Scott Coker vai deixando o Bellator com cara de Strikeforce – e isto pode ser perigoso

Fim dos torneios, retorno do MMA feminino, mudança de matchmaker. O novo presidente do Bellator tem feito mudanças drásticas que deixam a organização muito parecida com o modelo que vigorava no Strikeforce. O problema é: Scott Coker ajudou a falir o Strikeforce. Teria ele aprendido com os erros passados?

A troca de Bjorn Rebney por Scott Coker como líder do Bellator vai além da simples substituição de nomes, trocando um sujeito de relacionamento complicado com alguns atletas por outro bem mais maleável, elogiado até por concorrentes como o UFC. O novo presidente da segunda maior organização do MMA mundial está liderando um processo de deixar a nova casa mais parecida dentro do possível com o Strikeforce, liga fundada por Coker em 1985 como uma organização de kickboxing e extinta em 2013.

Scott Coker estava longe do MMA desde que a Zuffa comprou o Strikeforce, fundado por ele em 1985 (Foto: Esther Lin/Forza LLC)

Scott Coker estava longe do MMA desde que a Zuffa comprou o Strikeforce, fundado por ele em 1985 (Foto: Esther Lin/Forza LLC)

A primeira mudança – e a mais drástica – afetou diretamente o modo como o Bellator era reconhecido no mundo do MMA. Os torneios, principal marca da organização, foram deixados de lado. Os que já estavam em vigor, como o dos leves, que terá Patricky Pitbull contra Marcin Held na decisão, serão completados, mas nenhum novo será iniciado. “Estamos empolgados em ter Scott Coker nos liderando na direção de transformar o formato da liga de baseado em torneios pelo modelo mais tradicional”, disse Kevin Kay, presidente da Spike TV, na época do anúncio do novo cabeça do Bellator.

Outra medida anunciada recentemente, mas bem mais previsível, foi o afastamento de Sam Kaplan como matchmaker. Em seu lugar foi contratado Rich Chou, que ocupava este posto no Strikeforce antes de a Zuffa comprar a organização e colocar Sean Shelby em seu lugar. Chou iniciou a carreira em 2004, no havaiano Rumble On The Rock, cujos donos eram os irmãos de BJ Penn. Rich entrou para a história por ter escalado um torneio de oito lutadores que agrupou ex e futuros campeões e desafiantes do UFC como Anderson Silva, Yushin Okami, Carlos Condit, Jake Shields, Dave Menne e Frank Trigg. Em seguida, Chou partiu para o EliteXC e acabou no Strikeforce quando este incorporou a massa falida daquele.

Rich Chou, novo matchmaker do Bellator, volta a trabalhar com Scott Coker desde que foi dispensado pela Zuffa do Strikeforce

Rich Chou, novo matchmaker do Bellator, volta a trabalhar com Scott Coker desde que foi dispensado pela Zuffa do Strikeforce

É inegável o talento do jovem Chou, atualmente com 35 anos. Porém, uma comparação com o trabalho de Kaplan é quase inviável, não só pela natureza diferente dos trabalhos entre escalar torneios durante três temporadas anuais, com lutas casadas que serviam como classificação para os GPs e como preenchimento de cards, e o formato tradicional que o Strikeforce usava. Além disso, é mais fácil montar cards mais fortes quando se há menos eventos por ano – Chou nunca precisou escalar mais de 16 numa temporada (somando os eventos regulares com a série Strikeforce Challengers), enquanto Kaplan nunca teve um ano com menos de 20 shows à exceção do primeiro, em 2009, com média de 25 anuais quando os Torneios de Verão foram implementados.

Usando o formato de lutas casadas, liderado pela competência e habilidade no relacionamento interpessoal de Chou, muito provavelmente o Bellator terá sucesso, pelo menos no âmbito de entreter os fãs. Ainda mais porque o processo de deixar o Bellator com a cara do Strikeforce está tão forte que Coker diminuirá o número de eventos dos 25 anuais atuais para… 15 ou 16! A ideia é promover um card por mês e mais três ou quatro eventos de grande porte, como foram os Bellator 106 e 120, mas sem o formato de pay-per-view. É uma receita com alta probabilidade de dar certo. E ainda que não dê, a mudança se justifica por trocar um sujeito (Kaplan) de atitudes controversas e relacionamento interpessoal tão ou mais difícil que o de Rebney por outro (Chou) mais maleável e bem visto pelos lutadores.

A “strikeforcezação” do Bellator continuou com o ressurgimento do MMA feminino. Rebney encerrou suas galerias mesmo tendo talento de sobra na divisão peso palha. Com o UFC investindo pesado nesta categoria, Coker reiniciou o trabalho com as mulheres pela divisão menos povoada e menos dotada de talentos, a peso pena. As primeiras contratações – Marloes Coenen e Julia Budd, números 2 e 3 do ranking mundial – foram bacanas, mas não há muito mais o que se extrair para montar um grupo competitivo. Cristiane Cyborg disse estar mais interessada em Ronda Rousey (em uma categoria abaixo) do que na nova divisão do Bellator (no seu peso). Então imagine uma categoria rasa e ainda sem sua maior estrela. Imagine os pesados do UFC sem Cain Velasquez e Junior Cigano.

Bellator MMA feminino

Deixar o Bellator com a cara do Strikeforce é, a princípio, uma boa notícia, visto que não foram poucos os eventos de ótimo nível que Coker promoveu em sua antiga organização. Alguns fãs ficarão tristes pelo fim dos torneios, é verdade, mas lembremos que era um formato bastante prejudicial para quem faz o espetáculo, os lutadores. Imagine você se preparar para enfrentar um oponente, viajar para lutar, voltar para casa (coloque aí uma rota Brasil – Estados Unidos – Brasil) para pegar outra luta em três ou quatro semanas, repetindo o procedimento novamente para a final, completando três lutas em 60 dias, com desgastantes viagens no meio. Não é fácil manter o nível e vários lutadores comemoraram o fim dos torneios. O próprio MMA Brasil já havia levantado este assunto.

Além disso, concorrência é fundamental, principalmente e especialmente para os consumidores (no caso do MMA, os fãs, hardcores ou casuais). Por mais que os fãs adorem o UFC, um monopólio seria ruim tanto para consumidores quanto para atletas. Portanto, o crescimento e estabelecimento do Bellator (e de outras ligas) é fundamental. Mas devemos acionar o alerta para um ponto: o modelo operacional de Coker levou o Strikeforce à falência exatamente quando a organização começou a incomodar o UFC.

Quando Coker anunciou as contratações de Fedor Emelianenko, Josh Barnett, Dan Henderson, Andrei Arlovski, Shinya Aoki, o retorno de Alistair Overeem, os fãs foram ao delírio. “O UFC voltará a ter concorrência”, disseram vários. Mas isso lembrava alguma coisa? Sim, o Affliction Entertainment, organização de MMA que foi criada pelo trio de ferro Tom Atencio (fundador da Affliction Clothing, uma das mais fortes marcas de fightwear), Oscar de la Hoya (superastro do boxe e um dos principais promotores da nobre arte) e Donald Trump (magnata com negócios em diversos ramos) para bater de frente com a turma de Dana White, contratou uma penca de estrelas (Fedor, Arlovski, Barnett, dentre outros) a peso de ouro, bem acima do mercado e faliu no terceiro evento. Coker repetiu a ideia no Strikeforce e também quebrou a organização.

Scott Coker ao lado de Fedor Emelianenko: a parceria que ajudou a popularizar e afundar o Strikeforce (Foto: Divulgação Showtime)

Scott Coker ao lado de Fedor Emelianenko: a parceria que ajudou a popularizar e afundar o Strikeforce (Foto: Divulgação Showtime)

É difícil para mim não imaginar que um novo cenário de terror possa se apresentar adiante. Coker foi atrás de Gina Carano com o intuito de atravessar as negociações da estrela com o UFC. Carano não luta há cinco anos e tem se dedicado à carreira de atriz de filmes de ação, o que lhe garante ordenados polpudos sem ter que tomar soco na cara da Cyborg. Por que diabos alguém largaria uma carreira por outra mais dura, com mais sofrimento? Por dinheiro, obviamente. Provavelmente este seja o principal impecilho para Dana White não ter feito cumprir o contrato que Carano tinha com o Strikeforce e que foi herdado pelo UFC. E não dá para negar que eu pensei na hora: “Olha o Coker querendo fazer da Gina o Fedor do Bellator”.

Para alívio de todos que gostam de MMA e não gostam de monopólios, o atual presidente do Bellator não terá carta branca para tomar decisões. Nada que Coker pense ou queira será concretizado sem o crivo da Viacom, gigantesco conglomerado de mídia e entretenimento com dinheiro suficiente para comprar não só o UFC, mas a Zuffa inteira. Como diz meu amigo Renato Rebelo, do ótimo Sexto Round, dinheiro não aceita desaforo – e Sumner Redstone não juntou patrimônio fazendo extravagâncias.

Cabe a todos nós torcer para que Coker-Viacom-Spike TV entrem em sinergia. Pelo bem do MMA.

  • Victor C

    Faz tempo que não comento nada por aqui mas dessa vez fui obrigado a deixar meus parabéns pelo excelente texto e reflexões.

    • Obrigado! E tenha a bondade de não demorar tanto pra voltar.

      • Victor C

        Visito o site praticamente todos os dias, só não tenho comentado muito pela falta de tempo mesmo. Parabéns pelo excelente trabalho.

  • Suruhito

    Ótimo texto Alexandre!Tanto para tirar interrogações e confabularmos outras!!

  • já perderam Eddie Alvarez pro UFC, seguindo nessa linha, vão deixar todos seus grandes nomes acabarem no UFC.

    • Ué, mas perder um único atleta (que estava em litígio há dois anos) representa uma linha?

      • Coker no SF vivia perdendo ( ou liberando ) seus grandes nomes pro UFC, se ele seguir esta linha no Bellator…

        • Ah sim, entendi. No caso do Alvarez, foi a melhor decisão. Não tem como manter na empresa um cara que não quer continuar.

  • Arthur

    Fico em dúvida, os grandes empresários dos eventos de MMA preferem ter os nomes grandes a revelar grandes talentos e construindo a carreira desses caras tornando eles no futuro grandes nomes reconhecidos.
    O grande problema é o imediatismo que os nomes grandes atraem, e a possibilidade de criar um grande nome.

    • A questão é ter os dois. Pra um evento ser realmente grande, ele precisa ter os dois.

  • Matheus

    no caso… o bellator vai extinguir o pay-per-view? se for isso é um passo pra trás pra tentar bater de frente a vera com o UFC

    • Acho que vai e acho que tá certo pro momento. Agora é hora de aproveitar a popularidade da Spike TV e se consolidar. Depois vai pro PPV sem medo.

  • Lucas

    Jason miller ta sendo contratado pra reforçar oq vc diz !!! Kkk

    • Ótimo apresentador de televisão, mas deve dar trabalho pra alguns pesos médios. Capaz até de arrumar um title shot no novo cenário do Bellator, com alguns adversários bem escolhidos.