Por Bruno Fares | 17/11/2019 05:51

As mais de dez mil pessoas que esgotaram as entradas da edição 2019 do UFC na maior cidade do hemisfério sul puderam ver mais um card com o padrão UFC FIGHT NIGHT SÃO PAULO de qualidade. Ou seja, duelos bem casados, lutas animadas, figurinhas carimbadas do cenário nacional, ídolos veteranos em má fase e quase nenhuma relevância para os altos rankings da organização.

Dito isso – e pedindo licença para o titular da coluna e editor-chefe deste site -, vamos em frente com as minhas impressões sobre o UFC São Paulo: Blachowicz vs. Jacaré, diretamente da segunda fileira da mesa de imprensa do Ginásio do Ibirapuera.

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NA LUTA PRINCIPAL, O DERROTADO FOI O PÚBLICO

Parecia um bom casamento para a luta principal da noite. De um lado, Ronaldo Jacaré subindo para os meios-pesados, portando um físico de quem parece nunca ter sido peso médio. Do outro, o empolgante Jan Blachowicz, número 6 no discutível ranking do UFC e vivendo ótima fase na carreira. No entanto, citando “Diário de um Detento”, por Racionais MC’s: “Ninguém imaginava o que estaria por vir”.

Jan Blachowicz venceu Ronaldo Jacaré no UFC São Paulo

Jan Blachowicz e Ronaldo Jacaré travaram um duelo de encaradas no UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Logo no início do embate, Jacaré parecia ter um plano interessante de travar o agressivo (em tese) polonês. Clinch na grade, pouca coisa acontecendo, mas esse pouco partindo do brasileiro. Assim foram os cinco primeiros chatos minutos. Não reclamei, realmente parecia um bom plano inicial para o brasileiro começar o duelo. E veio o segundo round. Reprise do primeiro. Chato de novo, porém 20-18 Souza.

No entanto, quando o terceiro round começou e ambos ficaram se encarando por longos segundos, sem soltar golpes e voltando para o clinch, a galera perdeu a paciência. As poucas vaias viraram muitas. O ápice do marasmo foi quando boa parte do público efetuou uma das práticas mais patéticas que já vi em estádios de futebol pelo Brasil: ligar a lanterninha do celular e ficar balançando. Só faltou cantar “eeeeeeuu sou brasileeeeeeirooooo”.

Pensem comigo: Se para as mais de 10 mil pessoas presentes, o mais divertido era ficar brincando de balançar o celular com luzinha acesa, o quão chata estava essa luta? Se você por acaso não a viu, nem veja. Mas como eu TIVE que ver, vamos continuar com o review.

O citado terceiro round foi o mais apertado, de tão pouco que ambos lutadores fizeram. No máximo uma rápida troca de golpes nos últimos 20 segundos e só. Eu marquei para o Jacaré, mas tá tudo certo com quem marcou para o europeu. Os quarto e quinto rounds, horríveis de assistir, foram mais fáceis de marcar, com ambos sendo 10-9 para Blachowicz, que pontuou com chutes na perna e… e nada mais, foi só isso aí mesmo. Tive a nítida impressão do Jacaré estar esgotado e que, se o polonês apertasse, sairia com o nocaute. Mas como Jan também respirava profundamente e de boca aberta, logo…

Jan Blachowicz venceu Ronaldo Jacaré no UFC São Paulo

Jan Blachowicz venceu Ronaldo Jacaré no UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Resultado final: eu marquei 48-47 Jacaré, mas só um juiz concordou comigo. Os outros dois deram 48-47 para o rival. O que eu acho? Foda-se, qualquer coisa está valendo nessa baranguice. Uma das lutas mais deploráveis que assisti pessoalmente, totalizando 25 minutos jogados no lixo.

Destaque para a entrevista pós-luta. Ainda no octógono, o brasileiro famoso, que geralmente tem o povo ao seu lado, ouviu de cara uma sonora vaia ao ser anunciado, em uma óbvia reação à luta entediante que proporcionou. Quando começou a falar com Michael Bisping, o entrevistador, Jacaré piorou mais ainda sua situação. O capixaba disse que “os juízes sempre estão contra ele” e que “sentiu uma tosse incômoda na semana pré-luta”. Belas desculpas, não? As justificativas não caíram nada bem com o público paulistano, que dobrou a altura das vaias. Eu faço coro: UUUUUHHH!

EM CÂMERA LENTA, SHOGUN VENC… EMPATA?

Maurício Shogun no octógono. Em 2019. Novembro de 2019. Não dá pra chegar com AQUELA expectativa toda pra luta, né? Partindo desse raciocínio, até que foi divertido. Divertido ver como o Shogun continua com seu espírito de lutador aguerrido após todos esses anos e portando um físico bisonho de inchado. E lento. Meu Deus. MUITO lento, o ex-campeão do UFC e do PRIDE. Todos os golpes telegrafados, sem qualquer finta ou preparação. Shogun praticamente mandava um WhatsApp para o rival Paul Craig antes de cada golpe, avisando o que ia fazer. Não tinha como dar certo e o escocês aproveitou para vencer tranquilamente o primeiro round por 10-9, com direito a um Maurício grogue.

Maurício Shogun e Paul Craig empataram no UFC São Paulo

Maurício Shogun e Paul Craig empataram no UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

E quando tudo parecia trevas para a animada torcida paulistana, que apoiava muito o ídolo curitibano, Craig nos lembrou o motivo de ser tido como um dos lutadores mais intelectualmente limitados do UFC. Após um início lento de segundo round, o europeu tentou uma entrada estranha nas pernas do brasileiro (ou caiu torto, não sei, de onde estava não consegui avaliar) e caiu de maduro no chão. Shogun, experiente de 15 anos no mundo das lutas, viu a oportunidade e caiu em cima de Craig. Ficou em um ground n pound pilantra? Ficou. Mas o suficiente para não cansar e levar o round.

Aí começa o assalto final e todo mundo percebe que é só o Craig ficar na luta em pé que ele terá grandes chances de vitória. E o que o escocês resolve fazer com 30 segundos de terceiro round? Tentativa de queda de longe e telegrafada. Gênio! Tá lá o Shogun em cima dele de novo, quase até o final da parcial. Por algumas vezes o brasileiro se levantou e, diante da inércia do adversário, mergulhou na guarda do rival com um soco voador. Me lembrou demais isso. O britânico ainda se levantou de vez ao final da parcial, mas não conseguiu pontuar muito. Placar final, para mim: 29-28 Shogun, sem muito drama.

Maurício Shogun e Paul Craig empataram no UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Maurício Shogun controlou Paul Craig no solo durante o UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Eis que, niquico, me aparecem os juízes com um 29-28 Shogun, um 29-28 Craig (que eu não vi, mas teve gente que pontuou assim) e um… 28-28??? Pois é. Em uma das maiores barbeiragens do ano, o juiz Guilherme Bravo deu o primeiro round por surreais 10-8 para o escocês, resultando num EMPATE DIVIDIDO estranho e incorreto. O primeiro round foi realmente claro para Craig. Shogun chegou a ficar grogue, mas NADA que justifique um 10-8. E olha que eu sou da turma que vota “por mais 10-8 no MMA”. Candidato forte ao prêmio de pior julgamento no Baranga Awards 2019.

CHARLES NO BRASIL + CONCORRÊNCIA LIMITADA = 3 PONTOS

Charles "Do Bronx" Oliveira nocauteou Jared "Flash" Gordon no UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Charles “Do Bronx” Oliveira nocauteou Jared “Flash” Gordon no UFC São Paulo (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Charles do Bronx lutando no Brasil, com apoio total do público local e um adversário gringo mediano. Sabemos o final. Mais uma vitória para o paulista, que atropelou Jared Gordon no primeiro round sem nem precisar de seu condecorado jogo de chão. Um belo nocaute e uma bela interrupção do árbitro central, vendo que o americano já estava entregue. Muito legal, muita festa, mas está na hora de adversários mais qualificados, né? O próprio Charles acho que já percebeu isso e, na entrevista pós-luta, resolveu pedir alguém ranqueado. E largou logo uma senhora sugestão: Conor McGregor. Calma, Charlinho.

Sendo justo, na entrevista de imprensa ele foi um pouco mais realista e disse que queria vingar a sua última derrota, para o Paul Felder. Legal, bom casamento. Mas aí logo EMPOLGOU de novo e disse que também tem o antijogo perfeito para…. Khabib Nurmagumedov. Risos.

PROMISSOR. UM POUCO. E SÓ.

André Sergipano estreou no UFC com um primeiro round muito legal contra Antonio Arroyo. Dois pesos médios grandes, trocando porrada pra valer. Parecia ótimo, parecia animador. Eu estava feliz quando percebi que fui enganado. Antes da primeira metade do segundo round, ambos já estavam com a língua de fora e respirando forte. Daí pra frente foi um show de horrores que doeu de ver. Ambos se arrastando pelo tablado, sob vaias do grande público presente. Pareciam dois pesos pesados velhos lutando em evento vagabundo. Tipo um Roy Nelson x Rampage Jackson no Bellator, sabe? No fim, vitória tranquila de Sergipano sobre um rival esforçado, mas, citando meu colega TINTIN, Diego, “muito grosso”.

PONTO PARA A SANIDADE E PARA O BATMAN

“O Coringa sempre perde no final”. Vou ter que dar razão para Wellington Turman, que usou essas palavras após ser declarado vencedor. O cidadão pegou a luta com um mês de antecedência, viu todo o hype criado por Markus Maluko desde a pesagem e chutou tudo pra longe na hora que entrou no octógono. Mesmo oriundo do jiu-jitsu, Turman foi agressivo em pé desde o começo, dominando as ações na trocação por quase toda a luta. Wellington, que empolgou menos na prévia e mais no dia da luta, conseguiu sua primeira vitória no UFC. Para Markus, fica a lição (meio óbvia, mas sempre válida): propaganda, divulgação, marketing, dizer que vai nocautear, maquiagem de Coringa, tudo isso é válido, mas o mais importante é ter uma boa atuação. #dica

JIU-JÍTSU SALVA (SE O FÍSICO ESTIVER EM DIA)

Serginho Moraes deu toda a pinta de que ia fazer valer seus títulos mundiais de jiu-jítsu em poucos segundos. Avançou, derrubou, caiu por cima. Todo mundo já preparou os gritos de “JIU-JÍ-TISÔ, JIU-JÍ-TISÔ” e… e ficou só nisso mesmo. Serginho não conseguiu evoluir, chegou a ficar por baixo e, no final do primeiro round, já começou a levar prejuízo do homem com o melhor-pior apelido do MMA, “THE” James Krause. Cansado para os rounds seguintes, o paulista só fez apanhar, até engolir um diretaço no queixo e apagar no meio do octógono. O americano conseguiu a sexta vitória seguida, a segunda delas sobre brasileiros.

BARÃO SENDO BARÃO, SEM A PARTE DO CAMPEÃO (que rima!)

Renan Barão é mais do mesmo. Do mesmo que tem apresentado nos últimos anos, é claro. Sua quinta derrota seguida – a oitava nas ultimas dez lutas – me fazem perguntar o que o atleta está fazendo no UFC ainda. Nessa hora, tento achar respostas, seja na aura de quem ficou mais de 20 lutas sem perder, seja na fama de ex-campeão. Não que o bom Douglas D’Silva, atleta da lenda Pedro Rizzo (que bateu um papo muito legal comigo na sala de imprensa, confira no podcast especial sobre o evento), não seja um adversário competente.

O problema é que Barão mostrou os mesmos problemas defensivos de sempre, tendo alguns poucos bons momentos apenas no solo. Sobre isso, vale um parênteses. Absurdas as duas decisões do árbitro central de parar a luta quando Barão estava por cima, no chão, fazendo os atletas levantarem. Dito isso, foi um atropelo na trocação – que já foi o carro-chefe do ex-campeão – e Barão teve a sorte de não ser nocauteado por Douglas.

São apenas 32 anos para o potiguar, mas ele parece ser um daqueles veteranos de 40 que já deviam ter parado faz tempo.

Resenha MMA Brasil: UFC São Paulo – Outros destaques

– Falando em não cumprir com as expectativas, um abraço pra quem disse que o Warlley Alves seria campeão do UFC. Quarta derrota nas últimas sete lutas. E isso que só lutou essas sete vezes de 2016 pra cá. No mais, Randy Brown está de parabéns pelo belo triângulo e foi um cara muito gente boa nos bastidores.

– A polêmica da noite: Ariane Lipski, a curitibana que vê seu hype desabando cada vez mais desde que desembarcou como campeã do KSW, enfrentou a compatriota Isabella de Pádua, que aceitou o combate com insanos DOIS dias de antecedência, na segunda luta do evento. O combate prometia uma pancadaria e assim foi. Blitz poderosa de Lipski logo nos primeiros segundos que quase encerraram a luta. Isabella sobreviveu por pouco, voltou pro segundo round e seguiu apanhando pra valer. Até que veio o momento da polêmica.

No final da segunda parcial, ambas se embolaram no chão e De Pádua tentou fechar um triângulo de perna invertida, que pareceu muito justo, embora mal posicionado. Faltavam cerca de cinco segundos para a buzina soar quando, para a percepção minha e de quase todo o ginásio, Ariane deu discretos tapinhas de desistência. O árbitro não viu e a buzina soou. No intervalo dos rounds, o lance foi repetido no telão e fez o público protestar veementemente contra o reinicio do combate. Eu ouvi gritos de “CADÊ O VAR? CHAMA O VAR!”. Que momento.

A luta continuou e, como previsto, o passeio de Ariane seguiu – sob vaias –, culminando na vitória de Lipski por decisão unânime nas papeladas. O público vaiou. Vaiou muito. Na sala de imprensa, como esperado, a curitibana repetiu e repetiu que não bateu e que naquela posição nunca seria finalizada. Cada um que fique com sua versão. Pra mim, bateu. E abraços para a dupla “bati, mas não bati”: Chael Sonnen e Matt Lindland.

Ricardo Carcacinha e Francisco Massaranduba venceram bem suas lutas. E é isso que eu tenho para falar deles, pois durante os duelos, eu estava na correria da sala de imprensa fazendo entrevistas.