Se os lutadores do UFC realmente querem melhores condições, a hora é agora

Se os lutadores do UFC realmente querem melhores condições, a hora é agora
MMA

Depois de anos liderando o UFC com mão-de-ferro, Dana White começa a ver algumas estrelas se rebelarem. Tudo parecia sob controle até uma personalidade única entrar na discussão. As coisas podem mudar com Georges St. Pierre.

Apesar do forte crescimento, que aumentou bastante a popularidade de um esporte ainda muito novo e de natureza controversa, o MMA ainda sofre de dupla personalidade, da modalidade que atrai milhões e que paga pouco aos seus principais atores.

Recentemente o MMA Brasil publicou uma matéria falando da prática comum no cenário nacional de pagar bolsas com ingressos, fazendo com que lutadores tenham também que agir como vendedores em meio às suas preparações. Não é o ideal – na verdade está bem longe disso -, mas é o modo que promotores acharam para seguir com o esporte num país em que é extremamente difícil conseguir patrocínio sem precisar de leis de incentivo (e, até as utilizando, ainda não é fácil).

Também recentemente, José Aldo ameaçou entrar em litígio com o UFC solicitando a liberação de seu contrato. O motivo alegado é ter sido preterido por Nate Diaz e Eddie Alvarez, lutadores de outras categorias, para enfrentar Conor McGregor, a atual maior galinha-dos-ovos-de-ouro do UFC. Na ótica de Aldo, ele, como o campeão mais dominante da categoria que hoje é reinada por McGregor e como detentor do título interino, deveria ser o adversário do irlandês fazedor de dinheiro. Aldo está correto.

O ex-campeão linear dos penas é muito relevante no ponto de vista esportivo. Aldo foi o maior campeão da história da categoria e não é favor nenhum colocá-lo numa lista dos cinco maiores lutadores que o esporte já criou. Porém, sua personalidade introvertida e a falta de vontade de sair de casa fazem com que sua importância comercial seja parecida com a de campeões como Demetrious Johnson – fora a luta contra McGregor, Aldo só liderou um evento que tenha superado a barreira dos 300 mil pacotes no UFC 156, que contou com um card muito forte e uma luta principal contra um ex-campeão da categoria de cima. Mesmo assim passou por pouco dos 300 mil.

José Aldo manda as boas-vindas a Conor McGregor

Numa tentativa de melhorar sua condição comercial, José Aldo manda as boas-vindas a Conor McGregor

Ter alguém como José Aldo encampando uma disputa por melhores condições de trabalho é importante, mas, infelizmente, pouco. O brasileiro é um nome forte no meio do MMA, mas de limitada repercussão fora. Assim como o ex-campeão do peso médio Luke Rockhold, outro que andou reclamando de condições contratuais e ameaçando debandar para o Bellator, maior concorrente do UFC, seguindo os passos de Ben Henderson, Rory MacDonald, Phil Davis e outros. Depois que perdeu o título, em junho, Rockhold classificou como “dinheiro de bosta” a oferta do UFC por um novo contrato e que o adversário inicial oferecido era “abaixo de seu nível”. A organização melhorou a proposta e casou o ex-campeão contra Ronaldo Jacaré, num duelo com nuances de eliminatória para o título. Rockhold disse ao MMA Fighting que “a negociação andou em uma direção melhor, mas ainda há muito espaço para evoluir”.

No meio desse novo mar de insatisfações que começam a pulular contra o UFC, uma voz bem mais relevante em todos os aspectos se fez ouvir. Na última semana foi a vez de Georges St. Pierre solicitar a rescisão do contrato que ainda o prende ao UFC, mesmo estando fora de ação há quase três anos. O superastro canadense desde fevereiro tenta marcar uma luta para seu retorno ao octógono. Estranhamente, Dana White nunca se mostrou muito afeito à volta de um lutador tão importante na história de sua organização.

É verdade que não estamos mais em 2014, quando o UFC sofreu para comercializar pay-per-view, sua principal fonte de lucro. O ano de 2016 é o mais rentável da história da empresa, não só por ter sido vendida por mais de US$4 bilhões, mas por ter promovido alguns eventos que bateram a marca do milhão de pacotes vendidos, inclusive os dois eventos mais lucrativos de sua história. E, como o ano não acabou, essas marcas ainda podem cair no UFC 205, com McGregor, e no UFC 207, com o aguardado retorno de Ronda Rousey, os maiores vendedores da atualidade. Porém, dinheiro nunca é demais e acrescentar GSP nessa matemática financeira dava a impressão de win-win situation para o UFC. Impressão errada.

Não se sabe exatamente o que dificulta as negociações entre o superastro canadense e a organização. O que se sabe é que St. Pierre parou antes do famigerado contrato do UFC com a Reebok ter entrado em vigor e que ele tinha acabado de renovar contrato com uma rival, a Under Armour, que provavelmente paga os tubos para o único lutador da história do MMA a se tornar fenômeno comercial sem precisar de uma personalidade controversa ou sem se apoiar numa rivalidade acirrada. Randy Couture, Chuck Liddell, Tito Ortiz, Brock Lesnar, Rampage Jackson, Rashad Evans, Anderson Silva, Jon Jones, Conor McGregor ou Ronda Rousey, todos eles, que em algum momento lideraram eventos com vendas superiores a 800 mil pacotes, ou contavam com personalidade controversa ou com alguma rivalidade. Ou ambos. Igual a GSP, ninguém.

Mesmo diante de um fenômeno raro, que vende sem esforço, sem trash talking e sem turnês mundiais de promoção, Dana White não amoleceu. Em público, o presidente do UFC desdenha da real motivação de Georges voltar. Ora, se ele realmente não está com tanta vontade de voltar a lutar, por que estaria desde fevereiro tentando? Por que a imprensa internacional chegou a cogitá-lo no UFC 200, no UFC 205 e no UFC 206, em seu país natal? GSP teria virado egocêntrico?

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Não me parece o caso. Não foram poucas as vezes que St. Pierre disse que faltavam apenas detalhes para acertar sua volta. Ele chegou a clarificar a situação falando da cláusula UFC/Reebok, que impede que lutadores exibam outras marcas que não as de patrocinadores da organização. Deixando em entrelinhas, St. Pierre praticamente disse que, se for para perder rios de dinheiro da Under Armour, que ele precisaria de uma compensação, seja diretamente pelo UFC, seja via Reebok.

Acontece que não estamos mais em 2014 e Dana White não está mais passando a sacolinha atrás de um grande vendedor de pay-per-view para substituir a dupla GSP-Lesnar. Além disso, White sempre foi conhecido por “pesar a mão” nestes tipos de disputa, como Couture e Ortiz sentiram na pela.

Certa vez, o promotor Bob Arum disse que o boxe paga melhor que o UFC porque distribui melhor o dinheiro arrecadado por evento. O empresário disse que 80% vai para os lutadores e 20% para promoção, enquanto o UFC faz o contrário. Ainda que possamos supor que as porcentagens não sejam exatamente essas, não é difícil calcular que Arum, dono da Top Rank, não está errado, visto que empresa dele cuida dos interesses de Manny Pacquiao, o segundo lutador mais rentável da história. É fácil imaginar que Arum não paga as bolsas exorbitantes para Pacquiao sem levar o dele. E também não é difícil imaginar que a fatia dele é menor, pois haja venda de pay-per-view e captação de anunciantes para bancar os custos de uma promoção da estrela filipina.

Também não é difícil imaginar, vendo as bolsas garantidas dos lutadores, que o UFC fica com a maior parcela do arrecadado e distribui menos para aqueles que garantem o espetáculo em troca de terem seus corpos postos a situações extremas. E esta situação começou a incomodar algumas das principais estrelas. Aldo sozinho não tem força para esta briga. Rockhold também não. O ideal seria que Rousey e McGregor liderassem, mas as relações de troca com o UFC fazem com que este cenário seja praticamente impossível. Agora chegou Georges St. Pierre. Agora, Aldo, Rockhold e GSP, juntos, já são mais fortes. E já são capazes de reunir mais lutadores de ponta para brigar pelo que eles julgam ser justo. Porém, para isso, não podem olhar apenas para os respectivos rabos.

Se os lutadores do UFC realmente querem melhores condições, a hora é agora.

  • Patrick Bitencourt

    Entendo o seu ponto de vista e acho que os lutadores devem sim reivindicar algo de que julgam ser merecedores,seja um reajuste nas bolsas seja liberdade para negociar publicidade de forma autônoma,mas entendo que deve ser feito de forma individual,cada lutador expõe suas posições e negocia diretamente com a empresa. Se houver entendimento entre as partes que se celebre um novo rearranjo mas se não houver então que o lutador saia e migre para uma nova empresa,dessa forma outras franquias crescem,o livre mercado se fortalece e com o aumento da concorrência pelos atletas as bolsas tendem a subir. Na minha opinião o principal direito do trabalhador é vender sua força de trabalho pelo melhor preço,se não está satisfeito que tenha o direito de trabalhar por uma bolsa melhor ou um contrato de publicidade vantajoso.
    GSP não consegue fechar por algum motivo,seja bolsa ou publicidade, avalie a possibilidade de lutar em outro evento; Bellator, se o Rizin continuar tentar lutar no Japão, seria um passo importante para a quebra da hegemonia do UFC cujo domínio é tão grande que entre os entusiastas recentes há confusão entre esporte e empresa.

    • Marcos E

      Muitas vezes, a melhor forma do indivíduo atuar a seu próprio favor é atuando de maneira coletiva.

    • Se os lutadores tentarem resolver isso de modo individual, os mais famosos vão se dar bem e os menos vão continuar mal. Vai ser tipo os clubes brasileiros negociando contratos de TV independentemente. Flamengo e Corinthians conseguem fortunas e aumentam o desequilíbrio financeiro. Negociar diretamente com a empresa é tudo o que UFC (e CBF) quer, porque vai gastar menos.

      Sobre o livre mercado, isso já existe e não tem nada a ver com a tentativa de melhorar os ganhos, até porque o livre mercado é igualzinho, vai pagar mais pros mais famosos e os demais vão ganhar bem menos do que ganham no UFC. É fácil pra um GSP sair pro Bellator, mas não é pro Massaranduba.

      • Patrick Bitencourt

        Entendo seu raciocínio Alexandre, mas se lutadores são famosos e bons eles merecem receber mais por isso, ou não? Eu acho que todo mundo não pode ter tudo,entende, ou qual seria a lógica de treinar duro,aprimorar a técnica e ser um campeão se for para ganhar o mesmo que um lutador mediano?
        Se Flamengo e Corinthians recebem mais nos contratos de TV é porque devem ser os clubes mais populares e que atraem mais público, pelo menos eu acho.
        O livre mercado na verdade é a troca voluntária entre as pessoas, um lutador vende sua força de trabalho pela melhor bolsa oferecida; quanto mais eventos maiores as oportunidades de trabalho, maior a concorrência entre eles,maiores as bolsas,maior o lucro do lutador,seja ele uma estrela ou um porteiro. Em um mundo utópico o Massaranduba,o qual gosto muito, ganharia de forma semelhante ao GSP mas não no mundo real, não há possibilidade disso acontecer,sempre haverá um desequilíbrio financeiro entre as bolsas dos dois e isso não é injusto mas apenas um reflexo da realidade do GSP ser um monstro fisicamente,tecnicamente,estrategicamente,psicologicamente e o Massaranduba não.As pessoas estão dispostas a trocar seu dinheiro num pay per view do GSP não do Massaranduba,infelizmente é assim.
        Não vejo muita saída, talvez a quebra desse contrato de exclusividade com a Reebok que prejudica muito os atletas.E eu achava muito legal aquele monte de patrocinadores com camisas personalizadas,Affliction,Clinch Gear,Deathrone,American Fighter,Sinister… O lutador poderia procurar uma compensação financeira em relação as bolsas pagas.

        • Ranilson

          O pagamento para os atletas de veria mas justo, até entendo que os lutadores mas famosos merecem receber melhor, mas os outros lutadores merecem uma cota minima com um melhor valor , com certeza a fatia maior deve ser para os melhores, mas ou outros devem ficar com as fatias menores e não com as migalhas.

          • Patrick Bitencourt

            Compreendo seu pensamento Ranilson,vem ao encontro da igualdade e contra a desigualdade de bolsas.
            A desigualdade de rendimentos existe naturalmente em um livre mercado e sua causa está diretamente ligada ao mérito do trabalhador, nesse caso lutadores bons e/ou populares, ou então ao retorno que o trabalhador proporciona aos seus consumidores,nesse caso fãs de MMA, através das performances em suas apresentações. Particularmente nessa circunstância as duas situações estão ligadas.
            Se há uma tentativa de regulamentação do mercado como a criação de bolsas com um valor mínimo isso provavelmente fecharia postos de trabalho para lutadores que estão começando e aceitariam lutar por bolsas menores, entende isso? O mercado de lutas perderia espaço em função de cotas mínimas porque um evento que está iniciando poderia não ter fundos para pagar essa cota mínima; então você diminui o número de vagas de trabalho e paralelamente a chance de novos pequenos eventos surgirem,isso é ruim para todos mas principalmente para os lutadores. Esse é o âmago da questão,uma cota mínima que supostamente auxiliaria os lutadores na verdade prejudica-os, entende isso?
            Na minha opinião a melhor saída seria a livre concorrência entre um número cada vez maior de novos eventos, que com seu fortalecimento poderia disputar as estrelas e os lutadores iniciantes,aumentando as chances de trabalho e os valores das bolsas para todos mas a desigualdade de bolsas sempre existiria em função do que já elucidei anteriormente.

  • Lero

    Os novos donos nao pagaram US$4 bilhões para reduzir os seus lucros pagando mais para os lutadores.

    • Cara, não vai reduzir os lucros aumentando bolsas, até porque o UFC hoje dá ainda mais lucro.

      Além disso, mexe no contrato com a Reebok pra aumentar ainda mais os lucros, faz aquela porcaria vender na proporção que NBA e NFL vendem.

  • Marcos E

    O problema parece pontual, e é motivo de grande dor de cabeça para o UFC: Reebok. Quem está reclamando mais alto agora são os atletas que ganhavam mais dinheiro com patrocínio livre e tiveram uma perda com o contrato exclusivo da Reebok.

    O clima de reivindicação só está surgindo, porque se o lutador quer ganhar mais, ele só consegue reivindicar do UFC/Reebok. Não tem mais patrocinador nenhum para ir atrás, aí toda insatisfação fica sobre a organização mesmo.

    Lembro que antes do contrato com a Reebok, Roy Nelson já havia reclamado, falando alto na mídia que ganhava pouco do UFC . E a resposta do Dana White foi memorável, colocando a culpa no próprio atleta, dizendo algo como “se você fosse uma empresa, ia querer patrocinar um gordo barbudo? Roy Nelson não ganha mais, pois nenhuma empresa quer vincular sua imagem a um cara desses”. Ou seja, antigamente, o UFC falava que se o atleta queria ganhar mais, tinha que dar um jeito de cuidar da própria imagem e correr atrás de patrocinadores. Agora que só há um patrocinador – a Reebok – se o lutador quer ganhar mais, só tem como reinvidicar do UFC/Reebok. E o Dana White tem que segurar a onda.

    O curioso é que nem St. Pierre, nem Aldo parecem muito empolgados para lutar em outras organizações. Isso indica que o mercado ainda favorece muito a promoção do UFC. (Devemos lembrar que recentemente Will Brooks saiu do Bellator como campeão para lutar no UFC como um reles lutador normal e ganhar menos!) Por enquanto, o UFC tem um poder de negociação muito alto e parece que não vamos ver os lutadores se unindo contra esse quase monopólio. O próprio Aldo classificou outras organizações como “segunda divisão”, uma classificação pouco produtiva no meu ponto de vista. Assim, tudo indica que nada de novo vai acontecer tão cedo. O UFC deve continuar tratando porcamente seus atletas.

    • Essa resposta do Dana pro Nelson explica a política com Northcutt, VanZant. É bem preconceituoso.

      De resto, tem chance de ser por aí mesmo.

  • Anderson Cachapuz

    Estou digitando com os pés pois estou usando minhas mãos para aplaudir.
    Mais um texto mítico. Eu não teria feito melhor.

  • Anderson Cachapuz

    Estou digitando com os pés pois estou usando minhas mãos para aplaudir.
    Mais um texto mítico. Eu não teria feito melhor.

  • James sousa

    essas grandes estrelas deveriam se juntar pra tentar uma melhor condição salarial para todos e não pensar só em si

  • Saulo Henrique

    Quando certos amuletos cairem, e nao acharem a opção ideal , e os lutadores cada vez mais se unirem; e ver o poder que tem em mãos. .realmente história poderá ser feita. Muito difícil. .mas eu tenho fé.
    O.B.S : Dana é um babaca.