Retrospectiva 2015 no boxe: o ano da maior luta de todos os tempos e da ascensão e queda de astros

A nobre arte viveu grandes momentos em 2015, quando viu a maior luta de todos os tempos, um novo rei chegar ao trono, uma categoria histórica renascer, uma dos maiores lendas cair e o boxe brasileiro reagir.

Mais um ano chega ao fim e o esporte que existe há alguns séculos vai mostrando que tem força para outros. Dentre os principais destaques de 2015 na nobre arte, uma categoria renascida, um mito caindo, outro parando, novas estrelas surgindo, o boxe brasileiro respondendo e o principal, a maior luta de todos os tempos.

Com cinco anos de atraso, finalmente os empresários e os canais HBO e Showtime conseguiram colocar num mesmo ringue os dois maiores astros do século. Mesmo depois de tanto tempo que a luta deveria ter acontecido (a Ring Magazine decretou a falha em fazer a luta em 2010 como o acontecimento daquele ano), Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao atraíram interesse sem precedentes para o super combate que aconteceu no dia 2 de maio, na MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas.

Na época, organizações esportivas evitaram o confronto direto no horário do combate. Não era para menos: #MayPac atraiu mais de 600 jornalistas para a cobertura, lotou o ginásio com mais de 18.000 torcedores, que produziram renda astronômica de cerca de US$72 milhões, superando a renda do último Super Bowl e dizimando o recorde anterior do boxe (US$20 milhões para Mayweather-Canelo). Nos números de pay-per-view, mais recordes massacrados, com 4,6 milhões de pacotes vendidos (contra 2,5 de Mayweather-De La Hoya) e US$410 milhões arrecadados (contra US$150 milhões de Mayweather-Canelo). A procura foi tão intensa que levou os sistemas de venda das operadoras americanas ao colapso (não foi possível estimar quantos pacotes teriam sido vendidos sem os problemas). A HBO anunciou que #MayPac foi a maior busca por pay-per-views de sua história. Nas Filipinas, 48% dos lares do país estavam sintonizados na luta, que foi transmitida por um pool entre as três maiores emissoras da nação.

Com números dessa magnitude, a relação expectativa-realidade ficou bastante afetada. Mesmo a luta tendo sido transcorrida do modo que a grande maioria dos especialistas previram – a maestria defensiva de Mayweather dando conta do ímpeto ofensivo de Pacquiao – os fãs ficaram furiosos com o que viram sobre o ringue, acusando o americano de evitar a luta e o filipino de atuar mais travado. Bem, Floyd foi o Floyd de sempre. Já Pacquiao lutou com uma séria lesão no ombro, o que inclusive lhe causou problemas posteriores, por ter escondido o fato da Comissão Atlética de Nevada – Manny e a Top Ranking foram ameaçados de sofrer processo judicial. Mayweather também se enrolou com a NAC, que descobriu que ele fez reidratação com soro intravenoso, o que estava proibido no sancionamento da luta. O astro teve que provar que a USADA, principal órgão de controle antidoping dos Estados Unidos, havia dado autorização para o procedimento, o que inclusive fez surgir críticas quanto a idoneidade da USADA.

Cena recorrente da luta: direita de Floyd Mayweather explode no rosto de Manny Pacquiao (Foto: Associated Press)

Cena recorrente da luta: direita de Floyd Mayweather explode no rosto de Manny Pacquiao (Foto: Associated Press)

No fim das contas, Mayweather venceu por decisão unânime, com dois juízes marcando 116-112, mesmo placar anotado pelo MMA Brasil, enquanto o terceiro deu 118-110. Pacquiao se irritou, muitos fãs pouco acostumados com o boxe reclamaram do resultado, mas a marcação seguiu corretamente. Relembre nossa cobertura especial aqui.

Román González: o boxe tem um novo rei

Mayweather anunciou sua aposentadoria quatro meses depois do combate contra Pacquiao. Ele venceu Andre Berto na sexta e última luta de seu contrato com a Showtime e saiu de cena com pouco mais de 500 mil pacotes de pay-per-view vendidos, uma marca irrisória para sua carreira – acredita-se que #MayPac tenha afetado o faturamento de todos os outros pay-per-views do ano, como veremos mais à frente nesta matéria.

Como diz o ditado, “rei morto, rei posto”. Com a aposentadoria do número um peso por peso, o boxe rapidamente viu o novo rei surgir. O pequenino nicaraguense Román González, o “Chocolatito”, manteve o cinturão do Conselho Mundial de Boxe (WBC) em 2015 ao passar o carro em Valentin Leon (em fevereiro), Édgar Sosa (duas semanas depois de #MayPac) e Brian Viloria (um mês após a aposentadoria de Mayweather).

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Apesar de ser peso mosca, categoria que não atrai interesse popular, González é uma máquina de boxear. Invicto em 44 lutas, todas vitoriosas, ele anotou 38 nocautes, incluindo os três de 2015 e foi o responsável por trazer a divisão de volta à HBO depois de mais de 20 anos. Além dos punhos pesados e muito rápidos, González tem na movimentação o ponto mais bonito de seu jogo. Com um senso de equilíbrio incomum e noção privilegiada do espaço físico, ele traça rotas com economia de movimentos, mas sempre visando o encontro no ponto futuro contra o adversário.

A expectativa para 2016 é grande em cima de Chocolatito. Uma unificação contra o filipino Donnie Nietes (37-1-4), campeão mundial da categoria de baixo pela WBO, finalmente pode sair, depois de ter sido evitada pelo asiático quando eles eram peso mínimo e minimosca (onde Nietes reina atualmente).

GGG, Canelo, Jacobs: O ano do ressurgimento dos pesos médios

O peso médio é uma das categorias mais importantes da história do boxe. Foi nela que Bob Fitzsimmons deu o primeiro passo para se tornar o primeiro campeão mundial em três categorias diferentes, na última década do século XIX. Também foi nos médios que Sugar Ray Robinson, o maior de todos os tempos, conquistou o cinturão mundial cinco vezes na década de 1950. Foi nela que o “Marvelous” Marvin Hagler bateu Thomas Hearns numa das mais sensacionais lutas que o boxe já viu. Para completar, a divisão viu mitos como Sugar Ray Leonard, Roberto “Manos de Piedra” Durán, Bernard Hopkins, Jake LaMotta, Carlos Monzón, dentre outros.

Nada mais justo que uma categoria com história tão rica voltasse aos holofotes. Isso aconteceu em 2015. O principal pilar foi o destruidor cazaque Gennady Golovkin, que passou o ano fazendo o que mais sabe: surrando gente. GGG espancou Martin Murray, pisoteou em Willie Monroe Jr. e aniquilou David Lemieux em 2015, chegando ao 21º nocaute consecutivo e superando o recorde de 15 defesas seguidas de Monzón. Golovkin se tornou uma das estrelas da HBO e passou a ser visto como a principal atração do boxe mundial, “aquele que entrega a violência que Mayweather não conseguia”.

Gennady Golovkin puniu duramente David Lemieux na unificação dos cinturões do peso médio no Madison Square Garden (Foto: Al Bello/Getty Images)

Gennady Golovkin puniu duramente David Lemieux na unificação dos cinturões do peso médio, no Madison Square Garden (Foto: Al Bello/Getty Images)

A segunda luta mais comentada de 2015 aconteceu no peso médio. Miguel Cotto colocou o cinturão do WBC em jogo contra Canelo Álvarez, em mais um capítulo da maior rivalidade da história do boxe. Aliás, o portorriquenho nem chegou a defender seu cinturão contra o mexicano, pois o WBC ridiculamente o destituiu quatro dias antes da luta alegando que Cotto não cumpriu a regulamentação da entidade, o que significa ter que pagar a absurda taxa de US$300 mil.

Canelo, que havia nocauteado o irmão mais velho de Cotto em 2010, venceu por decisão unânime em uma das mais movimentadas lutas deste ano, no dia 21 de novembro, exatos 28 anos depois que a lenda mexicana Julio Cesar Chávez venceu o portorriquenho Edwin Rosario na mesma Las Vegas. Cotto-Canelo vendeu pouco mais de 900 mil pacotes de pay-per-view, um número mais modesto do que era esperado, muito provavelmente sofrendo impacto negativo de #MayPac – há uma corrente nos Estados Unidos que defende que muitos que morreram em US$100 na “luta do século” não se empolgou mais em gastar seu suado dinheiro no boxe. Esperamos que isso seja revertido em 2016, com a probabilidade do incrível encontro entre Canelo e Golovkin acontecer.

Correndo por fora, Daniel Jacobs também ajudou a colocar a categoria de volta ao radar. O “Miracle Man” colocou o cinturão da WBA em jogo três vezes em 2015, vencendo todas por nocaute. Porém, nenhuma foi mais impressionante do que a última. Contra o ex-campeão Peter Quillin, que ainda estava invicto (perdeu o cinturão quando empatou com Andy Lee sem bater o peso), Jacobs mostrou fúria incontrolável e espancou o “Kid Chocolate” em 85 segundos, conseguindo um nocaute técnico tão incrível que sequer precisou mandar o rival a knockdown para fazer o árbitro Harvey Dock corretamente decretar o fim do espancamento.

Daniel Jacobs largou a mão impiedosamente sobre o ex-campeão Peter Quillin

Daniel Jacobs largou a mão impiedosamente sobre o ex-campeão Peter Quillin

Imagine o cenário para 2016: GGG e Canelo superam a marca do milhão de pay-per-views no primeiro semestre, fazendo o vencedor reinar no imaginário popular. Em paralelo, Jacobs unifica os títulos da WBA e WBO contra o invicto inglês Billy Joe Saunders, para os vencedores (provavelmente Golovkin e Jacobs) fazerem um duelo de nitroglicerina pura no segundo semestre.

Wladimir Klitschko: cai um mito

Campeão mundial de modo consecutivo desde 2006. Invicto desde 2004. O peso pesado que mais venceu lutadores invictos em todos os tempos. O segundo campeão com reinado mais longo na história do boxe e com o total de defesas de cinturão acumuladas. O terceiro com o maior número de defesas consecutivas. Tudo isso caiu no dia em que Wladimir Klitschko, um dos maiores pesos pesados de todos os tempos, superou o lendário Joe Louis no recorde de lutas valendo título mundial.

O ucraniano disputou seu 28º compromisso com um título mundial em jogo no dia 28 de novembro, depois de adiar o confronto com o inglês Tyson Fury por um mês devido a uma lesão na panturrilha. Klitschko era largamente favorito, apesar da invencibilidade e dos 12 anos a menos de Fury. No ringue, Wlad não foi sombra do lutador que reinou com mãos de ferro na divisão mais nobre do boxe.

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Fora um ou outro momento, Klitschko não conseguiu conectar seu temido direto de direita. O jab, melhor ferramenta da categoria, não deu conta da maior envergadura de Fury(*) e a movimentação do ucraniano não foi suficiente para tirar o desafiante da zona de conforto. Como Tyson também teve uma atuação abaixo da média, a luta foi tecnicamente fraca, com raros momentos de emoção. O britânico, que fez o camp com Rico Verhoeven, campeão dos pesados do GLORY Kickboxing, recebeu pontuações de 115-112, 115-112 e 116-111 dos juízes oficiais e, com merecimento, levou os títulos da WBA, WBO, IBF, IBO e Ring para Manchester.

Em mais uma das palhaçadas infelizmente comuns no boxe, o reinado de Fury pela IBF durou apenas 10 dias. A entidade cassou o título do lutador por causa de um ponto no contrato da luta com Klitschko. O acordo previa revanche imediata em caso de derrota do ucraniano e a IBF exige que Fury faça a primeira defesa contra o desconhecido desafiante mandatório Vyacheslav Glazkov. Para sorte dos fãs, Fury não deu a mínima bola para a IBF, já que vencer Klitschko era suficientemente maior do que qualquer peça de ouro e couro. A revanche imediata é aguardada para o primeiro semestre de 2016, provavelmente no Old Trafford, estádio do Manchester United, que deverá receber lotação máxima dos seus 75 mil assentos.

(*) Diferentemente do que foi dito por alguns, Fury não foi o primeiro adversário de Klitschko a superá-lo na envergadura. Bryant Jennings, desafiante anterior, tinha três polegadas de vantagem sobre Wlad. Também tinham maior alcance o polonês Mariusz Wach e o americano Tony Thompson, apenas para ficar entre os sete mais recentes adversários de Wladimir Klitschko.

Vasyl Lomachenko e Félix Verdejo: ex-rivais, as próximas estrelas

Esportes vivem da produção de astros e da substituição deles. Apesar de existirem viúvas para todo lado, o ideal seria curtir LeBron James depois de Michael Jordan, Lionel Messi no mundo pós-Pelé ou Tom Brady após Joe Montana. O mesmo vale com o boxe, que sobreviveu às aposentadorias de Sugar Ray Robinson, Joe Louis, Muhammad Ali e certamente o fará com a saída de cena de Mayweather.

Candidatos a ocupar o posto se apresentam pelo mundo. Os já citados Golovkin e Canelo têm suas popularidades em ascensão. E mesmo o mexicano, que ainda é jovem (25 anos), já vê a chegada de mais dois fortes candidatos, um deles com menos idade.

O ucraniano Vasyl Lomachenko, 27 anos, demorou muito para trocar a carreira amadora pelo profissionalismo. Bicampeão olímpico, com cartel monstruoso de 396-1 no amador, o “Hi-Tech” era muito aguardado pelos profissionais. O empresário Bob Arum não perdeu tempo, colocando-o numa disputa de cinturão contra o experiente Orlando Salido já em sua segunda luta. A derrota foi benéfica para Lomachenko, que aprendeu muito com o jogo sujo do mexicano. Como resultado, o ucraniano, um dos mais técnicos lutadores em atividade, mostra um boxe cada vez mais sólido e já vem sendo colocado diante de audiências enormes – ele fez a luta coprincipal de #MayPac e de Timothy Bradley vs Brandon Ríos, outra programação de alto perfil de 2015.

Durante a lendária carreira amadora de Lomachenko, um oponente foi apontado pelo próprio como o mais duro que ele enfrentou. Não foi Albert Selimov, o único que o venceu. Lomachenko falou do portorriquenho Félix Verdejo. Eles se enfrentaram nas quartas de final dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e o então jovem de 19 anos chamou muita atenção do já consagrado europeu.

Vasyl Lomachenko acerta Félix Verdejo durante as Olimpíadas de Londres

Vasyl Lomachenko acerta Félix Verdejo durante as Olimpíadas de Londres

Três anos depois, Verdejo é contratado pela mesma Top Rank que empresaria Lomachenko. Eles não estão mais na mesma categoria (Vasyl é peso pena e Félix é leve), mas seguem o mesmo caminho rumo ao estrelato. “El Diamante”, campeão da WBO Latino, é capaz de dar shows de técnica, tem punhos pesados (14 nocautes em 19 lutas, todas vitoriosas) e o principal, é um garoto muito carismático, preparado para a TV. Se não é tão talentoso quanto Lomachenko – poucos são -, Verdejo compensa com o plus comercial, tão importante quanto a habilidade de socar e não ser socado.

Esquiva, Yamaguchi, Patrick: o boxe brasileiro segue vivo

Você é um daqueles que não curte esporte, só curte vencer? Bem, por mais que nós no MMA Brasil façamos tudo para mudar esse pensamento, ele é reinante no nosso país. Por este motivo, o boxe caiu em popularidade desde que Acelino Popó parou e a Globo desistiu do esporte. Parece que seus problemas estão perto de acabar.

Uma dupla de irmãos capixabas, medalhistas olímpicos em Londres, são as principais esperanças de grandes resultados profissionais. O supermeio-médio Esquiva Falcão e seu irmão, o meio-pesado Yamaguchi Falcão, tiveram anos cheios em 2015. Esquiva venceu as cinco lutas que fez, quatro delas por nocaute, e chegou a 11-0 como profissional. Yamaguchi ganhou as seis, duas por interrupção, alcançando 9-0 no cartel. Ambos são contratados da Top Rank e esquiva já vislumbra a possibilidade de disputar um título mundial no fim do próximo ano, segundo intenção do chefe Bob Arum.

Mais consolidado do que os filhos de Touro Moreno está Patrick Teixeira. O catarinense venceu por nocaute os dois compromissos disputados em 2015 depois de ter sido contratado em janeiro pela Golden Boy Promotions, de Oscar de la Hoya. Quarto colocado no ranking mundial supermeio-médio na WBO, quinto na IBF e 18º no WBC, invicto em 26 lutas (22 nocautes), Patrick chamou a atenção do “Golden Boy”, que, segundo se especula na imprensa americana, teria pensado em escalar o nocauteador brasileiro de 24 anos contra o veterano astro Shane Mosley. Seja como for, é provável que Teixeira receba uma chance de cinturão na WBO contra o recém-coroado Liam Smith – dos lutadores à sua frente no ranking, Austin Trout já disputou (e perdeu) o título, enquanto o também americano Demetrius Andrade era o dono da coroa antes de Smith, mas foi destituído depois de ficar 13 meses sem defendê-lo.

Patrick Teixeira com o ídolo e agora empresário Oscar de la Hoya

Patrick Teixeira com o ídolo e agora empresário Oscar de la Hoya

  • Arthur Malaspina

    Excelente artigo! O ano do boxe foi bem bacana e prevejo um 2016 bem emocionante. Mas como você frisou bem na matéria, essas malditas atitudes de algumas organizações são duras de aguentar. Tirar o cinturão do Cotto antes da luta beira o surreal de tão burro.

  • Paulo Melo

    Achei um ótimo ano para a nobre arte , já fico aqui na expectativa de 2016 , óbvio que mais pelo duelo Canelo vs GGG rs
    2015 foi melhor que 2014 ?
    Ano que vem tentarei acompanhar mais ainda

    • Pela quantidade de luta sensacional, acho que 2014 foi melhor, mas não é todo dia que cai uma lenda como o Wladimir Klitschko, que para outra como o Floyd Mayweather.