Por João Gabriel Gelli | 28/07/2020 14:34

Jiri Prochazka e Khamzat Chimaev mal chegaram ao UFC, mas já se destacam nas categorias (Foto: UFC/Divulgação)

A pandemia do coronavírus tornou o calendário do UFC diferente. No meio desse contexto, a organização foi para a Yas Island, em Abu Dhabi, onde já tinha feito eventos anteriormente. Na chamada Ilha da Luta, a organização promoveu quatro eventos em cerca de duas semanas em julho.

A situação atípica no mundo tornou este momento difícil para que muitos tivessem oportunidades para treinar. Dessa forma, o ambiente ficou propício para que alguns lutadores estreassem no UFC ou consolidassem seus nomes. Vale ressaltar que, para muitos dos envolvidos nos cards desse mês, a preparação foi um grande problema. Diversos combates foram casados de última hora, protocolos de treinamento foram alterados e os cuidados tiveram que ser maiores para minimizar o contágio do COVID-19.

A lista a seguir traz atletas envolvidos no UFC 251, UFC Fight Island, UFC Fight Island 2 ou UFC Fight Island 3 que se destacaram e têm menos de três lutas na organização. Assim, o MMA Brasil reuniu seis desses nomes e algumas menções honrosas que o público deve ficar de olho para o futuro.

Jiri Prochazka (27-3-1, 1-0 UFC) – Meio-pesado – Chéquia – 27 anos

Revelações do UFC: 6 destaques da Ilha da Luta

Jiri Prochazka chegou ao UFC com o pé na porta (Foto: UFC/Divulgação)

O estreante mais renomado na Ilha da Luta foi Prochazka. Ele chegou ao UFC já com 30 lutas no cartel e o cinturão do RIZIN. Além disso, tinha vitórias sobre lutadores conhecidos como Fabio Maldonado, CB Dollaway, Satoshi Ishii e Vadim Nemkov. Com este currículo, foi logo colocado para enfrentar Volkan Oezdemir, ex-desafiante meio-pesado, em um teste robusto para a primeira aparição no octógono.

O duelo mostrou todo o atleticismo de Prochazka. Ele tem amplo poder de definição e velocidade nos golpes, que foram vantagens claras contra Oezdemir. Com um nocaute bruto, conquistou a primeira vitória no UFC, a mais importante da carreira e já se colocou no top 10 da categoria. Com as habilidades físicas acima da média da divisão, Jiri tem o potencial para se virar um top 5 e futuro desafiante. No entanto, precisa melhorar defensivamente tanto no wrestling quanto em pé para se consolidar nessa posição por um longo tempo.

Khamzat Chimaev (8-0, 2-0 UFC) – Meio-médio – Suécia – 26 anos

Khamzat Chimaev aplicou dois atropelos em menos de duas semanas (Foto: UFC/Divulgação)

Nenhum nome fora das disputas de cinturão desse mês teve uma ascensão tão meteórica quanto Chimaev. O sueco estreou no MMA em 2018 e fez boa parte da carreira no Brave CF. Lá foi inclusive casado em uma disputa de cinturão, cancelada por conta do coronavírus. Um dos alvos do projeto De Olho no Futuro do MMA Brasil para os meios-médios, ele chegou como substituto de última hora contra John Phillips em duelo no peso médio.

Contra Phillips, Khamzat teve um oponente sob medida para implementar seu estilo de wrestling intenso com ground and pound constante e pesado. Após conquistar a finalização no segundo round, pediu outro duelo o mais rápido possível e foi atendido. Dez dias depois estava enfrentando Rhys McKee, dessa vez como meio-médio, sua categoria de fato. Novamente venceu sem dificuldades, com um nocaute ainda na primeira parcial. Isto marcou o menor intervalo entre vitórias na história do UFC sem ser em torneios de uma noite. Como se não bastasse, ainda pediu mais uma luta para o meio de agosto.

A grande cilada quando se trata de Chimaev está no fato de que ainda é um lutador com cerca de dois anos de carreira. Ainda é jovem, está em seu auge atlético e tem muito espaço para evoluir e se tornar um futuro desafiante. O arsenal técnico e abordagem já são bem definidos com o wrestling e o grappling. Todavia, ainda precisa mostrar a capacidade de lidar com o fato de ver suas quedas paradas quando enfrentar concorrência melhor. Ele ainda não é totalmente confortável na luta em pé, embora tenha um nocaute brutal sobre Ikram Aliskerov no cartel. Assim, é preciso ter calma com o sueco, deixar ele evoluir gradualmente, oferecendo desafios mais difíceis aos poucos. Caso seja bem trabalhado, o futuro será brilhante.

Lerone Murphy (9-0-1, 1-0-1 UFC) – Pena – Inglaterra – 29 anos

Lerone Murphy vem se destacando desde que chegou ao UFC (Foto: Divulgação/UFC)

Murphy fez carreira no cenário regional britânico. Nele, enfrentou concorrência de qualidade muito duvidosa, principalmente no começo da trajetória. Ele chegou ao UFC em luta contra Zubaira Tukhugov. Nela, sofreu um rápido knockdown, perdeu o primeiro assalto, mas se recuperou, vencendo os dois últimos. No fim das contas, saiu com um empate e deixou boa impressão.

Já a luta mais recente veio contra a promessa brasileira Ricardo Carcacinha. Nela, aproveitou um golpe telegrafado, botou o combate no chão e conquistou o nocaute no ground and pound. Com um começo positivo no UFC, Lerone se colocou como um lutador versátil, que pode definir a luta em qualquer fase. Também se mostrou atlético e bem condicionado. Falta ainda alguma evolução no wrestling defensivo, mas já tem um bom caminho percorrido. Com isso, pode ser mais um ativo interessante no peso pena.

Movsar Evloev (13-0, 3-0 UFC) – Pena – Rússia – 26 anos

Movsar Evloev (Foto: Divulgação/UFC)

Campeão do M-1 Challenge no peso galo, Evloev migrou para o UFC após duas defesas na organização russa. No cenário regional, se mostrava um lutador atlético, com ótima habilidade de encadear tentativas de queda. O grande forte estava no wrestling, com um certo caminho a percorrer na trocação. Ao chegar no UFC, Movsar decidiu subir para os penas. Na nova divisão, encarou um corte de peso mais tranquilo, mas ainda mostrou a capacidade de arrastar os adversários para o chão.

Na estreia, superou Seung Woo Choi com facilidade. Em seguida, a concorrência ficou mais qualificada, mas Evloev mostrou outras facetas. Com mais dificuldades para impor o wrestling, o russo precisou exibir evolução na luta em pé. Ele foi bem sucedido nessa tarefa, principalmente com um jab bem alinhado. Esta característica continuou com grande relevância diante de Mike Grundy, seu último adversário. Sem ter a vantagem física, Movsar não conseguiu quedas e ainda foi derrubado seis vezes. Contudo, levantou rapidamente e foi cirúrgico ao golpear da longa distância e vencer o duelo de forma clara.

Os últimos combates podem trazer a conclusão de que Evloev talvez tenha dificuldades contra adversários mais fortes. Isto é um problema considerando os lutadores que ocupam o topo da divisão dos penas. Mesmo assim, o russo demonstra qualidades em todas as valências e melhorias marcantes em pontos fracos. Com isso, tem amplas condições de chegar ao top 15 e lá ficar por muito tempo, como um atleta muito relevante no UFC.

Arman Tsarukyan (15-2, 2-1 UFC) – Leve – Armênia – 23 anos

Arman Tsarukyan (Foto: UFC/Divulgação)

Mais uma cria do cenário regional russo, Tsarukyan fez sua carreira em eventos de porte menor, como o MFP. Neles, enfrentou alguns nomes conhecidos e concorrência qualificada para o nível em que estava. Com um cartel de 13-1, foi chamado para encarar Islam Makhachev logo em sua estreia. Com um desafio encardido nas mãos, o armênio saiu derrotado em uma decisão competitiva. O duelo foi muito animado na disputa de wrestling e acabou bonificado como o melhor do evento.

O desempenho fez com que Arman ficasse com o nome marcado na memória dos fãs hardcore. A seguir, enfrentou Olivier Aubin-Mercier e venceu por decisão. Em seu compromisso mais recente, superou Davi Ramos com uma boa demonstração na luta em pé e ainda algumas quedas. Com um arsenal completo e apenas 23 anos, Tsarukyan tem muito potencial. Taticamente ainda precisa de algum refino e pode escolher melhor os golpes, mas as fundações de um lutador de alto nível estão lá. Por isso, será muito surpreendente se não habitar o top 15 do peso leve por algum tempo. Isso se não alçar voos ainda maiores.

Rafael Fiziev (8-1, 2-1 UFC) – Leve – Quirguistão – 27 anos

Rafael Fiziev faz seu nome no UFC (Foto: UFC/Divulgação)

Atleta do muay thai, Fiziev fez uma longa carreira no esporte na Tailândia. Este fato está muito presente em seu jogo no MMA, com a habilidade no clinch, joelhadas violentas e chutes potentes. O quirguiz teve uma trajetória que passou por ROAD FC e Titan FC até chegar no UFC. Na estreia pela maior organização de MMA do mundo, Rafael sofreu ao ser escalado contra Magomed Mustafaev. Diante de um dos lutadores mais explosivos do peso leve, foi vítima de um nocaute rápido com um lindo chute rodado.

Com o hype mais baixo, ele se recuperou com um triunfo tranquilo sobre o fraco Alex White. Já no último duelo, teve outro adversário muito atlético em Marc Diakiese. No entanto, Fiziev conseguiu se mostrar muito mais preparado e aplicou uma surra. A vitória ficou marcada por uma série de caneladas violentas no tronco e nas pernas, além de algumas quedas. Este resultado fez com que ele voltasse ao radar e se mostrasse uma possível ameaça na categoria dos leves. Caso a defesa de quedas se mostre resistente, pode ser mais um ótimo nome na selva do peso leve, pronto para testar alguns incautos.

Menções Honrosas

Nesta seção serão enumerados alguns atletas que ainda estão no começo da trajetória no UFC, mas não se encaixaram nos critérios do texto. Os motivos são variados. O lutador pode já ser um pouco mais consolidado na organização ou então ter um questionamento forte quanto ao seu teto. De qualquer forma, mereciam ter seus nomes citados.

Amanda Ribas (10-1, 4-0 UFC) – A brasileira já estava com um nome em ascensão após superar Mackenzie Dern e vencer outro bom teste contra Randa Markos. Após o atropelo sobre Paige VanZant, mostrou novamente muito carisma e um ótimo inglês para acompanhar a habilidade, tornando-a uma potencial estrela.

Askar Askarov (12-0-1, 2-0-1 UFC) – Ex-campeão do ACB, já estava no top 10 antes da vitória no duelo contra Alexandre Pantoja. Agora, se encontra potencialmente a um triunfo de disputar o título do peso mosca.

Grant Dawson (16-1, 4-0 UFC) – Contratado no Contender Series em 2017, fez sua quarta vítima no octógono ao superar Nad Narimani. Ele tem um jogo forte de pressão e wrestling, mas é um tanto lento e desleixado em pé. Assim, não parece ter muito espaço para alcançar um nível muito mais alto.

Amir Albazi (13-1, 1-0 UFC) – Estreou no UFC após passagem pelo Brave CF e Bellator. A única derrota da carreira veio para o ex-UFC Jose Torres. Tem um jogo dinâmico e que pode ser um ativo de qualidade em um peso mosca que precisa de mais nomes.

Jack Shore (13-0, 2-0 UFC) – Campeão dos galos do Cage Warriors, não enfrentou concorrência das mais desafiadoras ainda no UFC. Finalizou Nohelin Hernandez e Aaron Phillips, ambos por mata-leão. Ele é um grappler de qualidade, mas que pode sofrer quando enfrentar outros que possam mitigar esta qualidade.