Por Alexandre Matos | 05/05/2019 02:54

Dessa vez eu nem vou agradecer à ESPN pelo horário do evento, mais uma vez terminando cedão. Neste sábado, a “culpa” é do Canelo Álvarez, que começou seu super contrato com a DAZN contra Daniel Jacobs. Bom que o UFC terminou cedo, porque o evento não foi dos melhores. Pelo menos terminou em alto nível. Esta é a história da Resenha MMA Brasil: UFC Ottawa.

Duas lutas no card principal podem ser destacadas, ambas altamente técnicas e disputadas praticamente como combates de kickboxing. De resto, alguma ruindade, outra dose de bizarrice e um tanto de monotonia marcaram o retorno do octógono à capital canadense.

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Donald Cerrone está mesmo de volta ao peso leve

O “Cowboy” está lento, está velho, está desgastado pela carreira longeva. Nada disso deixa de ser verdade. Mas a alma de lutador ainda está intacta. Donald Cerrone soube adaptar a estratégia e mudar totalmente o panorama do combate contra Al Iaquinta na segunda metade das ações.

Os dois primeiros assaltos foram muito equilibrados, com uma parcial vencida por cada lutador. Menor e com alcance mais curto, Iaquinta precisava de velocidade para quebrar o controle de distância do oponente. A estratégia que ele adotou para isso deu certo no começo, mas foi também o causador da virada de panorama mais adiante. Em vez de entrar rapidamente, bater e sair entre um golpe e outro de Cowboy, Iaquinta resolveu entrar, largar uma combinação curta e sair. Neste cenário, ele foi atingido algumas vezes nas entradas, mas terminava os encontros na vantagem por acertar mais e forçar alguns erros do “Cowboy”. Por várias vezes, Al explorou a deficiência de Donald na linha de cintura. Esta foi a toada principalmente do segundo round.

Pois bem. Como essa tática de Iaquinta mudou o jogo contra si? Os socos em linha e os chutes baixos foram as ferramentas que alteraram totalmente o panorama do duelo. Primeiro, Cerrone acumulou socos no nariz e no olho direito de Iaquinta que transformaram esta metade do rosto do novaiorquino num purê de sangue. Mais do que isso, a lesão no nariz arrefeceu o forte ímpeto do “Raging Al”, que chegou a levar um knockdown de jab muito semelhante ao que Robbie Lawler impôs a Rory MacDonald, no lendário encontro do UFC 189, quando o canadense estava sob as mesmas condições clínicas de Iaquinta.

A primeira parte de amolecer Iaquinta foi obtida principalmente com jabs e ganchos de esquerda. Ainda assim havia o risco de um botadão do baixinho dar fim ao combate. Cerrone tirou esta chance ao lascar a coxa esquerda do rival de bicas. Provavelmente Iaquinta terá que pedir um táxi quando acordar pra mijar no domingo de manhã.

A partir de então, foi o velho Cerrone de guerra em ação, aumentando linearmente o volume de golpes, somando dois knockdowns, os primeiros sofridos por Iaquinta no UFC e os que fizeram Donald assumir a liderança no quesito na história da organização, passando Anderson Silva e Jeremy Stephens. Nos últimos sete minutos, já ficou claro que apenas um golpe tirado do além resolveria a parada a favor de Iaquinta. Nem mesmo o wrestling o salvaria, visto que não havia mais base alguma para iniciar um ataque de pernas.

Além do recorde de knockdowns (20 contra 18 de Anderson e Stephens), Cerrone ampliou o de vitórias (23 contra 20 de Georges St. Pierre, Michael Bisping e Demian Maia) e o de bônus, com o de luta da noite que recebeu neste sábado. AH, ele também bateu seu recorde pessoal de golpes contundentes acertados, que passou de 96 para 138. Que homem.

Derek Brunson vs. Elias Theodorou: lamentável como previsto

Quem cometeu o matchmaking de Derek Brunson contra Elias Theodorou deveria ser demitido do UFC (junto com os lutadores) e responder processo público por danos morais. Deus me dibre um negócio desse.

Quem vê a foto acima pensa até que foi lutão. Na verdade, o troço até começou animado. Verdade que perebamente animado, bacanamente ruim. O problema é que alegria de pobre dura pouco. Precisou de menos de três minutos para a animação virar constrangimento e depois virar lamentação.

No início do combate, Brunson conseguiu levar o adversário ao chão. O americano é bastante perigoso no ground and pound, mas resolveu mostrar que sabe nada de jiu-jítsu e que tem QI de luta deficitário. Foi um open bar de perda de posição, com alguns momentos em que Teodoru nem fazia esforço pra escapar e voltar em pé.

E o que é Teodoru, além de bonito? O que é aquela movimentação? Ele tenta ser não-ortodoxo, mas é tão estranho que é fácil de ser mapeado. Suas corridinhas servem pra nada ofensivamente e tornam a luta enfadonha, pois muitas vezes elas também são inúteis defensivamente. Nem é o caso de correr para se reposicionar e iniciar outra ação ofensiva, pois estas simplesmente mal existem. Ele é tão boa praça que parece que não curte machucar o coleguinha – deve estar frequentando a igreja que abduziu Rory MacDonald e devolveu um impostor ao MMA.

Outra foto bacana só pra enganar vocês – quem aplicou essa queda?

No fim das contas, Rafael Oreiro veio me perguntar quanto eu estava marcando no combate. Respondi que estava aqui apenas pela galhofa.

Top 10 do Futuro deve cravar mais um

O UFC deve atualizar seus rankings na próxima segunda-feira. Shane Burgos deve figurar no top 10 do peso pena. Pelo menos essa é a lógica dos atuais votantes das listas, já que o “Furacão” venceu Cub Swanson, que ocupa hoje a décima posição.

Burgos e Swanson travaram um duelo muito técnico de kickboxing, mas com menos intensidade que o previsto. Shane foi inteligente ao trafegar entre a postura de agressor e a de contragolpeador, deixando Kevin Luke um tanto confuso. Burgos usou um repertório simples, mas efetivo, de jabs, ganchos, fortes diretos de direita e chutes baixos repetidos à exaustão. Swanson às vezes mostrava potência, mas faltava volume em seu jogo. Além disso, ele não conseguiu imprimir velocidade suficiente para tirar Burgos de um confortável controle de distância ou mesmo de tentar levar a luta ao chão.

Cabe dizer que todos os assaltos foram um tanto parelhos, haja vista os números computados pelo FightMetric: 41-37 Burgos, 48-43 Burgos, 49-45 Swanson, fazendo ambos terminarem com 50% de aproveitamento. Estes números fizeram com que os juízes soltassem placares adoidados. Dois viram 30-27, mas um para cada lado. O terceiro brother confirmou a vitória de Burgos com um 29-28, fechando uma decisão dividida ao mesmo tempo errada e compreensível. Entenderam? Deve ser a hora…

Merab Dvalishvili vai mostrando seu real valor no UFC

Depois de ter duas vitórias tiradas na mão grande nos dois combates iniciais no UFC, uma pelos juízes laterais e outra pelo árbitro Liam Kerrigan, Merab Dvalishvili agora ostenta dois triunfos seguidos. Neste sábado, ele teve seu trabalho facilitado pela péssima estratégia adotada por Brad Katona.

Eu gostaria de saber quem foi o gênio que pediu para o vencedor do TUF 27 encarar o georgiano no wrestling. Dvalishvili não teve nenhuma dificuldade de cravar o canadense no chão nos três rounds – foram duas quedas e uma passagem de guarda por assalto. Em algumas oportunidades, Merab nem precisava de uma abordagem, já que Brad lhe concedia a chance de queda ao fazer ele mesmo a abordagem. Katona batia na parede e caía por baixo.

Katona não conseguiu manter a luta na longa distância, não levou vantagem no clinch e foi varrido no chão. Nada que ele fazia era capaz de incomodar o atleta da Serra-Longo Fight Team. Para piorar, várias ações ofensivas de Katona eram convites para ser derrubado.

Com mais alguns ajustes de Ray Longo no kickboxing, talvez o peso galo ganhe mais um ator em Dvalishvili.

Resenha MMA Brasil: UFC Ottawa – outros destaques

Montamos um hypezinho sobre Sergey Spivak, mas o peso pesado decepcionou na estreia. Provavelmente tomado pelos octagon jitters, ele travou diante de Walt Harris, que é horrorosão, mas bate pesado. Com o moldavo em posição fetal em pé, encostado na grade, o americano largou o prego pra cima dele e conseguiu o nocaute em 50 segundos. Porém, nesta terra arrasada que não se renova, mantemos a posição em relação a Spivak, que tem apenas 24 anos, especialmente se não aceitar mais lutas de última hora.

Andrew Sanchez é um wrestler de bom nível técnico, mas seu QI de luta é tão baixo que ele vive se enrolando. O vencedor do TUF 23 levou um sufoco no segundo assalto contra o estreante Marc-André Barriault, mas conseguiu juntar os cacos e se impor no terceiro, muito para abafar a pressão do canadense.

– A maior favorita da noite era Macy Chiasson. Ela chegou a tomar um susto quando viu que Sarah Moras saiu para derrubar. Porém, a americana conseguiu reverter a situação e espancou a rival no ground and pound no segundo round.

– A academia Tristar Gym já viveu dias melhores. Depois de ver Rory MacDonald definhar, agora é a vez do prospecto Aiemann Zahabi travar. O irmão mais novo do líder da equipe, Firas Zahabi, mais talentoso e com maior repertório que o oponente, Vince Morales, não conseguiu soltar seus tradicionais momentos de hiper agressividade e viu a vitória escapar na decisão dos juízes.

– Noite triste para a torcida local. Os únicos canadenses que venceram foram os dois primeiros. Arjan Bhullar passou pelo americano Juan Adams em luta (ruim) de pesados e Cole Smith venceu Mitch Gagnon, que vem a ser também canadense. Ou seja, só uma vitória sobre estrangeiros.