Saffiedine carimba perna de Marquardt e toma o cinturão na despedida do Strikeforce

Cormier, Barnett, Mousasi e Jacaré não tiveram o menor trabalho para despachar seus oponentes. Roger Gracie e Adriano Martins vencem nas preliminares.

Depois de um punhado de lutas mal casadas, Tarec Saffiedine fez a festa no evento final do Strikeforce. O belga dominou o experiente Nate Marquardt por cinco rounds e tomou o cinturão dos meio-médios do americano na luta principal do Strikeforce: Marquardt vs Saffiedine.

O que se viu antes foi um festival de passeios quase constrangedores. Imediatamente antes do combate de fundo foi a vez de Daniel Cormier destruir Dion Staring. Mais fácil ainda foi a vitória de Josh Barnett sobre Nandor Guelmino com um katagatame da montada. Gegard Mousasi foi outro que ganhou dinheiro fácil ao finalizar Mike Kyle com um mata-leão. Abrindo o card principal, Ronaldo Jacaré mostrou que o grappling de Ed Herman não daria nem para a entrada e envergou seu braço com uma americana.

No card preliminar, Roger Gracie pegou Anthony Smith com um katagatame no segundo round e Adriano Martins estreou sob o comando da Zuffa vencendo Jorge Gurgel por decisão unânime.

Tarec Saffiedine (BEL) venceu Nathan Marquardt (EUA) por decisão unânime (48-47, 49-46, 49-46)

Tarec Saffiedine moeu a perna esquerda de Nate Marquardt (Foto: Dave Mandel/Sherdog.com)

Tarec Saffiedine moeu a perna esquerda de Nate Marquardt (Foto: Dave Mandel/Sherdog.com)

Saffiedine mostrou que a vida do campeão seria dura desde o primeiro round, ainda que o belga estivesse “sentindo” a luta. O americano viu que a troca de base, os chutes baixos e os contragolpes do desafiante estavam bem ajustados. Num destes contra-ataques rápidos, Marquardt chegou a ir a knockdown ao encostar os joelhos na lona. Saffiedine mostrou também bom controle no clinch, recurso usado nas duas ocasiões que Nate tentou pressioná-lo na trocação. Tarec saiu na frente com 10-9.

O americano voltou melhor no segundo round, quando aplicou uma queda no desafiante. Saffiedine conseguiu se levantar e levar o duelo para a grade. Lá, dominou o clinch, defendeu quedas e fez o árbitro “Big” John McCarthy separar a luta. A dura dieta de chutes baixos e contragolpes voltou a atormentar Marquardt. No round mais parelho do combate, Saffiedine levou ligeira vantagem por ter aplicado os melhores golpes e abriu 20-18.

A partir da terceira parcial, a vida ficou mais dura para Marquardt. Dura e dolorida. Os chutes na perna dianteira aplicados por Saffiedine passaram a entrar com frequência, deixando o membro do americano bastante avariado. Nate mudou a estratégia e buscou mais a luta agarrada, mas não teve capacidade de derrubar o desafiante. Quando a luta ficou na trocação, a maior parte dos golpes do campeão ficaram nos bloqueios de Tarec. O terceiro 10-9 fez Saffiedine cravar 30-27 na contagem do MMA Brasil.

Na plateia, Dan Henderson vibrava ao ver seu trabalho de clinch dar resultado com Saffiedine. Só um nocaute salvaria Marquardt quando os lutadores voltaram para o quarto round, com Saffiedine quicando e trocando a base e Nate arrastando a perna esquerda. Mostrando realmente ser um cara duro, Marquardt ainda conseguia colocar peso sobre a perna esquerda para golpear com potência. Não adiantou muito, já que a movimentação, as esquivas e os contragolpes de Saffiedine continuavam sendo acomapanhados de mais carimbadas na perna do campeão. Marquardt tentou mudar a base, mas viu que os golpes perderam potência. Voltou com a perna esquerda para frente e voltou a levar chutes ali.

O campeão já estava perdido, tentando entradas sem nexo e golpes sem sequência, que sempre eram respondidos por pelo menos três do belga (e um chute baixo, para não perder o costume). Marquardt passou a buscar o clinch, mas esta posição não era mais de interesse de Saffiedine. Mais um 10-9 para o desafiante, que chegou a 40-36.

Cansado, com o rosto ensanguentado, movimentando-se pouco, Marquardt mal conseguia levantar a guarda no último round. Saffiedine passou a variar os chutes, cravando a cabeça do campeão também com mais socos. O trabalho foi completado com um double-leg perfeito que deixou o campeão de costas no chão no minuto final. Saffiedine caiu na meia guarda e usou o ground and pound para tentar abrir espaço para encaixar um katagatame. Não conseguiu, mas nem precisava. A última buzina decretou o fim da luta, vencida pelo agora novo campeão Tarec Saffiedine por 50-45, na contagem extra-oficial do MMA Brasil.

Os juízes oficiais não concordaram com a nossa visão. Enquanto Don Turnage e Jim Lambert marcaram 49-46, Bobby Higdon viu um 48-47, todos a favor de Saffiedine, que estava visivelmente emocionado na entrevista pós-luta.

“Eu venho treinando muito forte por muito tempo. Meus chutes são uma de minhas melhores armas, eu os treinei bastante durante a preparação, isto fazia parte do meu plano de luta. É inacreditável. Não consigo acreditar que eu estou usando o cinturão agora. É irreal. Quero agradecer ao Strikeforce por ter estado ao meu lado por tanto tempo.”

Detalhe da perna de Nate Marquardt bastante machucada (Foto: Esther Lin/Strikeforce)

Detalhe da perna de Nate Marquardt bastante machucada (Foto: Esther Lin/Strikeforce)

Daniel Cormier (EUA) venceu Dion Staring (HOL) por nocaute técnico (4:02, R2)

Um dos lutadores mais falados do momento, Cormier precisava dar uma resposta para aqueles que achavam que o hype era exagerado. Em nove minutos de luta, Staring não conseguiu fazer nada além de se defender.

Chegou a ser engraçado ver Staring tentar derrubar um wrestler do gabarito de Cormier no começo da luta. Ao facilmente defender o ataque, o americano mostrou ele mesmo como se faz, levando o holandês para o solo e já caindo de guarda passada. Cormier então passou a exibir agilidade no solo: dando giros ininterruptos, passou para o crucifixo e de lá para a norte-sul. Como não conseguiu posicionar nenhuma das duas, tentou controlar as costas, aplicando socos na cabeça de Staring com a intenção de abrir espaço. Dion conseguiu se levantar, mas apenas para apanhar mais.

Cormier partiu para cima para nocautear o oponente. Disparou golpes potentes e novamente cinturou Staring e o lançou ao chão, com a guarda passada. No minuto final, nova queda. Cormier caiu montado e soltou o couro no rosto do holandês até o fim do round, fechado com um claro 10-8 a favor do americano.

Staring voltou para o segundo round pressionando Cormier, mas logo estava dominado contra a grade. O americano desistiu da posição e resolveu socar o oponente, que novamente encurtou e acabou derrubado. Daniel passou para a meia guarda, pegou as costas, montou e socou. Dion chegou a ficar em posição fetal, dando claros indícios que não tinha como escapar. Cormier continuou manipulando-o e batendo bastante até que finalmente o árbitro “Big” John McCarthy resolveu interromper.

Ao final do combate, na entrevista dentro do cage, Cormier mostrou como o serviço foi fácil.

“Eu fiz exatamente o que eu queria fazer. Eu queria usar o wrestling, trocar com ele um pouco e controlá-lo na luta de solo. Ele é um cara muito duro, aceitou vir aqui depois que vários negaram, depois que meu oponente original (Frank Mir) se machucou e teve que deixar o combate.”

Joshua Barnett (EUA) venceu Nandor Guelmino (AUT) por submissão com katagatame (2:11, R1)

Guelmino entrou no cage hexagonal sabendo que Barnett viria para derrubá-lo, mas o austríaco não durou em pé sequer vinte segundos. Nandor ainda tentou encaixar uma guilhotina, mas a diferença técnica não o deixaria ir muito longe.

O atropelamento seguiu com o americano tentando uma chave de perna, bem defendida por Nandor. Barnett então se levantou, cinturou o oponente e o levou novamente ao solo, desta vez caindo montado. Ao tentar o “upa” para escapar, Guelmino deu a brecha que Josh precisava. Da montada mesmo o americano encaixou o katagatame e deu fim ao combate.

Ao fim de mais uma apresentação de gala, Barnett não poderia ir embora sem suas frases de efeito.

“O Senhor das Doenças tentou me tirar da luta, lançando vírus em todo o meu camp. Eu não tive talvez dois dias bons de treino durante todo este camp. Isso serviu apenas para mostrar que, se você é um chutador de traseiros, se você é uma verdadeira máquina do mal, então mantenha sua mente reta e tire as pessoas. Você não fica sentado de viadagem, reclamando e lançando desculpas. Você vai lá e morre como um homem, ou deixa seu oponente morto e ergue-se vitorioso.”

Gegard Mousasi (ARM) venceu Mike Kyle por submissão com mata-leão (4:09, R1)

Coloque um pegador com técnica rudimentar contra um trocador de elite. O resultado será duro para o lutador mais grosseiro. Se o trocador de elite ainda for bom no chão…

Este foi o panorama deste combate. Com boas esquivas e trabalho de chutes baixos, Mousasi manteve-se a uma distância segura de uma eventual pedrada de Kyle. O armênio caçou o americano e conseguiu derrubá-lo com um double-leg. Mike não mais ficaria na posição vertical.

Alternando socos e cotoveladas no ground and pound, Gegard arrastou o oponente para a grade, passou para a meia guarda, montou e desceu a lenha. Assustado, Kyle deu as costas. Foi a senha para Mousasi encaixar um mata-leão e finalizar o duelo.

Na entrevista após a luta, Mousasi deu a entender que talvez esteja realmente de olho na divisão dos pesos médios numa provável migração para o UFC.

“Eu fui mais profissional, eu acho. Saí da minha zona de conforto e evoluí os treinos. Tenho que agradecer a todos os meus técnicos e amigos por terem me ajudado. Ele (Kyle) é um cara forte, é um peso pesado, e eu não precisei cortar muito peso para esta luta, talvez dois quilos. Ele é um cara forte, desejo a ele o melhor.”

Ronaldo Souza (BRA) venceu Edward Herman (EUA) por submissão com chave americana (3:10, R1)

Dana White devia ter mandado um teste mais duro para Jacaré. O brasileiro simplesmente fez o que quis com Herman e chega com moral no UFC.

Jacaré começou a luta levando o americano para a grade, mas não manteve a posição. Foi só um aquecimento para um movimento genial que viria a seguir. Na trocação no centro do cage, o brasileiro esquivou de um golpe e emendou o movimento com um double-leg perfeito. Herman caiu sem saber de onde veio a queda. O americano tentou uma chave de calcanhar, mas o ás do jiu-jítsu defendeu com facilidade.

Com a luta de volta ao centro, os lutadores trocaram alguns golpes, com vantagem para o brasileiro. Ao apertar Herman novamente contra a grade, Ronaldo aplicou outro belo double-leg, caindo de guarda passada. Dali para a transição para a chave americana foi um pulo. Com a kimura encaixada, Jacaré girou e deixou o braço do americano envergado. Herman foi obrigado a desistir para evitar problemas maiores.