Por Alexandre Matos | 23/08/2020 14:44

UFC Vegas 7. Preciso parar de usar essa denominação. Cruzes.

Entendo perfeitamente que só mesmo os abnegados fãs e aqueles que não tinham nada pra fazer na noite de sábado confinada pelo coronavairus sintonizaram a TV no canal Combate para assistir ao evento de ontem. O UFC escalou um dos cards menos atrativos de sua história. Tirando a luta principal, um bando de desconhecidos do público médio, lutadores que fariam parte da rabeira da escalação de eventos de peso normais formando card principal da maior organização do MMA mundial. Tudo para armar uma desnecessária maratona de eventos enquanto uma pandemia global continua assolando a população terrestre.

Ah, tivemos lutas legais, movimentadas. Ok, tivemos. Até aí, nada diferente do que vemos em vários eventos nacionais, russos ou americanos do circuito regional. Esse evento de ontem foi um LFA liderado por um combate de peso. O UFC tem contratado diversos lutadores sem condições de fazerem parte do seu plantel. Com a pandemia afastando as grandes estrelas, o resultado é um enfileiramento de eventos que não vão empolgar os fãs menos hardcore.

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Frankie Edgar é muito <3

Finalmente foi possível ver Frankie Edgar do tamanho de alguém dentro do octógono. Nos 15 anos de carreira que precederam o evento deste sábado, o nativo de Toms River era sempre menor que árbitros e adversários. Os homens de preto continuarão maiores que ele, mas pelo menos agora Edgar teve em Pedro Munhoz alguém que não lhe deixaria em desvantagem física.

Frankie Edgar venceu Pedro Munhoz no UFC Vegas 7

Edgar é tão diferenciado que, aos 38 anos, depois de tomar dois nocautes brutos nas últimas quatro lutas e cortando para 61 quilos pela primeira vez na vida, muita gente, inclusive eu, pensou que dificilmente as coisas terminariam bem para ele. Contra um sujeito de mãos pesadas, que não tem medo de tomar porrada na cara, no octógono pequeno, tudo parecia confluir para a receita do desastre. Mas Edgar é muito diferenciado.

Mesmo no octógono menor, onde é nitidamente mais fácil ser encurralado, Edgar conseguiu exibir a fluidez de sua movimentação. Aos 38 anos, depois de um corte inédito de peso, sempre bom frisar. Munhoz conseguiu equilibrar as ações na primeira etapa, enquanto Frankie “sentia” a luta. Neste ponto, o brasileiro se fez valer da recomendação da regra que diz para dar peso maior à contundência frente ao volume. Pontuar o primeiro assalto para o brasileiro não tem nada de errado.

O problema foi dali em diante. O segundo assalto foi claro a favor do americano, nem mesmo Sal D’Amato e Derek Cleary, barbeiros contumazes das papeletas, tiveram o despautério de ver diferente. Do terceiro ao quinto, open bar de pontuações e interpretações. E de reclamações, óbvio.

Seja lá para quem você estivesse torcendo, por favor, não venha com papo de garfo numa luta apertada como essa. Quem achou que Munhoz deveria ter vencido certamente levou em consideração que a regra pede maior valor para a potência. Quem pontuou o combate a favor de Edgar provavelmente considerou que o volume de jogo do americano foi maior a ponto de fazer a diferença pontual de danos não ter tido tanto peso.

Frankie Edgar venceu Pedro Munhoz no UFC Apex 7

Independentemente de como você pontuou a luta, é sempre um deleite para os olhos e um aquecimento para os corações num fim de semana de friaca nebulosa ver Frankie Edgar atuando como Frankie Edgar. Boxe solto, jogo de pernas fluido, boa noção de distância, fluxo de golpes, variação com entradas de quedas. E coragem para bater de frente com um nocauteador depois de cortar muito peso. Como cantava o mestre João Gilberto, “quem não gosta de Edgar, bom sujeito não é; é ruim da cabeça ou doente do pé”.

Pedrinho teve méritos no equilíbrio do combate. Além da já citada potência, ele tentou reduzir a movimentação do rival com uma bela dieta de chutes baixos. Como Edgar é muito diferenciado, acabou que a estratégia não surtiu efeito tão drástico, mas o americano vai precisar chamar um táxi hoje para ir ao banheiro. Fora isso, Pedro foi bem ao não deixar Edgar confortável, pressionando-o o tempo todo e negando-lhe o trabalho no solo.

Se não tivesse perdido tanto tempo lutando com gente maior, Edgar poderia ter reescrito a história do peso galo no UFC. Pensando friamente, poderia ter tomado a decisão de baixar direto depois da derrota para Ben Henderson, sem passar pelo peso pena. Porém, é compreensível o estágio até 66 quilos para acostumar o corpo. Mas poderia ter baixado quando perdeu para José Aldo na primeira vez. Dependendo de como as coisas tivessem sido, o peso galo talvez só teria visto Dominick Cruz e Frankie Edgar como campeões. Ah, e Cody Garbrandt, porque, pelo que ele lutou naquele dia, teria vencido até Cain Velasquez no auge.

O cérebro diz que vai dar ruim, mas o coração pede por Petr Yan vs. Frankie Edgar. Fodace.

Resenha MMA Brasil: UFC Vegas 7 – outros destaques

– Claramente o maior destaque do resto do evento foi a vitória de Daniel Rodriguez sobre Dwight Grant. Rodriguez esteve no colo do palhaço quando sofreu um knockdown e viu Grant trabalhar firme no ground and pound. Porém, o californiano tirou forças de algum buraco profundo para se levantar e aplicar uma bela virada com um nocaute furioso. Isso tudo aconteceu em meio round.

– Virada ainda mais incrível em muitos aspectos foi a de Trevin Jones. Azarão da ordem de 6-para-1 e daí pra frente, ele levou uma surra de Timur Valiev, que abriu 10-8 na primeira parcial antes de ser nocauteado no assalto seguinte.

– Falando em azarões, poucas vezes vemos uma como Shana Dobson. Além de ser uma lutadora do UFC com cartel negativo (subiu no octógono ontem com 3-4 e três derrotas seguidas na organização), a americana teve a manha de ser nocauteada por Priscila Pedrita em fevereiro. Isso fez com que a cazaque Mariya Agapova fosse favorita em mais de 10-para-1 nas casas de apostas. Pois quem colocou uns caraminguás em Dobson está passando um domingão de rei.

– Outro ponto que vale a pena vocês verem é o nocaute de Mike Rodriguez, que aplicou um knockdown com um cotoveladão no thai clinch e jantou o carateca polonês Marcin Prachnio no ground and pound.

– Da luta da Amanda Lemos, só vi o terceiro round, que teve um clinch muito mais movimentado do que o de Stipe Miocic (chora Tintin). A brasileira superou a japonesa Mizuki Inoue por decisão unânime.