Por João Gabriel Gelli | 18/02/2019 05:29

O início do acordo do UFC com a ESPN americana se deu de maneira positiva. Na Resenha MMA Brasil: UFC Phoenix recapitulamos tudo o que de melhor aconteceu no evento. Como o card aconteceu em uma atípica noite de domingo e sou um dos poucos desocupados de férias na equipe, coube a mim a ingrata tarefa de substituir Alexandre Matos nessa semana.

Felizmente o evento entregou grandes emoções, com ótimas lutas, momentos interessantes e uma boa dose de interrupções ao longo das doze lutas agendadas. Tivemos a reafirmação de um importante nome dos pesados, o melancólico retorno de Cain Velásquez, a coroação da evolução de um promissor peso galo, uma guerra nos meios-médios e a volta de um sobrenome conhecido ao octógono. Tudo isso e muito mais…

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Velásquez está podre e Ngannou tem nada com isso

Só de ver Cain Velásquez de volta no octógono já foi muito bom. Depois de mais de dois anos e meio afastado, o ex-campeão dos pesados fez seu retorno, por mais que não tenha sido bem-sucedido e ainda tenha sofrido com uma ampla dose de ironia histórica.

Em novembro de 2011, Cain voltava de mais de um ano parado para enfrentar um adversário de grande poder de nocaute na luta principal do evento que marcava o início de um contrato com uma emissora de TV de grande alcance e foi nocauteado rapidamente. Em 2019, o cenário teve muitas semelhanças. Enquanto na primeira ocasião o oponente era o brasileiro Júnior Cigano e o canal era a FOX, dessa vez o algoz foi Francis Ngannou na estreia do UFC na ESPN.

Ao caminhar para o octógono e fazer seus tradicionais saltos antes da luta, Velásquez parecia bem disposto e saudável. O problema é que não se pode confiar cegamente em um lutador cujo corpo aguentou uma sequência incrível de lesões e ainda carrega muito peso. Por mais que o começo da luta tenha sido de constante movimentação e alguns chutes, Cain pareceu sentir o joelho logo na primeira entrada de queda. Pelo ângulo da transmissão não ficou claro se um soco curto de Ngannou teve algum impacto na falta de firmeza das pernas do ex-campeão no momento, mas o camaronês viu o adversário caindo no chão com expressão de dor e tratou de sacramentar a vitória com alguns potentes socos em 26 segundos.

É muito difícil dizer exatamente o que se pode esperar de Velásquez daqui para frente. Por um lado, ele é um grande talento e um dos melhores que a divisão dos pesados já viu. Por outro, cada vez fica mais forte a impressão de que seu corpo está pedindo arrego. Se tivesse que chutar, diria que ele vai tentar voltar o mais rápido possível caso a torção no joelho não represente algo grave. Neste cenário terá que recomeçar sua trajetória e deve receber um oponente um pouco menos imponente fisicamente e ainda mais acessível. No entanto, se mais uma lesão séria tiver sido adicionada ao seu currículo, será o momento de Cain pensar seriamente em se aposentar.

Enquanto isso, Ngannou nada tem a ver com as mazelas do oponente. Ele entrou no octógono, fez seu trabalho e saiu com a vitória mais importante da carreira. Depois de uma ascensão meteórica e uma queda drástica subsequente, parece que o camaronês está em mais um momento de pico, mesmo sem que mudanças em seu jogo tenham ficado claras.

Ele se recuperou das derrotas para Stipe Miocic e Derrick Lewis com dois importantes nocautes sobre Curtis Blaydes e Velásquez. Como a categoria está um pouco bagunçada no momento, não seria um desenvolvimento chocante se Ngannou fosse colocado para disputar o cinturão novamente. De qualquer maneira, é bom ter um ativo importante para a divisão como ele de volta em uma trajetória positiva.

Felder conseguiu ultrapassar a barreira, mas e agora?

Paul Felder chegou ao UFC como um lutador plástico, um amante incondicional dos golpes giratórios. Com uma caixa de ferramentas sólida, conseguiu avançar na selva que é o peso leve. Quando teve a primeira grande chance, falhou diante de Edson Barboza. Emendou mais uma sequência positiva, mas ruiu novamente na hora de dar o próximo passo, dessa vez contra Francisco Massaranduba. Contudo, neste domingo foi diferente.

No duelo coprincipal do evento, Felder se apresentou muito bem e venceu James Vick sem dar brechas para controvérsia. Ele controlou a maior parte do primeiro round, inclusive deixando Vick bambo nos instantes finais da parcial. No segundo assalto, o adversário cresceu e Paul manteve o ritmo, o que deixou o confronto mais parelho. Porém, na etapa final, Felder puniu severamente as pernas de Vick e abriu vantagem larga, que não deixou escapar e garantiu a vitória por decisão.

Após vencer o décimo colocado do ranking, Felder deve aparecer em uma boa posição na próxima atualização do mesmo. A grande questão é que, por mais que tenha vários méritos como lutador, é fácil imaginar que seu teto está muito próximo. Não parecem existir muitos adversários acima dele que podem ser superados sem um salto de qualidade improvável. Independente disso, ele alcançou um ótimo ponto na carreira e poderá se manter como um porteiro para o top 10 ou top 15.

A dinastia voltou?

Um Gracie não saía vitorioso do octógono desde 1994. Este cenário foi revertido nesse domingo, com a estreia e triunfo de Kron Gracie sobre Alex Caceres com um mata-leão ainda no primeiro round.

A luta seguiu boa parte do que era esperado. Kron mostrou traços marcantes da família, como a postura durante a luta e o método de aproximação. Ele nada fez em pé e depois que Caceres tentou um chute alto, logo encurtou a distância e levou o duelo para o solo. Já mochilado, se tornou questão de tempo até forçar os três tapinhas.

Depois de Rolles, Renzo, Roger e o próprio Royce falharem em suas chances desde 1994, Kron representou o retorno da importante família a uma posição relevante no cenário do UFC. Todavia, o filho de Rickson ainda tem muito a mostrar se quiser alçar voos mais altos na organização.

Ele venceu nomes como Hideo Tokoro e Tatsuya Kawajiri no Rizin e agora adicionou Caceres ao cartel, o que representa um retrospecto de respeito para alguém com somente cinco aparições profissionais. No entanto, antes de sair bradando aos quatro ventos que os Gracies estão de volta, vale a pena aguardar os próximos passos da evolução de Kron, que parece ainda precisar de muitos ajustes. Se for para celebrar alguém da família no MMA no momento, dediquem algum tempo a Neiman Gracie, que tem feito ótimo papel no Bellator, inclusive com o posto de próximo desafiante dos meios-médios garantido como parte da semifinal do GP da categoria promovido pela organização vice-líder do mercado.

Vicente Luque e Bryan Barberena, que homens!

Antes da luta começar, reclamava que era um absurdo o fato de que Geoff Neal tinha uma vaga no top 15, mas Vicente Luque não. Por pouco isto não foi justificado por Bryan Barberena, mas o brasileiro conseguiu uma virada nos instantes finais e venceu a quarta seguida. De quebra, ainda levou o bônus de luta da noite naquela que deve ser a melhor de 2019 até o momento.

Com interrupções em todas as vitórias no UFC, Luque mostrou que estava disposto a terminar rapidamente com a luta. Ele teve uma exibição de alto nível durante quase todo o primeiro round. Pressionou constantemente, sabia o momento certo de despejar uma combinação e atacou com muita potência. Porém, levou um knockdown no final da parcial. No chão, ainda lúcido, ameaçou com um mata-leão, no qual gastou muita força, mas não prestou atenção nos ajustes para colocar os ganchos. Depois tentou emendar em um triângulo de mão, mas não teve sucesso e a buzina soou.

Um lutador que já tem histórico de cair de rendimento ao longo dos combates, Luque somou a isso o desgaste da parte final do assalto anterior e virou um alvo fixo para Barberena. O brasileiro ainda respondia com alguns golpes violentos, mas estava em séria desvantagem. A mesma tônica se manteve durante quase todo o round final. O momento de reviravolta se deu quando Vicente acertou um direto seguido de uma joelhada que derrubaram Bryan. Luque então completou o serviço com alguns socos no chão e conseguiu o nocaute técnico a seis segundos do fim da luta.

A vitória tornou Luque o primeiro a nocautear Barberena e deve coloca-lo no top 15 dos meios-médios. Também mostra, ao mesmo tempo, boa parte de suas qualidades e defeitos. Enquanto não conseguir ajustar algumas das falhas, como o condicionamento físico, terá dificuldades para avançar muito além de onde chegou. Mesmo assim, tem um belo nicho como um lutador de ação que proporciona ótimos combates e tem grande instinto para superar os adversários pelas vias rápidas.

Aljamain Sterling finalmente está mostrando a que veio

Foi uma trajetória um pouco maior do que a esperada, mas acho que é seguro dizer que Aljamain Sterling finalmente está alcançando o nível esperado. Cinco anos se passaram desde sua estreia no UFC e, depois de falhar quando enfrentou concorrência das castas mais altas, Aljo conquistou a vitória mais importante da carreira ao superar Jimmie Rivera.

Rivera mostrou ótima defesa de quedas ao frustrar todas as investidas do adversário. Entretanto, não conseguiu desenvolver seu jogo em pé e foi frustrado pelo controle de distância e chutes de Aljamain. Mesmo nas ocasiões em que ficou de costas para o chão, Sterling não deu espaços e logo escapou da situação desfavorável. Dessa forma, venceu sem nenhuma margem para dúvida.

Antes de chegar ao UFC, Sterling era visto como um grappler de muita qualidade, mas que lutava de maneira solta e criativa em pé. Contudo, no octógono, a trocação parecia travada e o Funk Master tinha se tornado um lutador unidimensional e hesitante. Isto foi o suficiente para lhe levar até o ranking, uma vez que era muito bom no que fazia de melhor. A questão foi que quando precisou de algo a mais, amargou derrotas diante de Bryan Caraway e Raphael Assunção.

Desde então, venceu cinco de seis lutas e está em sequência de três triunfos. Mais importante que isso, parece cada vez mais a vontade e próximo de atingir o potencial que o MMA Brasil já havia apontado há algum tempo. Por isso, é bom que o resto do peso galo fique de olho, porque Sterling está a caminho da elite.

Resenha MMA Brasil: UFC Phoenix – Outros destaques

– O UFC atingiu sua luta de número 5000 quando Cynthia Calvillo e Cortney Casey entraram no octógono. Ao contrário do que parecia prudente, Calvillo optou pelo caminho mais difícil e investiu na luta em pé. O resultado final foi positivo, mas o processo deixou a desejar sem conseguir quedas contra uma adversária de péssimo wrestling defensivo.

– O card principal teve início com uma bela porradaria entre Andre Fili e Myles Jury. Com uma atuação de qualidade, Fili moeu a cara do adversário ao longo dos quinze minutos com um jab preciso e de elevado volume. Dessa forma, abria espaços para outros golpes mais potentes. Enquanto isso, Jury retribuía com seus próprios jabs, mas focava mais em contundência. No fim das contas, Andre controlou a maior parte do combate e só passou por um risco maior no final do segundo round, quando sofreu um knockdown, mas sobreviveu para sair vitorioso por decisão unânime.

– Em um duelo que podia claramente ser classificado como uma famigerada “eliminatória de RH”, Renan Barão teve um primeiro round que foi sua melhor exibição em anos. Ele conseguiu isto ao tirar proveito dos chutes no corpo proporcionados pelo confronto entre a sua base de destro contra a de canhoto de Luke Sanders. Entretanto, o segundo assalto veio e o brasileiro voltou à realidade recente, sendo atingido por uma combinação de jab e direto que o derrubou e foi seguida de dois violentos conferes. Assim, a vertiginosa queda de um ex-campeão está completa e, após não bater o peso e emendar quatro derrotas, Barão deve encerrar sua passagem pelo UFC.

Alexandra Albu foi uma menção honrosa no Top 10 do Futuro, mas o ritmo de uma luta a cada dois anos tem prejudicado seriamente sua evolução. Isto ficou muito claro na derrota rápida para a limitada Emily Whitmire neste domingo. Por mais que ainda tenha tempo para fechar as várias brechas defensivas, o futuro de Albu como uma lutadora do nível mais alto do peso palha parece em sério risco.