Russos dominam Mundial de Wrestling liderados por Abdulrashid Sadulaev

Por Elias Freire | 26/09/2019 09:00

Reuniram-se na última semana os melhores wrestlers do planeta para o Mundial de Wrestling 2019 na capital do Cazaquistão, Nur-Sultan (que até esse ano era conhecida como Astana). Há algo de especial no torneio desse ano: é um mundial em ano pré-olímpico. Se há uma época em que os wrestlers mais tops estão perto de sua melhor forma, é agora e no ano olímpico. É como se fosse um ciclo para a maioria, o maior objetivo até as olímpiadas é ganhar o ouro no mundial e se estabelecer como o melhor wrestler do mundo em sua categoria. Mas a meta da vida deles é aquele quarto ano, o ano das Olimpíadas, é por esse motivo que esse ano é especial, lembrando que em 2020 as Olimpíadas acontecerão em Tóquio, Japão.

Como sempre, falarei sobre os resultados e farei algumas breves análises das 10 categorias de peso do estilo livre de wrestling, sendo 6 categorias olímpicas (57 kg, 65 kg, 74 kg, 86 kg, 97 kg e 125 kg) e 4 categorias não-olímpicas (61 kg, 70 kg, 79 kg e 92 kg).

A Rússia repetiu o feito de 2018 e foi campeã mais uma vez, conseguindo 5 medalhas de ouro, 1 de prata e 3 de bronze. Dos 5 campeões, 3 são da República do Daguestão, local de nascimento e criação do campeão dos leves do UFC, Khabib Nurmagomedov, e 2 são da Ossétia do Norte, outra república russa que também fica no Cáucaso Norte.

Iniciando pela categoria mais leve e peso olímpico, 57 kg, o russo daguestani Zaur Uguev confirmou o seu favoritismo e levou, pelo segundo ano consecutivo, o ouro. Uguev teve pela frente uma miríade de oponentes duros, vencendo Mahir Amiraslanov (campeão dos Jogos Europeus de 2019), Erdenebat Bekhbayar (Campeão dos Jogos Asiáticos de 2018, e medalhista em dois mundiais), Reza Atri (Campeão Asiático de 2019) e Kumar Ravi (venceu o campeão mundial Takahashi nas quartas, e levou o bronze no final). Na final, o russo teve pela frente o número 2 do ranking, o turco Suleyman Atli (Campeão europeu de 2019 e bronze no mundial do ano passado). Numa performance dominante, Uguev conseguiu a superioridade técnica e superou o turco por 13-3, destruindo o seu rival no segundo período da luta.

No peso até 61 kg, o veterano de 27 anos Beka Lomtadze, da Geórgia, finalmente conseguiu chegar no topo do pódio depois de ficar no “quase” em 2016, quando saiu daquele mundial com a medalha de prata. Lomtadze, para chegar a final, não teve um caminho dos mais difíceis, o oponente que mais deu trabalho a ele foi o americano Tyler Graff, 4x All-American e campeão pan-americano em 2017, o qual ele derrotou por 3-1. Na final veio o maior teste do georgiano, contra o favorito russo Magomedrasul Idrisov, campeão mundial sub-23 e atual campeão do precioso torneio Ivan Yarygin. Lomtadze não deu muitas chances a Idrisov e com 3 quedas superou o russo por 6-1.

Chegamos na categoria que é provavelmente a mais cheia de talentos do freestyle wrestling, com diversos favoritos, o peso até 65 kg. Se Lomtadze (o campeão da categoria anterior) tinha ficado no “quase” uma vez, o campeão desse ano da 65 kg, o russo daguestani Gadzhimurad Rashidov, tinha ficado no “quase” por dois anos consecutivos (em 2017 e 2018) na categoria de baixo, ao perder a final em ambas as oportunidades. Rashidov, dessa vez, não desperdiçou sua chance e levou o cinturão (sim, além da medalha de ouro, o campeão mundial ganha um cinturão). Não antes sem enfrentar campeões mundiais que somam nada mais, nada menos do que 4 medalhas de ouro! Três dessas são de titularidade do seu primeiro adversário no torneio, o azerbaijani Haji Aliyev. Com certa controvérsia na pontuação, principalmente por uma sequência ao final da luta, o russo superou Aliyev por 4-2 numa das lutas mais antecipadas do evento. Outro campeão mundial que Rashidov enfrentou foi o atual campeão Takuto Otoguro. Contra este, Rashidov não deixou dúvidas e o venceu sem muitas dificuldades. Antes de chegar a final, o daguestani ainda teve que passar pelo duríssimo russo radicado na Hungria Ismail Musukaev, superando-o por um placar muito apertado de 3-2. Ironicamente a final foi sua luta mais tranquila, contra o wrestler da casa, Daulet Niyazbekov. Com muita facilidade Rashidov o bateu por 11-0, superioridade técnica.

No peso não-olímpico de 70 kg, outro russo, dessa vez da Ossétia do Norte, foi campeão. David Baev, de 21 anos, até então campeão mundial júnior em 2017, mostrou-se uma força a ser reconhecida no final de 2018 ao vencer Magomed Kurbanaliev, campeão mundial em 2016 e atual campeão nacional russo na categoria até 74 kg, na final do torneio Alany na Rússia. Os oponentes que Baev teve que derrotar nesse mundial foram de grosso calibre, como Zurabi Iakobshivili (campeão mundial em 2017), Ikhtiyor Navruzov (medalhista de bronze olímpico e prata em mundial) e Magomedmurad Gadhziev (bronze esse ano e prata em 2017). Na final, o wrestler da Ossétia do Norte teve pela frente o atual campeão asiático Nurkozha Kaipanov, do Cazaquistão. Com duas quedas de 4 pontos (feet to back), que é uma coisa que você não vê todo dia, ainda mais numa final desse torneio, Baev conseguiu a superioridade técnica por 14-2 e conquistou seu primeiro título mundial entre os adultos.

Na próxima categoria, que rivaliza com a até 65 kg como a mais cheia de talentos, outro russo da Ossétia do Norte, Zaurbek Sidakov, defendeu seu título de 2018 e pelo segundo ano consecutivo conquistou o mundial no peso olímpico até 74 kg com vitórias contra oponentes magníficos. Para você ter uma ideia da força que Sidakov está se tornando, ele não perde desde janeiro de 2018 quando ficou em segundo lugar no Ivan Yarygin, desde então conquistou, nesta ordem, o mundial militar, o campeonato europeu, o nacional russo, o campeonato mundial, o Ivan Yarygin, a Copa do Mundo, os Jogos Europeus e agora o campeonato mundial novamente. Só para fazer parte do time russo desse ano, Sidakov teve que vencer o campeão nacional Kurbanaliev, o que não foi e nunca será tarefa fácil.

O maior feito de Sidakov, entretanto, é ter vencido pelo segundo ano consecutivo dois dos maiores wrestlers da atualidade para se tornar campeão, Jordan Burroughs e Frank Chamizo. O americano é pentacampeão mundial/olímpico e Chamizo é bicampeão mundial e medalhista de bronze olímpico. Ainda tem mais, Sidakov é o primeiro wrestler da história a vencer Burroughs mais de uma vez. O russo teve que tirar um coelho da cartola nos segundos finais para conseguir o step-out e vencer Burroughs nas semifinais para então enfrentar Chamizo na final, quando venceu o ítalo-cubano por 5-2. Mais um número surpreendente vindo de Sidakov, o russo conseguiu 14 quedas em 5 lutas no torneio.

Mais um bicampeão mundial saindo do evento esse ano, o americano Kyle Dake, tetracampeão da Divisão I da NCAA, confirmou o amplo favoritismo e consolidou ainda mais seu domínio na categoria até 79 kg. O peso estava bem esvaziado de talentos esse ano. O maior adversário do americano, o russo Akhmed Gadzhimagomedov, se encontra machucado. Ainda assim, Dake teve que enfrentar novamente na final o duro azerbaijani Jabrayil Hasanov, medalhista de bronze olímpico e duas vezes medalhista em mundiais. Dake fez o necessário para vencer Hasanov, sem se arriscar muito. Um dos maiores adversários de Burroughs nos EUA na categoria até 74 kg e o maior nêmesis do campeão mundial até 86 kg de 2018, David Taylor (que é considerado o melhor wrestler desse mesmo ano), é um mistério saber em qual categoria Kyle Dake focará na busca pelo sonho olímpico. Tudo leva a crer que a primeira opção será a escolhida.

“The Greatest”, como é conhecido o iraniano Hassan Yazdani, voltou a dominar a categoria até 86 kg com seu ritmo de luta insano, sempre para frente. Yazdani, campeão olímpico em 2016 na categoria até 74 kg e mundial em 2017 no peso até 86 kg, foi o wrestler mais dominante do mundial esse ano e acabou conquistando seu segundo título mundial (terceiro se contar as Olimpíadas). Em 4 lutas, conseguiu dois encostamentos e duas superioridades técnicas. Ou seja: atropelou seus adversários. Um dos encostamentos foi contra o duríssimo wrestler e campeão nacional russo desse ano Artur Naifonov, que acabou conquistando o bronze mais tarde. Infelizmente não teve um adversário na final, já que o indiano e um dos wrestlers mais jovens do mundial, Deepak Punia, se machucou em uma das lutas do torneio e não estava em condições para lutar a final. Vale lembrar que o seu maior adversário, que o venceu ano passado, o americano David Taylor, estava machucado e por causa disso não pôde participar do evento. Se Taylor for para as Olímpiadas ano que vem, essa possível luta entre os dois será uma das mais antecipadas de 2020.

Como não teve a final, e suas outras 4 lutas foram atropelamentos muito rápidos, deixo aqui os 4 vídeos das lutas de Yazdani, que somando não devem dar nem 10 minutos:

O quarto e último bicampeão mundial veio na categoria até 92 kg. Assim como Kyle Dake repetiu o feito de 2018, o americano J’den Cox, tricampeão da Divisão I da NCAA e medalhista de bronze olímpico, também ganhou o cinturão mundial pelo segundo ano consecutivo. Dake saiu sem ser pontuado em 2018, agora foi a vez de Cox conquistar essa façanha. O americano novamente teve que enfrentar um dos melhores wrestlers iranianos da atualidade, o atual campeão asiático e dos Jogos Asiáticos Alireza Karimi. Cox venceu o iraniano por 6-0, quedando-o lindamente nos primeiros segundos de luta com um knee tap, queda que deveria ter sido pontuada de 4 pontos (mas oficialmente foi dado 2).

Cox é um wrestler tremendamente talentoso, já tendo vencido Kyle Dake nas seletivas das Olimpíadas de 2016 e David Taylor nas seletivas do mundial de 2017. A dúvida paira se ele descerá para a categoria até 86 kg para as Olímpiadas, na qual ele já conquistou a medalha de bronze, ou subirá para a 97 kg. Na minha opinião a categoria de cima é mais complicada em termos de adversários por ter Snyder e Sadulaev (e talvez Sharifov, que já o venceu em duas oportunidades), mas ainda assim a categoria de baixo tem Taylor e Yazdani, e além disso Cox teria que cortar peso, portanto, escolhendo um ou outra, o americano terá um caminho cheio de pedras e espinhos até o sonhado ouro olímpico.

Abdulrashid Sadulaev, o maior/melhor wrestler do estilo livre da atualidade, conquistou o seu quinto título mundial/olímpico, empatando com Jordan Burroughs em número de medalhas de ouro. Detalhe: ele é bem mais novo que o americano.

Sadulaev é o que podemos chamar de lenda viva. Desde agosto de 2012 ele só perdeu 2 lutas, vencendo 118! Isso contra adversários dentre os mais gabaritados do mundo. A última luta que perdeu foi em agosto de 2017 contra Kyle Snyder, contra o qual ele já se vingou na final do mundial de 2018. O daguestani, que dominou a categoria até 86 kg de 2014 até 2016, vem dominando a categoria até 97 kg de 2018 até agora, conquistando o seu segundo título mundial nesse peso. Talvez a luta mais esperada do torneio esse ano era a trilogia entre Sadulaev e Snyder, para desempatar. Ninguém contava que o veterano campeão olímpico, campeão mundial e sempre duríssimo Sharif Sharifov fosse “colocar água no chopp” do pessoal. O azerbaijani daguestani Sharifov acabou vencendo Snyder na outra semifinal por 5-2, consolidando a ocorrência de outra trilogia (Sadulaev derrotou Sharifov nas Olimpíadas de 2016 e na final do campeonato europeu na categoria até 92 kg em 2018).

Como era de se esperar, mais uma vez Sadulaev superou Sharifov, derrotando-o por 4-0. Curiosidade que dos 4 wrestlers que estavam no pódio (1 ouro, 1 prata e 2 bronzes), 3 eram originários do Daguestão (Sharifov nasceu no Daguestão e Nurov da Macedônia do Norte também), outro medalhista de bronze era o americano Kyle Snyder.

Para finalizar, na categoria dos mamutes, até 125 kg, o georgiano Geno Petriashvili conseguiu o seu terceiro título mundial consecutivo, vencendo na final o seu arquirrival Taha Akgul, campeão olímpico e bicampeão mundial, o qual já tinha sido vítima de Petriahsvili no mundial de 2017 numa das finais mais emocionantes que já vi em minha vida. Com outra dose de emoção, o gigante georgiano conseguiu uma queda salvadora no final do combate para levar a medalha de ouro e o cinturão, empatando a luta em 6-6, mas vencendo no critério por ter sido o último a pontuar.

Taha Akgul venceu o mundial de 2014, de 2015 e as Olimpíadas de 2016, Petriashvili conquistou o mundial de 2017, o de 2018 e agora o de 2019. Nasce aí uma rivalidade gigante no esporte, com vitórias dos dois lados (Akgul venceu o georgiano no campeonato europeu desse ano) e lutas decididas nos detalhes. Assim como outras rivalidades que vimos aqui, essa também se culminará nas Olimpíadas de Tóquio de 2020.

E que venham as Olimpíadas! Empolgado para o wrestling em Tóquio 2020? Fale para nós!