Por Alexandre Matos | 29/07/2018 12:50

A primeira metade do card principal do UFC On FOX 30 chegou a dar a impressão que fugiríamos da tendência de eventos espetaculares na TV aberta americana. Porém, as duas lutas principais fizeram jus à reputação da série. A Resenha MMA Brasil UFC On FOX 30 analisa os pontos mais relevantes.

A luta principal voltou a lembrar que o peso leve está sempre um passo na frente das demais. Antes, dois ex-campeões conseguiram recuperações importantes. Ainda houve espaço para um novato mostrar que é mais do que um nocauteador.

Dustin Poirier seria o próximo desafiante em qualquer categoria, menos nos leves

Desde o acidente contra Michael Johnson (cada vez mais considero que aquela derrota foi um acidente de percurso), Dustin Poirier vem se mostrando uma máquina no peso leve. Desde novembro do ano passado, ele conquistou três nocautes, dois contra ex-campeões, com bônus em todas as apresentações. A vítima da vez foi Eddie Alvarez.

O “Diamante”, que cada vez mais reforça o apelido, voltou a mostrar seu vasto repertório ofensivo e visão de luta. De quebra, teve calma nos momentos de pressão do oponente. Alvarez começou pressionando com um boxe variado, mas Poirier tomou a dianteira combinando ainda melhor os golpes. A ação ficou animada, com pancadas dos dois lados. Quando Dustin tentou mostrar que tinha mais recursos, quase se lascou. Provavelmente o erro teve papel preponderante para ele decidir a parada.

Ainda que Eddie consiga equilibrar o duelo na troca de golpes, Dustin é mais lutador no chão. Pensando nisso, Poirier arriscou duas guilhotinas no segundo assalto. Na primeira, não conseguiu posicionar as pernas e perdeu a posição. Por sorte, conseguiu se safar de ficar por baixo do brutal ground and pound do ex-campeão. Na segunda tentativa, até passou a perna para conseguir envergar a coluna de Alvarez, mas voltou a perder a pegada. Alvarez tentou um esgana-galo e chegou na montada, cenário ideal para definir a luta. Porém, uma cotovelada estúpida de cima para baixo fez com que o árbitro mandasse os dois se levantarem para dar esporro. Ficou barato para Alvarez não ter perdido ponto, mas ficou muito caro ter perdido a posição. Pra deixar de ser prego.

Posso apostar no que passou pela cabeça de Poirier naquele momento: “Dei sorte. Melhor parar de dar sopa para o azar e acabar logo com esse troço”. No reinício, ele largou os demônios para cima de Alvarez, que, guerreiro, tentou retornar fogo. No entanto, era um isqueiro contra um incêndio em palha seca. O fogo de Dustin lambeu rapidamente e enterrou Eddie numa saraivada de socos. Mal dava para respirar, imagine se defender. Acho até que Marc Goddard poderia ter parado um pouco antes.

Poirier agora tem vitórias sobre Alvarez, Anthony Pettis e Justin Gaethje em oito meses, todas com requintes de crueldade e bônus. Valeria uma chance pelo título se não estivéssemos falando de uma categoria que tem Tony Ferguson com 10 vitórias seguidas e Conor McGregor com 10 milhões de dólares. Que os deuses do MMA sigam abençoando o peso leve que tanto amo.

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Que bom que José Aldo voltou a nocautear, mas rapaz…

O MMA não poderia perder alguém do naipe de José Aldo para o psicológico e a aposentadoria aos 31 anos. Estamos falando de um top 10 peso por peso de todos os tempos. Cinco anos depois da última vitória por interrupção, Aldo conquistou um nocaute importante demais contra Jeremy Stephens. Isto posto, eu ficaria ressabiado.

A vitória mostrou lados opostos de uma mesma moeda. Aldo é genial e tem uma capacidade técnica ridiculamente alta. O gancho na linha de cintura, executado com um rápido step e quando Stephens esperava um golpe por cima, foi um espetáculo. Jeremy teve aquele constrangedor hiato de dois ou três segundos até compreender que doeu e que ele mijaria sangue pelo próximo par de dias. Aldo foi matador no ground and pound para fazer o árbitro interromper, sob protestos (injustos) do americano. A luta tinha que ser interrompida mesmo.

Aquele momento em que Jeremy Stephens se deu conta que o fígado tinha ido para o vinagre - e não foi por birita

Aquele momento em que Jeremy Stephens se deu conta que o fígado tinha ido para o vinagre – e não foi por birita

Quem só viu a definição do combate deve ter achado que Aldo voltou a ter uma atuação de seus velhos tempos. Bem, não foi o que aconteceu. O ex-campeão apresentou uma postura perigosa, que poderia ter dado bem errado. Não deu porque era Stephens do outro lado. Nem quero saber o que teria sido contra Max Holloway, até mesmo porque eu sei o que teria acontecido, porque aconteceu duas vezes por motivos semelhantes.

A movimentação, especialmente o jogo de pernas, que acompanhou a carreira do brasileiro, se escondeu em algum lugar. Plantado, Aldo fez o jogo de Stephens. E trocar pancada contra um nocauteador embalado nem sempre é uma boa ideia. Vendo um alvo quase estático, Jeremy chegou a balançar o adversário. Quando Aldo foi encurralado na grade, muita gente deve ter pensado: “Xi, de novo…”. O ex-campeão teve brios, aguentou a sequência e reagiu de modo brilhante. Porém, se a ideia é recuperar o cinturão que esteve sob sua guarda por tanto tempo, melhor repensar a estratégia, os treinos. Contra Holloway, desse jeito, vai dar merda de novo. E vou mais longe: corre o risco de também dar contra Brian Ortega. O cenário hoje é outro.

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Joanna Jedrzejczyk: vitória de recuperação, ainda que sem impacto

Campeã mais dominante da história do MMA feminino no UFC junto com Ronda Rousey, Joanna Jedrzejczyk precisava se recuperar das derrotas seguidas para Rose Namajunas. Ela conseguiu o intento contra Tecia Torres, ainda que não tenha voltado a ser o trem-fantasma que aterrorizou a categoria nos últimos três anos.

Diante de Tecia Torres, Joanna Jedrzejczyk voltou a vencer

Enquanto conseguiu lutar na longa distância, Joanna nos brindou com seu talento ímpar de golpear recuando e de manter as oponentes onde ela quer. Porém, ontem ela queria manter Torres por perto. O que tinha tudo para ser um passeio da polonesa acabou saindo um pouco mais caro.

Tecia deu trabalho no clinch todas as vezes em que Joanna encurtava. Mesmo no corpo a corpo, a polonesa era superior, mas teve que lidar com mais trabalho do que se aumentasse a distância no kickboxing. Torres trabalhou dignamente no clinch, conseguiu até botar para baixo e, embora não sustentasse a posição, foi à grade com o domínio das ações.

Jedrzejczyk venceu com clareza, mas poderia ter sido mais fácil. Talvez ela quisesse mostrar alguma coisa. Talvez fosse hora de apenas voltar a vencer. Sei lá. A categoria precisa dela.

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Alexander Hernandez sabe lutar, hein?

Quando estreou no UFC, Alexander Hernandez causou comoção ao nocautear o ranqueado Beneil Dariush em menos de um minuto. No peso leve, isso é absolutamente notável. Porém, pouco pode ser visto além de uma enorme capacidade de deitar corpos, eu mesmo só tinha visto uma luta dele na LFA. Contra o local Olivier Aubin-Mercier, Alex mostrou talento.

O canadense, talentoso que só na luta agarrada, tinha um belo caminho para vencer. Porém, acho que ele também se surpreendeu com Hernandez. Aubin-Mercier provavelmente estava esperando um oponente em busca do nocaute, mas deu de cara com um sujeito com um wrestling sólido, capaz de atuar no clinch, com boas noções de controle posicional, de reversão e de contraquedas, uma estratégia que deveria ter sido usada por Olivier.

Na única vez que conseguiu usar um movimento de queda do americano em seu favor, o canadense tentou uma kimura numa ação de plasticidade. De resto, o representante da Tristar Gym se mostrou um tanto perdido em relação ao que fazer. Hernandez não teve uma atuação de cair o queixo, mas mostrou pra todo mundo que sabe fazer mais do que acertar soco na cara. Se for bem trabalhado, pode render ainda mais.

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