Por Alexandre Matos | 23/06/2018

Parabéns pra você que acordou às 5:30h para acompanhar ao vivo o UFC Fight Night 132, és um(a) guerreiro(a) da estirpe de Toni Kroos virando jogo aos 50 minutos do segundo tempo, com um a menos e à beira do precipício.

Palmas também para o UFC, que teve a coragem de escalar um card de nenhum apelo na mesma hora do jogo da Ótima Geração Belga em plena Copa do Mundo. Provavelmente ninguém assistiu aos combates disputados no Singapore Indoor Stadium, que recebeu público pouco maior que a metade de sua capacidade. Bom, ninguém fora do MMA Brasil, porque aqui é trabalho, já diria aquele sujeito que se mostra um comentarista bem melhor do que foi como técnico.

O evento asiático teve mais um capítulo da nova geração passando pelos antigos, candidato ao Matt Mitrione do Barangão 2018, uma lutadora provando seu ponto em relação à categoria errada, o maior chinês de todos os tempos depois de Yao Ming e um super prospecto aplicando um vareio em sua estreia.

Se você não assistiu ao evento, acompanhe minhas reflexões a seguir. Se você assistiu, pode fazer o mesmo. Ainda bem que o próximo é a International Fight Week.

Leon Edwards: mais um gente grande no meio-médio

O processo de renovação no UFC segue forte também no peso meio-médio. Neste sábado, Leon Edwards engrossou a lista que conta com Darren Till, Colby Covington, Kamaru Usman, Santiago Ponzinibbio. O jamaicano radicado na Inglaterra teve uma atuação maiúscula na vitória sobre Donald Cerrone, que vai se firmando como porteiro para o top 10 da divisão.

O combate teve duas metades claras. Na primeira, Edwards atuou lembrando… Cerrone! “Rocky” foi soberbo no controle da distância, com jogo de pernas fluido, chutes fortes, diretos bem alongados. Quando o “Cowboy” tentava encurtar, Leon acertava duras cotoveladas ou o capturava no clinch para largar joelhadas potentes. O resultado de tantos golpes-navalha foi sangue jorrando no rosto de Donald desde a primeira parcial.

Os chutes, que sempre foram uma forte arma de Donald Cerrone, foram muito úteis a Leon Edwards no UFC Singapura (Foto: Paul Miller/USA TODAY Sports)

Os chutes, que sempre foram uma forte arma de Donald Cerrone, foram muito úteis a Leon Edwards no UFC Singapura (Foto: Paul Miller/USA TODAY Sports)

Na segunda metade, Edwards baixou o ritmo das ações ofensivas, mas ainda manteve a dianteira no combate no terceiro e quarto assaltos. Isso se deu pelo fato de Cerrone estar longe de suas capacidades atléticas de três ou quatro anos atrás. O americano demorou a tirar proveito da diminuição de rendimento do rival por não conseguir mais imprimir o volume que o próprio Edwards lançou nos assaltos iniciais do combate. Cerrone ainda teve dificuldade de mudar de nível, o que só rendeu resultado no último round.

Infelizmente – para seus fãs – chegou aquele momento da carreira que Cerrone virou um porteiro oficial do top 10. Não o vejo vencendo nenhum dos colocados nesta parte de elite do elenco. Felizmente – para a divisão – chegou a hora de jogar Edwards contra alguém do top 10, de preferência contra alguém que já está em processo de sair dali. O MMA agradece.

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Ovince St. Preux vence mais uma na grosseria

O americano descendente de haitianos Ovince St. Preux é o Mario Gomez do MMA. O centroavante alemão atrasou o lado de sua equipe ao meter nas nuvens uma bola fácil na heroica vitória da Alemanha sobre a Suécia, também neste sábado. OSP esteve perto de ser nocauteado, mas contou com uma decisão errada de Tyson Pedro para desfilar sua grosseria no octógono.

Mais jovem, mais atlético e evoluindo tecnicamente, Pedro dominou o combate desde o começo. O jovem australiano usou bem os chutes, balançou o adversário duas vezes, mandou OSP a knockdown e, quando estava próximo de conseguir o segundo, resolveu grudar no clinch e aplicar uma queda. Péssima decisão. St. Preux foi esperto ao deixar uma perna no meio da base do oponente e, assim, conseguiu reverter a queda, caindo ele por cima. Foi então hora de colocar toda sua brutalidade na hora de esticar o braço de Pedro e fazê-lo desistir.

Na apodrecida categoria dos meios-pesados, uma vitória de Pedro seria importante para dar novos ares. Aos 35 anos, nove a mais que o rival deste sábado, OSP já teve sua chance pelo cinturão interino e exibiu uma péssima atuação contra o pior Jon Jones que o MMA já viu. Mesmo que Daniel Cormier saia de cena após o UFC 226, é difícil imaginar que St. Preux vença Alexander Gustafsson. Talvez ele consiga vingar os reveses para Volkan Oezdemir, Jimi Manuwa ou Glover Teixeira, até porque só o suíço tem menos de 35 anos. De qualquer maneira, não é nada animadora a situação da divisão que já foi a melhor do UFC.

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Jessica Eye: sobre reputação e resultados

Em seu retrospecto no UFC, Jessica Eye demorou muito para ter os resultados de alguém que era considerada uma das melhores lutadoras do mundo. Nas primeiras sete aparições no octógono, ela só venceu uma (outra ficou sem resultado por causa de antidoping) e perdeu quatro vezes consecutivas. A imensa maioria teria sido demitida, especialmente alguém com falha de doping. Pois Eye manteve o emprego com a justificativa de que teria melhores resultados em sua categoria verdadeira. Desde que o UFC inaugurou o peso mosca feminino, ela venceu as duas lutas que disputou.

Jessica Eye teve vantagem na força física contra Jessica-Rose Clark (Foto: Paul Miller/USA TODAY Sports)

Jessica Eye teve vantagem na força física contra Jessica-Rose Clark (Foto: Paul Miller/USA TODAY Sports)

A oponente em Singapura foi Jessica-Rose Clark, que também esteve no peso galo anteriormente e que venceu o par de lutas disputadas no octógono mais famoso do mundo entre as moscas. Eye teve uma atuação sólida, que contou com a colaboração da agressividade da xará, que muitas vezes entrava no olho do furacão (perdão), aceitando a pancadaria franca na curta distância que favorece Eye.

Apesar de ter sido melhor na troca de golpes em pé, Eye acabou passando por apertos nas partes finais dos dois assaltos iniciais. A solução dada pela americana no terceiro round foi aplicar uma queda, cair na meia guarda e trabalhar no ground and pound – Eye chegou a ter chance no primeiro assalto, mas não manteve a australiana no solo na oportunidade. Desta vez, ela sustentou a posição até a buzina final.

Visivelmente emocionada, sem responder às perguntas que foram feitas, Eye disse que só aceitou lutar como peso galo porque queria fazer parte do UFC, mas que esta nunca foi sua categoria de peso real. Foi um discurso chatíssimo, mas correto, visto que ela é outra lutadora como peso mosca, mais forte e mais bem condicionada.

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Li Jingliang é o melhor lutador ruim do UFC

No panteão dos grandes atletas chineses brilham nomes como Yao Ming, Liu Xiang, Wu Minxia, Ma Long e Li Jingliang. O “Sanguessuga” chegou à sétima vitória em dez compromissos na maior organização do MMA mundial. A vítima da vez foi Daichi Abe.

O combate seguiu uma tônica curiosa. Jingliang foi o agressor por quase todo o combate, mas se movimentou menos que de costume e deixou a luta mais lenta, com menos ações ofensivas. Isso deu espaço para Abe acertá-lo com alguns contragolpes limpos, o que poderia ter dificultado a vida do chinês se o japonês fosse um lutador bom. Como não é o caso, Li chegou à vitória com poucos sustos.

Nosso pereba preferido foi bem na variação do alvo de seus golpes, acertando Abe na cabeça e nas pernas. Não foi o cara impulsivo que conquistou nossos corações, mas sempre será amado pelos torcedores de bem.

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É assim que um super prospecto estreia no maior palco do mundo

A luta que encerrou o card preliminar do UFC Singapura marcou a estreia do russo Petr Yan, um dos mais badalados prospectos da atualidade. Sob toda essa pressão, o ex-campeão do ACB deu o primeiro passo rumo à posição que lhe aguarda, o top 5 do peso galo.

A excelente postura defensiva de Petr Yan foi observada por Bruno Sader (Foto: Reprodução Combate Play)

A excelente postura defensiva de Petr Yan foi observada por Bruno Sader (Foto: Reprodução Combate Play)

Yan precisou de alguns momentos para compreender a situação. Durante esse curto período, Teruto Ishihara acertou alguns chutes e chegou a botar Petr para baixo, mas não o manteve no solo. Quando o jovem russo se ligou que lutar no UFC é igual a atuar no ACB ou na Liga Siberiana, ele se soltou e mostrou seu potencial.

O kickboxing justo e agressivo foi protegido por um sistema defensivo de manual. Postura correta, queixo baixo, ombros altos, punho protegendo a lateral da cabeça enquanto o outro ataca, Yan se sentiu tranquilo para espancar o japonês. A combinação que encerrou a contenda foi especialmente assustadora: Ishihara tentou pegar o russo no thai clinch e Yan se soltou emendando um soco rodado que deixou o japonês grogue. Petr acelerou, jogou um cruzado de esquerda no vento, mas emendou um tiro de bazuca em forma de direto de direita que fez Teruto desabar pesadamente no tablado.

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