Resenha MMA Brasil: UFC On FOX 28

Tinha até me esquecido de como é bom um evento na FOX sem horário de verão por aqui. Fosse duas semanas atrás e o card principal começaria mais de meia hora depois que o evento de hoje terminou. O UFC On FOX 28 teve toda a ação esperada nos cards montados para a TV aberta americana, com direito a polêmica para fazer o povo discutir por dias.

O UFC Orlando deixou dois lutadores próximos de disputar o cinturão das respectivas categorias, mostrou finalizações brutais e até Rani Yahya levando fãs às lágrimas num momento pessoal muito difícil.

Confira as minhas impressões do UFC Orlando e vamos ao debate.

Jeremy Stephens segue em sua reconstrução, joelhada ilegal à parte

Pelo visto, parece que o processo de recuperação de Jeremy Stephens é à vera. O violento peso pena mais uma vez passou apuros no primeiro assalto, mas soube se recuperar para nocautear Josh Emmett, frear o hype do rival e chegar à terceira vitória seguida, marca que ele não conseguia há quatro anos.

Assim como acontecera em sua última luta, contra Doo Ho Choi, mais uma vez Stephens se encrencou no começo do combate. Nada de muito sério estava sendo conectado no primeiro round quando o “Esquentadinho” deu uma telegrafada no uppercut de esquerda, seu movimento mais clássico. Emmett parecia que estava esperando e retrucou com um gancho de direita que mandou o rival a knockdown.

Stephens voltou mais centrado para o segundo round. Primeiro ele acertou um soco rodado. Alguns segundos depois, largou um demoníaco gancho de esquerda no meio da palhaça de Emmett, que caiu perguntando se no céu tem pão. Na sequência, Jeremy partiu faminto para encerrar a contenda e largou toda sorte de pancadas diante de um passivo Dan Miragliotta. O árbitro poderia ter encurtado o calvário de Emmett e inclusive poderia ter visto uma joelhada em quatro apoios executada por Stephens.

Muita gente vai reclamar que a joelhada foi ilegal. Foi mesmo, visto que Emmett estava com quatro pontos tocando o solo: pé e joelho direitos, mão direita e pé esquerdo. Porém, não há como crucificar o árbitro, que não tem replay, slow motion, frame a frame e teve que decidir ali na hora, rapidamente, numa cena que, para alguns, nem tinha acertado a cabeça de Emmett. Falta é falta, mas esta não teve papel preponderante no resultado da luta, pois Josh já estava na mão do palhaço e dificilmente sobreviveria à avalanche de Stephens. A comissão atlética da Flórida é uma das piores dos Estados Unidos, mas dizer que a joelhada ilegal mudou o panorama do combate é forçar bastante a amizade.

Ah, sobre a cotovelada na nuca que sobrou ali: sim, teve isso, mas Stephens não teve culpa alguma. Para se proteger das porradas que vinham de todas as dimensões, Emmett se encolheu com o rosto virado para o chão, deixando a nuca para cima. Árbitro algum marca falta neste tipo de situação, pois o lutador que estava no ataque não tinha como acertar uma parte válida. Neste caso, sinto muito para Emmett.

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Jéssica Andrade é um tratorzinho, mas…

Já cansamos de falar que Jéssica Andrade virou uma força da natureza no peso palha. O tratorzinho transformou Tecia Torres em mais uma vítima. Agora que a brasileira não tem mais nada o que fazer na categoria, é hora de olhar para a frente. E ali encontraremos problemas.

Voltemos à luta antes de falar do futuro. Torres mostrou os frutos dos treinos com a seleção americana olímpica de boxe no primeiro assalto, quando acertou várias vezes o rosto de Andrade, que avançava com fúria, mas lançava socos totalmente abertos, deixando uma avenida para golpes retos de Tecia. Naquele momento eu pensei: “Se tá ficando ruim contra a Tecia, imagina com…”. Já voltamos a este ponto.

No final do assalto inicial, a “Bate-Estaca” conseguiu uma boa queda. Não foi suficiente para virar a parcial, mas deu o caminho das pedras. O combate mudou a partir do segundo round, com Jéssica enfileirando quedas de grande amplitude e desgastando a americana com pressão no controle posicional e ground and pound. Conforme o tempo foi passando, Torres teve cada vez menos energia para sair da armadilha e viu a luta escoar pelo ralo.

A vitória foi duplamente especial para Jéssica. Além de deixá-la como eventual desafiante da revanche entre Rose Namajunas e Joanna Jedrzejczyk, o triunfo faz da brasileira a recordista de vitórias entre todas as categorias femininas da história do UFC, com nove, uma a mais que Jedrzejczyk e Amanda Nunes.

Sobre o que pode acontecer com Jéssica e essa defesa contra Joanna e Rose, segunda-feira no podcast nós trataremos disso. Cheguem lá em facebook.com/mmabrasil a partir das 21:40h.

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Ilir Latifi desfila garbo e elegância na Terra da Magia

Empolgado com o clima da Disney World, Ilir Latifi desfilou no octógono montado no Amway Center. Risos. Com sua tradicional brutalidade, o sueco largou Ovince St. Preux estrebuchando no chão.

Ilir Latifi desliza sobre a areia em cima de um exemplar de sua espécie

Ilir Latifi desliza sobre a areia em cima de um exemplar de sua espécie

Thiago Kühl, que concedeu o privilégio de sua presença na minha humilde residência para assistir ao evento, perguntou o que Latifi fazia no UFC até hoje, no sentido de achar que já era pro sueco ter perdido mais do que perdeu. O próprio lutador tratou de responder. Ganhando ou perdendo, é sempre muito legal ver o equino sueco no octógono.

Sem a menor cerimônia e nenhuma vontade de parecer gentil, Latifi enfiou a mão esquerda no meio da cara do filho de haitianos. St. Preux beijou a lona e tentou se levantar debaixo de tiroteio. Quando conseguiu ficar de pé, OSP foi puxado por uma guilhotina tão delicada quanto a de um segurança de baile funk no Rio de Janeiro. St. Preux bateu, mas o árbitro estava do outro lado e não viu. Latifi então foi tocado pelo espírito pacificador do Mickey e largou o oponente como se fosse um saco de batatas.

No fim do combate, Latifi pediu para enfrentar o campeão Daniel Cormier. Melhor não, sob pena de o americano acabar com a raça do europeu.

Que homem!

Que homem!

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Max Griffin é um aluno atento

No último combate de Mike Perry, o argentino Santiago Ponzinibbio mostrou um bom caminho para vencê-lo. Com sangue frio e técnica, Max Griffin seguiu os ensinamentos do finalista do TUF Brasil 2.

Para os não-iniciados, Perry é um sujeito intimidador. Com cara de psicopata, ele avança implacavelmente com o único intuito de estirar corpos no chão. Porém, Mike encontrou em Max um oponente que se manteve calmo para praticar tiro ao alvo em seu rosto. Tinha nem 15 segundos de luta e o sangue jorrava do rosto de Perry, que não se incomodava e seguia caçando Griffin. E seguia levando soco na lata.

Perry se viu obrigado a derrubar para equilibrar as ações, mas, como não é um grande wrestler e muito menos um jiu-jiteiro de ponta, não manteve o adversário no solo por muito tempo. E tome de levar soco na cara, com direito a knockdown no segundo round.

Desesperado, Perry tentou a Hail Mary no terceiro. Ele acertou Griffin com algumas belas pancadas, mas o rival, que já tinha mostrado incrível poder de recuperação contra Elizeu Capoeira, em outubro, mais uma vez segurou as pontas para conquistar a maior vitória de sua carreira, num evento em que ele era o maior azarão.

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Preliminares do UFC On FOX 28

– Quando era campeão do peso galo, Renan Barão foi alçado a uma posição em que ele nunca esteve realmente. Quando a categoria encorpou, ele ficou para trás. Porém, o que se tem visto nos últimos combates é um lutador sem confiança, sem recursos. Contra Brian Kelleher, o potiguar teve alguns bons momentos no primeiro assalto, quando relembrou seus chutes baixos, mas paulatinamente foi sendo engolido pelo americano. A situação chegou ao ponto de Barão ser salvo pela buzina no último round, um claro 10-8 para Kelleher.

Rani Yahya passou pelo momento mais delicado de sua vida. Há 11 dias, ele perdeu a mãe. Porém, manteve a concentração e aplicou uma aula de jiu-jítsu no limitado Russell Doane. O brasiliense pegou o havaiano num katagatame no terceiro round e fez força para não chorar na entrevista.

Alan Jouban e Ben Saunders fizeram o que deles era esperado: protagonizaram uma pancadaria alucinada, que terminou com o “Killa B” estatelado sobre seus joelhos dobrados no pior estilo Cro Cop. Eles foram merecidamente bonificados pela melhor luta da noite.

Sara McMann mostrou que aprendeu nada na derrota para Ketlen Vieira. A vice-campeã olímpica de wrestling mais uma vez aplicou quedas e pressionou por cima até ser pega num triângulo por Marion Reneau. Esta foi a luta feminina que somou a maior idade na história do UFC: Reneau foi a primeira quarentona a subir no octógono, contra os 37 da ex-desafiante.