Por Alexandre Matos | 17/12/2017 15:05

Ainda vamos entrar em 2018, mas o MMA já meteu o pé na próxima década em vários aspectos. O UFC On FOX 26, que aconteceu na noite deste sábado, no Bell MTS Place, em Winnipeg, Canadá, deu algumas mostras.

As novas regras referentes à pesagem estão cada vez mais afetando as divisões. Estrelas consolidadas estão vendo a nova geração passar. A tática e a estratégia de luta vão se tornando cada vez mais um diferencial que separa quem vai longe de quem apenas ficará pelo caminho divertindo as massas. Ah, e foram seis interrupções em 11 lutas, mantendo o padrão de entretenimento da maior plataforma de exibição do UFC nos Estados Unidos.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC Winnipeg e vamos ao debate.

Rafael dos Anjos é ainda melhor como meio-médio do que era como leve

A transformação de Rafael dos Anjos de um lutador mediano para um dos melhores do mundo peso por peso já havia sido uma das mais incríveis histórias do MMA. Ele agora vem escrevendo um novo capítulo desta saga, ainda mais impressionante. Acho que o brasileiro virou um meio-médio ainda melhor do que era como leve.

Nos três duelos que fez como meio-médio, Rafael viu seus adversários serem maiores e mais fortes que ele. Para ter sucesso na nova empreitada, o ex-campeão dos leves precisava adaptar alguns aspectos em seu jogo. Dos Anjos o fez com brilhantismo a ponto de, ouso dizer, ter tido a melhor desempenho de sua carreira ontem, contra Robbie Lawler, ex-campeão dos meios-médios e, pelo menos até a próxima atualização do ranking, o número dois da lista.

Caso utilizasse sua conhecida estratégia de fazer pressão na curta distância e mesclar o ataque do muay thai com as quedas, Rafael correria um risco imenso contra Lawler, que tem um queixo feito de algum composto ainda não definido pela ciência e aprendeu a defender quedas, especialmente contra um oponente menor e mais fraco. Pois bem.

Dos Anjos foi brilhante na movimentação defensiva, mas sem deixar que isso o tornasse um lutador acuado. Pelo contrário. Por quase todo o tempo do combate, foi o brasileiro quem teve a iniciativa ofensiva. Fluidez nas pernas, movimentação não linear e constantes trocas de direção para não ficar dentro do raio de ação do demônio. Em paralelo, socos em volume dosado, chutes baixos para minar a base de Lawler. E, quando o americano tentava encurtar, Rafael puxava o thai clinch defensivo. Deste modo, ele abafava qualquer ação de ataque de Robbie e ainda largava joelhadas no corpo. A grande maioria dessas joelhadas foram até bloqueadas por Lawler, mas algumas entraram. As que entraram serviram para Dos Anjos pontuar. As que não entraram deixavam Lawler em posição defensiva – nas novas regras, defesa vale zero. Simplesmente genial o plano traçado. Dos Anjos, que via muito de seus méritos ficarem divididos com Rafael Cordeiro, agora segue mostrando brilhantismo ao lado de Eduardo Pamplona.

A obediência tática e o talento técnico conduziram Rafael dos Anjos a uma vitória larga, triunfando em todos os rounds na contagem oficial dos três juízes laterais – e na minha também. O brasileiro até tentou definir a luta, como na blitz aplicada no segundo assalto. Foram cerca de 35 segundos de um ataque maciço, uma metralhadora de golpes. Só que enquadrado na grade estava um sujeito que não deve ser humano. Lawler absorveu uma quantidade enorme de punição e saiu sorrindo. Socorro.

A vitória gigantesca deve fazer Rafael dos Anjos passar Colby Covington e o próprio Lawler no ranking dos meios-médios. Há um boato que coloca Covington e o atual campeão, Tyron Woodley, como técnicos da próxima edição do TUF. Se isso for verdade, o UFC pode escalar Dos Anjos contra Stephen Thompson numa eliminatória. Porém, vale lembrar que todo o planejamento vai depender do próximo passo de Georges St. Pierre.

Se eu pudesse dar uma sugestão para o superastro canadense, pediria para ele deixar esse cenário dos meios-médios se desenrolar enquanto ele veste novamente a capa do cavaleiro solitário para dar um jeito no peso leve, que nem ele deu nos médios. Vai lá, ganha do Conor McGregor e faz Tony Ferguson definir o cinturão linear de verdade contra o vencedor de Khabib Nurmagomedov e Edson Barboza. Depois você volta pra sua categoria e enfrenta quem sair desse bolo de Woodley-Covington-Thompson-Dos Anjos.

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A troca de guarda no peso pena é implacável

Um a um, a geração de pesos leves que liderou a categoria no UFC vai caindo. Já foram José Aldo, Cub Swanson, Chad Mendes. Faltavam Frankie Edgar e Ricardo Lamas. Agora só resta um.

Lamas estava agendado para tentar vingar a derrota do UFC 169 contra José Aldo neste sábado. Com a lesão de Edgar, Aldo foi remanejado para desafiar o cinturão de Max Holloway e Lamas ficou sem adversário. O matchmaker Sean Shelby então inventou de alimentar Ricardo com Josh Emmett. O resultado foi uma indigestão dos diabos.

Emmett tinha três vitórias sobre concorrência das castas mais baixas e uma derrota para um oponente que tampouco faz parte da lista dos melhores da divisão. Era uma luta para manter Lamas relevante. Porém, quando as portas do octógono foram fechadas, o que se viu foi um Lamas devagar e um Emmett mais ligado. Resultado: depois de mandar umas três bombas sem endereço certo, Josh viu o oponente se abrir com um chute baixo e, por cima da mão do rival, que estava muito baixa, largou um gancho demoníaco que mandou Ricardo para a lama perdão.

Eu nem sei o que falar desse resultado. Emmett ofereceu uma revanche para Lamas, mas acho que não faz sentido. Tampouco acho que Emmett conseguiria vencer uma eventual segunda luta. Seja como for, deixemos a renovação do peso pena seguir seu rumo. Joguem Emmett contra um top 10 para ver do que ele é feito. E joguem Lamas um pouco mais para baixo, para sabermos se foi um desvio de rotina ou a nova ordem da divisão ganhando terreno.

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Santiago Ponzinibbio cada vez mais consolidado como um lutador de ponta

A cada luta, o argentino Santiago Ponzinibbio reforça sua posição de mais um excelente nome no mar de tubarões dos meios-médios. Contra o violento Mike Perry, o ex-TUF Brasil 2 misturou bem momentos de anarquia com inteligência tática para conquistar mais uma vitória.

A mostra que Ponzinibbio é um lutador cada vez mais sólido foi o controle emocional dos momentos em que Perry tentou transformar a luta em pancadaria franca, o que equilibraria as ações. Mais técnico e com mais recursos, Santiago tinha que ser o senhor das ações.

A movimentação do argentino apresentou algumas falhas, especialmente no começo do combate, o que fez com que Perry igualasse as ações. Ponzinibbio acertava a primeira metade da movimentação, quando evadia e contragolpeava, mas errava a segunda, quando deixava o golpe e precisava refazer a movimentação. Ele foi acertado algumas vezes assim. Ponzinibbio tinha mais volume, Perry tinha os golpes mais potentes e venceu o primeiro assalto por causa disso.

Santiago acertou este detalhe e seguiu com o maior volume de golpes, mas fez Perry errar bem mais, o que desgastou o americano. O fim do segundo round chegou a dar a impressão que o americano estava poupando energia e o argentino estava gastando, mas Ponzinibbio foi inteligente ao levar a luta para o chão quando conseguiu, encarar o infighting quando estava equilibrado sobre suas pernas e seguir mantendo o controle com volume de golpes. O terceiro assalto, contra um adversário bem mais cansado, foi o mais tranquilo deles, tirando qualquer margem de dúvida sobre o vencedor.

Copo meio cheio ou meio vazio na vitória de Glover Teixeira sobre Misha Cirkunov?

Glover Teixeira precisava vencer depois de tombar em duas das últimas três vitórias. Misha Cirkunov também precisava da vitória depois de ver sua invencibilidade no octógono ruir na última apresentação. Glover conseguiu, mas olha…

Cirkunov é conhecido pelo alto nível na luta agarrada, mas estava levando vantagem com boa tranquilidade na troca de golpes em pé no início da luta, muito pela velocidade que abandonou o veterano brasileiro. Quando viu que o negócio ficaria complicado ali, Glover abriu a caixa de ferramentas. Botou o letão-canadense para baixo, pegou as costas, encaixou o mata-leão, montou, passou para a montada pelas costas e desceu o sarrafo no ground and pound até fazer Cirkunov desistir. Muito bem.

Apesar da vitória, Glover deixou mais motivos de preocupação do que de empolgação para a sequência de sua carreira. Do jeito que lutou ontem, periga ser nocauteado por Jimi Manuwa, que não é mais derrubado com tanta facilidade como antes. Corre riscos severos contra Volkan Oezdemir, ainda que o suíço tenha que mostrar mais – mas o que já mostrou é suficiente para capitalizar nas chances que Cirkunov teve. Contra Alexander Gustafsson ou Daniel Cormier, acho que não há a menor chance para o simpaticíssimo mineiro em sua atual fase.

E Cirkunov? O sujeito tem talento de se consolidar no top 10 e até chegar ao top 5, mas corre o risco de repetir Jake Matthews no pesos leve/meio-médio. Cirkunov treina basicamente sozinho em Toronto, com quase nenhum parceiro. Vai jogar talento na lata do lixo se continuar assim. Uma viagem até Montreal para a Tristar Gym deveria ser pensado com carinho. Ou para várias outras academias de ponta nos Estados Unidos.

Preliminares do UFC On FOX 26

Jan Blachowicz, antes tarde do que nunca, finalmente aprendeu a lutar com a cabeça. Depois da boa vitória sobre o prospecto Devin Clark, o polonês mostrou que não é apenas um kickboxer-chutador-de-abdômen e que também joga nas outras áreas. Boa vitória sobre Jared Cannonier, que ainda não conseguiu fechar alguns buracos no grappling.

– Pessoal se amarra em ser enganado por malabaristas. Galore Bofando estreou cheio de movimentos circenses e um nocaute bruto. Aí pegou um lutador mais consolidado e deixou claro que tem buracos demais para fechar aos 35 anos. Chad Laprise até levou um knockdown, mas é muito mais lutador que o congolês. O canadense sobreviveu, reverteu o cenário com uma queda e chegou ao nocaute técnico ainda na primeira etapa.

– Que homem é Nordine Taleb. O francês era um lutador chatíssimo, mas agora resolveu aplicar uns nocautes brutais vez ou outra. Depois de vitimar Erick Silva, ontem foi a vez de Danny Roberts levar uma bica no escutador de bolero em um minuto de luta.

– Falando em Erick Silva, deixem o rapaz em paz. A cada resultado ruim, o capixaba sofre um ataque cruel de xingamentos e críticas totalmente exageradas. Se você achou um dia que ele seria campeão do UFC, você foi vítima do ufanismo que impera nas transmissões da Globo/SporTV/Combate, que faz mais mal do que bem para a audiência. O próprio Erick foi vítima disso, do papo de “fenômeno capixaba” e tal. Jordan Mein é um lutador mais consistente que Erick e tão talentoso quanto o brasileiro. O resultado foi normal. Deixem Erick em paz. Aprendam a filtrar torcidas de análises.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.