Por Alexandre Matos | 16/12/2018 10:48

Mais um capítulo importante da história do MMA foi escrito neste sábado. Com o UFC On FOX 31, chegou ao fim o contrato de transmissão entre a maior organização do MMA mundial e o poderoso conglomerado de entretenimento americano (na verdade ainda tem mais quatro lutas preliminares do UFC 232 no Fox Sports). Se valeu a pena ou não, falaremos mais adiante, em outro artigo. O que discutiremos aqui é que mais uma vez o UFC levou diversão das boas para a TV aberta nos Estados Unidos.

O recém inaugurado Fiserv Forum, em Milwaukee, viu algumas pancadarias animadas, um zumbi sendo nocauteado, alguns “o que eu estou fazendo no UFC?” preenchendo a planilha do Baranga Awards 2018, estratégias discutíveis, demonstrações de coração e uma importante vitória de um talentoso e subestimado lutador.

Vem comigo acompanhar o que rolou no UFC Milwaukee.

Al Iaquinta mostrou que é muito importante seguir uma estratégia bem definida

No meio da selva dos pesos leves, é normal que talentos passem despercebidos pelo radar dos fãs, seja porque o talento não é tãããão grande assim ou porque a persona do lutador não agrada. O caso de Al Iaquinta bate com as duas situações. Contra Kevin Lee, faltou defesa de queda para sair do octógono com uma atuação para se aplaudir.

Al e Kevin já haviam se enfrentado na estreia do segundo, mais de quatro anos atrás. A vitória de Iaquinta com alguns percalços e uma maior evolução de Lee desde então mudaram o favoritismo para esta revanche. A justificativa era baseada no forte jogo de wrestling e controle posicional do ex-desafiante do cinturão interino.

Kevin Lee teve vantagem enquanto manteve Al Iaquinta na luta agarrada (Foto: UFC)

Kevin Lee teve vantagem enquanto manteve Al Iaquinta na luta agarrada (Foto: UFC)

A luta teve dois cenários completamente distintos. Enquanto os lutadores se mantiveram de pé, trocando golpes, Iaquinta esteve sempre um passo à frente do rival. As combinações curtas entraram à vontade e Iaquinta ainda tinha uma armadilha bacana de armar o punho direito, fintar uma entrada de queda para baixar a guarda de Lee e acertar o queixo ou a têmpora do rival com aquela mão engatilhada. O “Fenômeno da Motown” não teve respostas.

O outro cenário foi quando Lee resolveu usar o wrestling e uma de suas especialidades, a de pegar as costas. Com um triângulo de corpo muito bem ajustado, Lee ficou em posição de socar a cabeça de Iaquinta para abrir espaço em busca do tradicional mata-leão. A finalização não rolou, mas Kevin levou o segundo e terceiro rounds. Naquele momento, um desfecho da luta pareceu se abrir, pois Lee tinha 100% no aproveitamento das quedas e Iaquinta não conseguia defendê-las por completo.

Nada disso aconteceu. Por motivos ainda desconhecidos por mim (suspeito que o corte de peso tirou a pressão de Lee e fez com que ele desistisse do duro jogo isométrico e baixasse o ritmo), Kevin aceitou trocar com Alexander e virou presa fácil para sofrer uma virada. Iaquinta não baixou o ritmo até transformar a segunda metade do quinto round em sacode. Em momento algum dos dez minutos finais, Lee resolveu tentar mais uma queda. Jogou a vitória no lixo e deu uma bela recuada na classificação da categoria.

Al Iaquinta levou vantagem enquanto manteve Kevin Lee na troca de golpes em pé

Al Iaquinta levou vantagem enquanto manteve Kevin Lee na troca de golpes em pé

Após a luta, Lee falou que pode subir para o meio-médio. Pode ser uma excelente ideia. Diminuindo as agruras do corte de peso, ele ficará mais forte e com mais pressão, condições fundamentais para seu jogo funcionar, além de provavelmente ficar mais rápido que a maioria dos concorrentes.

Edson Barboza caçador de zumbi

“Você bateu nele como nunca vi ninguém bater em alguém e ele continuava vindo para cima de você. Não precisamos desse tipo de gente.”

Com esta frase, o treinador Tony “Duke” Evers tentou dissuadir Apollo Creed da ideia de conceder revanche a Rocky Balboa, um sujeito que defendia soco com a cara e continuava avançando. Se ainda estivesse vivo, talvez Tony Burton lembrasse de seu personagem marcante ao ver Dan Hooker se recusar a cair diante de Edson Barboza.

Em alguns momentos do combate, parecia que Edson estava transando em filme de terror ao aceitar trocar boxe na curta distância contra um sujeito com uma capacidade maior que a dele de definir a parada. O brasileiro até sentiu alguns golpes, mas manteve a compostura. De quebra, mostrou que realmente está evoluindo no uso dos punhos, que sempre foi um problema frente ao vistoso jogo de chutes que fez a fama do friburguense.

Apesar de ter mostrado um bom serviço no boxe, foram os chutes velhos de guerra que decidiram a parada a favor de Barboza. Primeiro foram vários nas pernas, especialmente na parte externa do joelho de Hooker. Cada chicotada que entrava paulatinamente diminuía a capacidade de equilíbrio do neozelandês. Como a potência de um soco nasce do atrito dos pés no chão, os chutes baixos reduziram o poder de nocaute de Dan. Neste momento, a luta ficou sob medida para Edson.

Mais uma vez os chutes foram primordiais numa vitória de Edson Barboza

Mais uma vez os chutes foram primordiais numa vitória de Edson Barboza

Então o nível dos chutes mudou e o brasileiro passou a acertar mais a linha de cintura do oponente. Era cada coice e cada canelada que eu sentia a dor aqui do meu sofá. Sem base para montar uma ofensiva para estirar outro corpo no chão e cada vez mais sem gás, retirado pelas pancadas abdominais, coube a Hooker virar alvo fixo. E que dignidade para apanhar esse sujeito mostrou.

Hooker esteve nocauteado em pé por vários momentos. Não foram poucas as vezes que eu falei: “Pronto, agora vai pra vala”. E nada de cair. Não só não caía, mas continuava andando para frente, tentando um hail mary. Edson correu mais riscos que o necessário, mas provavelmente ele estava ali no centro calculando todas as variáveis que poderiam levar a um resultado negativo. E mostrou sangue frio para se manter no foco mesmo vendo aquele zumbi semimorto continuar avançando. Deu nervoso.

Rob Font jogou Sergio Pettis no limbo

O anúncio do fim do peso mosca no UFC foi uma péssima notícia para Sergio Pettis. Apesar da decepcionante atuação diante de Jussier Formiga logo após conquistar a maior vitória da carreira, sobre Joseph Benavidez, Sergio era um integrante da elite da divisão mais leve. Com 25 anos, ele ainda tinha mais uns dois para ajustar alguns pontos e enfim conseguir uma revanche com o campeão Henry Cejudo. Como peso galo, seu teto será bem mais baixo.

Pettis era menor fisicamente e tinha desvantagem no alcance contra Rob Font. Ainda assim, o caçula do ex-campeão dos leves Anthony Pettis deveria ser o mais rápido no octógono e, assim, tirar proveito da maior habilidade na área do striking. Isso passou longe de ser verdade.

Font foi superior na troca de golpes durante todo o combate. Os jabs entraram com consistência, ele soube variar os golpes no corpo e foi diminuindo a energia de Pettis com o passar do tempo. Rob também teve a luta agarrada a seu favor, aplicando quedas, executando transições e tentando finalizar. Até mesmo quando Sergio derrubou, Font raspou.

O teto para Pettis como peso galo parece ser o top 10. Dentro do ranking, a partir do 11º até o 15º, tem jogo para ele. Porém, o décimo hoje é o próprio Font e, dali para cima, eu acho que Sergio não vence ninguém. No peso mosca, era preciso apenas ajustar a defesa de quedas para vencer Formiga e conseguir o posto de desafiante. No galo, esquece.

Charles do Bronx finalizou os restos mortais de Jim Miller

Era uma vez um lutador sólido, talentoso, com um boxe de alto volume, jogo de quedas consistente e jiu-jítsu técnico e definidor, nove bônus de desempenho e uma luta do ano de 2012. O nome dele era James Andrew Miller. Infelizmente, isso faz parte da memória afetiva dos fãs de MMA. O Jim Miller que segue vagando pelos octógonos da vida é um rascunho do grande lutador que um dia foi. Charles do Bronx não quis nem saber e tratou de vingar uma derrota dolorida.

Em momento algum o combate teve equilíbrio, até porque foram poucos momentos em 75 segundos de disputa. Tempo suficiente para Do Bronx levantar Miller no terceiro andar, cravá-lo no chão, pegar as costas e terminar o serviço com um mata-leão bastante justo.

Do Bronx ampliou o recorde de finalizações na história do UFC para 12. De quebra, disse que vai se manter no peso leve (milagre!) e desafiou Max Holloway na divisão (risos).

Miller estendeu a marca de maior número de lutas na história do UFC para 31. Já deu pra ele. Com cinco derrotas em seis lutas, chegou a hora de dizer adeus para cuidar da família e da própria saúde.