Por Alexandre Matos | 15/09/2019 01:51

Ainda não sei se o UFC Vancouver foi um evento muito bom com alguns momentos estranhos ou um evento muito estranho com alguns momentos bons. Como eu sou um cara meio estranho, me diverti com o que aconteceu na terra que acolheu parte importante da minha família. A Resenha MMA Brasil: UFC Vancouver vai contar a história, começando pelo sujeito mais sensacional do MMA.

O evento teve ainda duas unanimidades do Palpitão derrubadas, o interminável cabra de Sobrália, uma aula de boxe ao contrário, um presepeiro derrotado por excesso de presepada e 2 a 2 no importante placar do nós contra eles.

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Que homem!

Justin Gaethje é um dos maiores seres humanos vivos. Ele é tão maravilhoso que lascou o cacete no amigo Donald Cerrone sem levar para o coração. Foi aquela trocação sincera, soco na cara do outro e depois abraço pra tomar a cerveja no bar do lado. Cabe dizer também que o “Cowboy” é um baita sujeito, que entrou na porrada e seguiu amigo do algoz. Tudo como deve ser.

Justin Gaethje nocauteou Donald Cerrone no UFC Vancouver

O começo do duelo pareceu mostrar que Cerrone tinha optado pela longa distância, com socos retos e chutes frontais, com a óbvia ideia de deixar o psicopata longe. Gaethje então tratou de largar pontapés nas pernas de Donald como se fosse um beque de roça espanando a bola da área. Depois da terceira bica, Cerrone reagiu se aproximando, tentando tirar pressão dos chutes. Foi quando ele encontrou os punhos de Justin.

Ninguém de bom senso quer os punhos de Gaethje se chocando com seus ossos faciais. Cerrone não é exatamente um cara normal e não mediu esse perigo. Resultado: cada vez que entrava no raio de ação, o número de uppercuts e ganchos aumentava. Se ficasse longe, tinha as pernas moídas. Se encurtasse, levava na cara. Com a lateral da cabeça já inchada, o “Cowboy” se aproximou mais uma vez e levou uma tijolada no queixo. Ele ajoelhou, levantou e tomou outra.

O árbitro Jerin Valel, louco para faturar o Barangão 2019, chegou para interromper, mas vacilou. Gaethje olhou pro homem de preto como se dissesse: “Você não vai parar a luta?” e se viu obrigado a dar mais dois ou três no oponente entregue. Mais uma olhada com cara de psycho e Valel achou por bem interromper antes que sobrasse pra ele.

Justin Gaethje dá uma dura no árbitro Jerin Valel

Justin Gaethje dá uma dura no árbitro Jerin Valel

Gaethje foi premiado com um bônus de desempenho, garantindo o sétimo faz-me-rir em seis lutas no UFC. Com a vitória do “Highlight”, o peso leve toma um caminho óbvio: Khabib Nurmagomedov contra Tony Ferguson e Justin Gaethje contra Conor McGregor, luta que deveria ter ocorrido se o irlandês não tivesse machucado a mão, como eliminatória.

Glover Teixeira vence luta animada e esquisita contra Nikita Krylov

Quando fui apostar nesta luta, pensei se a intensidade de Nikita Krylov causaria problemas para um envelhecido Glover Teixeira. Aí eu me lembrei como o ucraniano é entregador no chão e fui no jagunço sem medo. Quase me arrombei.

Glover Teixeira venceu Nikita Krylov no UFC Vancouver

Glover pareceu encaminhar a luta mostrando superioridade na troca de golpes em pé, apesar da nítida diferença de velocidade, que era compensada com maior técnica e mais potência do mineiro. Teixeira então botou pra baixo no high crotch. Resolvi buscar o carregador do celular no quarto e, quando volto, tá lá o Krylov montado no Glover. Como assim? Momentos depois, Glover estava se defendendo de um mata-leão.

Vamos então para o segundo round. Glover acerta um bom combo esquerda-direita na lata do ucraniano e leva um double leg em câmera lenta. O mundo realmente está ficando louco. No terceiro, finalmente o brasileiro mostra sua superioridade na luta agarrada, passando por crucifixo, guilhotina, chave de braço e algum ground and pound. No fim, justa vitória de Glover, na primeira vez que Krylov chega ao final de uma luta.

Uriah Hall enche Cara de Sapato de jabs

Num duelo com duas chances claras de desfecho, aconteceu o terceiro. Antonio Carlos Cara de Sapato não conseguiu finalizar – a despeito do bom tempo gasto nas costas do adversário – nem Uriah Hall chegou ao nocaute. Melhor para o jamaicano, que conquistou a terceira vitória nas quatro últimas lutas.

Uriah Hall venceu Antonio Carlos Cara de Sapato no UFC-vancouver

Este foi outro combate que pareceu encaminhado e tomou um rumo diferente. Cara de Sapato conseguiu mochilar para tentar um mata-leão. Ali, pela primeira vez na luta, ele percebeu que Hall não era mais toscão na luta agarrada. O jamaicano se defendeu bem, escapou da pressão e iniciou a clínica de jabs.

Não demorou muito para o nariz do brasileiro começar a sangrar. Na segunda etapa, um jab foi seguido por um direto e Sapato foi à lona sentado. O vencedor do TUF Brasil 3 insistiu mais do que deveria na troca de golpes e teve dificuldade de acertar as quedas, correndo sérios riscos de levar uma patela no queixo.

Sapato logrou êxito quando encurralou o oponente na grade e dali chegou ao solo. No terceiro round, o ex-campeão mundial de jiu-jítsu pegou as costas, fechou o cadeado com força e passou a atacar o pescoço de Hall com intensidade. Foi a segunda vez que ele percebeu que a Fortis MMA tem feito bem ao grappling de Hall. O ex-campeão do Ring of Combat manteve a calma, defendeu bem as investidas e escapou para vencer com um justo 29-28, placar marcado por dois juízes, enquanto o terceiro viu vantagem de Cara de Sapato.

Presepadas freiam o hype de Michel Demolidor

Tem quem ache as acrobacias de Michel Demolidor um show. Eu acho presepada. E a linha é menos tênue do que parece.

O canadense Tristan Connelly foi contratado no começo da semana para substituir Sergey Khadozhko. Peso leve de origem, ele parecia ser de três categorias abaixo do brasileiro, que não bateu o peso. Connelly não é dos mais talentosos e entrou como o maior azarão da noite.

Demolidor deu backflip, tentou um chute numa cambalhota no ar para trás, arriscou alguns Showtime Superman Punches – emendar o soco num impulso na grade. Tudo muito legal se estivéssemos no telecatch. Numa luta de verdade, se você faz esse esforço físico todo e não consegue efetividade, o gás costuma cobrar o preço, ainda mais para quem teve dificuldade na balança.

O resultado foi o condicionamento atlético de Michel desabar até chegar no subsolo. Na metade da luta ele já se arrastava como se fosse um peso pesado gordo. Connelly foi ganhando confiança e passou o carro no último round, com direito a guilhotina, transições e ground and pound no absolutamente esgotado oponente.

A décima derrota na carreira de Michel, a primeira em duas lutas no UFC, pode ter sido valiosa para ele entender o limite de entreter o público e ser esportivamente eficiente.

Resenha MMA Brasil: UFC Vancouver – outros destaques

– Para quem tinha esquecido como Todd Duffee é tosco, uma lembrança depois de quatro anos sem lutar. Ele exibiu toda a falta de talento no boxe contra Jeff Hughes, que é outro horroroso. Eles trocaram socos com muita vontade e pouco talento, num negócio meio animado, meio constrangedor. Um dedo no olho não intencional fez Duffee desistir do combate, mesmo após a liberação do médico. O duelo ficou sem resultado e esperamos todos que o UFC não cometa uma revanche.

Misha Cirkunov quase conseguiu a proeza de perder para Jim Crute no chão, mas acabou se safando do vexame. O letão-canadense aplicou uma queda no começo e deu um mini-passeio até ser surpreendentemente raspado e entrar no cacete no ground and pound. O árbitro demorou a interromper e Cirkunov conseguiu se embolar e pegar o australiano numa gravata peruana rara no UFC.