Resenha MMA Brasil: UFC On FOX 27

O UFC normalmente escala seus eventos na TV aberta americana para uma semana antes de um card em pay-per-view, a fim de promover a venda de pacotes para uma audiência grande. Neste primeiro mês de 2018, os eventos vieram invertidos. Resultado: o UFC On FOX 27, disputado neste sábado, teve a pior audiência da história da série.

Quem não assistiu acabou perdendo um evento movimentado, como é de costume na série UFC On FOX. No card principal, dois nocautes no primeiro round e dois duelos decididos pelos juízes depois de boas doses de ação. Aliás, a luta principal ter acabado no primeiro assalto deve ter influenciado na audiência ruim em território americano, já que os números costumam subir conforme o combate principal se estica.

Enfim, deixemos de conversa e vamos às minhas reflexões do UFC Charlotte.

Ronaldo Jacaré para sempre será o Freddy Krueger de Derek Brunson

One, two, Freddy’s coming for you. Three, four, better lock your door. Five, six, grab a crucifix. Seven, eight, gonna stay up late. Nine, ten, never sleep again.

O personagem principal da série “A Hora do Pesadelo” assombrou muita gente até mesmo dormindo. Ronaldo Jacaré deve ter este poder sobre Derek Brunson. O americano foi a primeira vítima de um nocaute do brasileiro e ontem, na revanche, sentiu o gosto amargo novamente.

Brunson não é exatamente o lutador mais inteligente do mundo. Ele na verdade é… bem, deixa pra lá. Contra um lutador pouco móvel como Ronaldo, a melhor estratégia para Derek seria se movimentar bastante (ele é capaz de fazer isso), controlar a distância (ele também tem capacidade) e só ir ao chão nos momentos que lhe fossem convenientes (o que é uma especialidade de um wrestler forte). Mas, como disse anteriormente, ele não é dos mais inteligentes.

Jacaré entrou com a mesma postura de sempre, salvo a mão direita inteligentemente alta para proteger do direto de esquerda de Brunson. O brasileiro percebeu que seu jiu-jítsu causava um desconforto no oponente e então ficou à vontade em pé, diante de um adversário que insistia em não se movimentar. Numa dessas, Jacaré largou um chute alto como nunca fizera na vida. Derek catou ficha até bater na grade, totalmente grogue. Como um assassino dos filmes de terror, o capixaba se aproximou caminhando, largou duas mãozadas na cabeça de Brunson e saiu fora como se dissesse: “Pra deixar de ser burro”.

Bela vitória do brasileiro, a primeira de lutadores do país neste ano depois de nove derrotas consecutivas. Foi bom também porque Jacaré precisava se recuperar com urgência da dura derrota para Robert Whittaker. No entanto, vamos ter calma antes de sair por aí dizendo que a próxima oportunidade para o título será dele.

Quanto a Brunson, be smart, my friend.

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Apesar da derrota injusta, alerta vermelho para Dennis Bermudez

O vice-campeão do TUF 14 Dennis Bermudez já foi um top 10 consolidado, com sete vitórias consecutivas entre 2012 e 2014. Agora, o retrospecto recente aponta para três derrotas consecutivas e apenas dois triunfos nos últimos sete compromissos. O algoz da vez foi Andre Fili.

Ao longo dos anos, Bermudez se tornou um dos favoritos dos fãs ao adotar um estilo destemido e um tanto desequilibrado. Era muito volume ofensivo para pouco cuidado defensivo e uma capacidade perigosa de entregar o ouro. Neste sábado, o ímpeto no ataque foi menor e os problemas defensivos aumentaram. Para piorar, Dennis ainda contou com um trabalho sem-vergonha dos juízes laterais da comissão atlética da Carolina do Norte.

Vá lá que Fili tenha talento na troca de golpes e que era capaz de vencer Bermudez aproveitando os imensos valores de altura e envergadura para controlar a distância e o ritmo. O que não dava era para Dennis ceder tantas quedas para Andre depois de ter passado tanto tempo em clinches de pouca utilidade. Apesar de ter acertado os melhores golpes e de ter saído do octógono com a vantagem no número de acertos, Bermudez não poderia ser derrubado quatro vezes por Fili.

Ainda que o resultado tenha sido injusto, Bermudez precisa rever alguns pontos em seu jogo para voltar aos tempos de vitória, antes que seja tarde.

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Gregor Gillespie aplica passeio constrangedor em Jordan Rinaldi

Eu gostaria de saber de onde o matchmaker Sean Shelby tirou a ideia de escalar Gregor Gillespie contra Jordan Rinaldi. Talvez ele estava com o pensamento de reforçar o status do ex-campeão da NCAA. Só isso justificaria uma luta desigual.

Rinaldi só poderia levar algum tipo de vantagem no chão. Pois a luta se passou quase inteiramente no solo e Jordan levou um vareio constrangedor. Em pé, Gillespie mostrou a evolução de seu boxe, usando as pernas para sair do raio de ação do oponente e rapidamente entrar para puni-lo com golpes potentes. Assim que teve a primeira brecha real, Gregor levou o combate para o chão. “Virou passeio!”, diria Galvão Bueno.

Gillespie parecia a Alemanha. Perdi as contas de quantas passagens, montadas pela frente, pelas costas, transições ele meteu no faixa-marrom. Parecia um treino com um boneco de grappling. O martírio de Rinaldi durou até Gillespie montar nas costas e largar um ground and pound feroz. A menos de 20 segundos para o cronômetro salvar a saúde de Rinaldi, o árbitro Dan Miragliotta o fez antes.

Nem vou falar para vocês ficarem de olho em Gregor Gillespie porque leitor do MMA Brasil já sabe disso há tempos.

Gregor Gillespie atropela Jordan Rinaldi no UFC On FOX 27

Drew Dober e Frank Camacho confirmam expectativa de melhor luta da noite

O UFC On FOX 27 pode ser explicado pelo confronto entre Drew Dober e Frank Camacho. A expectativa ao juntar dois porradeiros era a melhor possível. No entanto, não seriam eles quem alavancariam a audiência, já que poucos os conhecem.

A luta foi animada como era esperado. Nos dois primeiros rounds, Dober manteve-se um passo à frente na troca de golpes em pé, com alguns traços nítidos dos treinos com Duane Ludwig – o gancho executado em movimentação diagonal é um clássico da Bang Muay Thai. Porém, acabou sendo derrubado com certa facilidade. Para sua sorte, Camacho não conseguia produzir nada no chão, embora tentasse insistentemente transições que não eram completadas.

Depois de mostrar uma queda brusca de rendimento no segundo assalto, Camacho cresceu no terceiro. Ele novamente esteve por cima após uma bela contraqueda, mas seguiu sem produzir nada no solo. De volta em pé, Frank parecia um zumbi sendo golpeado e avançando para cima do rival. Ele equilibrou as ações, levantou a torcida, mas era tarde para uma eventual virada.

Esta foi a terceira luta de Camacho no UFC e o terceiro bônus de luta da noite conquistado. Não lembro se isso já aconteceu com outro lutador na história da organização.

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Mirsad Bektic dobra Godofredo Pepey com um míssil no plexo

O duelo entre Mirsad Bektic contra Godofredo Pepey era tão desigual no papel quanto Gillespie-Rinaldi. Como semelhança entre ambas, talvez a possibilidade de os azarões arrumarem algo no chão. Risos.

A obra de matchmaking de Shelby acabou mal novamente. Pepey ainda tentou se movimentar para não acabar abalroado por uma das quedas do bombardeiro bósnio. Porém, quando mapeou as trajetórias do brasileiro, Bektic lançou um direto de direita que quase fez um furo no plexo de Godofredo. O cearense desabou com uma expressão terrível de dor no fígado. Os dois ou três socos no ground and pound que vieram em seguida nem eram necessários.