Por Alexandre Matos | 13/10/2019 02:03

O octógono mais famoso do mundo voltou à Flórida e aos horários maravilhosos com um evento que entregou o entretenimento que prometia. Mesmo com um card mais longo, o ritmo entre as lutas colaborou. A Resenha MMA Brasil: UFC Tampa vai contar o que aconteceu no sudeste americano.

Os fãs voltaram a se deleitar com o retorno de uma ex-campeã à sua velha forma; viram um emocionado veterano frear um inexperiente e voltar a vencer depois de mais de dois anos; um raro nocaute de pedalada e mais vários momentos divertidos. E, claro, como estamos falando da comissão atlética da Flórida, barbeiragens dos julgadores.

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Atuação vintage da Joanna Jędrzejczyk para tumultuar o topo do peso palha

Eu já até aprendi a escrever o sobrenome da Joanna (jɔˈanna jɛndˈʐɛjtʂɨk) sem copiar e colar, mas cedilha no E é muito carisma.

A luta quase não aconteceu, a polonesa quase não bateu o peso. Cheguei a ficar preocupado. Porém, quando o homem de preto autorizou o começo, Jędrzejczyk passou o carro daquele modo crescente e fez o rosto de Michelle Waterson virar purê.

Joanna Jedrzejczyk venceu Michelle Waterson no UFC Tampa

Tá certo que a americana facilitou a missão ao adotar um plano tático equivocado. Sem as maiores manhas no wrestling, Waterson telegrafou quase todas as entradas de queda e quase sempre foi parar na grade. Ali, no clinch, Michelle foi jantada pelo intenso dirty boxing de Joanna.

A única exceção aconteceu quando tive que me ausentar durante o terceiro round por motivo de força maior. Quando retorno, Waterson está nas costas de Joanna tentando um mata-leão. Masoq? A europeia manteve a calma e se levantou virada no jiraia para bater mais na adversária.

No restante do combate, Jędrzejczyk mostrou enorme vantagem na longa distância devido ao maior alcance, velocidade na movimentação e volume elevado de golpes em linha reta, daqueles que chegam mais rápido no alvo. Como Waterson, apesar de ter origem no caratê, usou pouco as saídas laterais, Joanna passou muito tempo no tiro ao alvo. Após o terceiro round, a diferença de golpes era de cerca de 120 a 40.

O retorno da Joanna vintage também ocorreu no lado negativo. Ela segue com o defeito de retornar com os punhos baixos, especialmente o esquerdo, abrindo uma avenida que foi explorada por Rose Namajunas. Neste sábado, Waterson foi incapaz de aproveitar, mas a polonesa precisa arrumar isso com urgência.

Agora, a categoria volta a pegar fogo. Se Namajunas mantiver o interesse no MMA, o bloco com Joanna, Tatiana Suarez e Jessica Andrade atrás da campeã Weili Zhang fica cada vez mais legal.

Cub Swanson mostrou que foi um erro o confronto com Kron Gracie

É compreensível a empolgação depois de um integrante da Primeira Família do Vale Tudo vencer no UFC após 25 anos de estiagem. Porém, não foi à toa que evitei usar MMA na frase. No novo esporte, os Gracie ainda estão muito para trás se pensarmos nos tempos de Royce e Rickson. O filho deste último foi colocado contra um oponente muito mais experiente e mais desenvolvido no MMA. Por mais que o retrospecto recente de Cub Swanson fosse ruim, sem vencer há dois anos e meio, o confronto contra Kron Gracie foi um equívoco de matchmaking.

Cub Swanson venceu Kron Gracie no UFC Tampa

Enquanto teve pernas, Swanson fez o que quis. Gracie sabia que precisava grudar, só não fazia ideia de como. Ele achou que estava num pique-pega e foi à caça de Swanson sem a menor noção de cortar o octógono, de criar ângulos e ir numa direção diferente de onde os punhos de Cub estavam. O resultado foi um mar de socos curvos, jabs e alguns violentos chutes no corpo.

Sem conseguir chegar ao confronto no corpo a corpo e sequer fazer menção de tentar uma queda, o que fez Kron? Tentou se jogar para puxar para a guarda. Afinal, por que não? Bastante lucrativo ficar por baixo no MMA. Ora Swanson dava as costas e deixava o carioca sozinho no chão, ora caía por cima e mostrava que fazer guarda em 2019 não é mais como era em 1994.

Na entrevista pós-luta. Gracie disse que não tentou queda porque achou que estava vencendo. Sério, não é possível um negócio desse. Parece pensamento de terraplanista.

Por outro lado, Swanson teve uma queda brusca de rendimento, o que mostra que não dá mais para ele na elite da divisão dos penas. Porém, na entrevista, quase me fez verter lágrimas.

 

Jogar por baixo é ruim, a não ser que você seja Niko Price

O violento Niko Price aprontou mais uma. Depois de nocautear Randy Brown com as costas no tablado, hoje foi a vez de mandar James Vick para o colo do palhaço com uma pedalada sensacional.

Niko Price nocauteou James Vick no UFC Tampa

Estreando como peso meio-médio, Vick continuou parecendo gigante. Era a chance de, na mobilidade e maior técnica, conter a agressividade do oponente e pontuar de longe. No entanto, carregar mais peso parece que deixou Vick mais lento. Price até tentou ajudar quando iniciou as ações que acabaram com ele por baixo do texano. James partia para a postura necessária para começar a bater quando Niko largou a pedalada. O calcanhar do Híbrido se chocou violentamente contra o queixo do rival. Vick desabou como se fosse uma marionete que teve as cordinhas de sustentação cortadas.

Mackenzie Dern iniciou a triste noite do jiu-jítsu em Tampa

Além de Kron Gracie, o UFC Tampa teve mais uma representante da elite da arte suave. Poucos meses depois de dar a filha à luz, Mackenzie Dern voltou ao octógono, mas deu de cara com uma melhorada Amanda Ribas.

Amanda Ribas venceu Mackenzie Dern no UFC Tampa

Tive a impressão que apenas uma estudou para o combate. Amanda mapeou tudo o que Mackenzie poderia mostrar, ainda que esse “tudo” não seja tanto no sentido de versatilidade. Ribas defendeu todas as seis tentativas de queda da americana e ainda tirou sua onda acertando as duas que tentou, com destaque para um lindo harai goshi. De quebra, passou um tempo por cima sem sofrer risco algum.

Em pé, o que se viu foi um passeio da brasileira. Amanda mostrou evolução sólida no kickboxing e dominou as ações por inteiro nesta área. Mackenzie teve poucas oportunidades de mostrar o peso de seus punhos e deixou exposto que ela pulou etapas na regra de desenvolvimento do striking, que diz: “primeiro, aprenda a golpear certo; em seguida, aprenda a golpear rapidamente; por fim, aprenda a golpear com potência”. Dern precisa intensificar os treinos nos dois primeiros estágios.

Para uma campeã mundial de jiu-jítsu e do ADCC, Mackenzie precisa também aprimorar com urgência o wrestling, sob pena de ver tanto talento na luta agarrada ter pouca serventia. Em três lutas no UFC, ela acertou apenas uma queda em 12 tentativas. Não vai ser todo dia que Dern conseguirá um knockdown como o que abriu caminho para a vitória sobre Amanda Cooper. No entanto, o tempo ainda está a favor da filha de Wellington Megaton.

Resenha MMA Brasil: UFC Tampa – outros destaques

– Não tem como um evento na Flórida passar batido pelos juízes laterais. Depois de um elemento ter a pachorra de enxergar um round para Waterson (e nenhum 10-8 para Joanna), foi a vez de Matt Frevola sair com uma vitória um tanto duvidosa. Apesar de o nosso grande Tony Weeks aprontando mais uma, Luis Peña não pode reclamar muito. Em muitos momentos, o italiano não acelerou como deveria e acabou dando margem para a derrota. Frevola não se entregou, foi mais agressivo e saiu com a vitória.

Eryk Anders venceu Gerald Meerschaert, mas definitivamente ele enganou um punhado de gente, eu incluso. Só vai vencer esse tipo de adversário mesmo.

Mike Davis finalmente se redimiu depois de perder para Gilbert Durinho e no Contender Series. Aceitando a luta com apenas quatro dias de antecedência, ele aplicou uma das maiores surras do ano sobre o barangudo Thomas Gifford. Davis bateu tanto que o nocaute foi um misto de exaustão do oponente, que caiu brutalizado de cara no chão.

– Não perca lutas de Marlon Vera, Deiveson Figueiredo e de Max Griffin, ainda mais quando eles atuam consecutivamente. O equatoriano venceu a quinta seguida, todas por interrupção e mais uma vez na segunda metade do combate. O “Deus da Guerra” paraense catou uma entrada de queda de Tim Elliott com uma guilhotina sensacional. Já Griffin mais uma vez esteve frente a frente com o Satanás, deu oi e voltou, mas acabou derrotado pelo duro Alex Morono.