Por Alexandre Matos | 19/05/2019 02:05

Evento movimentado, no ritmo das transmissões da ESPN+, é tudo de bom. Deu tempo de trocar de canal no fim e ver o Deontay Wilder enterrar mais um capiau. Mas não é do boxe que a Resenha MMA Brasil: UFC Rochester vai falar. A noite foi divertida.

Brasileiros à rodo lutando, parecia evento na Flórida. Nossos compatriotas venceram cinco das seis vezes que subiram no octógono montado na Blue Cross Arena, em Rochester, Nova York. O combate principal deu um respiro a um ex-campeão. A coprincipal deu um respiro ao peso médio. O maior finalizador da história agora é quem tem a maior sequência de interrupções na atualidade.

Vamos em frente com as análises do que aconteceu em Rochester e depois ao debate na caixa de comentários.

Equilíbrio de força física ajudou Rafael dos Anjos

Pela terceira vez seguida, o UFC confrontou Rafael dos Anjos com um wrestler que faria contrapressão. Só que, dessa vez, o brasileiro não teria desvantagem na força física que marcou os dois duelos anteriores. O também ex-peso leve Kevin Lee tentou repetir a estratégia de Colby Covington e Kamaru Usman, mas ficou pelo caminho.

Rafael dos Anjos finalizou Kevin Lee no quarto round do UFC Rochester

Dos Anjos e Lee travaram uma batalha ferrenha na luta agarrada. O brasileiro seguiu com a postura de pressionar wrestler e facilitou a vida do americano em levá-lo para a grade. A diferença dos combates contra Usman e Covington é que, agora, Rafael conseguiu equilibrar as investidas e muitas vezes reverter a pressão na grade. Por conta disso, o ex-campeão até terminou o combate com mais quedas aplicadas do que o rival.

A luta se desenhava para um 48-47 com marcações para todo lado, conforme adiantamos na prévia. As ações foram equilibradas tanto nos momentos de troca de golpes em pé quanto na disputa de força isométrica. No solo, Lee sabia se virar, mas ali as chances de Rafael cresceriam se ele pudesse cair por cima. E assim se fez, graças a um erro primário do americano.

No quarto assalto, depois de levar uma senhora bica por dentro das pernas e dobrar os joelhos, Lee tentou entrar em queda, mas perdeu a pressão e escorregou pelo corpo de Dos Anjos. O brasileiro rapidamente pegou suas costas e o jogou no chão. Por cima, Rafael montou, encaixou o katagatame, jogou o quadril para fora e apertou até Lee batucar em desistência. Vitória sólida do brasileiro.

Lee poderia ter investido mais tempo na troca de golpes depois de cansar os braços de Rafael no clinch. Vai levar algumas lições para casa e uma torcida para ser criada a divisão dos superleves – ou então ele terá que revisar seu corte de peso. Se contra um meio-médio pequeno já foi um sufoco, imagine contra os galalaus da divisão.

Do outro lado, a vitória valeu para Dos Anjos recuperar a confiança, mas olhar para a frente no ranking não vai ajudar muito, pois estão lá Usman, Covington e Tyron Woodley. Ou ele acerta a estratégia ou vai empacar ali.

Ian Heinisch traz novos ares ao peso médio

Antonio Carlos Cara de Sapato falou muito do “Paulo Usadinha” neste camp de treinamento. Ele tinha um compromisso espinhoso pela frente. Ian Heinisch fez sua segunda luta no UFC e chamou atenção pela segunda vez.

Ian Heinisch venceu Cara de Sapato no UFC Rochester

Foi um duelo entre dois cavalos. Heinisch tem um condicionamento atlético privilegiado, unindo muita força física com resistência e mobilidade. Mesmo assim, foi várias vezes cravado na grade por Sapato. Em algumas dessas ocasiões, o paraibano empurrava o americano com vontade, como se fosse chocá-lo contra uma parede. Depois, uma disputa maravilhosa nas tentativas de queda.

No primeiro assalto, o passeio aplicado por Sapato no chão deixou Heinisch ligado. Cair por baixo não era uma alternativa. E aí a principal virtude do americano aflorou. O sujeito é resiliente e resistente pra diabo, moldado para batalhas campais longas. Na segunda metade da luta, era visível a dificuldade que o brasileiro tinha em manter a pegada para completar as quedas. Por conta disso, acabou por baixo várias vezes. Mesmo tentando se proteger ou procurar um espaço para um bote, Cara de Sapato foi duramente atingido no ground and pound.

Heinisch mais uma vez deixou ótima impressão. Passou um recado que será preciso cortar um dobrado para vencê-lo. Porém, expôs uma vulnerabilidade séria. Contra wrestlers fortes, ele vai passar saci. A facilidade que Cara de Sapato teve para dominá-lo na luta agarrada na primeira metade do combate vai se transformar em perrengue contra oposição que domine o riding position, que sufoque por cima e não perca posição. E o peso médio está cheio dessa gente. Alguns com QI de luta limitado (Derek Brunson, Andrew Sanchez), o que lhe dará uma chance maior; alguns podres (Chris Weidman, CB Dolloway); outros em plenas condições de exterminá-lo (Kelvin Gastelum, Yoel Romero). Apesar disso, é mais um bom nome para continuar a renovação dessa categoria envelhecida.

Vicente Luque já pode tirar o “silencioso” do apelido

O “Assassino Silencioso” está fazendo barulho no peso meio-médio. Vicente Luque chegou à quinta vitória consecutiva, todas por uma das vias rápidas. Neste sábado, a vítima foi o substituto de última hora Derrick Krantz.

Vicente Luque nocauteou Derrick Krantz no UFC Rochester

O americano-brasileiro teve que segurar um pouco a onda no começo para tentar entender qual era a de Krantz depois de um camp inteiro se preparando para Neil Magny. Por conta disso, Luque acabou dando brecha para ser derrubado. Krantz avançou agressivamente e tentou uma queda. Vicente tentou se defender com uma guilhotina, mas foi posto no chão e teve as costas dominadas. Mesmo sob pressão, se manteve calmo. Quando escapou e voltou em pé, mandou o rival para os quintos dos infernos.

A sequência final foi matadora, bem ao estilo de Luque. Ele disparou uma joelhada do thai clinch e, quando Krantz recuou, Vicente emendou um gancho de esquerda perfeitamente direcionado na têmpora. Nem precisava dos dois conferes no chão.

Poliglota, bem articulado e com estilo de luta totalmente voltado ao público. O UFC podia dar uma forcinha promocional pro rapaz. Tipo concedendo-lhe o desejo de fazer a luta principal na estreia do UFC no Uruguai.

“Se Charles do Bronx defendesse metade do que ataca…”

O arsenal ofensivo de Charles do Bronx é versátil como o de poucos na categoria. O problema é que a defesa é uma peneira e nada parece mudar esse cenário. Contra oposição de meio de tabela, como o freguês Nik Lentz, o ataque vai rendendo frutos, mas nos faz pensar na frase do subtítulo acima, dita por Diego Tintin no nosso grupo de colaboradores.

Charles do Bronx venceu Nik Lentz por nocaute no UFC Rochester

Do Bronx mostrou um muay thai versátil, com direito a uma espécie de superman elbow que abriu um corte no rosto de Lentz. Ele foi também hábil no chão ao raspar o americano e largar chumbo grosso no ground and pound. No lance final, um direto de direita poderoso mandou Lentz à lona e ataques no ground and pound fecharam a conta de um duelo vencido sem maiores sustos, embora tenha sido acertado algumas vezes.

Tivesse metade da capacidade ofensiva na defesa, Charles do Bronx seria uma ameaça real à elite do peso leve. Porém, dando o caminhão de brecha que costuma oferecer, a tendência é que o paulista continue limpando a área fora do ranking e sofra diante dos melhores.

Resenha MMA Brasil: UFC Rochester – Outros destaques

– Incrível o UFC abrir mão do peso mosca masculino e insistir no pena feminino. A ex-campeã do Invicta FC Megan Anderson não deu conta da maior qualidade técnica da estreante canadense Felicia Spencer, que havia pego o cinturão vagado pela australiana. A grande força física e poder de nocaute de Anderson são ferramentas boas na pior divisão que existe. Porém, mesmo no pântano do peso pena, tem gente com mais talento que ela. Spencer vai ganhar da Anderson e ser varrida pela Amanda Nunes ou Cris Cyborg. Que desgraça de categoria.

Davi Ramos tem muito talento no chão (ah vá!) e está melhorando tecnicamente no striking, especialmente no boxe. Mas ele ainda me parece lento e com mobilidade travada por causa do jogo de pernas que não é natural. Pelo menos deu mais que pro gasto contra Austin Hubbard. Além das pernas, é preciso melhorar também nas quedas se quiser pensar em subir de nível de competição.

– Bela pancadaria entre Sijara Ewbanks e Aspen Ladd, aquela trocação sincera pra alegrar a garotada. Merecidamente bonificada como a luta da noite.

– Bela também foi a estreia de Michel Demolidor. O maluco entrou amarradão, chegou até a verter lágrimas diante de seu treinador James David Gray. Na luta, fez algumas presepadas diante de Danny Roberts, mas terminou de modo espetacular. O brasileiro largou uma joelhada voadora que balançou o inglês e emendou uma senhora cacetada em forma de direto de direita. O “Chocolate Quente” desabou pesadamente com aquela cara de triste do Gabriel Jesus. Walk-off KO.

– No duelo que o “O que eu estou fazendo no UFC?” rolou de lado a lado, destaque para a sambadinha que Patrick Cummins deu depois de engolir a joelhada de Ed Herman. Quinto nocaute sofrido por Cummins no UFC e terceira derrota consecutiva. Já Herman se safou da trinca de reveses seguidos.