial mais eficiente.

O tempo passou, academias de jiu-jítsu abriram ao redor do mundo, o vale tudo virou MMA e a hegemonia brasileira foi lentamente acabando. Se em 2012 o Brasil possuía quatro campeões no UFC, atualmente temos apenas dois (e só um é dono do cinturão linear). Se há duas décadas o jiu-jítsu dominava o mundo da luta, hoje quem tem este papel é o wrestling. Isto tem um peso ainda maior quando observamos que, dentre os nove campeões do UFC, apenas Anthony Pettis venceu sua última luta por finalização.

O motivo da superioridade atual do wrestling em relação ao jiu-jítsu no MMA não é um problema que surgiu nos últimos cinco anos, sequer nos últimos dez. O problema é estrutural e muito mais antigo do que podemos imaginar.

Tudo começou no ano de 708 a.C., quando a luta livre foi adicionada aos Jogos Olímpicos da Antiguidade. A modalidade já existia há muito mais tempo, mas a competição passou a ser estimulada e se tornar campeão olímpico virou algo desejável por atletas em todo o planeta. Com isso, os wrestlers passaram a treinar desde crianças e o incentivo para o desenvolvimento dos atletas passou a vir do Estado. Nos dias atuais, programas internacionais formam atletas de wrestling em vários países. Desde cedo eles recebem todo o apoio necessário para somente pensar na rotina do esporte.

Um mural egípcio datado de cerca de 2.000 a.C. mostra wrestlers em ação

Um mural egípcio datado de cerca de 2.000 a.C. mostra wrestlers em ação

A lógica é simples: quanto mais atletas disputam um esporte, maior é a competitividade, o nível atlético e, por consequência, a evolução do esporte. Quando observa-se os campeões mundiais e olímpicos de wrestling, nota-se que todos são atletas completos. O nível da competição é muito alto e todos têm elevados índices de profissionalismo. A diferença entre o campeão e os demais em muitos casos é uma questão de detalhe.

No Brasil, os atletas começam como amadores, sem estrutura de treinamentos, alimentação e, na maior parte das vezes, precisam de outro emprego para se sustentar. Enquanto um atleta de wrestling inicia sua rotina de treinamento aos 5 ou 6 anos de idade, os atletas brasileiros normalmente começam a treinar jiu-jítsu na adolescência para praticar um esporte, sem enxergar a atividade como um meio de vida, ou até mesmo para fugir das ruas e das ofertas do mundo do crime. Esta diferença de visão e enfoque no início da carreira, onde se aprendem os fundamentos da luta, tem feito sido o fiel da balança.

Outra situação que ocorre com a arte suave é o desenvolvimento do jiu-jítsu esportivo, com foco na competição, deixando as raízes da arte marcial de lado. O sistema de vitórias por pontos faz com que as finalizações deixem de ser o objetivo único e que outros estilos de jogo sejam explorados. E isso faz uma grande diferença num esporte como o MMA.

O wrestling também trabalha com sistema de pontos, é verdade, mas o wrestler, quando migra para o MMA, sabe que as lutas começam em pé e que ele terá a vantagem de derrubar e não ser derrubado, ou seja, escolherá onde a luta vai transcorrer, visto que as quedas são fundamentais em sua modalidade de origem. Já o atleta de jiu-jítsu, que muitas vezes se acostumou a puxar para a guarda, viu suas habilidades de queda minguarem. Ele acumularia pontos por uma passagem de guarda numa competição de jiu-jítsu, mas ganha muito pouco pelo mesmo feito no MMA – isso quando o juiz sabe pontuar corretamente. Por outro lado, numa luta equilibrada, uma queda pode decidir um round e até mesmo uma luta.

É muito importante que essas questões sejam revistas pelas academias brasileiras, principalmente porque a cada dia que se passa, mais o MMA evolui e a diferença entre o amadorismo e o profissionalismo aumenta. Hoje, o atleta brasileiro se destaca principalmente em virtude do talento natural e o atleta do exterior pelo suor; entretanto, o cenário atual tem nos mostrado qual das duas virtudes leva vantagem no mundo dos esportes de alto rendimento.

Historiador e fã de lutas, conheceu o MMA através das lutas de Vitor Belfort, no UFC 12. Fanático por cinema, séries, literatura e Sylvester Stallone.