Por Alexandre Matos | 31/08/2019 15:35

Agora o negócio ficou sério. O país de maior população e economia mais aquecida do planeta deu um enorme passo à frente na evolução no MMA. A China entrou no mapa do esporte, no começo da década, com lutadores fuleiros, verdadeiros sacos de pancada. Como em tudo o que eles fazem atualmente, o investimento aumentou e os resultados seguiram. O quinto evento em solo chinês coloca o MMA local em novo patamar. A Resenha MMA Brasil: UFC Shenzhen vai contar o que aconteceu.

Os lutadores chineses conseguiram vitórias expressivas e saíram bem maiores do que entraram no evento. Para começar, com o segundo cinturão da Ásia na história do UFC, o primeiro de alguém sem dupla nacionalidade. Houve vitória chinesa também sobre lutador ranqueado em longa série invicta, teve zebra chinesa. O pessoal do outro lado do mundo fez quase de tudo no Shenzhen Universiade Sports Centre.

Não custa lembrar que, quando o UFC inventou um TUF China, apareceu até professor de tai chi chuan, que se assustou quando soube que valia chute no MMA. Que homem.

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Vamos em frente, porque essa resenha vai dar pano pra manga.

Antídoto de Jéssica Andrade leva o primeiro cinturão para a China

A arrogância brasileira vai tentar colocar a vitória de Weili Zhang sobre Jéssica Andrade como uma das maiores zebras da história do UFC. Não caiam nessa, é cilada.

Weili Zhang nocauteou Jessica Andrade no UFC Shenzhen

Já faz tempo que nós, no MMA Brasil, dizemos que Jéssica virou uma força da natureza no peso palha. O ímpeto, força física e queixo de pedra fazem dela um terror na categoria. Porém, também tem tempo que nós falamos de um defeito muito grave na estrutura técnica da brasileira e como isso pode virar uma receita para o desastre.

Talvez por confiar muito nos três atributos citados acima, Jéssica se dá ao luxo de atacar completamente exposta. Como parece não sentir os golpes das adversárias, ela meio que avança para cima das porradas que vêm na direção contrária. Isso dá certo na maioria das vezes, pois ela acaba acertando uma pedrada mais forte ou chega no corpo a corpo, de onde joga qualquer uma no chão de modo brutal.

Contudo, há duas situações em que essa abordagem traz problemas à “Bate-Estaca”. Uma delas já foi experimentada e já rendeu derrota, inclusive: quando a oponente tem talento para golpear recuando, com bom índice de acerto, enquanto consegue evitar o ventilador de Andrade. Foi assim que Joanna Jedrzejczyk passeou e como Rose Namajunas e Tecia Torres levaram um round cada até cederem perante o fenômeno físico.

O outro cenário aconteceu neste sábado. Desde que Zhang estreou no UFC, nós chamamos atenção para o fato de parecer que outra força da natureza estaria nascendo na categoria. Como Jéssica, Weili também implementa um ritmo muito forte, hiper agressivo, calcado em muita força e volume elevado de golpes. Numa luta contra Jéssica, este seria o clássico “ferro afia ferro”. Coloca as duas no meio do octógono e vamos nos deleitar com o choque de mini-titãs.

Acontece que a chinesa fez o dever de casa certinho e conseguiu evitar que a luta se transformasse em briga de leoas na selva. Quando Andrade avançou do modo de sempre, Weili já estava esperando. A asiática recuou, saiu da linha de tiro e então fez o que as anteriores não conseguiram por não serem uma monstrinha como ela: largou a chinela com força. Foi uma bateria selvagem de cotoveladas, socos, joelhadas com potência enorme. “Bate-Estaca” ainda não tinha lidado com um negócio daquele. Zhang foi implacável no ataque até levar a então campeã a knockdown e completar o serviço no ground and pound em apenas 42 segundos de luta.

Weili Zhang conquistou o cinturão no UFC Shenzhen

É, amigo, a China tem campeão do UFC. Tem campeão de natação, de atletismo, de pingue-pongue. Além de Zhang, o MMA chinês tem o jovem Yadong Song se preparando para virar estrela. Esse pessoal tá chegando de bicho.

E a Jéssica? Bom, para começar, ela segue sendo maravilhosa – e comprovou na expressão facial após a derrota e também na entrevista. Essa menina é especial.

Isto posto, eu deixo uma sugestão para ela e o técnico Gilliard Paraná, que faz um trabalho estupendo levando a PRVT Girls para o UFC: passem umas temporadas na ATT. Juntem os conhecimentos para aprimorar o sistema defensivo da Jéssica, mantendo o ímpeto e a agressividade. Se ela conseguir, provavelmente retomará o cinturão.

O melhor pior lutador do mundo conseguiu a maior vitória da carreira

Eu nunca sei se Li Jingliang é o melhor pior lutador do mundo, ou se é o pior melhor lutador do mundo. Na verdade eu nem sei se ele é Li Jingliang, Jingliang Li ou Ji Lingliang. Sei que eu amo esse sujeito mais feio que bater em vó doente. Já Elizeu Capoeira vai ficar com lembranças ruins do “Sanguessuga” chinês.

Li Jingliang venceu Elizeu Capoeira no UFC Shenzhen

Jingliang encaixotou Capoeira numa armadilha que deixou o brasileiro sem resposta. Nosso homem usou movimentação intensa, com constantes trocas de base e de direção, o que confundiu totalmente a noção de distância de Capoeira. O chinês soube golpear recuando, saindo de lado e entrando reto. Na maioria das vezes, Li foi capaz de evadir-se rapidamente e evitar que Elizeu o acertasse com algo mais contundente.

Assim se passou quase todo o combate, com direito inclusive a knockdown aplicado por Jingliang. Capoeira insistiu em revidar e se desgastou socando o vento, quando poderia ter tentado o clinch para derrubar. O paranaense só acertou a movimentação no minuto final, mas acabou pagando caro quando isso aconteceu.

Para deter Jingliang, uma das hipóteses era Capoeira paulatinamente diminuir o espaço entre ele e a grade, deixando cada vez mais estreita a área de movimentação de Jingliang. Este cenário possibilitaria um rápido bote para o clinch na grade. Capoeira até conseguiu, mas largou a posição logo. Quando conseguia encurralar o asiático, o brasileiro recebeu um violento uppercut em contragolpe que o mandou novamente a knockdown. Jingliang sentiu o cheiro de sangue e deu contornos finais ao duelo a menos de 15 segundos para o fim.

Com dificuldade de conseguir lutas no ranking, Capoeira acabou pagando caro pela perigosa escolha de enfrentar um chinês duro, mas longe do ranking, lutando em casa. A única vantagem do brasileiro seria se manter ativo. Agora Jingliang tem vitória sobre um ranqueado.

Resenha MMA Brasil: UFC Shenzhen – outros destaques

– Ninguém sabe se o UFC vai encerrar o peso mosca masculino. Enquanto a decisão não é tomada, Kai Kara-France vai fazendo seu papel. O ex-TUF 24 chegou à terceira vitória oficial em igual número de lutas no octógono. Contra o irregular Mark de la Rosa, Kara-France meteu um quedão no primeiro assalto e um knockdown brabo no segundo para abrir vantagem e controlar as ações no terceiro.

– Lá vem mais um russo enjoado. Damir Ismagulov estendeu sua série invicta para 14 vitórias, as três últimas no UFC. Neste sábado, ele não tomou conhecimento de Thiago Moisés. Ismagulov levantou uma barreira na defesa de quedas e basicamente acabou com as chances ofensivas do brasileiro. Aí foi só abrir o vasto repertório de combinações para chegar a uma vitória fácil. O russo assou as pernas de Moisés com bicas e trabalhou bem na variação cabeça-corpo. Se passar um tempo nos Estados Unidos trabalhando questões como ímpeto e capacidade de definição. Caso melhore nestes pontos, teremos um candidato a brigar no ranking mais duro do MMA.

Andre Soukhamthath vai se estabelecendo como o maior passador de vergonha do UFC. Ele até tem um jogo plástico, que entretém o público médio, e vai se mantendo empregado. Mas agora ele conseguiu a façanha de perder pra “Águia Tibetana” Su Mudaerji, que provavelmente só é lutador do UFC por ser chinês.

– O MMA japonês também fez história no UFC Shenzhen. Mizuki Inoue, ex-desafiante do peso palha no Invicta FC, estreou na maior organização do mundo como substituta no peso mosca. O triunfo sobre a local Yanan Wu fez com que Mizuki e Naoki Inoue sejam o único casal de irmãos com vitória no UFC.

DA UN Jung venceu. Da Un, bicho. Que maravilhoso.