Por Alexandre Matos | 26/01/2020 19:35

Hoje eu saí de casa para dar uma volta. Tava um sol lindo, uma excelente oportunidade para colocar as ideias em ordem. Vesti uma das minhas camisas do Lakers, a Hollywood Nights, e meti o pé. Voltei para escrever a resenha. No caminho, a notícia que Kobe Bryant morreu num acidente de helicóptero que levou também uma de suas filhas, a Gigi.

Peço desculpas a todos, mas hoje não tem clima para ser divertido.

Blaydes nocauteia Cigano: Lakers vs. Suns, playoffs de 2006

Em 2006, o Los Angeles Lakers tentava se reorganizar depois da debandada do time tricampeão, que se desfez no embalo da briga entre Kobe Bryant e Shaquille O’Neal. Com um time fraco, Kobe ficou sobrecarregado e teve que se virar. Chegou a colocar o poderoso e amplamente favorito Phoenix Suns contra a parede na primeira rodada dos playoffs antes de sucumbir a uma virada de 3-1 para 3-4. A vitória de Curtis Blaydes sobre Junior Cigano me fez lembrar aquele confronto.

Curtis Blaydes nocauteou Junior Cigano no UFC Raleigh

Embora favorito nas casas de apostas, Blaydes começou o combate nitidamente respeitando a capacidade de Cigano mandá-lo a nocaute. Algumas entradas de queda de muito longe favoreciam a defesa do brasileiro, que sequer esboçava aquela movimentação lateral que lhe deu fama.

A um certo ponto do primeiro assalto, Blaydes começou a reparar que o monstro não era tão feio assim. Parecia o Lakers saindo de quadra com a derrota no jogo 1 da série contra o Suns. “Dá pra ganhar”, pensaram Kobe, em 2006, e Curtis, ontem. “Vou ter que me reinventar”, pensaram ambos.

Bryant passou a jogar de modo mais solidário, menos fominha, e confundiu a defesa do Suns. Blaydes passou a atuar mais como striker, desistindo de tentar as quedas de longe. Kobe colocou os favoritos contra a parede com uma cesta no estouro do cronômetro da prorrogação do jogo 4. O Lakers abriu 3-1 e ninguém acreditava naquilo.

Na capital da Carolina do Norte, Curtis passou a atingir o ex-campeão dentro da especialidade do rival, o boxe. Porém, MMA não é basquete e não é decidido numa melhor de sete. Cigano não teve a chance de voltar para casa para pensar na vida e bolar um plano para parar aquele Blaydes diferente. Quando o americano acertou um uppercut em cheio, o fim ficou iminente. O jovem encurralou o veterano contra a grade, disparou mais alguns petardos, incluindo uma perfeita joelhada no thai clinch, e viu o árbitro Dan Miragliotta dar fim ao combate na marca de 66 segundos da segunta etapa.

Beneficiados pela melhor de sete, os comandados de Mike D’Antoni se reuniram e conseguiram deter os jovens californianos. Não detiveram exatamente Kobe, que chegou a meter 50 pontos no jogo 6, mas era demais até para ele.

Michael Chiesa vence Rafael dos Anjos: Mamba Mentality

“Se você me vir lutando com um urso, reze pelo urso.”

Esta é uma das frases que explica a “Mamba Mentality”, o drive que conduziu Kobe Bryant por sua carreira e que se tornou seu estilo de vida. Não importa o tamanho do desafio, não entre lá para perder.

A “Mamba Mentality” deve ter incorporado em Michael Chiesa. O vencedor do TUF 15 não é exatamente conhecido por ser um lutador versátil e habilidoso. Pelo contrário. Seu estilo é meio tosco e quase unidimensional. Sua força é centrada na capacidade de catar as costas do rival e travá-lo num mata-leão. Um cara que só faz isso vai lutar com Rafael dos Anjos, faixa preta legítimo de Roberto Gordo? Só pode dar ruim.

Michael Chiesa venceu Rafael dos Anjos no UFC Raleigh

Quem diria? A Mamba Mentality.

Não para a “Mamba Mentality”. Foi surreal ver Chiesa dominar Rafael na luta agarrada. Aproveitando que o brasileiro só traçava trajetórias retas, o americano não teve muito trabalho para encurtar e chegar no combate corpo a corpo. Essas aproximações na maioria das vezes aconteciam com Mike jogando uns cascudos enquanto trotava para cima de Rafael. O ex-campeão dos leves poderia ter chutado mais as pernas do rival, poderia ter usado saídas laterais para não ser pego. Nada disso aconteceu.

Como resultado, Chiesa derrubou seis vezes em oito tentativas, esteve nas costas de Dos Anjos por mais tempo do que um faixa-preta dos bons deveria permitir, brincou de passar a guarda, tudo diante de um oponente incrédulo – assim como a maior parte dos fãs.

A derrota do número 5 do ranking para um sujeito que sequer aparecia entre os 15 melhores dos meios-médios acende uma luz de alerta enorme sobre os próximos passos de Rafael dos Anjos. Se um retorno aos leves parece improvável, ele precisa com urgência recuperar a fluidez no muay thai e a velocidade para ter sobrevida numa categoria na qual Rafael será sempre o menor em ação.

Resenha MMA Brasil: UFC Raleigh – outros destaques

O UFC Raleigh contou com algumas barbeiragens dos árbitros centrais, que parecem estar dispostos a ver de perto o primeiro óbito numa luta. A demora de Miragliotta em parar a luta entre Alex Perez e Jordan Espinoza foi bizarra. Kevin MacDonald foi bastante descuidado ao permitir que Hannah Cifers apanhasse bem mais do que o necessário no ground and pound de Angela Hill.

Kobe, não sei pra onde você vai agora. Se for pra algum lugar, tenta achar o Petrovic, o Wilt, o Pistol Pete, o Moses Malone, o Havlicek. Monta um time maneiro e continua se divertindo. Ensina a Mamba Mentality pra esse pessoal todo. E fica de olho em nós aqui, porque tá parecendo que o purple-and-gold tá querendo te honrar de novo. Obrigado por tudo.