Por Alexandre Matos | 15/04/2018 02:19

Não tinha como dar errado. O UFC On FOX 29 teve uma luta fantástica escalada como a principal e o resultado foi exatamente o que os fãs esperavam. De quebra, a expectativa alta também foi concretizada nos demais combates do card principal de Glendale, no Arizona.

Intensidade foi a palavra-chave também na luta coprincipal, com direito a um ídolo caminhando para o fim da linha. Antes, um dos mais divertidos lutadores do plantel ofereceu entretenimento e teve em retorno uma pequena dose de humildade. Até mesmo a luta que os juízes laterais tentaram avacalhar foi muito legal – e, sim, eles conseguiram avacalhar.

Confira aí meus pensamentos sobre o UFC On FOX Glendale e vamos ao debate.

Dustin Poirier <3 Justin Gaethje <3

Se a luta do ano não for Dustin Poirier contra Justin Gaethje, sinal que 2018 terá sido intenso. E sinal também que Gaethje voltou em algum momento, porque vou te contar uma coisa sobre esse sujeito. Era óbvio que eles sairiam na porrada intensamente desde os segundos iniciais. Pois foi isso que eles fizeram e ainda assim a gente fica empolgado como se não estivesse esperando por aquilo.

Poirier apostou em combinações de golpes em quantidade elevada, variando muito bem entre a cabeça e o tronco de Gaethje, investindo num conhecido problema defensivo do rival. Já o ex-campeão do WSOF lançou mão dos chutes baixos, também ótima escolha, a fim de minar a movimentação do Diamante.

Essas estratégias definiram um rumo claro para o combate: Poirier sairia na frente e Gaethje começaria a tirar vantagem a partir da metade do combate. Eu tenho uma teoria que Justin morreu há alguns séculos numa arena de gladiadores remota na Roma Antiga e o que tem sido visto por aí é sua alma penada. Deste modo, avançando como um zumbi por cima dos socos dos rivais, ele aumenta a intensidade dos combates a um ponto que somente caras especiais aguentam. Poirier é um deles.

O terceiro round seria de Gaethje se ele não fosse desmiolado e metesse o dedo no olho do oponente duas vezes. Custou caro o ponto perdido. Justin deveria entrar no quarto assalto perdendo de 29-28 e com o momento da luta em seu favor. Em vez disso, entrou perdendo por 29-27, praticamente tendo que decidir a parada numa interrupção na bacia das almas. Pelo menos ele saiu do terceiro desse jeito aí. Confira comigo no replay a maravilhosidade desse cidadão.

 

Talvez pressionado pelo tempo e pelo ponto perdido, Gaethje se expôs (risos). No afã de reduzir o prejuízo, levou um direto de esquerda que derrubaria um ser humano. Como é uma alma penada, Justin somente recuou, trôpego. Dustin então avançou furiosamente para decidir o combate com uma saraivada de socos – eu contei 20 -, que fez o árbitro Herb Dean ter piedade de Gaethje quando ele desabou junto à grade. O curioso é que Gaethje não queria piedade de ninguém, pois ele estava pedindo mais, agarrado à perna de Poirier. Que bom que Dean não lhe deu atenção.

Quem não ama Justin Gaethje, o Arturo Gatti do MMA, tem pedra no lado esquerdo do peito. O insano tem três lutas no UFC. As duas primeiras ficaram entre as três melhores de 2017. A terceira já é a melhor de 2018. A saúde cerebral dele não tem muito futuro, mas agora, exposto na TV aberta americana, espero que tenha conseguido angariar a imensa legião de fãs que ele tanto merece.

Quem não ama Dustin Poirier é uma pessoa ruim. Com 8-1 como peso leve, com Tony Ferguson fora de combate e com Conor McGregor merecendo uma geladeira, talvez tenha chegado a hora do Diamante enfim disputar um cinturão no UFC. Poirier contra Nurmagomedov na luta principal do UFC 228, em Moscou, seria sensacional. Porém, certeza que a organização colocará o russo contra o irlandês em Nova York e Poirier numa revanche contra Eddie Alvarez. Não que eu ache ruim, mas ¯\_(ツ)_/¯

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1 (huma) tristeza: a confirmação do fim de linha de Carlos Condit

Um sujeito como Alex Cowboy, que aceita qualquer desafio a qualquer tempo, uma hora capitalizaria em cima de sua coragem. O melhor momento era contra um ex-campeão muito respeitado, ainda ranqueado, mas que claramente já dá sinais de fim de linha há um tempo. Aceitar enfrentar Carlos Condit com alguns dias de antecedência era esse momento para o simpaticíssimo entrerriense.

Na minha visão, o melhor caminho para Cowboy era apostar na troca de golpes em pé, por mais estranho que isso fosse se considerarmos que o adversário é um dos mais letais strikers da história do peso meio-médio. A possibilidade de Alex cansar no terceiro round era enorme, devido à ausência de camp de treinamento, mas havia também a chance de ele chegar lá com Condit também entregue às traças. Com mais pujança física, mais mobilidade e contra um queixo que já não suporta tanto castigo, Cowboy teria uma boa chance. Mas ele gosta de fazer as coisas no modo hard.

O brasileiro iniciou trocando na longa distância e levando vantagem. Porém, resolveu botar para baixo. Isso, que parecia à primeira vista uma boa estratégia, na verdade era muito arriscado, como acabou se provando. Condit vai se aposentar sem ter consertado sua esburacada defesa de quedas. Porém, se colocá-lo no chão é fácil, lidar com ele no solo sempre foi complicado, a não ser que você tenha o jiu-jítsu de Demian Maia ou o wrestling de Johny Hendricks. Como Cowboy não tem nem um, nem outro, resultado: caiu por cima, errou posturas e acabou por baixo algumas vezes, tomando soco na cara e quase batucando num mata-leão no finalzinho do primeiro round.

Cowboy insistiu na estratégia e levou uma bica na boca quando tentou mergulhar na guarda de Condit. Novamente o brasileiro acabou por baixo, mas aí foi a vez dele de largar a pedalada. Só que o coice do brasileiro estragou o combalido queixo do americano, que ficou meio grogue e foi preso numa guilhotina em pé. Alex apertou com muita brutalidade e foi arrastando o rival para o chão. Chegou um momento que não dava pra ver se Carlos havia dormido ou se tinha batucado. Oliveira usou todas as forças para o ajuste final, que finalmente fez o ex-campeão desistir.

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Israel Adesanya é um ótimo prospecto, mas ainda com um bom caminho a percorrer

Há uma singela diferença entre Israel Adesanya e Zabit Magomedsharipov, dois dos mais falados prospectos da atualidade. O segundo é um lutador de MMA completo, que domina todas as vertentes do jogo. O primeiro é um dos mais técnicos strikers que o esporte já viu, mas ainda não é um lutador de MMA formado. Por este motivo, o russo não deveria perder tempo com bobagens e ser logo enviado a alguém de nível, enquanto o nigeriano naturalizado neozelandês tem que passar suas cotas de Marvin Vettori.

Vamos à primeira parte. O controle de distância de Adesanya é soberbo. E ele faz bem em todos os pontos: na cabeça, no tronco, nas pernas. Sua capacidade de evadir é muito maior do que a dos rivais até agora de encontrarem o ponto futuro. Vettori foi paulatinamente se irritando conforme socava o ar e engolia couro no retorno. Nos dois primeiros rounds, Israel adotou a mesma postura dos outros combates de elevar o volume de golpes conforme o tempo passa. Contra um sujeito limitado como o italiano, foi um deleite para os fãs. Como o africano-neozelandês é craque na arte de socar e chutar pessoas, dominou facilmente as ações por pouco mais de dez minutos.

Chegamos então à segunda parte da análise. Se é um striker de elite, Adesanya tem muito o que evoluir na luta agarrada. Segundo André Galvão, seu professor, o “Stylebender” não é dos mais dedicados à arte suave, levando sete anos para chegar à faixa azul. Pois ele precisa olhar com mais carinho não só o jiu-jítsu, como também o wrestling, caso queira chegar ao topo. Vettori conseguiu derrubá-lo e vencer o terceiro round explorando essa dificuldade. Se passou aperto contra um mediano como Marvin, imagine quando encarar um wrestler de pressão que saiba fintar quedas.

Por fim, como pode um juiz ter marcado 29-28 para Vettori? Que diabo de luta o Chris Lee viu? Que diabo de regras esse cidadão estuda? Aliás, esse cidadão estuda? O infeliz marcou vitória de Felice Herrig sobre Karolina Kowalkiewicz e foi um dos que deu 49-46 para Rose Namajunas contra Joanna Jedrzejczyk. Três cagadas em duas semanas era motivo para colocar esse elemento na reciclagem.

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Cortney Casey venceu Michelle Waterson, mas não levou

Cowboy não foi o único do card principal que resolveu conduzir as ações no modo hard. Michelle Waterson também o fez. Mesmo sendo claramente superior na troca de golpes em pé, ela insistiu nas quedas e quase viu Cortney Casey sair com a vitória. Não fosse a juizada e a ex-campeã do Invicta FC estaria agora com três reveses seguidos e com um pé na rua.

Enquanto manteve as ações em sua zona de conforto, Waterson levou vantagem por ser mais veloz, mais técnica e mais precisa ao lançar os golpes. Quando resolveu derrubar, passou aperto em todas as ocasiões. No chão, viu Casey buscar botes no triângulo ou chave de braço. Eu não sei se ela estava mal orientada ou o que, mas a insistência na estratégia errada de derrubar deveria ter custado a luta. Para completar, a “Karate Hottie” terminou o combate com o braço esticado, quase no pau para ser finalizada.

Eu nem vou xingar juiz nesta luta porque não prestei atenção no segundo round, mas para mim foi claro que Michelle venceu o primeiro e perdeu o terceiro. Como não reparei ninguém pontuando o segundo a seu favor, o resultado final me pareceu errado. Porém, Sal D’Amato marcou 29-28 Casey, o que depõe contra a vitória da ex-jogadora de futebol.

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