Por Alexandre Matos | 14/01/2019 12:36

Qual atleta você conhece que conquistou mais títulos mundiais numa única prova individual? Teddy Riner tem 12 medalhas de ouro no judô, somando Mundial e Olimpíada. Kelly Slater venceu 11 vezes o circuito mundial de surfe. Michael Phelps tem dez nos 200m borboleta e nove nos 200m medley, contando Mundial, Olimpíada e Pan-Pacífico. Saori Yoshida papou 16 peças douradas no wrestling.

Não lembro de haver registro de alguém mais bem sucedido que a super heroína japonesa nos esportes de combate. Nem mesmo Aleksandr Karelin, a versão masculina de Yoshida, venceu tantas vezes. O monstro russo ganhou nove mundiais e foi tricampeão olímpico. Yoshida também levou três títulos olímpicos, mas abocanhou incríveis 13 campeonatos mundiais. Aleksandr foi derrotado duas vezes em sua carreira internacional, que começou em 1988 e terminou em 2000, com uma derrota surpreendente na final olímpica. Saori perdeu três combates internacionais, numa carreira que teve início em 2002 e teve o último capítulo em 2016, quando foi surpreendida na final olímpica.

Superar alguns números de Karelin, considerado um dos maiores atletas de todos os tempos, independentemente de modalidade, dá bem a ideia do que foi Saori Yoshida. Filha de um ex-wrestler e de uma tenista profissional, ela iniciou na luta olímpica aos 3 anos de idade, seguindo os passos também dos irmãos mais velhos. Numa família que odiava perder e, por isso, dava duro nos treinos, Yoshida levou o limite a um novo patamar.

Yoshida foi uma gigante de 1,57m de altura, competindo quase a vida toda na categoria até 55 quilos, enfileirando todos os Mundiais e Olimpíadas entre 2002 e 2013. Ela baixou para 53 quilos quando a United World Wrestling reorganizou as divisões de peso nos Jogos Olímpicos. Na nova categoria, a nipônica venceu os Mundiais de 2014 e 2015. Além da técnica extraclasse e da força, a principal característica que fez de Yoshida uma atleta tão dominante foi sua força mental.

Saori Yoshida:

“Em qualquer competição, não apenas no wrestling, há apenas um vencedor. Todo o restante é perdedor. Porém, ser um perdedor não necessariamente significa que a pessoa não é tão forte ou tão boa no que ela faz. O importante é que você treine com desejo real de vencer a qualquer custo, para se tornar melhor e mais forte, para competir desta maneira. Seus esforços nunca serão em vão, mesmo se você perder. A força alcançada por aqueles que dão tudo é a força que definitivamente vai contribuir para o seu futuro.”

Em 2016, Yoshida sofreu o revés mais dolorido de sua dourada carreira. Um golpe tão duro que tocou o coração de quem acompanhou as competições olímpicas na Arena Carioca 3, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Ainda que a final tenha coroado uma maravilhosa escalada da americana Helen Maroulis, foi difícil não se comover com as lágrimas da super atleta que mostrava que qualquer um pode ser batido. Quatro anos antes, elas haviam se encontrado na final do Mundial de Alberta, no Canadá, quando Yoshida venceu por encostamento no segundo round depois de abrir 6-0 no placar. No Mundial de Istambul, no ano anterior, elas se enfrentaram nas oitavas, com outra vitória da japonesa por encostamento.

A alegria da americana Helen Maroulis contrasta com a tristeza de Saori Yoshida na final olímpica de 2016. (Foto: REUTERS/Mariana Bazo)

A alegria da americana Helen Maroulis contrasta com a tristeza de Saori Yoshida na final olímpica de 2016. (Foto: REUTERS/Mariana Bazo)

Saori Yoshida:

“Eu aprendi algo extremamente significativo quando experimentei a maior decepção e frustração da minha vida na final feminina do wrestling na Rio-2016: foi o “eu não estou sozinha”. Ao experimentar esses sentimentos que só podem ser sentidos por alguém que perdeu, percebi que não estava fazendo as coisas e trabalhando duro sem ajuda alguma. Eu percebi que tinha sido capaz de fazer um esforço tão grande por causa das pessoas que estavam torcendo por mim, pelas minhas companheiras de equipe que treinam juntas todos os dias e minhas adversárias que eu enfrentei nas competições. Eu também entendi ainda mais profundamente a importância de respeitar essas pessoas ao meu redor.”

Seus títulos a tornaram a mais vitoriosa wrestler de todos os tempos – no masculino ou feminino. Sem competir desde os Jogos de 2016, Saori vinha treinando normalmente com a equipe nacional japonesa, a mais forte do mundo, dividindo seu tempo com o papel de uma das técnicas da equipe. Sob o comando de Yoshida, as japonesas conquistaram quatro ouros, uma prata e dois bronzes nas dez categorias femininas no Campeonato Mundial de Budapeste, em 2018, aumentando em um bronze o resultado do Mundial do ano anterior.

Ainda havia expectativa em ver Yoshida em ação pela última vez, diante de seus compatriotas, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Porém, ela decidiu que chegou a hora de dizer adeus em definitivo. No dia 8 de janeiro, Saori foi ao Twitter agradecer pela torcida, dizer que se dedicou ao wrestling por 33 anos trabalhando duramente e que era hora de parar.

Obrigado por tudo, GOAT.